Esquecimento do passado

Capítulo VII da Parte 2 do Livro dos Espíritos, q. 392–399. Abre com a pergunta-âncora — por que perde o Espírito encarnado a lembrança do seu passado? — e desdobra-se em sete questões que respondem à objeção mais imediata (como expiar o que não se lembra?), explicam por que essa privação é providencial, e indicam os substitutos operacionais que tomam o lugar da memória direta: intuição, voz da consciência, tendências instintivas, natureza das vicissitudes presentes.

Pergunta

“Por que perde o Espírito encarnado a lembrança do seu passado?” (LE, q. 392)

Resposta dos Espíritos

“Não pode o homem, nem deve, saber tudo. Deus assim o quer em sua sabedoria. Sem o véu que lhe oculta certas coisas, ficaria ofuscado, como quem, sem transição, saísse do escuro para o claro. Esquecido de seu passado, ele é mais ele mesmo.” (LE, q. 392)

Análise

”Ele é mais ele mesmo” — a tese-chave

A frase final da resposta é a chave doutrinária. O esquecimento não é privação acidental que Deus toleraria por algum motivo logístico — é condição para que o homem, na encarnação, seja autenticamente ele. Se carregasse a memória integral do que foi, o Espírito atual estaria preso ao Espírito anterior; cada decisão, cada provação, seria reação à biografia pretérita, não exercício novo de livre-arbítrio. O véu não suprime o passado; suspende-o do palco, para que o agente possa atuar.

A imagem do “véu” e da transição “do escuro para o claro” é repetida em toda a tradição: aparece em q. 392, retorna no comentário de Kardec ao final do capítulo (“mergulhando na vida corpórea, perde o Espírito, momentaneamente, a lembrança de suas existências anteriores, como se um véu as cobrisse”) e estrutura a leitura de Léon Denis e dos consagrados posteriores.

O paradoxo da justiça (q. 393)

A objeção lógica que segue imediatamente é a mais forte que se pode levantar contra a reencarnação:

“Como pode o homem ser responsável por atos e resgatar faltas de que se não lembra? Como pode aproveitar da experiência de vidas de que se esqueceu? […] cada existência é, para ele, como se fosse a primeira e eis que então está sempre a recomeçar. Como conciliar isto com a justiça de Deus?” (LE, q. 393)

A resposta dos Espíritos opera em dois movimentos:

  1. O mérito está no esforço sem apoio da memória. “Onde o seu mérito se se lembrasse de todo o passado?” Se a memória plena substituísse o trabalho de discernir, o Espírito venceria por reconhecimento, não por escolha. O regime do esquecimento é o que torna a vitória sobre o mal vitória.
  2. A consciência da vida pretérita é tomada na erraticidade, não na carne. “Quando o Espírito volta à vida primitiva (a vida espírita), diante dos olhos se lhe estende toda a sua vida pretérita. Vê as faltas que cometeu e que deram causa ao seu sofrer […]. Reconhece justa a situação em que se acha e busca então uma existência capaz de reparar a que vem de transcorrer.” A justiça não é cega — é assumida. O Espírito, antes de descer, escolhe a expiação que cumprirá esquecido. Cf. planejamento-reencarnatorio.

Os três substitutos operacionais da memória

O esquecimento é amplo, mas nunca absoluto. Kardec enumera, ao longo do capítulo, três modos pelos quais o passado continua agindo no presente sem se mostrar:

SubstitutoO que éComo se manifesta
IntuiçãoReminiscência velada das resoluções tomadas na erraticidade”Tendes essa intuição no pensamento, no desejo criminoso que frequentemente vos assalta e a que instintivamente resistis” (q. 393)
Voz da consciênciaLembrança operativa das faltas anteriores”Essa voz, que é a lembrança do passado, vos adverte para não recairdes nas faltas de que já vos fizestes culpados” (q. 393)
Tendências instintivasCaráter herdado das encarnações pretéritas”São os pendores instintivos uma reminiscência do seu passado” (q. 398)

A Quarta Edição de OQE retoma o ponto de modo direto: a consciência é “uma recordação intuitiva do progresso feito nas precedentes existências e das resoluções tomadas pelo Espírito antes de encarnar, resoluções que ele, muitas vezes, esquece como homem” (OQE, cap. III, q. 127).

A consequência prática é clara: o homem não tem acesso aos atos pretéritos, mas tem acesso ao seu caráter — e o caráter denuncia o passado. “Basta estudar-se a si mesmo, e poderá julgar do que foi, não pelo que é, mas pelas suas tendências” (LE, q. 399, comentário).

Por que o esquecimento é proporcional à inferioridade do mundo

A q. 394 introduz uma distinção que muitas vezes passa despercebida: a opacidade da memória é função do estágio do mundo em que se encarna. Em mundos superiores os habitantes “guardam lembrança clara e exata de suas existências passadas” — e podem, por isso, “apreciar a felicidade de que Deus lhes permite fluir”. Na Terra e em mundos análogos, o véu é necessário porque o passado pesa demais:

“No esquecimento das existências anteriormente transcorridas, sobretudo quando foram amarguradas, não há qualquer coisa de providencial e que revela a sabedoria divina? […] Nos mundos inferiores, a lembrança de todas as que se tenham sofrido não agravaria as infelicidades presentes?” (LE, q. 394, comentário)

Daí a regra: à medida que o Espírito se eleva e o corpo se torna menos material, a memória se aclara (q. 397). O véu não é arbitrário — é dosado.

Os três inconvenientes da memória plena

Kardec, no comentário à q. 394, isola três efeitos colaterais que a lembrança total das encarnações anteriores produziria na economia da vida terrena:

  1. Humilhação. “Em certos casos, humilhar-nos-ia sobremaneira.” Quem, lembrando-se de ter sido cruel, escravo, traidor, ainda teria pé para começar de novo?
  2. Orgulho — e perda do livre-arbítrio. “Em outros nos exaltaria o orgulho, peando-nos, em consequência, o livre-arbítrio.” Quem se soubesse Espírito antigo de muitas vidas exemplares perderia o estímulo do esforço presente.
  3. Ruína das relações sociais. “Se nos recordássemos dos nossos precedentes atos pessoais, igualmente nos recordaríamos dos relativos aos outros homens, do que resultariam talvez os mais desastrosos efeitos para as relações sociais.” A trama de afetos atual seria atravessada por contas antigas — credores, vítimas, algozes — sem que houvesse paz possível.

A conclusão é categórica: “Nem sempre podendo honrar-nos do nosso passado, melhor é que sobre ele um véu seja lançado.”

Casos ilustrativos do Céu e o Inferno

A 2ª parte de [[wiki/obras/ceu-e-inferno|O Céu e o Inferno]], cap. VIII, traz dois casos que Kardec reuniu precisamente para ilustrar essa providência.

Sr. Letil — o esquecimento como repouso

Ex-juiz inquisidor que, dois séculos antes, condenara uma jovem inocente à fogueira. Reencarnado como fabricante honrado, morre queimado pelo verniz em ebulição que se derrama sobre ele. Na evocação após a morte, comenta o próprio caso:

“Se ele [Deus] vos tivesse deixado a lembrança, não haveria para vós nenhum repouso na terra. Incessantemente perseguidos pelo remorso e pela vergonha.” (C&I, 2ª parte, cap. VIII, “Sr. Letil”)

O esquecimento não cancelou a expiação — o fogo voltou. Mas permitiu que ele a atravessasse como homem honrado, sem o peso esmagador da memória do crime.

Empregado doméstico — o esquecimento como condição da prova

Jovem servo que escolhera renascer em condição servil para expiar a vaidade da educação recebida em vida anterior. Seu patrão atual, o Sr. de G…, fora antes o protetor que o acolhera. Se a lembrança fosse clara, “o Sr. de G… ficaria constrangido e a prova de ambos seria comprometida”. O servo declarou:

“Tive mais mérito ao lutar assim do que se me tivesse lembrado claramente do passado.” (C&I, 2ª parte, cap. VIII, “História de um empregado doméstico”)

O esquecimento aqui não é privação — é o espaço operacional em que a expiação pode ser autêntica.

Léon Denis — esquecimento não absoluto

A leitura kardequiana é sintetizada por Léon Denis em [[wiki/obras/o-problema-do-ser-e-do-destino|O Problema do Ser, do Destino e da Dor]] em fórmula útil para o estudante:

“Em princípio, o esquecimento das existências anteriores é uma das consequências da reencarnação. Todavia, este esquecimento não é absoluto. Em muitas pessoas, o passado se acha sob a forma de impressões, senão de lembranças precisas. Às vezes, estas impressões influenciam nossos atos.” (Léon Denis, O Problema do Ser, do Destino e da Dor)

E em [[wiki/obras/depois-da-morte|Depois da Morte]]:

“Voltando à carne, a alma perderá ainda a memória das suas vidas anteriores, e bem assim a recordação da vida espiritual […]. Longa será a luta, penosos os esforços necessários para recuperar a consciência […].” [[obras/depois-da-morte|(Léon Denis, Depois da Morte)]]

Em O Grande Enigma, o mesmo Léon Denis acrescenta a justificativa em fórmula evangélica: “Deus não o permite, porque nossa liberdade seria diminuída pela influência da lembrança de nosso passado. Aquele que coloca a mão na charrua, se quiser traçar bem o seu sulco, não deve olhar para trás.”

A leitura é coerente com Kardec: o esquecimento é parcial, dosado, e operacional — e cumpre a função de proteger a liberdade do agente moral atual.

Lembranças aparentes — cuidado epistemológico

A q. 396 antecipa um problema que se tornaria espinhoso no século XX, com a popularização da regressão de memória: muitas pessoas julgam ter “vaga recordação de um passado desconhecido”. Os Espíritos respondem com sobriedade característica:

“Algumas vezes é uma impressão real; mas também, frequentemente, não passa de mera ilusão, contra a qual precisa o homem pôr-se em guarda, porquanto pode ser efeito de superexcitada imaginação.” (LE, q. 396)

E na q. 395, Kardec registra que mesmo as revelações genuínas são restritas: “Se se lhes permitisse dizê-lo abertamente, extraordinárias revelações fariam sobre o passado.” A liberdade dos Espíritos superiores em revelar é funcional — só revelam quando há “fim útil”, “nunca para satisfazer a vã curiosidade” (q. 399, comentário).

Sentido pastoral

Para o estudante kardecista, a doutrina do esquecimento orienta a leitura da própria vida em três passos:

  1. Não buscar lembrar. A curiosidade pelo “quem fui” é, na maioria dos casos, distração — e os Espíritos avisam que mesmo o que se julga lembrar é, frequentemente, ilusão. O caminho não é arqueológico.
  2. Estudar o caráter como mapa do passado. “Cada um é punido naquilo por onde pecou” (q. 399). As tendências, as fraquezas, as inclinações repetidas, o gênero das vicissitudes presentes — todos são sinais convergentes do que precisa ser reparado.
  3. Reconhecer a voz da consciência como memória ativa. O remorso, o pudor, o impulso de recuar diante de certa tentação não são sentimentalismo: são “a lembrança do passado” operando no esquecido. Resistir-lhes é honrar a expiação escolhida na erraticidade.

A frase que sintetiza o capítulo está no comentário final de Kardec à q. 399: o esquecimento “não constitui obstáculo à melhoria do Espírito, porquanto, se é certo que este não se lembra delas com precisão, não menos certo é que a circunstância de as ter conhecido na erraticidade e de haver desejado repará-las o guia por intuição”.

Conceitos relacionados

Fontes

  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte 2, Cap. VII — “Esquecimento do passado”, q. 392–399. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Edição: livro-dos-espiritos.
  • Kardec, Allan. O Céu e o Inferno. 2ª parte, Cap. VIII — “Expiações terrestres”: “Sr. Letil”; “História de um empregado doméstico”. Trad. Manuel Justiniano Quintão. FEB.
  • Kardec, Allan. O Que é o Espiritismo?. Cap. III, q. 126–127 (esquecimento do passado e origem da consciência). Trad. FEB. Edição: o-que-e-o-espiritismo.
  • DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor (1903). Cap. sobre lembrança das vidas anteriores. Trad. FEB. Cf. o-problema-do-ser-e-do-destino.
  • DENIS, Léon. Depois da Morte (1891). Trad. João Lourenço de Souza. FEB. Edição: depois-da-morte.
  • DENIS, Léon. O Grande Enigma (1911). Cap. sobre o esquecimento como condição da liberdade. Trad. FEB. Cf. o-grande-enigma.