Quinto Varro
Identificação
Personagem-eixo de ave-cristo (Emmanuel / Chico Xavier, 1953). Patrício romano, cristão convertido, pai biológico de Taciano. Modelo do espírito que renasce sucessivamente por amor a um filho, percorrendo três encarnações entrelaçadas no séc. III para conduzi-lo da incredulidade pagã ao testemunho cristão.
Papel
A trajetória de Varro estrutura a obra inteira em três renascimentos:
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Quinto Varro, sob Sétimo Severo (~195-202 d.C.). Casado com Cíntia, que ama secretamente Vetúrio Opílio. Nascido Taciano da união, Varro descobre a indignidade doméstica mas opta pela paternidade silenciosa, recolhendo-se à dignidade. É assassinado por encomenda de Vetúrio — executor: o gladiador Flávio Súbrio — sob pretexto de viagem marítima. Morre apunhalado nas águas, mas Súbrio (por gratidão a um favor passado) poupa o próprio Varro e mata em troca um apóstolo cristão que o acompanhava, deixando-lhe o nome.
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Reencarnação como Corvino, presbítero de Lião sob Maximino (~235-238). No plano espiritual, Varro suplica a Clódio autorização para retornar à carne em missão redentora paternal. Recebe “vinte lustros” — um século — e renasce humilde, jardineiro do palácio onde o adulto Taciano vive. Reaproxima-se do filho como enfermeiro abnegado durante febre de Helena. Preso como cristão, decapitado em praça pública. Antes de expirar, em meio à crise hemorrágica final, reencontra Taciano (alertado por Súbrio em confissão de morte) e revela ser o pai. Não tenta convertê-lo: “não seria agora, nos derradeiros instantes de meu corpo, que terçaria armas contigo, em disputa religiosa.” Promete velar invisivelmente.
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Reencarnação como Quinto Celso, sob Décio (250 d.C.). Após nova passagem espiritual, retorna à Terra como filho da viúva Hortênsia Vipsânia em Drépano (Sicília). Adotado, depois da morte de Hortênsia e da própria Lívia (cega) em Neápolis, pelo agora envelhecido Taciano e por Blandina. Em Roma, apanhado em casa de Ênio Pudens durante a perseguição, é levado ao Anfiteatro Flaviano com Taciano. Morre amarrado ao poste, fogo consumindo o corpo, recitando o Pai Nosso em voz alta, pedindo ao pai adotivo que o acompanhe na oração. No instante do trespasse, emerge do corpo carbonizado — não como filho adotivo, mas como o próprio Varro de outrora, recebendo Taciano, finalmente convertido, nos braços paternos.
Doutrina dramatizada
A figura encarna três princípios da escala kardequiana:
- Reencarnação por afinidade afetiva com missão redentora pré-acordada (LE q. 320+).
- Apego post-mortem como obstáculo — após desencarnar como Corvino, Varro chora abraçado ao corpo do filho, é repreendido pelo orientador: “muitos companheiros encarceram-se, após a morte, nas teias escuras da afetividade menos construtiva, quais pássaros embaraçados em visco de mel, e transformam-se em algozes carinhosos e inconscientes dos próprios familiares.”
- Paciência paternal sem proselitismo — em três encarnações Varro nunca tenta forçar Taciano à fé; oferece exemplo, presença, perdão. A conversão se dá no momento extremo, no poste do martírio, quando a coerência testemunhal dos cristãos é inegável (paralelo do bom ladrão, ESE cap. XII).
Citações relevantes
“Sonho conduzi-lo ao Cristo, com os meus próprios braços. (…) Taciano é para mim o que a rosa significa para o arbusto espinhoso em que nasceu. Em minha indigência, ele é o meu tesouro e, em minha fealdade, é a beleza de que desejava orgulhar-me.” [[obras/ave-cristo|(Varro a Clódio, Ave, Cristo!, cap. “Preparando caminhos”)]]
“Renasceremos sempre até o aprimoramento integral de nossa alma… Aqueles que se amam jamais se separam… Morrer não é afastar-se de maneira irremediável… De uma vida mais livre, podemos acompanhar os seres amados de nosso roteiro, inspirando-lhes novos rumos…” [[obras/ave-cristo|(Corvino moribundo a Taciano, Ave, Cristo!, cap. 7)]]
“Coragem, meu pai! Estaremos juntos… A morte não existe e Jesus reina para sempre!…” (Quinto Celso a Taciano, no Anfiteatro Flaviano)
Páginas relacionadas
- taciano — filho biológico, depois adotivo, alvo da missão paterna
- clodio — mentor que autoriza as reencarnações
- ave-cristo — obra-fonte
- reencarnacao · planejamento-reencarnatorio
Fontes
- XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). Ave, Cristo! Rio de Janeiro: FEB, 1953. Edição: ave-cristo.