Egoísmo
Vício capital que o Espiritismo aponta como a “chaga da sociedade” e o maior obstáculo ao progresso moral da humanidade. Consiste em tudo referir a si mesmo, sacrificando o interesse alheio ao próprio. É o oposto da caridade e a raiz da maioria dos males sociais.
Ensino de Kardec
Diagnóstico espiritual
Os Espíritos superiores são enfáticos ao apontar o egoísmo como o obstáculo principal ao reinado do bem na Terra:
“Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, [o Espiritismo] encaminhará os homens para a verdadeira solidariedade. Do egoísmo nascem todos os vícios; da caridade, todas as virtudes.” (LE, Conclusão, item V)
O egoísmo é mencionado como “barreira erguida entre o homem e Deus”, junto ao orgulho e à ambição (LE, Parte 2, cap. I, Introdução).
Egoísmo e perfeição moral
Na escala moral descrita por Kardec, o egoísmo é incompatível com a perfeição. A última seção da Parte 3 do LE trata das virtudes e dos vícios e dedica atenção especial ao egoísmo como principal entrave ao progresso:
“Os Espíritos Bons só dispensam assistência aos que servem a Deus com humildade e desinteresse e repudiam os que se servem das coisas altas para exaltar-se.” (LE, Parte 2, cap. I, Introdução)
O antídoto: a caridade
A caridade — em pensamentos, palavras e ações — é o remédio para o egoísmo. Onde há caridade verdadeira, não há espaço para o egoísmo; e onde reina o egoísmo, “só se encontram a iniquidade, o ódio implacável e os castigos sem remissão” (LE, Parte 2, cap. I, Introdução).
Aplicação prática
O combate ao egoísmo é trabalho diário e progressivo. Em palestras, convém lembrar que o egoísmo não é apenas a avareza material, mas todo movimento interior que coloca o “eu” acima do próximo — na família, no trabalho, nos relacionamentos. O Espiritismo convida ao autoexame constante: “Fez o bem que podia? Sacrificou algum interesse em favor do próximo?” (LE, Conclusão, item III).
Na Viagem Espírita em 1862
Kardec apresenta o egoísmo como consequência direta do materialismo e como obstáculo a toda reforma social:
“Ao negar a vida futura, o materialismo suprime o fundamento da responsabilidade moral: se nada sobrevive à morte, a noção de justiça perde sentido e o egoísmo se torna regra lógica.” (síntese do Discurso II)
A caridade é a antítese do egoísmo: “Uma diz: Para vós em primeiro lugar, para mim depois; e o outro: Para mim antes, para vós se sobrar.” Kardec demonstra que os sistemas utópicos de reforma social fracassam precisamente por não atacarem o egoísmo pela raiz: “Sem a caridade, não há instituição humana estável.”
Em Hammed — As Dores da Alma
No tema 12 de As Dores da Alma (“Egoísmo”), Hammed comenta LE q. 917 (“Qual o meio de destruir-se o egoísmo?”) e q. 882 (direito de defender os bens), tratando o egoísmo como uma das 21 dores-da-alma — processo psicológico em desalinho, não culpa absoluta. Destaca a vaidade como “filha legítima do egoísmo” e a mesquinhez tanto como acúmulo de posses quanto como “refreamento de sentimentos”. O antídoto prático proposto é a descentralização do “eu” por prática cotidiana de partilha e de compaixão, coerente com a tese kardecista de que a caridade é o único caminho de superação real do egoísmo.
Páginas relacionadas
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Nas Obras Póstumas
Kardec dedica toda uma seção ao egoísmo e ao orgulho como causas e raízes dos males sociais: “A causa do egoísmo está na concentração dos pensamentos sobre a vida corpórea. […] Naquele que nada vê adiante de si, atrás de si, nem acima de si, o sentimento da personalidade sobrepuja.” A preexistência e a reencarnação são apresentadas como os antídotos: provam que todos os Espíritos saem iguais das mãos do Criador, que as desigualdades são transitórias, e que “nenhum chegando ao termo senão por seus esforços, o princípio da igualdade é um princípio de justiça e uma lei da Natureza” (OPE, “O egoísmo e o orgulho”).
Na seção sobre liberdade, igualdade e fraternidade, Kardec demonstra que o egoísmo é o inimigo direto da fraternidade: “A fraternidade diz: Um por todos e todos por um. O egoísmo diz: Cada um por si” (OPE, “Liberdade, igualdade, fraternidade”).
Fontes
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte 2, cap. I (Introdução); Parte 3, cap. XII, q. 893–919; Conclusão, itens III e V. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Caps. XI–XV. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Kardec, Allan. Obras Póstumas, “O egoísmo e o orgulho” e “Liberdade, igualdade, fraternidade”. FEB.
- ESPÍRITO SANTO NETO, Francisco do (Hammed). As Dores da Alma. 8ª ed. Catanduva: Boa Nova, ago/2000. Tema “Egoísmo” (LE q. 882, q. 917).