Geração nova

Definição

Designação usada por Kardec para o conjunto de Espíritos mais adiantados que encarnam na Terra em substituição gradual aos obstinados no mal, protagonizando a transição do planeta para mundo de regeneração. Não se trata de uma nova geração corpórea, mas de uma nova geração de Espíritos.

“Muito menos, pois, se trata de uma nova geração corpórea, do que de uma nova geração de Espíritos.” (Gênese, cap. XVIII, item 27)

Ensino de Kardec

Processo gradual, não catastrófico

“A atual desaparecerá gradualmente e a nova lhe sucederá do mesmo modo, sem que haja mudança alguma na ordem natural das coisas” (Gênese, cap. XVIII, item 27). Em cada nascimento, onde antes encarnaria “um Espírito atrasado e inclinado ao mal”, virá “um Espírito mais adiantado e propenso ao bem”.

Caracteres da nova geração

“Cabendo-lhe fundar a era do progresso moral, a nova geração se distingue por inteligência e razão geralmente precoces, juntas ao sentimento inato do bem e a crenças espiritualistas, o que constitui sinal indubitável de certo grau de adiantamento anterior.” (Gênese, cap. XVIII, item 28)

Não será composta exclusivamente de Espíritos eminentes, mas de Espíritos que “já tendo progredido, se acham predispostos a assimilar todas as ideias progressivas e aptos a secundar o movimento de regeneração” (Gênese, cap. XVIII, item 28).

Caracteres da geração que parte

“A revolta contra Deus, pelo se negarem a reconhecer qualquer poder superior aos poderes humanos; a propensão instintiva para as paixões degradantes, para os sentimentos antifraternos de egoísmo, de orgulho, de inveja, de ciúme; enfim, o apego a tudo o que é material” (Gênese, cap. XVIII, item 28).

Nem todos os retardatários são excluídos

“Muitos, ao contrário, aí voltarão, porquanto muitos há que o são porque cederam ao arrastamento das circunstâncias e do exemplo. Nesses, a casca é pior do que o cerne” (Gênese, cap. XVIII, item 29). Uma passagem pelo mundo espiritual basta para abrir-lhes os olhos: poderão retornar “com ideias inatas de fé, tolerância e liberdade” (Gênese, cap. XVIII, item 32).

Analogia do regimento

Kardec compara a humanidade a um regimento composto de homens turbulentos. Substituídos gradualmente por bons soldados, o regimento se transforma: “A boa ordem terá sucedido à desordem” (Gênese, cap. XVIII, item 31).

Imagens joaninas da geração nova

O Apocalipse articula em vocabulário figurado a mesma realidade que Kardec descreve em Gênese cap. XVIII como “geração nova”. Três imagens são especialmente convergentes:

  • Os “selados” na testa (Ap 7:2–4) — antes das pragas, o anjo “selado do Deus vivo” marca “os servos do nosso Deus” “nas suas testas”. O número simbólico (144 mil = 12×12×1000, plenitude do povo de Deus) descreve alegoricamente o conjunto de Espíritos comprometidos com o bem antes da prova — perfeitamente compatível com a “predisposição interior” que Kardec atribui à geração nova (Gênese cap. XVIII, item 28: “intelegência e razão geralmente precoces, juntas ao sentimento inato do bem”).
  • A multidão das vestes brancas vinda da grande tribulação (Ap 7:9, 14) — “uma multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas” que “vieram da grande tribulação, e lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro”. Em chave espírita: o conjunto dos Espíritos que atravessaram as provas da transição planetária e se mantiveram fiéis à moral do Cristo — convergência total com a descrição da geração nova.
  • A “primeira ressurreição” (Ap 20:5–6) — “sobre estes não tem poder a segunda morte; mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele mil anos”. Não é evento cosmológico literal: é alegoria do despertar moral dos Espíritos que aderiram ao bem antes de tempo, exatamente o que Gênese cap. XVIII chama de “Espíritos predispostos a assimilar todas as ideias progressivas” (item 28).

Confirmação metodológica: a leitura apocalíptica das passagens é alegórica, conforme o gênero literário; a leitura kardequiana traduz as imagens em vocabulário operacional da transição planetária (Gênese cap. XVIII; ver transicao-planetaria e nova-jerusalem).

Aplicação prática

O conceito de geração nova oferece chave de leitura para fenômenos sociais observáveis: crianças e jovens com precocidade moral e intelectual, sensibilidade espiritual inata, aversão instintiva à violência. Para o espírita, reconhecer esses sinais é motivo de esperança fundamentada, não de messianismo.

Preparação na Revista Espírita

A doutrina da geração nova foi construída em camadas ao longo de três anos da Revista Espírita, antes de receber sua formulação canônica em Gênese cap. XVIII (1868):

1. RE mai/1865 — Mesmer, “Imigração de Espíritos superiores para a Terra” (comunicação de 07/10/1864, médium Sr. Delanne) anuncia: “Falar-vos-ei esta noite das imigrações de Espíritos adiantados que vêm encarnar-se em vossa Terra. Já esses novos mensageiros tomaram o bastão de peregrino; eles já se espalham aos milhares em vosso globo […] São eles que se tornarão os sustentáculos da geração futura.” É a primeira comunicação programática sobre o tema (ver revista-espirita-1865).

2. RE out/1866 — “Os tempos são chegados” + “Instruções dos Espíritos sobre a regeneração da humanidade” (médiuns Srs. M e T em sonambulismo extático espontâneo, sem memória ao despertar) compõem o lugar canônico da formulação completa da doutrina, e entram integralmente em Gênese cap. XVIII (1868). Articulam:

  • Tese do fim do mundo moral (não material): “Não é, pois, o fim do mundo material que se prepara, mas o fim do mundo moral; é o velho mundo, o mundo dos preconceitos, do egoísmo, do orgulho, do fanatismo que se esboroa. Cada dia leva consigo alguns fragmentos.” (RE out/1866).
  • Mecanismo da emigração: Espíritos retardatários cessam de encarnar na Terra, sendo enviados a mundos inferiores adequados ao seu grau; em seu lugar encarnam Espíritos mais adiantados. “Tudo se passará, pois, exteriormente, como de hábito, com uma única diferença, mas essa diferença é capital: Uma parte dos Espíritos que aí encarnavam não mais encarnarão. Numa criança que nascer, em vez de um Espírito atrasado e votado ao mal que ali encarnaria, será um Espírito mais adiantado e dedicado ao bem.”
  • Não é extermínio: a maioria dos retardatários volta após a desencarnação, instruída pelos guias e melhorada pela contemplação. “Por essa emigração de Espíritos não se deve entender que todos os Espíritos retardatários serão expulsos da Terra e relegados a mundos inferiores. Ao contrário, muitos aqui voltarão, porque muitos cederam ao arrastamento das circunstâncias e do exemplo; neles a casca era pior que o cerne.”
  • Quatro marcas distintivas dos Espíritos novos: (1) inteligência precoce; (2) fé inata raciocinada (não cega) — “a fé raciocinada, que esclarece e fortalece, que os une e os confunde num comum sentimento de amor a Deus e ao próximo”; (3) intuições espiritualistas; (4) tendência espontânea à fraternidade.
  • Sinais antecedentes: aumento dos suicídios (até em crianças) e da loucura, como agonia da geração que se extingue: “E como se a destruição não marchasse bastante depressa, ver-se-ão os suicídios multiplicando-se numa proporção incrível, até entre as crianças. A loucura jamais terá ferido um maior número de homens que antes da morte serão riscados do número dos vivos. São estes os verdadeiros sinais dos tempos.”
  • Anúncio da arte espírita futura: “Já vos foi dito que haveria um dia uma arte espírita, como houve a arte pagã e a arte cristã, e é uma grande verdade, porque os maiores gênios nele se inspirarão.”

3. Gênese cap. XVIII (1868) sistematiza definitivamente a doutrina, citando expressamente a comunicação dos Srs. M e T como sua fonte direta.

A cronologia mostra a lenta maturação do conceito: anunciado em 1864 (Mesmer), formulado completamente em 1866 (Os tempos são chegados), sistematizado em 1868 (Gênese). É um dos casos mais claros do método espírita descrito por Kardec: “Os Espíritos não nos vêm trazer esta ciência, como nenhuma outra, já pronta. Eles nos põem no caminho, fornecem-nos os materiais e a nós cabe estudá-los, observá-los, analisá-los, coordená-los.”

Na Viagem Espírita em 1862

Kardec observa in loco a formação de uma geração espírita: crianças educadas nos princípios espíritas demonstram raciocínio precoce, docilidade e respeito filial. Projeta que essas crianças educarão seus filhos nos mesmos princípios, enquanto “desaparecerão os velhos preconceitos com as velhas gerações” — confirmando pelo exemplo prático o que A Gênese ensina em termos mais abstratos.

Ver evangelizacao-infantojuvenil, viagem-espirita-em-1862.

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Fontes

  • Kardec, Allan. A Gênese, cap. XVIII, itens 27–35. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. “Imigração de Espíritos superiores para a Terra” (comunicação de Mesmer, 07/10/1864). Revista Espírita, ano 1865, maio. Edição: 05-maio.
  • Kardec, Allan. “Os tempos são chegados” + “Instruções dos Espíritos sobre a regeneração da humanidade”. Revista Espírita, ano 1866, outubro. Edição: 10-outubro.