Revista Espírita — Ano de 1866
Nono volume da Revue Spirite, redigido por allan-kardec entre janeiro e dezembro de 1866. 83 artigos catalogados em doze fascículos mensais (a tabela mestra em revista-espirita estimava 106 — discrepância corrigida pela contagem real do raw baixado da Kardecpédia). Primeiro ano após o Pentateuco fechado com [[wiki/obras/ceu-e-inferno|O Céu e o Inferno]] (ago/1865), e primeiro ano de preparação direta de [[wiki/obras/genese|A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo]] (jan/1868). Quatro artigos do volume são textos-matriz que entrarão integralmente em capítulos de Gênese: ⭐⭐⭐ “Da revelação” (abr/1866 → cap. I), ⭐⭐⭐ “Introdução ao estudo dos fluidos espirituais” (mar/1866 → cap. XIV), ⭐⭐⭐ “Deus está em toda parte” + “A vista de Deus” (mai/1866 → cap. II), e o mais central de todos: ⭐⭐⭐ “Os tempos são chegados” + “Instruções dos Espíritos sobre a regeneração da humanidade” (out/1866 → cap. XVIII). É o ano em que a doutrina da geracao-nova já anunciada por Mesmer em RE mai/1865 recebe sua formulação programática completa, com cronograma explícito da emigração de Espíritos retardatários e marcas distintivas dos Espíritos novos. O volume também inclui o estudo monográfico em dois artigos sobre maome e o Islamismo (ago + nov/1866) — único caso na Revista de tratamento sistematizado de uma religião não-cristã, com Maomé reconhecido como profeta autêntico, e o caso paradigmático de thomas-martin e Luís XVIII (dez/1866) — mediunidade vidente histórica documentada em arquivos oficiais da polícia geral francesa.
“Não acrediteis, entretanto, no fim do mundo material; a Terra progrediu desde a sua transformação; ela deve continuar progredindo, e não ser destruída. Mas a Humanidade chegou a um de seus períodos de transformação, e a Terra vai elevar-se na hierarquia dos mundos. Não é, pois, o fim do mundo material que se prepara, mas o fim do mundo moral; é o velho mundo, o mundo dos preconceitos, do egoísmo, do orgulho, do fanatismo que se esboroa.” — Espíritos, “Instruções dos Espíritos sobre a regeneração da humanidade” (RE, out/1866).
Dados bibliográficos
- Autor: allan-kardec
- Período de publicação: janeiro a dezembro de 1866 (12 fascículos mensais)
- Total de artigos: 83 (contagem real do raw; tabela mestra em revista-espirita estimava 106 — divergência registrada acima)
- Editora original: Bureaux de la Revue Spirite, Paris
- Página-mãe: revista-espirita — visão de conjunto dos 12 volumes (1858–1869)
- Volume anterior: revista-espirita-1865
- Texto integral: 1866
- Fonte original online: Kardecpédia — Revista Espírita 1866
- Nível na hierarquia de autoridade: 2 — Kardec complementar.
Posição no projeto editorial
1866 é o ano-charneira pós-Pentateuco. Com C&I publicado em ago/1865, a codificação está formalmente completa. Mas Kardec já anunciou na Alocução de reabertura da SPEE de 6/10/1865 (publicada em RE nov/1865) que “os trabalhos que me restam para terminar são consideráveis, devo apressar-me, a fim de estar pronto em tempo oportuno”. Esses trabalhos são: A Gênese (jan/1868), a 2ª edição da Constituição do Espiritismo (1868), a 4ª edição revisada de O Que é o Espiritismo (já em 1865) e o material que se tornará [[wiki/obras/obras-postumas|Obras Póstumas]] (1890). 1866 é o primeiro ano dessa corrida.
Doutrinariamente, o volume articula quatro eixos que estruturam a preparação direta de Gênese:
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Caráter da revelação espírita — “Da revelação” (abr/1866) é texto-matriz integral do cap. I de Gênese. Fixa a teoria das três ordens de reveladores (homens de gênio, profetas/messias, revelação coletiva), o critério da eterna verdade como discernimento do divino, e a distinção entre revelação direta (raríssima, só Espíritos puros) e revelação por médiuns inspirados/auditivos/videntes.
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Cosmologia dos fluidos — “Introdução ao estudo dos fluidos espirituais” (mar/1866) é o tratado mais técnico do volume (10 seções) e texto-matriz do cap. XIV (“Os fluidos”) de Gênese. Articula a tese da unidade material do fluido cósmico universal como princípio único dos corpos ponderáveis e imponderáveis. Fixa o mecanismo da formação do perispírito (condensação fluídica em torno do foco de inteligência) e das aparições (modificação molecular momentânea que torna o fluido visível).
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Onipresença divina — “Deus está em toda parte” + “A vista de Deus” (mai/1866) compõem texto-matriz do cap. II (“Deus”) de Gênese, seções sobre onipresença e visão de Deus. Articulam a hipótese do fluido divino inteligente que penetra o Universo, e a doutrina de que “só pela visão espiritual é que podemos ver os Espíritos e as coisas do mundo imaterial; assim, só a nossa alma pode ter a percepção de Deus”.
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Regeneração da humanidade — pivô doutrinário do volume — ⭐⭐⭐ “Os tempos são chegados” (out/1866) + a comunicação irmã “Instruções dos Espíritos sobre a regeneração da humanidade” (out/1866, médiuns Srs. M e T em sonambulismo extático) compõem texto-matriz integral do cap. XVIII de Gênese. Fixam a tese do fim do mundo moral (não material), o mecanismo da emigração dos Espíritos retardatários (com retorno facultado para os que se corrigem), e as quatro marcas distintivas da nova geração: fé inata, inteligência precoce, intuições espiritualistas, tendência à fraternidade. É a formulação completa da doutrina já preparada por Mesmer em “Imigração de Espíritos superiores para a Terra” (RE mai/1865).
A frente metodológica do volume é dupla:
- Refutação dos dissidentes internos — duas seitas inéditas tentam se formar: a que nega a prece (“Considerações sobre a prece no Espiritismo”, jan/1866) e a do “Espiritismo sem os Espíritos” + “Espiritismo independente” (abr/1866). Kardec articula a defesa da unidade doutrinária pela autoridade do controle universal das comunicações.
- Estudo comparativo do Islamismo — único caso na Revista de tratamento monográfico de uma religião não-cristã (RE ago + nov/1866). Kardec reconhece maome como profeta autêntico, identifica no Alcorão indícios de pluralidade das existências, e critica somente a poligamia como erro pessoal.
Marcos cronológicos
| Mês | Marcos do fascículo |
|---|---|
| Janeiro | ⭐⭐ “As mulheres têm alma?” — manifesto programático sobre a emancipação feminina à luz do Espiritismo: “As almas ou Espíritos não têm sexo. […] o Espiritismo abre a era da emancipação legal da mulher, assim como abre a da igualdade e da fraternidade”. Aplicação social da reencarnação à igualdade jurídica entre os sexos; ⭐⭐ “Considerações sobre a prece no Espiritismo” — refutação da seita dissidente que nega a prece, primeira frente anti-dissidente do volume; ⭐ “Necrologia” — morte do Sr. Didier, livreiro-editor das obras de Kardec (m. 02/12/1865), membro da SPEE desde a fundação em 1858; alocução de Kardec na SPEE em 8/12/1865 (não pronunciada nas exéquias por respeito ao clero católico oficiante); ⭐ “Correspondência - Carta do Sr. Jaubert” — adesão pública do Sr. T. Jaubert, vice-presidente do tribunal de Carcassonne (datada de 12/12/1865); marco institucional comparável à entrada de camille-flammarion (1865); ⭐⭐ “A jovem cataléptica da Suábia” — caso de Luísa B… (16 anos, originária de Bondru, Seine-et-Marne); estudo psicológico pioneiro sobre dupla vista, emancipação da alma durante catalepsia, e fluido perispiritual reconstituindo membros amputados — antecipação da teoria desenvolvida em mar/1866; “Poesias espíritas” — Alfred de Musset (versos psicografados pela Sra. X…, publicados primeiro no Petit Journal de 23/10/1865); “O Espiritismo toma posição na filosofia e nos conhecimentos usuais” — entrada do Espiritismo no Novo Dicionário Universal de Maurice Lachâtre (vinte mil assinantes), com Kardec entre os autores consultados (em ordem alfabética). |
| Fevereiro | ⭐ “O Espiritismo segundo os espíritas” — artigo elogioso do Sr. A. Briquel publicado em La Discussion (jornal de Bruxelas, 11º ano, 25 mil assinantes) em 31/12/1865; “Como ouvimos falar do Espiritismo” — segundo artigo de La Discussion (28/01/1866) anunciando que tratará do Espiritismo “por homens especiais” (espíritas); ⭐⭐ “Curas de obsessões” — caso de Cazères (07/01/1866, jovem de 22 anos curada após internação inútil) + grupo de Marmande (caso do camponês J… com Sr. Dombre, terceiro caso longitudinal na Revista); “O naufrágio do Borysthène”; “Antropofagia”; “A Espineta de Henrique III” — continuação do caso Bach (RE jul/1865); “Os ratos de Équihen”; “Novo e infinito enterro do Espiritismo”; “Os Qüiproquós”; “Notícia bibliográfica”. |
| Março | ⭐⭐⭐ “Introdução ao estudo dos fluidos espirituais” — texto-matriz integral do cap. XIV de Gênese (“Os fluidos”). Tratado em 10 seções: (I) propósito; (II) unidade da matéria — corpos simples como modificações de um fluido único; (III) fluido cósmico universal como princípio dos imponderáveis e ponderáveis; (IV) almas e Espíritos como humanidade desencarnada; (V) defesa da utilidade do perispírito; (VI–VII) perispírito como condensação do fluido cósmico (“o corpo perispiritual e o corpo humano têm sua fonte no mesmo fluido”); articulação Moisés (“limo da terra”) e Paulo (“corpo espiritual” 1Co 15) como antecipações intuitivas; (VIII) aparições como modificação atômica momentânea; (IX) defesa da expressão “semimaterial”; (X) classificação geral dos dois estados do fluido (eterização e materialização); ⭐⭐ “O Espiritismo e a magistratura” — análise sistemática da relação entre Espiritismo e tribunais; adesão pública do Sr. Jaubert amplificada por carta de outro magistrado (não nominado); “Perseguições judiciais contra os espíritas - Cartas de um juiz”; “A lei humana”; “Mediunidade mental” (estudo doutrinário); “Notícias bibliográficas”. |
| Abril | ⭐⭐⭐ “Da revelação” — texto-matriz integral do cap. I de Gênese (“Caráter da revelação espírita”). Fixa a teoria das três ordens de reveladores (homens de gênio, profetas/messias, revelação coletiva); o critério da eterna verdade como discernimento do divino; recusa da revelação direta de Deus como hipótese principal (“Os Espíritos mais próximos de Deus pela perfeição se penetram de seu pensamento e podem transmiti-lo”); identificação dos profetas como médiuns inspirados, auditivos ou videntes; tese conclusiva sobre a revelação espírita coletiva que dispensa o intermediário único; ⭐⭐ “O Espiritismo sem os Espíritos” — refutação da segunda seita dissidente que rejeita as comunicações dos Espíritos (continuidade da rejeição da prece em jan/1866); ⭐⭐ “O Espiritismo independente” — refutação do projeto editorial de um Journal du Spiritisme Indépendant; declaração programática da posição de Kardec: “Fora da caridade não há salvação”, abertura ao Espiritismo cristão, recusa de todo título oficial (“sumo sacerdote, soberano pontífice, papa”); ⭐ “São Carlos Magno no colégio de Chartres” — diálogo entre dois alunos de Filosofia (Srs. Ernest Clément e Gustave Jumentié) na conferência literária do colégio; sinal da penetração do Espiritismo nas instituições escolares; “Uma visão de Paulo I”; “O despertar do senhor de Cosnac”; “Pensamentos Espíritas - Poesia do Sr. Eugêne Nus”; “Carta do Sr. F. Blanchard ao jornal La Liberté” — segunda adesão pública (após Jaubert); “Notícias bibliográficas”. |
| Maio | ⭐⭐⭐ “Deus está em toda parte” — texto-matriz do cap. II de Gênese (“Deus”), seção sobre onipresença. Articula a hipótese do fluido divino inteligente que penetra o Universo, “semelhante ao fluido luminoso, ao fluido calórico, ao fluido elétrico ou quaisquer outros, se eles fossem inteligentes”; rejeição das imagens antropomórficas de Deus (“velho de longas barbas, envolto num manto”); afirmação capital: “estamos nele como ele em nós, segundo a palavra do Cristo”; ⭐⭐⭐ “A vista de Deus” — peça gêmea sobre a impossibilidade da visão direta de Deus pelos órgãos materiais (“só pela visão espiritual é que podemos ver os Espíritos e as coisas do mundo imaterial”); doutrina das imperfeições da alma como véus que ocultam Deus; ⭐ “Uma ressurreição” — caso da Córsega (jovem Savéria e tia ressuscitada por instantes para fazer recomendação); explicação do guia (médium Sr. Morin, SPEE 02/03/1866, Espírito Ebelman): trata-se de mediunidade vidente espontânea induzida pela vontade do Espírito recém-desencarnado, não retorno material à vida; ⭐⭐ “Palestras de além-túmulo - O Padre Laverdet” — comunicação pós-morte (SPEE 05/01/1866, médium Sr. Desliens) do antigo coadjutor do padre Châtel na igreja francesa (cisma anti-romano dos anos 1830); endosso enfático ao Espiritismo: “Permiti-me, caro senhor, agradecer-vos em particular o prazer que experimentei ao estudar os sábios ensinos publicados sob vossos cuidados”; “Necrologia - Morte do Doutor Cailleux”; “Dissertações espíritas”; “Maóme e o Islamismo” (artigo prévio). |
| Junho | ⭐⭐ “Monomania incendiária precoce - Estudo moral” — caso do menino de Lyon (4 anos e meio, filho de operários da Guillotière) com instinto incendiário precoce; único argumento científico para inclinações inatas: a preexistência da alma e a pluralidade das existências; comunicações concordantes de quatro médiuns na SPEE (13/04/1866) confirmam o caso como expiação; ⭐⭐ “Tentativa de assassinato do Imperador da Rússia” — atentado contra o Czar Alexandre II (relatado em Indépendance Belge 30/04/1866); o jovem camponês Joseph Kommissaroff desarma o assassino; comunicação do Espírito Moki (médium Sr. Desliens, Paris 1/05/1866) explica a economia espiritual: “Os principais acontecimentos de sua vida são determinados por sua provação: os detalhes são influenciados por seu livre-arbítrio”; menção precursora ao aviso espírita publicado em Die Gartenlaube (Espírito de Catarina II) três semanas antes; ⭐ “Um sonho instrutivo” — visão do próprio Kardec durante a doença de abr/1866 (24/04/1866): inscrição luminosa sobre a borracha enrolada sob a roda; estudo metodológico sobre interpretação de sonhos; “Visão retrospectiva das várias encarnações de um Espírito”; “Questões e problemas”; “Poesias espíritas”; “Dissertações espíritas”; “O trabalho”; “Notícias bibliográficas”; “La Voce Di Dio” — periódico espírita italiano. |
| Julho | ⭐⭐ “Maomé e o Islamismo” (1º artigo, continua em ago/1866 — ver linha-de-força nº 7); ⭐⭐ “Do projeto de caixa geral de socorro e outras instruções para os espíritas” — manifesto institucional contra a centralização caritativa; estatística sociológica única dos espíritas em quatro categorias (10% de coração, 25% incompletos, 5% levianos, 60% não-confessos); proporção rico/trabalhador por categoria; diretriz: caridade local em pequenos grupos (não centralização administrativa); ⭐ “Estatística da loucura” — relatório quinquenal do Ministro da Agricultura ao Imperador (publicado no Moniteur 16/04/1866); refutação documental da acusação de que o Espiritismo causa loucura (crescimento de alienados em descenso desde 1846, antes mesmo da fundação da SPEE em 1858); “Morte de Joseph Méry”; “Questões e problemas - Identidade dos Espíritos nas comunicações particulares” — método de discernimento; “Qualificação de santo aplicada a certos Espíritos”; “Vista retrospectiva das existências do Espírito”; “Poesia espírita — A prece pelos Espíritos”. |
| Agosto | ⭐⭐ “Maomé e o Islamismo” (2º artigo extenso, baseado em Saint-Hilaire, Mahomet et le Coran, 1865) — biografia detalhada de maome (570–632) até a Hégira em 622: nascimento em Meca, família coraicita, casamento aos 25 anos com Khadidja (15 anos mais velha), primeira visão no Monte Hira aos 40 anos com o anjo Gabriel, perseguições em Meca, fuga para Yathrib (Medina); reconhecimento de Maomé como médium auditivo, extático, sonambúlico autêntico (estados involuntários com síncopes, suor, gemidos); descarte da hipótese epiléptica em favor da explicação espírita; ⭐ “Os profetas do passado” — recensão da obra ultramontana Les Prophètes du Passé do Sr. Barbey d’Aurévilly que exalta Joseph de Maistre e Bonald e propõe que teriam queimado Lutero “para maior glória de Deus”; refutação categórica de Kardec: anátema contra a Inquisição como ortodoxia; tese histórica: as ideias da Reforma estavam em milhares de cabeças (Wicklef, João Huss, Jerônimo de Praga antes de Lutero), queimar Lutero teria sido apenas um crime sem efeito sobre a corrente histórica; ⭐ “Criações fantásticas da imaginação - As visões da Sra. Cantianille” — caso da médium possuída em Auxerre (1865) e o livro do padre Thorey (vigário de Sens) sobre suas pretensas relações com o mundo sobrenatural; análise crítica de Kardec sobre auto-sugestão de matriz cultural católica; “Questões e problemas”; “Variedades - A rainha Vitória e o Espiritismo”; “Poesias espíritas”; “Notícia bibliográfica”. |
| Setembro | ⭐⭐ “Os irmãos Davenport em Bruxelas” — recepção pacífica dos médiuns americanos na Bélgica (sem o tumulto de Paris em set/1865); contraste com a Paris e demonstração do progresso editorial da causa espírita; ⭐⭐ “Crônica de Bruxelas” — longa transcrição da crônica do Sr. Bertram (pseudônimo de Eugène Landois) no Office de Publicité (jornal belga de 25 mil exemplares, 8 e 22/07/1866); duas cartas de leitores (H. Vanderyst de Antuérpia, conversão por mesa falante; segunda carta sem assinatura) que respondem a Bertram defendendo o Espiritismo; resposta de Kardec em tom moderado, sem agressividade; ⭐⭐ “O Espiritismo apenas pede que seja conhecido” — análise do reflux da hostilidade; constatação editorial: “a Doutrina Espírita, que nada tem de oculto, que é clara, precisa, sem alegorias nem ambiguidades”; menção da obra J. B. Roustaing, Os Quatro Evangelhos (publicada na Livraria Central, 1866), como “adepto esclarecido do Espiritismo”; “Extraído do progresso colonial da ilha Maurícia”; “Os fenômenos apócrifos”; “Cabelos embranquecidos sob a impressão de um sonho”; “Variedades”. |
| Outubro | ⭐⭐⭐ “Os tempos são chegados” — artigo programático CENTRAL do volume e texto-matriz integral do cap. XVIII de Gênese. Fixa a tese da regeneração: “Não é o fim do mundo material que se prepara, mas o fim do mundo moral; é o velho mundo, o mundo dos preconceitos, do egoísmo, do orgulho, do fanatismo que se esboroa”; o duplo movimento (gradual + brusco) do progresso humano; a fé inabalável que pode olhar a razão face a face; o critério da divisa “Fora da caridade não há salvação”; o anúncio da arte espírita futura (ver linha-de-força nº 4); ⭐⭐⭐ “Instruções dos Espíritos sobre a regeneração da humanidade” — comunicação irmã (Paris, abr/1866, médiuns Srs. M e T em sonambulismo extático sem memória ao despertar); explicita o mecanismo da emigração dos Espíritos retardatários (“a maioria deles, desconhecendo a voz de Deus, persistirá em sua cegueira, e sua resistência marcará o fim de seu reino por lutas terríveis”); fixa as quatro marcas distintivas da nova geração; afirma a possibilidade de retorno facultado aos retardatários que se corrigirem; anuncia o aumento dos suicídios e da loucura como sinais finais; ⭐ “O zuavo curador do campo de Châlons” — caso de mediunidade curadora militar (continuidade de “Médiuns curadores” RE jan/1864). |
| Novembro | ⭐⭐ “Maóme e o Islamismo” (3º artigo, continuação) — período guerreiro de Maomé (623–632) em Medina, vitórias militares, conquista de Meca, peregrinação do adeus; análise do Alcorão (suratas selecionadas com tradução de Savary): unidade de Deus, recusa da Trindade lida como politeísmo, indícios da pluralidade das existências (“voltareis”), recusa da fatalidade absoluta, máximas de caridade e tolerância (“Não façais violência aos homens por causa de sua fé”; “Os Cristãos serão julgados segundo o Evangelho”); avaliação histórica: Maomé é profeta autêntico apesar dos erros pessoais (poligamia pós-Khadidja); ⭐ “Sonambulismo mediúnico espontâneo”; ⭐⭐ “Considerações sobre a propagação da mediunidade curadora” — sistematização institucional após casos de zuavo (out/1866) e antecipando Hohenlohe (dez/1866); ⭐ “Subscrição em favor dos inundados” — calamidade nas bacias do Loire e do Rhône em 1866; aplicação prática da caridade espírita coletiva. |
| Dezembro | ⭐⭐⭐ “O trabalhador Thomas Martin e Luís XVIII” — caso paradigmático do camponês Thomas-Ignace Martin de Gallardon (Beauce); aparições do Anjo Rafael entre 15/01 e abr/1816, com missão profética junto ao rei (revelação de tentativa de assassinato e advertências morais); trajeto institucional documentado em arquivos oficiais (cura → bispo de Versalhes → Conde de Breteuil/Prefeito de Chartres → ministro Descazes → hospício de Charenton → Dr. Pinel → arcebispo de Reims → audiência com Luís XVIII em 2/abr/1816); refutação de Kardec às hipóteses de alucinação (descartada pelos exames oficiais) e efeitos ópticos (impossível em campo aberto + porão + igreja); fixação como médium vidente, auditivo e escrevente; ⭐ “O príncipe de Hohenlohe, médium curador” — caso histórico católico de mediunidade curadora não-reconhecida; ⭐ “A União Espírita Bordelesa” — formação institucional; “Variedades”; “Notícias bibliográficas”; “No prelo”; ⭐ “Necrologia - Sra. Dozon - Sr. Fournier - Sr. D’Ambel” — três membros da SPEE perdidos no ano (a Sra. Dozon era viúva do Sr. Dozon falecido em ago/1865, citado em RE 1865); “Aviso”. |
Linhas-de-força do volume
1. ⭐⭐⭐ “Os tempos são chegados” (outubro/1866) — pivô doutrinário e texto-matriz de Gênese cap. XVIII
O artigo de out/1866 é o texto programático central do volume e o lugar canônico da doutrina da geração nova. Articula em prosa madura a tese já preparada por Mesmer em “Imigração de Espíritos superiores para a Terra” (RE mai/1865) e implícita em “O que ensina o Espiritismo” (RE ago/1865).
A tese central é a do fim do mundo moral (não material):
“Não acrediteis, entretanto, no fim do mundo material; a Terra progrediu desde a sua transformação; ela deve continuar progredindo, e não ser destruída. Mas a Humanidade chegou a um de seus períodos de transformação, e a Terra vai elevar-se na hierarquia dos mundos. Não é, pois, o fim do mundo material que se prepara, mas o fim do mundo moral; é o velho mundo, o mundo dos preconceitos, do egoísmo, do orgulho, do fanatismo que se esboroa. Cada dia leva consigo alguns fragmentos.”
O artigo articula três argumentos que estruturam a doutrina:
a) O duplo movimento do progresso humano. O progresso geral da humanidade ocorre de duas maneiras: “uma gradual, lenta, imperceptível […] a outra, por um movimento relativamente brusco, rápido, semelhante ao de uma torrente rompendo seus diques, que lhe faz transpor em alguns anos o espaço que teria levado séculos a percorrer. É então um cataclismo moral que em poucos instantes devora as instituições do passado e ao qual sucede uma nova ordem de coisas”. Os tempos atuais são desse segundo tipo.
b) A fé inabalável que pode olhar a razão face a face. O critério da nova fase: “Não há fé inabalável senão a que pode olhar a razão face a face em todas as idades da Humanidade”. Refutação da fé cega que aniquila a razão e da obediência passiva que embrutece.
c) O método da fraternidade universal. “Fora da caridade não há salvação” — divisa programática que substitui “Fora do Espiritismo não há salvação” (que Kardec recusa explicitamente). O Espiritismo é terreno neutro de aproximação entre todas as crenças sinceras.
A comunicação irmã “Instruções dos Espíritos sobre a regeneração da humanidade” (Paris, abr/1866, médiuns Srs. M e T em sonambulismo extático espontâneo, sem memória ao despertar — Kardec esclarece: “Coordenamos metodicamente as ideias […] Os pensamentos foram reproduzidos com muita exatidão”) explicita o mecanismo da transformação:
- Não é cataclismo material: “Tudo se passará, pois, exteriormente, como de hábito, com uma única diferença, mas essa diferença é capital: Uma parte dos Espíritos que aí encarnavam não mais encarnarão. Numa criança que nascer, em vez de um Espírito atrasado e votado ao mal que ali encarnaria, será um Espírito mais adiantado e dedicado ao bem.”
- Emigração não é extermínio: “muitos aqui voltarão, porque muitos cederam ao arrastamento das circunstâncias e do exemplo; neles a casca era pior que o cerne”. Só os “Espíritos fundamentalmente rebeldes” são exilados em mundos inferiores.
- Quatro marcas distintivas dos Espíritos novos: (1) inteligência precoce; (2) fé inata não cega, “raciocinada, que esclarece e fortalece, que os une e os confunde num comum sentimento de amor a Deus e ao próximo”; (3) intuições espiritualistas; (4) tendência à fraternidade.
- Sinais antecedentes: aumento dos suicídios (até em crianças) e da loucura como agonia da geração que se extingue.
Anuncia também a arte espírita futura: “Já vos foi dito que haveria um dia uma arte espírita, como houve a arte pagã e a arte cristã”.
Este texto entra integralmente no cap. XVIII de Gênese (1868) sob o mesmo título.
2. ⭐⭐⭐ “Da revelação” (abril/1866) — texto-matriz de Gênese cap. I
O artigo de abr/1866 é texto-matriz integral do cap. I de Gênese (“Caráter da revelação espírita”). Articula em prosa sistematizada a teoria das três ordens de reveladores e o critério da revelação coletiva.
Tese 1 — Toda revelação é didática. “Revelar é dar a conhecer uma coisa desconhecida; é ensinar a alguém aquilo que ele não sabe.” O professor é revelador de segunda ordem; o homem de gênio é revelador primitivo; o profeta/messias é revelador divino. As três categorias são contínuas, não opostas.
Tese 2 — Critério da eterna verdade. “O caráter essencial da revelação divina é o da eterna verdade. Toda revelação manchada de erro ou sujeita a mudança não pode emanar de Deus, porque Deus não pode enganar conscientemente nem enganar-se.” É isso que distingue o Decálogo (perene) das outras leis mosaicas (transitórias e abolidas pelo Cristo). É a chave hermenêutica para discernir o cerne do invólucro em qualquer tradição.
Tese 3 — Os profetas são médiuns inspirados, auditivos ou videntes. “As instruções podem ser transmitidas por diversos meios: pela inspiração pura e simples, pela audição da palavra, pela visão dos Espíritos instrutores, nas visões e aparições, seja no sonho, seja no estado de vigília, como há muitos exemplos na Bíblia, no Evangelho e nos livros sagrados de todos os povos.” É a explicação espírita do fenômeno profético, sem necessidade de revelação direta de Deus (que é raríssima e reservada aos Espíritos puros).
Tese 4 — A revelação espírita coletiva. Aqui está a inovação metodológica mais radical: “Em sua sabedoria, Deus não quis que assim fosse. Ele quis que o ensino fosse dado pelos próprios Espíritos, e não pelos encarnados, a fim de convencer de sua existência e que ocorresse simultaneamente em toda a Terra”. A revelação espírita não passa por um único iluminado (Moisés, Jesus, Maomé) cuja palavra precisaria ser confirmada pelos séculos. Passa por milhares de médiuns simultaneamente, cuja concordância é a verificação imediata. Dispensa a confirmação histórica e o ato de fé pessoal em um intermediário único.
Tese 5 — A boa nova. O artigo encerra com uma das prosopopéias mais belas de Kardec: “Nós existimos, portanto o nada não existe; observai o que somos e vede o que sereis […] A vida terrena era tudo para vós, porque nada víeis além; nós vimos dizer-vos, mostrando a vida espiritual: A vida terrena nada é. Vossa vista parava no túmulo; nós vos mostramos além um horizonte esplêndido”.
Texto-matriz que entra integralmente no cap. I de Gênese.
3. ⭐⭐⭐ “Introdução ao estudo dos fluidos espirituais” (março/1866) — texto-matriz de Gênese cap. XIV
O tratado mais técnico do volume (10 seções romanas) é texto-matriz do cap. XIV de Gênese (“Os fluidos”). É o estudo cosmológico fundacional que estabelece a base material da metafísica espírita.
I. Propósito: organizar em corpo metódico o material disperso. Princípio kardequiano: “Os Espíritos não nos vêm trazer esta ciência, como nenhuma outra, já pronta. Eles nos põem no caminho, fornecem-nos os materiais e a nós cabe estudá-los”.
II. Unidade da matéria. A química mostra que todos os corpos da Natureza são compostos de elementos simples combinados em diferentes proporções. Apenas o homem reconstitui o mineral; a vida é prerrogativa de Deus.
III. Tese central: o fluido cósmico universal como substrato único — “os corpos reputados simples não passam de modificações, de transformações de um elemento único, princípio universal designado sob os nomes de éter, fluido cósmico ou fluido universal”. O calórico, a luz, a eletricidade, o magnetismo são variantes desse fluido único.
IV. Almas e Espíritos como humanidade desencarnada. “O Espiritismo nos ensina que os Espíritos são as almas dos homens que viveram na Terra”; rejeição da concepção dos anjos como criaturas privilegiadas e dos demônios como predestinados ao mal.
V. Defesa da utilidade do perispírito (contra a crítica que o considera supérfluo).
VI–VII. O perispírito como traço de união entre o mundo espiritual e o material: “é matéria, embora num completo estado de eterização”; é da mesma natureza e da mesma origem que a mais grosseira matéria. Articulação com Moisés (“Deus formou o corpo do homem do limo da terra”) e Paulo (“renascemos com um corpo espiritual”*, 1Co 15) como antecipações intuitivas da doutrina.
VIII. As aparições explicadas como modificação atômica do fluido perispiritual que o torna momentaneamente visível ou tangível. “De qualquer maneira pela qual se opere a modificação atômica do fluido, não há coesão como nos corpos materiais; a aparência se forma e se dissipa instantaneamente”. Comparação com vapor de água que se torna visível por condensação.
IX. Defesa da expressão “semimaterial” para o perispírito (contra a crítica que vê inconsistência lógica): “O perispírito é matéria […]; mas ele não tem as propriedades da matéria tangível, tal como se concebe vulgarmente”.
X. Classificação dos dois estados do fluido cósmico: eterização (estado normal primitivo, imponderabilidade) e materialização (consecutivo, ponderabilidade). Os fluidos imponderáveis são o termo médio.
Tratado fundacional que entra integralmente em Gênese cap. XIV (1868), enriquecendo radicalmente os artigos curtos sobre fluidos dispersos nos volumes anteriores da Revista.
4. ⭐⭐⭐ “Deus está em toda parte” + “A vista de Deus” (maio/1866) — texto-matriz de Gênese cap. II
Par doutrinário programático sobre Deus, texto-matriz do cap. II de Gênese, seções sobre onipresença e visão de Deus.
“Deus está em toda parte” articula a hipótese do fluido divino inteligente: assim como o fluido perispiritual é o veículo do pensamento dos Espíritos, podemos representar o pensamento de Deus “sob a forma concreta de um fluido inteligente, enchendo o Universo infinito, penetrando todas as partes da criação”. Não é doutrina positiva, é comparação pedagógica “própria a dar uma ideia mais justa de Deus que os quadros que o representam sob a figura de um velho de longas barbas, envolto num manto”. Permite compreender como Deus pode estar simultaneamente em toda parte e ler os pensamentos íntimos: “estamos nele como ele em nós, segundo a palavra do Cristo”.
A consequência prática é radical: “Para serem ouvidas por ele, nossas preces não necessitam transpor o espaço, nem serem ditas com voz retumbante, porque, incessantemente penetrados por ele, nossos pensamentos nele repercutem”.
“A vista de Deus” complementa: a impossibilidade da visão direta de Deus pelos órgãos materiais (“os órgãos materiais têm percepções limitadas”); doutrina das imperfeições da alma como véus que ocultam Deus (“As imperfeições da alma são como véus que obscurecem sua visão; cada imperfeição de que se desfaz é um véu a menos”); só os Espíritos da mais alta ordem (alma de escol em missão, não em expiação) podem em estado extático ter intuição direta da Divindade.
Texto-matriz que entra em Gênese cap. II (1868).
5. ⭐⭐ Maomé e o Islamismo — único estudo monográfico de uma religião não-cristã na Revista
Os dois artigos extensos sobre Maomé (RE ago/1866 + nov/1866 — 2º artigo), baseados na obra recente de Barthélemy Saint-Hilaire (Mahomet et le Coran, 1865) e nos estudos orientalistas de Caussin de Perceval, W. Muir, G. Weil e Sprenger, constituem o único caso na Revista de tratamento sistemático de uma religião não-cristã. Tese editorial:
“De todas as religiões, o Islamismo é a que, à primeira vista, parece encerrar maiores obstáculos a essa aproximação. Deste ponto de vista, como se vê, este assunto não poderia ser indiferente aos espíritas, e é esta a razão pela qual julgamos dever tratá-lo aqui.”
Reconhecimento de Maomé como profeta autêntico. Apesar do “lado legendário” e dos “contos populares”, Kardec recusa as caricaturas anticristãs e estabelece um juízo histórico-espírita equilibrado. Maomé é médium auditivo, extático, sonambúlico — seus estados não eram epilepsia (como pensava a crítica racionalista) mas fenômenos espíritas (síncopes, suor, gemidos, comunicações em linguagem inspirada que não recordava ao despertar). Kardec articula o paralelo com casos contemporâneos comparáveis.
Reconhecimento da unidade de Deus. “Sua religião […] fundou o culto da unidade de Deus sobre as ruínas da idolatria”. O Islamismo é derivação cristã que reformou um povo bárbaro pela rejeição radical do politeísmo. A recusa muçulmana da Trindade e da divindade de Cristo é entendida como mal-entendido sobre a leitura cristã, não como rejeição de Jesus (que Maomé reconhece como profeta e Verbo de Deus).
Indícios da pluralidade das existências no Alcorão. Citação da Surata XII e VII: “Que esperança temos de voltar à Terra para nos corrigirmos?” — o vocábulo “voltar” implica preexistência. Kardec conclui: “a ideia de reviver na Terra entrou no pensamento de Maomé”.
Crítica à poligamia como erro pessoal. “Foi o seu mais grave erro, porque foi uma barreira que ele interpôs entre o Islamismo e o mundo civilizado”. Mas Kardec relativiza: regulamentando a poligamia em 4 esposas (em vez das 10 usuais), Maomé conteve abusos mais graves num povo de costumes desregrados.
Refutação da tese da fatalidade absoluta. Os muçulmanos teriam interpretado mal a doutrina da submissão à vontade de Deus. “Eles não compreendem que tal submissão não exclui o exercício das faculdades do homem, e lhes falta como corretivo a máxima: ‘Ajuda-te, e o céu te ajudará’“.
Citação extensa do Alcorão (tradução de Savary). Kardec cita 30+ versículos selecionados que mostram a profundidade da piedade muçulmana, máximas de caridade (“Não façais violência aos homens por causa de sua fé”; “Os Cristãos serão julgados segundo o Evangelho”) e a equivalência providencial com a tradição hebraico-cristã (“Não duvides de encontrar no céu o guia dos israelitas”).
Marco histórico do volume: a hierarquia kardequiana de autoridade pode acomodar o Islamismo como derivação cristã legítima, sem comprometer o primado do Pentateuco.
6. ⭐⭐ Frente anti-dissidente — duas seitas refutadas em três artigos
1866 é o ano de maior intensidade da defesa institucional da unidade doutrinária. Em três artigos sucessivos, Kardec refuta duas tentativas dissidentes:
a) “Considerações sobre a prece no Espiritismo” (jan/1866) — refuta a seita que nega a prece sob argumento racionalista: “Deus estabeleceu leis eternas, às quais todos os seres estão submetidos; nada podemos pedir-lhe e não temos que lhe agradecer nenhum favor especial, portanto, é inútil orar.” Argumento de Kardec: a prece não é apenas pedido, é adoração, identificação fluídica, e tem eficácia material constatada pela experiência (cura, magnetização espiritual). “Tirar a prece é privar o homem de seu mais poderoso suporte moral na adversidade.”
b) “O Espiritismo sem os Espíritos” (abr/1866) — refuta a segunda seita que prega “Nada de comunicações dos Espíritos”. Argumento da seita: os Espíritos só repetem banalidades morais, é tempo de o homem submeter as coisas ao seu próprio julgamento. Refutação de Kardec: o Espiritismo é o ensino dos Espíritos — sem eles, não há Espiritismo. Repelir as comunicações é ingratidão metafísica com os pais e amigos que nos vêm consolar. Declaração programática: “O Espiritismo tende para a reforma da humanidade pela caridade. Não é, pois, de admirar que os Espíritos preguem a caridade sem cessar; eles a pregarão ainda por tanto tempo quanto for necessário”.
c) “O Espiritismo independente” (abr/1866) — refuta o projeto editorial de um Journal du Spiritisme Indépendant. Tese: o Espiritismo já é independente, pois ninguém é obrigado a aceitar as instruções de Kardec ou de qualquer outro. Quem nega que há autoridade está apenas tentando impor a si mesmo como nova autoridade. Kardec recusa explicitamente todo título oficial (“sumo sacerdote, soberano pontífice, mesmo papa”) e reafirma a divisa: “Fora da caridade não há salvação”.
Continuidade direta da política institucional pós-Davenport e pós-Alocução de 6/10/1865 (RE 1865), preparando o terreno para a Constituição do Espiritismo que será publicada em 1868.
7. ⭐⭐ “As mulheres têm alma?” (janeiro/1866) — manifesto programático sobre emancipação feminina
Tema raro na codificação. Kardec articula a aplicação social da reencarnação à igualdade jurídica entre os sexos. Tese central:
“As almas ou Espíritos não têm sexo. As afeições que os unem nada têm de carnal e, por isto mesmo, são mais duráveis.”
“É com o mesmo objetivo que os Espíritos se encarnam nos diferentes sexos. Aquele que foi homem poderá renascer mulher, e aquele que foi mulher poderá renascer homem, a fim de realizar os deveres de cada uma dessas posições, e de submeter-se às provas respectivas.”
A consequência política é radical: “a doutrina materialista coloca a mulher numa inferioridade natural, da qual só é elevada pela boa vontade do homem”. “Com a doutrina espírita, a igualdade da mulher não é mais uma simples teoria especulativa; não é mais uma concessão da força à fraqueza, mas é um direito alicerçado nas próprias leis da natureza. Dando a conhecer estas leis, o Espiritismo abre a era da emancipação legal da mulher, assim como abre a da igualdade e da fraternidade.”
Marco histórico: primeira formulação programática espírita da emancipação feminina como consequência direta da reencarnação. Antecipa em mais de um século a leitura espírita feminista contemporânea.
8. ⭐⭐ Adesão pública dos magistrados — Sr. jaubert e Sr. F. Blanchard
Dois marcos institucionais consecutivos:
a) Sr. T. Jaubert (vice-presidente do tribunal de Carcassonne) publica carta circulada por Kardec em RE jan/1866 (datada de 12/12/1865) e amplificada por nova adesão em RE mar/1866 (“O Espiritismo e a magistratura”). É o primeiro magistrado de alto escalão a se declarar publicamente espírita. Carta de Jaubert celebra: “Não quero deixar morrer o ano de 1865 sem lhe dar graça por todo o bem que ele fez ao Espiritismo”; reconhece [[wiki/obras/ceu-e-inferno|O Céu e o Inferno]] como obra grande nas concepções e “germe da teologia do futuro”.
b) Sr. F. Blanchard publica carta de adesão no jornal La Liberté, transcrita em RE abr/1866. Segunda adesão pública de figura institucional notável.
Marco comparável à entrada de camille-flammarion na SPEE em 1865 (após resenha favorável em RE out/1864). É a infiltração do Espiritismo nas profissões liberais e nas instituições oficiais que anuncia a fase da regeneração descrita em out/1866.
9. ⭐⭐ “Do projeto de caixa geral de socorro” (julho/1866) — manifesto institucional anti-centralização caritativa
Manifesto institucional contra a centralização caritativa. Único levantamento estatístico explícito dos espíritas na Revista:
| Categoria | % | % rico/trabalhador |
|---|---|---|
| 1ª — Espíritas completos, de coração e devotamento | 10% | 5/95 |
| 2ª — Espíritas incompletos (lado científico > moral) | 25% | 70/30 |
| 3ª — Espíritas levianos (só fenômenos) | 5% | 80/20 |
| 4ª — Espíritas não-confessos ou ocultos | 60% | 99/1 |
A proporção inversa rico/pobre por categoria revela que os pobres são os mais sinceros adeptos morais. Diretriz: “os aflitos acham no Espiritismo uma imensa consolação que os ajuda a suportar o fardo das misérias da vida; dá-lhes a razão dessas misérias e a certeza de uma compensação. Assim, não nos surpreende que, tirando mais proveito do benefício, eles o apreciem mais”.
Tese editorial: caridade espírita é local, em pequenos grupos, com controle direto das necessidades. Nunca centralizada num “ministério” administrativo. O Espiritismo não pode dar a impressão de sociedade exclusiva que pergunta ao necessitado “Sois dos nossos?” — a divisa “Fora da caridade não há salvação” exige caridade indistinta.
10. ⭐⭐ “O trabalhador Thomas Martin e Luís XVIII” (dezembro/1866) — mediunidade vidente histórica documentada
Caso paradigmático: Thomas-Ignace Martin de Gallardon (1783–1834), camponês iletrado da Beauce. Aparições do Anjo Rafael entre 15/jan/1816 e abr/1816, com missão profética junto ao rei Luís XVIII (revelação de tentativa de assassinato e advertências morais). Trajeto institucional documentado em arquivos oficiais da polícia geral francesa: cura de Gallardon → bispo de Versalhes → Conde de Breteuil (Prefeito de Chartres) → ministro Descazes → hospício de Charenton → exame do Dr. Pinel (alienista célebre, cuja conclusão foi “simples conjectura de possibilidade de alucinação” — não loucura) → arcebispo de Reims (depois cardeal de Périgord) → audiência com Luís XVIII em 2/abr/1816.
A análise de Kardec é clínica: descarte da hipótese da loucura (relatórios oficiais não a confirmam); descarte dos efeitos ópticos como explicação racionalista (impossível em campo aberto + porão + igreja + escada do hotel + Charenton — o sujeito viu aparições em condições materialmente incompatíveis com qualquer aparelho fraudulento); fixação como caso de médium vidente, auditivo e escrevente.
A prova material está nas revelações: o conhecimento prévio das pessoas que Martin encontraria no dia seguinte (anunciado pelo Anjo antes do encontro real), a comunicação em inglês traduzida sem que Martin soubesse a língua, o fato de que Luís XVIII reconheceu as revelações como autênticas. Não é alucinação subjetiva, é mediunidade vidente com prova externa de identidade.
Caso paralelo estruturalmente ao Padre Dégenettes (RE ago/1865) e à Maria d’Agreda (RE nov/1860). Material que reforça a frente anti-eclesiástica e a recusa do maravilhoso/sobrenatural como categoria interpretativa.
A SPEE em 1866 — 9º ano social, doença de Kardec, três exéquias
No 9º ano social, a SPEE consolida a forma fixada em 1862:
- Sede definitiva na rue Sainte-Anne, 59.
- Reabertura do 9º ano social em 1/abr/1866 (sem a Alocução-monumento de 6/10/1865 — Kardec entra agora num ritmo mais sóbrio).
- Doença de Kardec em abril/1866 — período de “sonolência e absorção quase contínuas” mencionado no artigo “Um sonho instrutivo” (RE jun/1866); inclui a visão simbólica da borracha enrolada sob a roda (24/04/1866).
- Três exéquias institucionais: Sr. Didier (livreiro-editor das obras de Kardec, m. 02/12/1865 — alocução de Kardec na SPEE em 8/12/1865, registrada em RE jan/1866); Sra. Dozon, Sr. Fournier, Sr. D’Ambel (registrados em RE dez/1866). A Sra. Dozon era viúva do Sr. Dozon falecido em ago/1865 (RE 1865).
- Continuidade da rede em Lyon, Bordeaux (formação da União Espírita Bordelesa — RE dez/1866), Bruxelas (recepção pacífica dos Davenport — RE set/1866), Madagascar (caso Ramanenjana referência), Italia (La Voce Di Dio, periódico citado em RE jun/1866), Brasil.
- Subscrição em favor dos inundados (RE nov/1866) — calamidade de 1866 nas bacias do Loire e do Rhône.
- Inserção do Espiritismo no Novo Dicionário Universal de Maurice Lachâtre (com Kardec entre os autores consultados — RE jan/1866).
Comunicantes recorrentes
- jesus — referência moral constante; tema central via “Os tempos são chegados” (citação evangélica do “fim do mundo” reinterpretada).
- São Luís — guia e presidente espiritual da SPEE.
- Espírito de Verdade — referenciado nas instruções de “Os tempos são chegados”.
- Mesmer — continuação das comunicações sobre imigração de Espíritos superiores (RE 1865) implicada na peça de out/1866.
- Padre Laverdet — comunicação pós-morte de RE mai/1866 (médium Sr. Desliens, SPEE 05/01/1866); antigo coadjutor do padre Châtel na igreja francesa; endosso explícito ao Espiritismo.
- Anjo Rafael — aparição arquetípica do caso Thomas Martin (revelado por nome ao próprio Martin em 10/03/1816).
- Charles-Emmanuel Jean — Espírito do pai do médium em “Pai descuidado com os filhos” (RE mai/1866).
- Ebelman — guia que explica o caso “Uma ressurreição” (RE mai/1866, médium Sr. Morin).
- Moki — Espírito que dá explicação canônica para o atentado contra o Czar Alexandre II (RE jun/1866, médium Sr. Desliens).
- Catarina II da Rússia — anúncio mediúnico do atentado contra Alexandre II três semanas antes, publicado em Die Gartenlaube (referido em RE jun/1866).
- Marie G… — avó do médium que pede a fundação de uma caixa geral de socorro (refutada por Kardec em RE jul/1866).
- Padre Châtel — fundador da igreja francesa (cisma anti-romano dos anos 1830); referido em RE mai/1866 pelo Espírito do Padre Laverdet.
Conceitos tratados
- Aprofundados:
- geracao-nova (out/1866 — peça-mãe canônica)
- fluidos (mar/1866 — texto-matriz integral)
- fluido-cosmico-universal (mar/1866 — texto-matriz integral)
- perispirito (mar/1866 — formação fluídica explicitada)
- maravilhoso-e-sobrenatural (Thomas Martin dez/1866; recusa do milagre como prova)
- identidade-dos-espiritos (RE abr/1866 + Bach jul/1866 + Thomas Martin dez/1866)
- discernimento-dos-espiritos (Da revelação abr/1866; controle universal)
- mediunidade-de-cura (zuavo out + Hohenlohe dez + Considerações nov/1866)
- obsessao (Cazères + Marmande, fev/1866)
- Cosmologia e ciência:
- pluralidade-dos-mundos-habitados (Os tempos são chegados — Terra elevando-se na hierarquia)
- Moral e prática:
- caridade (Espiritismo independente abr/1866; subscrição inundados nov/1866)
- prece (Considerações jan/1866 — refutação da seita anti-prece)
- livre-arbitrio (Tentativa de assassinato Czar jun/1866 — articulação livre-arbítrio/providência)
- Vida futura e regeneração:
- penas-e-gozos-futuros (continuidade pós-C&I)
- reencarnacao (Mulheres têm alma jan/1866 — aplicação à igualdade dos sexos)
- História da doutrina:
- hierarquia-de-autoridade (Maomé como derivação cristã ago + nov/1866)
Personalidades citadas
- allan-kardec — diretor; doença em abr/1866; alocução nas exéquias do Sr. Didier (8/12/1865, RE jan/1866).
- jesus — tema central; referência constante.
- maome — Maomé / Mohammed (570–632); profeta autêntico; estudo monográfico em ago + nov/1866.
- thomas-martin — Thomas-Ignace Martin de Gallardon (1783–1834); caso vidente histórico em dez/1866.
- davenport-irmaos — Ira & William Davenport; recepção pacífica em Bruxelas (set/1866).
- jaubert — vice-presidente do tribunal de Carcassonne; adesão pública em jan + mar/1866.
- camille-flammarion — colaborador desde 1865; presente nas exéquias do Sr. Didier (1865).
- Sr. Didier — livreiro-editor das obras de Kardec; m. 02/12/1865; membro fundador da SPEE (1858); alocução em RE jan/1866.
- Padre Laverdet — antigo coadjutor do padre Châtel na igreja francesa; comunicação pós-morte em RE mai/1866.
- Padre Châtel — fundador da igreja francesa (cisma anti-romano dos anos 1830); referido pelo padre Laverdet em RE mai/1866.
- Sr. Dombre — relator da terceira cura de obsedada em Marmande (RE fev/1866); membro honorário da SPEE desde out/1862; já citado em RE 1865 (caso Valentine Laurent).
- Sr. F. Blanchard — autor de carta-adesão em La Liberté, transcrita em RE abr/1866.
- Sr. A. Briquel — autor do artigo “O Espiritismo segundo os espíritas” em La Discussion de Bruxelas (RE fev/1866).
- Sr. Bertram (pseud. de Eugène Landois) — cronista do Office de Publicité de Bruxelas; análise da crise Davenport em jul/1866; principal organizador da creche de Saint-Josse-Tennoode.
- H. Vanderyst — adepto de Antuérpia; carta a Bertram publicada em RE set/1866.
- Joseph Kommissaroff — camponês russo que desarmou o assassino do Czar Alexandre II (RE jun/1866); enobrecido pelo Imperador.
- Czar Alexandre II — alvo do atentado de abril de 1866 (RE jun/1866).
- Sra. Cantianille B… — médium presa em “possessão” católica em Auxerre (1865); livro do padre Thorey analisado em RE ago/1866.
- Padre Thorey — vigário da catedral de Sens; autor de Relações maravilhosas da Sra. Cantianille B… com o mundo sobrenatural (RE ago/1866).
- Barbey d’Aurévilly — autor ultramontano de Les Prophètes du Passé (refutado em RE ago/1866).
- Théophile Gautier — Spirite continuação da análise iniciada em RE 1865 dez (mencionada em RE jan + fev/1866).
- Alfred de Musset — Espírito autor de versos psicografados pela Sra. X… (RE jan/1866).
- Maurice Lachâtre — autor do Novo Dicionário Universal que inclui o Espiritismo (RE jan/1866).
- N. G. Bach — bisneto de Sebastian Bach; caso da espineta de Henrique III continuado em “A Espineta de Henrique III” (RE fev/1866).
- J. B. Roustaing — Os Quatro Evangelhos (1866) — primeira menção como “adepto esclarecido do Espiritismo” em RE set/1866 (sem ainda análise crítica das divergências doutrinárias que emergirão depois).
- Luís XVIII — rei da França que recebeu Thomas Martin em 2/abr/1816 (RE dez/1866).
- Príncipe de Hohenlohe — caso histórico católico de mediunidade curadora (RE dez/1866).
- Sr. André — tenente da polícia incumbido de vigiar Thomas Martin em Paris (RE dez/1866).
- Dr. Pinel — alienista célebre que examinou Thomas Martin em 1816 (RE dez/1866).
- Saint-Hilaire (Barthélemy Saint-Hilaire) — autor de Mahomet et le Coran (1865); referência principal do estudo de Kardec sobre Maomé (RE ago + nov/1866).
- Sra. Delanne — médium recorrente, presente como médium da comunicação do padre Dégenettes em RE 1865.
- Sra. R… — espírita presente nas exéquias do Sr. Didier (RE jan/1866).
- Sra. X… — médium psicográfica dos versos atribuídos a Alfred de Musset (RE jan/1866).
- Sr. Morin — médium da explicação sobre “Uma ressurreição” (RE mai/1866).
- Sr. Desliens — médium da comunicação do padre Laverdet (RE mai/1866) e de Moki (RE jun/1866).
- Sr. Br… — médium na resposta sobre o menino incendiário (RE jun/1866).
- Senhorita Lat… — médium na segunda resposta sobre o menino incendiário (RE jun/1866).
- Srs. M e T — médiuns em sonambulismo extático das “Instruções dos Espíritos sobre a regeneração da humanidade” (RE out/1866).
- Sra. Dozon, Sr. Fournier, Sr. D’Ambel — três membros da SPEE falecidos no ano (RE dez/1866).
Divergências
Nenhuma com o Pentateuco. A Revista é redigida pelo próprio codificador (nível 2 da hierarquia de autoridade). Pontos a registrar sem flag de divergência:
- Recusa da seita “anti-prece” (RE jan/1866): política editorial interna, continuidade da defesa institucional pós-Davenport (RE 1865).
- Recusa da seita “Espiritismo sem os Espíritos” (RE abr/1866): política editorial interna; tese de Kardec é que rejeitar as comunicações é solapar a base da própria doutrina.
- Recusa do projeto “Espiritismo independente” (RE abr/1866): defesa da posição metodológica sem hierarquia oficial.
- Tratamento espírita do Islamismo (RE ago + nov/1866): Maomé é reconhecido como profeta autêntico mas com erros pessoais (poligamia). Não é divergência doutrinária; é leitura espírita ampliada da hierarquia da revelação progressiva.
- Caso Thomas Martin (RE dez/1866): Kardec recusa as hipóteses oficiais de loucura/alucinação (já descartadas pelo próprio Dr. Pinel) e de efeitos ópticos. É metodologia clínica espírita, não divergência.
- Recusa explícita da divisa “Fora do Espiritismo não há salvação” em favor de “Fora da caridade não há salvação” (RE abr/1866 + out/1866): princípio de tolerância universal, característica fundacional do Espiritismo cristão kardequiano.
Fontes
- KARDEC, Allan. Revue Spirite — Journal d’Études Psychologiques, ano 1866. Paris: Bureaux de la Revue Spirite, 1866.
- Edição brasileira: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1866. Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: Edicel.
- Edição FEB: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1866. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
- Disponível online: Kardecpédia — Revista Espírita 1866.
- Edição local: 1866 (83 artigos integrais baixados da Kardecpédia, particionados em 12 arquivos mensais).
- Saint-Hilaire, Barthélemy. Mahomet et le Coran. Paris: Didier, 1865 (referência principal do estudo de Maomé em RE ago + nov/1866).
- Tradução do Alcorão utilizada por Kardec: SAVARY, M. Le Coran. Paris.