Ideoplastia

Definição

Faculdade pela qual o pensamento — emitido em ondas mentais persistentes — plasma formas fluídicas dotadas de relativa estabilidade, podendo, em condições especiais, condensar-se até a tangibilidade. É o mecanismo subjacente às materializações, à fotografia transcendente, às alucinações induzidas e às formas-pensamentos viciadas dos círculos de magismo.

“A ideoplastia, pela qual o pensamento pode materializar-se, criando formas que muitas vezes se revestem de longa duração, conforme a persistência da onda em que se expressam.” [[obras/mecanismos-da-mediunidade|(André Luiz / Chico Xavier, Mecanismos da Mediunidade, cap. 19)]]

Fundamento em Kardec

Kardec não cunha o termo “ideoplastia” — termo posterior, do espiritualismo do fim do séc. XIX — mas a coisa que ele descreve está fixada no Pentateuco e nas Obras Póstumas.

Imagens fluídicas (OPE)

“O pensamento […] cria imagens fluídicas e se reflete no envoltório perispiritual como num espelho; nele toma corpo e ali, de algum modo, se fotografa.” (OPE, “Manifestações dos Espíritos — Fotografia e telegrafia do pensamento”)

A doutrina kardequiana da fotografia do pensamento já contém o princípio: pensar é plasmar, e o plasmado tem realidade fluídica. Videntes e médiuns leem as imagens fluídicas como o aparelho fotográfico revela a chapa.

Aparições e tangibilizações (LM)

LM 2ª parte, caps. VI–VII trata as aparições como condensação fluídica: o perispírito do Espírito desencarnado, que normalmente não afeta os sentidos físicos, pode tornar-se “visível e mesmo tangível, conforme as condições fluídicas do meio” (LM, 2ª parte, cap. VI). Em casos extremos — bicorporeidade — o perispírito do encarnado se exterioriza e se faz visível em local distante. A ideoplastia, em seu sentido restrito moderno, é a generalização do mesmo mecanismo aos pensamentos do médium e dos circunstantes.

Couraça moral (Gênese)

“O perispírito é uma couraça a que se deve dar a melhor têmpera possível. Ora, como as suas qualidades guardam relação com as da alma, importa se trabalhe por melhorá-la.” (Gênese, cap. XIV, item 21)

A qualidade moral do Espírito modula a sua plasticidade fluídica. Pensamentos elevados plasmam formas estáveis e luminosas; pensamentos viciosos plasmam formas-vampiros que retornam sobre o emissor. Princípio retomado, expandido e aplicado por André Luiz.

Desdobramento em André Luiz (Mecanismos da Mediunidade, cap. 19)

O modelo da hipnose como porta didática

A ideoplastia é tratada por analogia com o sono provocado: o magnetizador sugere ao “sujet” a existência de imagem em local determinado; a mente do hipnotizado, dirigida pelo toque positivo, concentra raios mentais no ponto indicado, “plasmando o quadro sugerido”. Mostrado um espelho ao paciente, a imagem aparece refletida com mesma realidade da primeira: não é alucinação, é construção fluídica genuína.

“Qual acontece nos espetáculos da televisão, em que a cena transmitida é essencialmente real, através da conjugação de ondas, o quadro entretecido pela mente do magnetizado, ao influxo do magnetizador, é fundamentalmente verdadeiro.” (Mecanismos, cap. 19)

A analogia esclarece três pontos: (a) o pensamento é fluido real, não metáfora psicológica; (b) sugestão entre encarnados é caso particular da operação ideoplástica; (c) o que vale para o hipnotizado vale, ampliado, para o médium em sessão.

O caso paradigmático da pulseira (cap. 19)

“Mentalizemos o orientador desencarnado, numa sessão de ectoplasmia regularmente controlada, quando esteja constituindo a forma de um braço com os recursos exteriorizados do médium, a planejar maior desdobramento do trabalho em curso. Se, no mesmo instante, o experimentador terrestre, tocando a forma tangível, solicita: — ‘uma pulseira, quero uma pulseira no braço’ —, de imediato a mente do médium recolhe o impacto da determinação e, em vez de prosseguir sob o controle benevolente do operador desencarnado, passa a obedecer ao investigador humano, centralizando de modo inconveniente, a própria onda mental induzida sobre o braço já parcialmente materializado, aí plasmando a pulseira nas condições reclamadas.” (Mecanismos, cap. 19)

O caso é decisivo para a prática mediúnica: pesquisador insistente passa a hipnotizar o médium, desviando o controle do orientador desencarnado e adulterando o programa da sessão. Não é fraude; é interferência ideoplástica involuntária.

Aplicação em outras categorias (cap. 19)

André Luiz estende o mecanismo:

  • Fotografia transcendente — a impressão da chapa depende da onda mental do médium e dos circunstantes; pesquisadores ávidos ou apavorados imprimem imagens distorcidas.
  • Mediunidade de efeitos intelectuais — pensamentos repetidos sobre médium menos experimentado podem fazê-lo “tomar certas imagens, mantidas pela onda mental persistente, como situações e personalidades reais”.
  • Magismo — o caso mais grave: “nos círculos do magismo, dentro dos quais a mediunidade rebaixada a processos inferiores de manifestação se deixa aprisionar por seres de posição primitiva […] que cunham ideias escravizantes para quantos se permitem vampirizar” (cap. 19).

Mediunidade aviltada e tabus

“Aceitando sugestões deprimentes, quantos se entregam ao culto da magia aviltante arremessam de si próprios as imagens menos dignas a que se vinculam, engendrando tabus dos quais dificilmente se desvencilham, à face do terror que lhes instila o demorado cativeiro às forças da ignorância. […] a criatura mais facilmente gera, para si mesma, tanto o bem que a tonifica quanto o mal que a perturba.” (Mecanismos, cap. 19)

A leitura espírita das fixações, fobias e pactos é ideoplástica: sugestão repetida por Espíritos inferiores constrói no plasma mental do encarnado formas cativantes que persistem por força da própria onda do sujeito. Liberta-se quem deixa de alimentar a forma.

Ideoplastia e formas-pensamentos

A categoria mais ampla forma-pensamento (cf. Mecanismos, caps. 4, 11, 17) inclui as criações ideoplásticas. Toda emissão mental persistente plasma formas; “é nessa projeção de forças, a determinarem o compulsório intercâmbio com todas as mentes encarnadas ou desencarnadas, que se nos movimenta o Espírito no mundo das formas-pensamentos, construções substanciais na Esfera da alma” (Mecanismos, cap. 4). A ideoplastia em sentido estrito é o regime visível/tangível desse continuum geral.

Aplicação prática

Disciplina de sessões mediúnicas

  1. Pesquisador silencioso é parte da sessão. Pedidos, desafios e ordens dirigidos a formas em materialização derrotam a operação. A função do círculo encarnado é manter onda harmônica, não testar.
  2. Médium não é cobaia. Onde se “multiplicam instâncias, além da fiscalização compreensível e justa”, os participantes “se transformam em hipnotizadores incômodos, ao invés de estudiosos equilibrados” (cap. 19).
  3. Higiene mental é técnica de sessão. Pensamentos fúteis dos circunstantes são ingredientes ideoplásticos — entram no plasma, viciam o produto.

Higiene cotidiana

A ideoplastia opera fora de sessões: cada concentração mental persistente — ódio, ciúme, medo, paixão obsessiva — plasma forma que retorna sobre o emissor. Daí a regra moral espírita “nada plante em ódio, nada colha em remorso” (cf. ESE cap. XII).

Diagnóstico de obsessões idolátricas

Pessoas presas a tabus religiosos ou a ritos mágicos aviltados precisam ser conduzidas pela libertação interior, não pela demolição argumentativa. A forma só desaparece quando deixa de ser alimentada.

Páginas relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, 2ª parte, caps. VI–VII (aparições e bicorporeidade). FEB.
  • Kardec, Allan. A Gênese, cap. XIV, itens 18, 21. FEB.
  • Kardec, Allan. Obras Póstumas, “Manifestações dos Espíritos — Fotografia e telegrafia do pensamento”. FEB.
  • XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo (André Luiz). Mecanismos da Mediunidade. Rio de Janeiro: FEB, 1959. Caps. 4, 11, 19. Edição: mecanismos-da-mediunidade.