Cristianismo e Espiritismo

Dados bibliográficos

  • Autor: leon-denis (1846–1927)
  • Título original: Christianisme et Spiritisme
  • Subtítulo: Provas experimentais da sobrevivência — Relações com os Espíritos dos mortos — A doutrina secreta — A nova revelação
  • Primeira edição francesa: 1898
  • Edição utilizada: 2ª ed. em português, tradução de Albertina Escudeiro Sêco. Rio de Janeiro: CELD, 2012. 344 p.
  • ISBN: 978-85-7297-425-7
  • Nível: 3 — Complementar aprovado
  • Texto integral: cristianismo-e-espiritismo

Estrutura

Obra em 11 capítulos, precedidos por Introdução e Prefácio da 2ª edição, seguidos de 12 notas complementares.

Cap.TítuloTema central
IntroduçãoPropósito da obra: resgatar o pensamento mestre do Cristianismo e explicar seus fenômenos pelas leis naturais
Prefácio da 2ª edição (1910)Balanço da Igreja Católica no início do séc. XX; separação Igreja-Estado na França
IOs EvangelhosOrigens, transmissão oral, doutrina secreta de Jesus
IIA autenticidade dos EvangelhosCrítica textual, interpolações, evangelhos apócrifos
IIIO sentido oculto dos EvangelhosEnsino por parábolas, sentido esotérico reservado aos discípulos
IVA doutrina secretaReencarnação no ensino de Jesus (Nicodemos, Elias/João Batista)
VRelações com os Espíritos dos mortosMediunidade nos primeiros cristãos, aparições de Jesus, dom de profecia
VIAlteração do Cristianismo — Os DogmasTrindade, divindade de Jesus, concílio de Niceia (325)
VIIOs Dogmas (cont.), Os Sacramentos, O CultoPecado original, redenção, predestinação, inferno, sacramentos
VIIIDecadência do CristianismoFracasso moral da Igreja, materialismo como consequência, ciência vs. dogma
IXA Nova Revelação — O Espiritismo e a CiênciaFenômenos espíritas modernos, base experimental, testemunhos científicos
XA Nova Revelação — A Doutrina dos EspíritosRevelação perpétua, ensinamento moral, reencarnação, visão de Deus
XIRenovaçãoRegeneração moral pelo Espiritismo, educação, religião do futuro

Notas complementares

NotaAssunto
1Autoridade da Bíblia e origens do Antigo Testamento
2Origem dos Evangelhos
3Autenticidade dos Evangelhos
4Sentido oculto dos Evangelhos
5Reencarnação
6Relações dos primeiros cristãos com os Espíritos
7Fenômenos espíritas na Bíblia
8Significado das palavras Deus e demônios
9Perispírito ou corpo sutil; opinião dos Pais da Igreja
10Galileu e a congregação do Index
11Pio X e o modernismo
12Fenômenos espíritas contemporâneos; provas de identidade

Resumo

Introdução e Prefácio

Denis declara seu respeito pela tradição cristã, mas denuncia que a Igreja substituiu o pensamento vivo de Jesus por dogmas incompreensíveis e formas exteriores vazias. Propõe examinar o que o Cristianismo original continha de verdadeiro e distingui-lo das adições humanas dos concílios. No Prefácio de 1910, diagnostica a crise do catolicismo francês — a separação Igreja-Estado (1905) como consequência do fracasso educacional e moral da Igreja.

Os Evangelhos (caps. I–IV)

Denis examina a origem e transmissão dos Evangelhos, mostrando que Jesus ensinava em dois níveis: parábolas para as multidões e ensino secreto para os discípulos. Cita: “A vós é dado conhecer o mistério do reino de Deus; mas para aqueles que estão de fora, todas essas coisas se dizem por parábolas” (Marcos, 4:11). A “doutrina secreta” incluía a reencarnação — demonstrada pelo diálogo com Nicodemos (“Se um homem não nascer de novo…”, João 3:3) e pela identificação de João Batista com Elias (Mateus 17:10–13).

Relações com os Espíritos dos mortos (cap. V)

Tese central da obra: o Cristianismo primitivo era essencialmente espírita. Os primeiros cristãos se comunicavam com os Espíritos dos mortos e deles recebiam ensinamentos. As aparições de Jesus após a morte são fenômenos mediúnicos naturais — materialização do corpo fluídico (perispírito), não milagres sobrenaturais. Denis demonstra a analogia entre as aparições bíblicas e os fenômenos constatados pelo Espiritismo moderno: forma etérea (Maria Madalena), materialização completa (Tomé), aparição/desaparição instantânea (Emaús), penetração em ambiente fechado. Cita São Paulo: “Se o Cristo não ressuscitou, vossa fé é vã” (I Coríntios 15:17), demonstrando que a imortalidade no Cristianismo não é esperança, mas fato experimental.

O “dom de profecia” era a mediunidade: “Não acrediteis em todos os espíritos, mas provai se os espíritos são de Deus” (I João 4:1). A Igreja suprimiu o profetismo a partir do séc. III porque os Espíritos contradiziam o sacerdócio nascente e apoiavam os “heresiarcas” que mantinham o ensino original.

Alteração do Cristianismo — Os Dogmas (caps. VI–VII)

Denis analisa sistematicamente os dogmas criados pelos concílios (Niceia 325, Roma 1870):

  • Trindade — importada de lenda hindu, usada para divinizar Jesus contra a opinião dos apóstolos e do próprio Cristo (“Meu Pai é maior do que eu”). A divindade do Cristo foi rejeitada por três concílios antes de Niceia.
  • Pecado original — contradiz a justiça divina; aliada do materialismo por sua “lei da hereditariedade” (traducianismo).
  • Redenção pelo sangue — substitui a responsabilidade pessoal por um resgate vicário incompatível com a lei de causa e efeito.
  • Penas eternas — contradizem a bondade de Deus; Orígenes e outros Pais da Igreja ensinavam “castigos medicinais” (existências sucessivas para resgatar faltas).
  • Infalibilidade papal — remate de um edifício dogmático monstruoso que encerra o pensamento “como em um túmulo”.

Denis destaca que Jesus propôs “um culto simples e puro, todo de sentimento, consistindo na relação direta, sem intermediário, da consciência humana com Deus, seu Pai” — citando João 4:23–24 (“Deus é espírito, e é preciso que aqueles que o adorem, o adorem em espírito e em verdade”).

Decadência do Cristianismo (cap. VIII)

Após 19 séculos de autoridade e 12 de poder absoluto, a Igreja fracassou na missão de regenerar a humanidade. Denis argumenta que a Igreja “falseou, desnaturou a ideia de Deus” ao impor o temor em vez do amor, gerando como reação o ateísmo, o materialismo e o grito “Nem Deus, nem Senhor!“. Aponta que a ciência corrigiu a Igreja repetidamente — sobre a esfericidade da Terra, o movimento do globo (Galileu), a antiguidade do planeta — e que a Igreja será obrigada a se inclinar também diante da exegese histórica sobre Jesus.

A Nova Revelação (caps. IX–X)

Denis apresenta o Espiritismo como a Terceira Revelação, cumprimento da promessa do Consolador (João 14:16–17). A revelação moderna tem caráter universal e impessoal — não procede de um só indivíduo, mas de milhares de Espíritos em todo o globo, com mensagens verificadas pelo “controle mais rigoroso”.

Descreve a progressão dos fenômenos espíritas: pancadas → escrita automática → incorporação → materialização → identificação dos desencarnados. Cita testemunhos científicos (Prof. Challis, Cambridge; Russel Wallace). No cap. X, expõe a doutrina dos Espíritos: existências sucessivas, responsabilidade pessoal, lei de causa e efeito, solidariedade entre vivos e mortos, natureza de Deus.

Renovação (cap. XI)

O Espiritismo oferece base moral superior aos dogmas: não mais pecado original nem redenção vicária, mas “os espíritos são filhos de suas obras”. A morte perde o caráter terrificante e torna-se “renascimento”. Denis cita exemplos concretos da influência moralizadora do Espiritismo: mineiros espíritas de Charleroi (Bélgica), forçados de Tarragona (Espanha). Conclui que o Espiritismo prepara a “religião do futuro” — fusão dos espíritos e dos corações, não instituição fechada.

Temas centrais

1. Cristianismo primitivo como experiência espírita

Os primeiros cristãos viviam em comunhão com o mundo invisível. O “dom de profecia” era mediunidade; as aparições de Jesus eram fenômenos naturais (materialização perispiritual). A supressão do profetismo pela Igreja no séc. III marcou a ruptura com o Cristianismo autêntico. Alinha-se com Kardec (ESE, cap. I; LE, q. 625).

2. Reencarnação no Cristianismo primitivo

Denis defende que Orígenes e vários Pais da Igreja ensinavam os “castigos medicinais” — existências sucessivas para resgate de faltas. A doutrina foi suprimida pelos concílios. A nota complementar nº 5 é dedicada ao tema. Alinha-se com Kardec (LE, q. 166–222; ESE, cap. IV).

3. Dogmas como deturpação do Evangelho

Trindade, pecado original, penas eternas, infalibilidade papal — todos construções humanas dos concílios que contradizem o ensino de Jesus e a razão. Denis argumenta que os dogmas afastaram a Humanidade da fé genuína, gerando materialismo e ateísmo como reação.

4. Jesus como Espírito superior

Denis nega a divindade de Jesus como dogma, vendo-o como “o homem que chegou ao ponto final da sua evolução” — nesse sentido, pode-se chamá-lo “deus”, conciliando os que afirmam e os que negam a divindade. Cada ser humano, ao final de sua evolução, “tornar-se-á um Cristo”. Alinha-se com Kardec (LE, q. 625), embora com tom mais reverencial e místico.

5. Espiritismo como Terceira Revelação

Denis cita João 14:16–17 (“outro consolador, o Espírito de Verdade”) como profecia do Espiritismo. A nova revelação é universal, impessoal, progressiva e verificável. Alinha-se com Kardec (ESE, cap. I; LE, Introdução). Ver tres-revelacoes.

6. Decadência da Igreja e renovação moral

12 séculos de poder absoluto não regeneraram a Humanidade; a ciência corrigiu a Igreja repetidamente. O Espiritismo oferece a base moral que os dogmas não puderam fornecer: responsabilidade pessoal, lei de causa e efeito, solidariedade entre as duas humanidades (encarnada e desencarnada).

7. Visão de Deus

Passagem de especial interesse (cap. X), em que Denis transmite o ensino dos Espíritos sobre a percepção de Deus:

“Deus, em sua pura essência, nos dizem os espíritos, é como um oceano de luz. Deus não tem forma, mas pode revestir uma para aparecer a seus eleitos. É a recompensa concedida às grandes abnegações, às existências de sacrifício e de renúncia. Existe aí uma espécie de materialização, bem diferente de tudo o que podemos supor. Mesmo sob esse aspecto sensível, é tão grande a majestade de Deus que os mais puros espíritos podem apenas aguentar o seu brilho: eles têm o privilégio de contemplar a Divindade sem véu, e declaram que a linguagem humana é muito pobre para permitir fazer uma descrição, por mais fraca que seja, do foco divino.” [[obras/cristianismo-e-espiritismo|(Léon Denis, Cristianismo e Espiritismo, cap. X)]]

Denis usa a analogia do sol sobre as águas: “Basta-lhe que se esforce para deixar as profundezas e se banhar em seus raios” — a percepção de Deus como fruto do esforço de elevação do ser. E acrescenta:

“A compreensão das coisas divinas aumenta com o nosso progresso, à medida que nossas faculdades e nossos sentidos, em se desenvolvendo, nos abrirem novas perspectivas sobre os mundos superiores.” (cap. X)

“Todos, na falta de uma alta inteligência e de um bom senso exercido, podem conhecer e sentir Deus pelos poderes do coração.” (cap. X)

Relação com Kardec

  • LE, q. 11: “Poderemos algum dia compreender a essência de Deus?” — “Não; falta-vos para isso o sentido.” Denis vai além: afirma que os Espíritos mais puros contemplam a Divindade, ainda que de forma limitada (“apenas aguentam o seu brilho”).
  • LE, q. 13: Os atributos de Deus — eterno, infinito, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom — são ideia completa “do vosso ponto de vista”, mas o homem não tem a medida das coisas acima dele.
  • LE, q. 5: “Esse sentimento [da existência de Deus] é efeito da educação?” — “Se fosse, por que existiria nos vossos selvagens?” Denis complementa: o sentimento de Deus é acessível “pelos poderes do coração”, mesmo sem instrução.
  • Gênese, cap. II (“A visão de Deus”): Kardec trata a impossibilidade de perceber Deus pelos sentidos materiais como condição da encarnação, não limitação absoluta — abrindo margem para a visão de Denis de que Espíritos elevados possam ter acesso progressivo.
  • ESE, cap. VIII (“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”): Kardec interpreta “ver a Deus” como compreensão espiritual progressiva — “ver” no sentido de compreender, sentir, intuir a presença divina, não visão literal. Denis expande essa compreensão ao descrever uma experiência concreta dos Espíritos mais puros diante do “foco divino”.

Mudança de ênfase

Denis descreve a “visão de Deus” em termos mais concretos e místicos que Kardec — fala em Deus que pode “revestir uma forma para aparecer a seus eleitos” e em Espíritos que “contemplam a Divindade sem véu”. Kardec é mais sóbrio: a essência divina é incognoscível, e “ver a Deus” é compreensão espiritual, não percepção sensorial. Trata-se de mudança de ênfase e aprofundamento por via mediúnica, não de contradição doutrinária — Denis não afirma que Deus seja cognoscível em Sua essência, apenas que os Espíritos mais puros podem vislumbrar algo de Sua majestade.

Conceitos tratados

  • tres-revelacoes — Espiritismo como Terceira Revelação, Consolador prometido
  • reencarnacao — presença no Cristianismo primitivo, Orígenes, “castigos medicinais”
  • deus — natureza de Deus, visão de Deus, analogia do sol
  • mediunidade — dom de profecia, relações com os Espíritos dos mortos
  • perispirito — corpo fluídico de Jesus nas aparições pós-morte
  • progresso-espiritual — renovação moral pelo Espiritismo
  • lei-de-causa-e-efeito — responsabilidade pessoal vs. redenção vicária
  • penas-eternas — refutação pelas leis divinas e pela tradição de Orígenes
  • bem-aventurancas — “puros de coração verão a Deus”
  • fe-raciocinada — razão como meio de descobrir a verdade
  • prece — relação direta da consciência com Deus

Personalidades citadas

  • jesus — Espírito superior, governador espiritual da Terra, mediunidade natural
  • leon-denis — autor
  • allan-kardec — referência como sistematizador da doutrina dos Espíritos

Fontes

  • Denis, Léon. Cristianismo e Espiritismo (Christianisme et Spiritisme). Trad. Albertina Escudeiro Sêco. 2ª ed. Rio de Janeiro: CELD, 2012. 344 p. ISBN 978-85-7297-425-7.
  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Parte 1, q. 1–16 (Deus); q. 625 (Jesus).
  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Cap. I (três revelações); cap. IV (reencarnação); cap. VIII (bem-aventuranças).
  • Kardec, Allan. A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Cap. II (Deus, visão de Deus).