Mudança de sexo nas reencarnações

Posição de Kardec

O Pentateuco é consistente: o sexo pertence ao organismo, não ao Espírito. Kardec aborda diretamente o tema na seção “Sexo nos Espíritos” de O Livro dos Espíritos:

Q. 200 — “Têm sexos os Espíritos?” “Não como o entendeis, pois que os sexos dependem do organismo. Há entre eles amor e simpatia, mas baseados na semelhança dos sentimentos.” (LE, q. 200)

Q. 201 — “Em nova existência, pode o Espírito que animou o corpo de um homem animar o de uma mulher e vice-versa?” “Decerto; são os mesmos os Espíritos que animam os homens e as mulheres.” (LE, q. 201)

Q. 202 — “Quando errante, que prefere o Espírito: encarnar no corpo de um homem, ou no de uma mulher?” “Isso pouco lhe importa. O que o guia na escolha são as provas por que haja de passar.” (LE, q. 202)

No comentário à q. 202, Kardec arremata:

“Os Espíritos encarnam como homens ou como mulheres, porque não têm sexo. Visto que lhes cumpre progredir em tudo, cada sexo, como cada posição social, lhes proporciona provações e deveres especiais e, com isso, ensejo de ganharem experiência. Aquele que só como homem encarnasse só saberia o que sabem os homens.” (LE, q. 202, comentário)

O argumento de Kardec é pedagógico-evolutivo: ambos os sexos oferecem “provações e deveres especiais”, e o progresso completo exige experiência em ambos. Não há juízo negativo, restrição ou desaconselhamento — a mudança de sexo é um fato natural da pluralidade das existências.

Em O Céu e o Inferno, o Espírito do Sr. Sanson confirma e aprofunda:

“Não fazemos questão de ser de natureza masculina ou feminina: os Espíritos não se reproduzem. Deus cria-os à sua vontade, e se, para seus desígnios maravilhosos, ele quis que os Espíritos se reencarnem na terra, ele precisou acrescentar a reprodução das espécies pelo macho e a fêmea. Mas, vós o sentis, sem que seja preciso nenhuma explicação, os Espíritos não podem ter sexo.” (C&I, 2ª parte, cap. I — “O Passamento”, diálogo com o Sr. Sanson, q. 11)

Na observação de Kardec a essa resposta, ele esclarece que Espíritos inferiores — ainda não desmaterializados — podem crer que ainda são homens ou mulheres, conservando “as mesmas paixões e os mesmos desejos”. São esses que, ao se comunicarem, afirmam a existência de sexo nos Espíritos, gerando contradição aparente. Kardec explica: “o erro não é dos Espíritos, mas daqueles que os interrogam e não se dão ao trabalho de aprofundar as questões” (C&I, 2ª parte, cap. I, q. 11, observação).

Posição de Léon Denis

Denis trata do tema no cap. 13 de O Problema do Ser e do Destino (“As Vidas Sucessivas. A Reencarnação e suas Leis”). Sua posição é matizada, mas inequivocamente restritiva.

A possibilidade reconhecida

Denis admite que a escolha do sexo cabe à alma e que a mudança é possível:

“Quanto à escolha do sexo, é ainda a alma quem primeiramente decide. Pode mudá-lo de uma encarnação a outra, por um ato de sua vontade criadora, modificando as condições orgânicas do perispírito.” [[obras/o-problema-do-ser-e-do-destino|(Léon Denis, O Problema do Ser e do Destino, cap. 13)]]

A desaconselhação

Denis menciona “certos pensadores” que admitem a alternância dos sexos como necessária para adquirir virtudes específicas de cada metade do gênero humano, mas discorda:

“Acreditamos, de preferência, de acordo com as instruções de nossos Guias, que a mudança de sexo, sempre possível para o espírito, é, em princípio, inútil e perigosa. Os espíritos elevados a desaconselham.” [[obras/o-problema-do-ser-e-do-destino|(Léon Denis, O Problema do Ser e do Destino, cap. 13)]]

A estigmatização

Imediatamente após desaconselhar, Denis descreve com juízo negativo as pessoas que teriam mudado de sexo:

“É fácil reconhecer, à primeira vista, em torno de nós, as pessoas que, numa existência precedente, adotaram um sexo diferente; são sempre, sob certo ponto de vista, anormais. As viragos, de caráter e gostos masculinos, algumas das quais portam ainda o traço dos atributos do outro sexo, por exemplo, a barba no queixo, evidentemente são homens reencarnados. Nada têm de estético nem de sedutor. Assim é, também, com aqueles homens efeminados, que têm todas as características das filhas de Eva e estão, por assim dizer, extraviados, na vida. Quando um espírito se habituou a um sexo, é ruim, para ele, sair daquilo que se tornou sua natureza.” [[obras/o-problema-do-ser-e-do-destino|(Léon Denis, O Problema do Ser e do Destino, cap. 13)]]

O argumento das almas-irmãs

Denis reforça sua posição com a tese das almas criadas aos pares:

“Muitas almas, criadas aos pares, estão destinadas a evoluir juntas, unidas para sempre, na alegria e na dor. (…) O que seria de sua afeição, de suas relações, de seu destino, se a mudança de sexo fosse uma necessidade, uma lei?” [[obras/o-problema-do-ser-e-do-destino|(Léon Denis, O Problema do Ser e do Destino, cap. 13)]]

A única exceção

Denis admite um cenário restrito em que a mudança de sexo seria imposta — como reparação kármica:

“Há um ponto de vista, um único, segundo o qual, poder-se-ia considerar a mudança de sexo como um ato imposto pela lei de justiça e de reparação: é quando maus tratos ou graves danos, infligidos a pessoas de um sexo, atraem para este mesmo sexo os espíritos responsáveis.” [[obras/o-problema-do-ser-e-do-destino|(Léon Denis, O Problema do Ser e do Destino, cap. 13)]]

Mas recua de imediato: “a pena de talião não rege, de maneira absoluta, o mundo das almas (…) existem mil formas sob as quais a reparação pode cumprir-se.”

Análise

Divergência real e significativa. Kardec e Denis partem de premissas diferentes:

  1. Natureza do sexo. Kardec é taxativo: “os sexos dependem do organismo” (LE, q. 200). O Espírito não tem sexo. Denis, embora reconheça a possibilidade de mudança, introduz a ideia de que o espírito “se habituou a um sexo” e que esse hábito “tornou-se sua natureza” — atribuindo ao sexo uma aderência perispiritual que Kardec não ensina.

  2. Utilidade da alternância. Kardec vê a alternância como pedagogia espiritual natural: “cada sexo (…) lhes proporciona provações e deveres especiais” e “aquele que só como homem encarnasse só saberia o que sabem os homens” (LE, q. 202). Denis classifica a alternância como “em princípio, inútil e perigosa.”

  3. Juízo moral. Kardec não atribui nenhum juízo negativo à mudança de sexo. Denis classifica como “anormais” as pessoas que identifica como tendo mudado de sexo, usando termos como “viragos”, “extraviados” e “nada têm de estético nem de sedutor.”

  4. Autoridade invocada. Denis fundamenta sua posição nas “instruções de nossos Guias”. Kardec fundamenta a sua nas respostas dos Espíritos Superiores, colhidas por múltiplos médiuns e submetidas ao controle da universalidade do ensino dos Espíritos (critério da concordância universal, LE, Introdução, item XIII).

  5. Argumento acessório. A tese das almas criadas aos pares, usada por Denis como reforço, também não encontra apoio no Pentateuco (ver almas-irmas-criadas-aos-pares).

A posição de Denis possivelmente reflete os preconceitos culturais da Europa do início do séc. XX — em particular os papéis rígidos de gênero da sociedade francesa. A própria linguagem empregada (“viragos”, “anormais”, “nada têm de estético nem de sedutor”) é mais sociocultural que doutrinária. Kardec prevalece.

Extensão: Paulo e a “natureza” em Romanos 1

A mesma estrutura argumentativa — condenar formas de expressão sexual não-heteronormativa apelando a um conceito moralizado de “natureza” — encontra-se em Paulo, séculos antes de Denis, em Romanos 1:26–27:

“Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.” (Rm 1:26–27, ACF)

O argumento paulino é paralelo ao deniseano na chave argumentativa, embora se refira a objetos distintos:

Paulo (Rm 1:26–27)Denis (OPS cap. 13)
Relações homoeróticasMudança de sexo entre encarnações
”Contrário à natureza” (para phýsin)“Em princípio, inútil e perigosa”; pessoas “anormais"
"Paixões infames”; “torpeza”; “erro""Viragos”; “efeminados extraviados na vida”; “nada têm de estético nem de sedutor”
Fundamento: ordem criacional hetero entre os sexosFundamento: hábito perispiritual sedimentado a um sexo

Ambos operam com um conceito de “natureza” sexual estabilizada, da qual o desvio é moralmente degradante. E ambos se dissolvem pela mesma hermenêutica kardequiana, em LE q. 200–202:

Q. 200 — “Têm sexos os Espíritos? — Não como o entendeis, pois que os sexos dependem do organismo. Há entre eles amor e simpatia, mas baseados na semelhança dos sentimentos.” (LE, q. 200)

Q. 202 — “Quando errante, que prefere o Espírito: encarnar no corpo de um homem, ou no de uma mulher? — Isso pouco lhe importa. O que o guia na escolha são as provas por que haja de passar.” (LE, q. 202)

Se o sexo é atributo do organismo, não do Espírito; se a alternância entre encarnações é pedagógica e não “perigosa”; se ao Espírito “pouco lhe importa” encarnar como homem ou mulher — então a “natureza” que Paulo e Denis invocam não tem o estatuto doutrinário que lhe atribuem. O corpo é instrumento provisório da alma, não pauta moral.

Não se trata, com isso, de equiparar os dois casos ou de esgotar a discussão sobre orientação sexual — questão que Kardec não aborda diretamente e que o Espiritismo moderno trata com cuidado pastoral próprio. Trata-se de nomear o procedimento argumentativo comum: invocar a “natureza” biológica como critério moral absoluto. O Pentateuco oferece lentes mais precisas: a moral se mede pela caridade efetiva, pela responsabilidade ante a consciência (LE q. 621) e pelas provas escolhidas para o progresso — não pelo formato do corpo nem por padrões socioculturais de época.

A atualização deste registro em 2026-04-20, no contexto da ingestão da Epístola aos Romanos, anota precisamente este paralelo: Paulo em Rm 1 e Denis em OPS cap. 13 compartilham a mesma estratégia argumentativa, e ambas são dissolvidas pela mesma tríade kardequiana (LE q. 200–202).

Extensão: André Luiz (Sexo e Destino, 1963)

A ingestão de Sexo e Destino (Uberaba, 1963 — coautoria mediúnica de Chico Xavier com Waldo Vieira) acrescenta uma terceira voz ao registro, cronologicamente entre Léon Denis (1908) e Emmanuel/Vida e Sexo (1970). É o primeiro documento da tradição espírita brasileira a inverter pastoralmente Léon Denis sobre o tema — antecede em sete anos a formulação que Emmanuel daria no Vida e Sexo.

O contexto: institutos de estudo do sexo no “Almas Irmãs”

A passagem está em Parte 2, cap. 5. André Luiz visita os institutos de ensino da colônia espiritual “Almas Irmãs” — faculdades dedicadas a “sexo e amor”, “sexo e matrimônio”, “sexo e maternidade”, “sexo e medicina”, “sexo e penalogia”. O contraste com a desconsideração terrestre é explícito: “na Espiritualidade Superior o sexo não é considerado unicamente por baliza morfológica do corpo de carne (…) definição unilateral que, na Terra, ainda se faz seguir de atitudes e exigências tirânicas, herdadas do comportamento animal”.

Félix expõe a tese kardequiana de fundo: “Entre os Espíritos desencarnados, a partir daqueles de evolução mediana, o sexo é categorizado por atributo divino na individualidade humana, qual ocorre com a inteligência, com o sentimento, com o raciocínio”. Em chave compatível com LE q. 200–202: “masculinidade e feminilidade totais são inexistentes na personalidade humana, do ponto de vista psicológico”.

A pergunta direta sobre homossexuais

“Tendo Neves formulado consulta sobre os homossexuais, Félix demonstrou que inúmeros Espíritos reencarnam em condições inversivas, seja no domínio de lides expiatórias ou em obediência a tarefas específicas, que exigem duras disciplinas por parte daqueles que as solicitam ou que as aceitam.

Referiu ainda que homens e mulheres podem nascer homossexuais ou intersexos, como são suscetíveis de retomar o veículo físico na condição de mutilados ou inibidos em certos campos de manifestação, aditando que a alma reencarna, nessa ou naquela circunstância, para melhorar e aperfeiçoar-se e nunca sob a destinação do mal, o que nos constrange a reconhecer que os delitos, sejam quais sejam, em quaisquer posições, correm por nossa conta.” [[obras/sexo-e-destino|(André Luiz / Chico Xavier + Waldo Vieira, Sexo e Destino, Parte 2, cap. 5)]]

Igualdade de dignidade ante a Justiça Divina

“Nos foros da Justiça Divina, em todos os distritos da Espiritualidade Superior, as personalidades humanas tachadas por anormais são consideradas tão carecentes de proteção quanto as outras que desfrutam a existência garantida pelas regalias da normalidade, segundo a opinião dos homens, observando-se que as faltas cometidas pelas pessoas de psiquismo julgado anormal são examinadas no mesmo critério aplicado às culpas de pessoas tidas por normais, notando-se, ainda, que, em muitos casos, os desatinos das pessoas supostas normais são consideravelmente agravados, por menos justificáveis perante acomodações e primazias que usufruem, no clima estável da maioria.” (Sexo e Destino, Parte 2, cap. 5)

Cuidado pastoral sobre legislação humana

Inserção que não aparece em Emmanuel/Vida e Sexo: Félix faz adendo sobre a velocidade de mudança das leis morais, advertindo que mudanças bruscas podem ser instrumentalizadas:

“Os homens não podem efetivamente alterar, de chofre, as leis morais em que se regem, sob pena de precipitar a Humanidade na dissolução, entendendo-se que os Espíritos ainda ignorantes ou animalizados, por enquanto em maioria no seio de todas as nações terrestres, estão invariavelmente decididos a usurpar liberalidades prematuras para converter os valores sublimes do amor em criminalidade e devassidão.” (Sexo e Destino, Parte 2, cap. 5)

A nota não restringe a dignidade dos homossexuais — nem sugere que a libertação social esteja errada. Aponta que a maturidade moral coletiva é condição da maturidade legal, e que reformas isoladas podem servir de pretexto a abusos de maioria ainda imperfeita. É cuidado pastoral, não trava conservadora.

Profecia e crítica à perseguição

“No mundo porvindouro os irmãos reencarnados, tanto em condições normais quanto em condições julgadas anormais, serão tratados em pé de igualdade, no mesmo nível de dignidade humana, reparando-se as injustiças assacadas, há séculos, contra aqueles que renascem sofrendo particularidades anômalas, porquanto a perseguição e a crueldade com que são batidos pela sociedade humana lhes impedem ou dificultam a execução dos encargos que trazem à existência física, quando não fazem deles criaturas hipócritas, com necessidade de mentir incessantemente para viver, sob o Sol que a Bondade Divina acendeu em benefício de todos.” (Sexo e Destino, Parte 2, cap. 5)

Análise — extensão pastoral, não nova divergência

A passagem não contradiz Kardec; ao contrário, opera no quadro de LE q. 200–202 (sexo é atributo do organismo, não do Espírito) e o aplica pastoralmente. Mais importante: inverte explicitamente a leitura estigmatizante de Léon Denis, sem citá-lo nominalmente. Onde Denis fala em “viragos”, “extraviados”, “nada têm de estético nem de sedutor”, André Luiz fala em “irmãos em condições inversivas”, “mesma dignidade humana”, “cessar perseguição”.

A relação com a extensão posterior de Emmanuel (Vida e Sexo, 1970) é de continuidade doutrinária: Emmanuel desenvolve o quadro com vocabulário de “bissexualidade adquirida ao longo de milênios”, André Luiz já o havia formulado em chave reencarnatória (“expiação ou tarefa específica”). Os dois textos operam o mesmo movimento: dignificação na herança kardequiana, sem cair no estigma deniseano.

Status

A divergência permanece aberta por causa de Léon Denis (e da estrutura paulina). André Luiz e Emmanuel são registrados aqui como inversões pastorais sucessivas (1963 → 1970) que reforçam a leitura kardequiana. A tradição espírita brasileira sobre o tema, vista cronologicamente, evolui de Léon Denis (estigma) para André Luiz (dignidade reencarnatória) para Emmanuel (sistematização pastoral).

Extensão: Emmanuel (Vida e Sexo, 1970)

A ingestão de Vida e Sexo (Uberaba, jun/1970) acrescenta uma terceira voz ao registro — e ela vai em direção oposta a Denis, apesar de também não ser idêntica a Kardec.

Inversão pastoral em relação a Denis

Onde Denis classifica como “anormais”, “viragos” e “extraviados” os homens e mulheres que identifica como tendo mudado de sexo, Emmanuel formula em 1970 — duas décadas antes da despatologização da homossexualidade pela OMS — uma posição de dignidade integral:

“A coletividade humana aprenderá, gradativamente, a compreender que os conceitos de normalidade e de anormalidade deixam a desejar quando se trate simplesmente de sinais morfológicos, para se erguerem como agentes mais elevados de definição da dignidade humana. (…) O mundo vê, na atualidade, em todos os países, extensas comunidades de irmãos em experiência dessa espécie, somando milhões de homens e mulheres, solicitando atenção e respeito, em pé de igualdade ao respeito e à atenção devidos às criaturas heterossexuais.” [[obras/vida-e-sexo|(Emmanuel / Chico Xavier, Vida e Sexo, cap. 21)]]

Note-se a inversão completa do vocabulário: Denis fala em “viragos”, “efeminados extraviados”, “nada têm de estético nem de sedutor”; Emmanuel fala em “irmãos em experiência”, “atenção e respeito em pé de igualdade”, “dignidade humana”. A explicação doutrinária parte da bissexualidade adquirida ao longo de milênios em sexos alternados — coerente com LE q. 200–202.

Camada nova: escolha cármica do sexo

Emmanuel adiciona ao quadro kardequiano duas teses sobre a escolha do sexo na nova encarnação que não estão em Kardec:

  1. Reparativa. “O homem que abusou das faculdades genésicas, arruinando a existência de outras pessoas (…) em muitos casos é induzido a buscar nova posição, no renascimento físico, em corpo morfologicamente feminino, aprendendo, em regime de prisão, a reajustar os próprios sentimentos.” (cap. 21)
  2. Missionária. “Espíritos cultos e sensíveis, aspirando a realizar tarefas específicas na elevação de agrupamentos humanos (…) rogam dos Instrutores da Vida Maior (…) a própria internação no campo físico, em vestimenta carnal oposta à estrutura psicológica pela qual transitoriamente se definem.” (cap. 21)

Análise — extensão compatível, não nova divergência

As duas teses não contradizem Kardec. LE q. 202 diz que ao Espírito “isso pouco lhe importa” — o que descreve a regra geral (a alternância é pedagógica e não preferencial). Emmanuel descreve cenários particulares dentro desse quadro: certos casos em que, por reparação ou missão, a escolha do sexo deixa de ser indiferente. A relação é de gênero/espécie, não de contradição.

A diferença com Denis é qualitativa: Denis estigmatiza quem mudou; Emmanuel explica e dignifica. Onde Denis usa “natureza” em chave moralizada (paralela a Paulo em Rm 1:26–27), Emmanuel a usa em chave evolutiva — a “natureza” sexual humana é bissexual, sedimentada por milênios. Essa diferença é exatamente o que a tríade kardequiana (LE q. 200–202) prevê e autoriza.

Vocabulário datado de 1970

O cap. 21 abre identificando a homossexualidade como “também hoje chamada transexualidade, em alguns círculos de ciência” — equiparação terminológica que confunde fenômenos hoje reconhecidos como distintos (orientação sexual × identidade de gênero). A substância pastoral do capítulo (dignidade, igualdade de respeito, recusa da patologização) permanece atual; o vocabulário precisa de tradução. Para a sistematização do capítulo no contexto da obra, ver sexualidade-em-emmanuel.

Status

A divergência permanece aberta por causa de Denis (e da estrutura paulina). Emmanuel é registrado aqui como inversão pastoral que reforça a leitura kardequiana e neutraliza, na tradição espírita brasileira, o vetor estigmatizante deniseano. Casa espírita que precise de referência interna sobre o tema pode citar diretamente Vida e Sexo cap. 21 sem necessidade de recorrer a autores fora da tradição.

Extensão: Joanna de Ângelis (Encontro com a Paz e a Saúde, 2007)

A ingestão de [[wiki/obras/encontro-com-a-paz-e-a-saude|Encontro com a Paz e a Saúde]] (LEAL, 2007 — vol. 14 da Série Psicológica, comemorativo do Sesquicentenário do LE) acrescenta o quarto e mais explícito registro da tradição espírita brasileira sobre o tema, com caução clínica contemporânea.

Despatologização explícita com referência à OMS

“Constatado que o homossexualismo não tem natureza patológica, nem é impositivo neuronal, conforme os estudos de nobres neurocientistas da atualidade, reconhecida a tese pela Organização Mundial de Saúde, podemos afirmar, sim, que se encontra geneticamente assinalando alguns neurônios, de forma que a produção de hormônios seja compatível com as heranças espirituais do passado, sempre as grandes delineadoras do presente e do futuro, ou com as necessidades evolutivas.” [[obras/encontro-com-a-paz-e-a-saude|(Joanna de Ângelis / Divaldo, Encontro com a Paz e a Saúde, cap. 8)]]

Recusa explícita do registro cármico-punitivo

Distinção doutrinariamente significativa em relação à tese reparativa que Emmanuel registra como um dos dois cenários possíveis em Vida e Sexo cap. 21:

“O espírito progride viajando através de ambas as polaridades, masculina e feminina, facultando que, na mudança de uma para outra, por necessidade de progresso, as marcas (arquétipos) da existência anterior fixem-se na constituição atual, sem nenhum caráter de natureza cármica, punitiva, como pretendem alguns estudiosos, ou por efeito da necessidade de retificação de erros anteriormente praticados, vivenciando novas experiências iluminativas.” (cap. 8)

Análise — refinamento, não nova divergência

Joanna não contradiz Kardec — opera no quadro de LE q. 200–202 (sexo é atributo do organismo, não do Espírito). Refina Emmanuel: onde Emmanuel ofereceu duas possibilidades (reparativa ou missionária) sem prescrever uma sobre a outra, Joanna recua da leitura cármico-punitiva e fixa o quadro em alternância evolutiva dos arquétipos anima/animus, com o critério moral incidindo sobre a conduta, não sobre a orientação. A formulação é coerente com a posição de André Luiz em Sexo e Destino (1963) — “a alma reencarna, nessa ou naquela circunstância, para melhorar e aperfeiçoar-se e nunca sob a destinação do mal” — e ancora-se na neurociência contemporânea sem reduzir-se a ela.

Arco completo da tradição espírita brasileira

AutorAnoPosiçãoVocabulário
Léon Denis1908Estigma — mudança de sexo “inútil e perigosa”; pessoas “anormais""Viragos”, “extraviados”
André Luiz / Waldo Vieira1963Dignidade reencarnatória ante a Justiça Divina”Irmãos em condições inversivas”
Emmanuel1970Dignidade pastoral; bissexualidade adquirida; teses reparativa e missionária”Irmãos em experiência”
Joanna de Ângelis2007Despatologização explícita (caução OMS); recusa do registro punitivo”Heranças espirituais”; “necessidades evolutivas”

Para a sistematização completa da doutrina joanniana sobre sexualidade (oito eixos), ver sexualidade-em-joanna-de-angelis.

Conceitos relacionados

Fontes

  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, q. 200–202. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. O Céu e o Inferno, 2ª parte, cap. I — “O Passamento”, diálogo com o Sr. Sanson, q. 11. Trad. Manuel Quintão. FEB.
  • Denis, Léon. O Problema do Ser e do Destino, cap. 13 — “As Vidas Sucessivas. A Reencarnação e suas Leis”. Trad. Homero Dias de Carvalho. CELD, 2011.
  • Bíblia Sagrada (ACF). Epístola aos Romanos, 1:26–27.
  • XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo (André Luiz). Sexo e Destino, Parte 2, cap. 5. Rio de Janeiro: FEB, 1963. Edição: sexo-e-destino.
  • XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). Vida e Sexo, cap. 21 — “Homossexualidade”. Rio de Janeiro: FEB, 1970. Edição: vida-e-sexo.