Parábola do fariseu e do publicano
Definição
Parábola narrada por Jesus (Lucas 18:9–14) dirigida “a uns que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam os outros”. Dois homens sobem ao templo para orar: um fariseu, que se exalta diante de Deus enumerando as próprias virtudes; e um publicano, que reconhece sua condição de pecador e apenas pede misericórdia. Jesus declara que foi o publicano — e não o fariseu — quem desceu justificado para sua casa. Kardec comenta extensamente a parábola no capítulo VII do ESE, como retrato exemplar da humildade cristã oposta ao orgulho espiritual.
Texto da parábola
“E disse também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam os outros: Dois homens subiram ao templo, para orar; um, fariseu, e o outro, publicano.” (S. Lucas, 18:9–10)
“O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo.” (S. Lucas, 18:11–12)
“O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” (S. Lucas, 18:13)
“Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado.” (S. Lucas, 18:14)
Ensino de Kardec
Kardec analisa esta parábola no capítulo VII do ESE (“Bem-aventurados os pobres de espírito”), item 9 (“O orgulho e a humildade”), e retoma suas implicações no capítulo X (itens 7–8) e no capítulo XXVIII, dedicado à prece:
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O orgulho é o maior obstáculo moral. O fariseu cumpre exteriormente a lei — jejua, paga os dízimos, evita os vícios grosseiros — mas corrompe tudo pelo orgulho espiritual. Ao agradecer a Deus por não ser “como os demais homens”, faz da própria virtude motivo de desprezo pelo próximo. Kardec ensina que o orgulho é um dos vícios mais tenazes do Espírito, porque se disfarça de virtude e se alimenta das próprias boas obras (ESE, cap. VII, item 9).
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A verdadeira humildade reconhece a própria pequenez diante de Deus. O publicano, ciente de suas faltas, não ousa sequer levantar os olhos; apenas pede misericórdia. Essa prece breve e sincera é eficaz precisamente porque nasce da consciência honesta de si mesmo. Kardec observa que a humildade não é abatimento servil, mas lucidez — ver-se como se é, sem adornos nem autoengano (ESE, cap. VII, item 9).
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“Qualquer que se exalta será humilhado; e qualquer que se humilha será exaltado” (Lc 18:14). Kardec destaca esta sentença como lei moral universal, ecoada também em Mt 23:12 e Lc 14:11. A justiça divina reequilibra, na vida presente ou futura, todas as pretensões indevidas do orgulho. O Espírito que se crê superior aos outros prepara para si humilhações pedagógicas; aquele que reconhece sinceramente sua condição avança.
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A parábola é chave para entender a prece (ESE, cap. XXVIII). A prece vã é a do fariseu: louvação de si mesmo travestida de adoração, pedido sem reconhecimento das próprias faltas, discurso voltado para os ouvidos humanos. A prece eficaz é a do publicano: humilde, sincera, nascida do coração contrito. Deus não se move pela eloquência nem pela quantidade de palavras, mas pela disposição interior de quem ora.
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O orgulho espiritual é obstáculo maior que o pecado confesso. Kardec aponta no cap. X (itens 7–8) que o pecador que reconhece suas faltas já está no caminho da reforma íntima; o orgulhoso que se julga justo permanece cego, incapaz de progredir porque nada vê em si a corrigir. Por isso publicanos e pecadores arrependidos precedem, no reino dos céus, os fariseus que se julgam irrepreensíveis.
Aplicação prática
A parábola é espelho permanente para o estudante da Doutrina. O próprio conhecimento espírita pode tornar-se armadilha de orgulho quando nos leva a comparar-nos com os que “ainda não compreenderam”, em vez de corrigir-nos a nós mesmos. Antes de cada prece, de cada estudo, de cada atividade na casa espírita, convém lembrar o publicano: colocar-se em silêncio diante de Deus, reconhecer as próprias faltas, pedir misericórdia e forças para progredir. Julgar menos ao próximo e mais a si mesmo é exercício diário de humildade. Quando a prece se torna formalidade ou autoelogio disfarçado, perde eficácia; quando nasce da consciência sincera das próprias limitações, abre o coração à influência dos bons Espíritos.
Páginas relacionadas
- humildade · orgulho · prece
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Fontes
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. VII (“Bem-aventurados os pobres de espírito”), item 9 (“O orgulho e a humildade”). Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. X (“Bem-aventurados os que são misericordiosos”), itens 7–8. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XXVIII (“Coletânea de preces espíritas”). Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Bíblia Sagrada, tradução Almeida Corrigida Fiel (ACF). S. Lucas, 18:9–14.