Parábola dos talentos
Definição
Parábola narrada por Jesus sobre o senhor que, ao partir em viagem, confia talentos a três servos. Ensina que todos os dons recebidos de Deus — faculdades, bens, inteligência — devem ser empregados com utilidade. Kardec a analisa no capítulo XVI do ESE.
Texto da parábola
“Um homem, partindo para longe, chamou os seus servos e lhes entregou os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual segundo a sua capacidade; e logo partiu.” (S. Mateus, 25:14–15)
Os dois primeiros servos negociaram com os talentos e os duplicaram. O terceiro cavou um buraco na terra e escondeu o dinheiro de seu senhor. Quando o senhor retornou, elogiou os dois primeiros: “Servo bom e fiel, sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei.” Ao terceiro, que devolveu apenas o que recebera, disse: “Servo mau e preguiçoso! […] Tirem-lhe o talento e deem àquele que tem dez.” (S. Mateus, 25:20–28)
Ensino de Kardec
Kardec interpreta os talentos em sentido amplo (ESE, cap. XVI, item 9):
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Os talentos representam tudo aquilo que Deus concede ao homem: riquezas materiais, inteligência, saúde, habilidades, posição social, tempo de vida. Nada disso pertence ao homem em definitivo; é um depósito de que deverá prestar contas.
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Aquele que enterra seus talentos — isto é, que não emprega suas faculdades e recursos em proveito do próximo — será responsabilizado. Não basta não fazer o mal; é preciso fazer o bem ativamente. O servo não roubou nem desperdiçou: simplesmente não fez nada. E isso bastou para ser censurado.
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A parábola ensina a utilidade providencial da riqueza: quando bem empregada, a riqueza é instrumento de progresso coletivo. Quando entesourada por egoísmo ou dissipada em vaidades, torna-se fonte de responsabilidade agravada.
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Cada um recebe “segundo a sua capacidade” — o que reforça o princípio da justiça divina. Deus não exige de ninguém além do que lhe deu. Mas exige que se faça render o que foi confiado (LE, q. 928–929).
Aplicação prática
A parábola desafia a inércia e o comodismo. No contexto espírita, ela nos lembra de que cada encarnação traz consigo um conjunto de recursos — materiais e espirituais — que devem ser postos a serviço do bem. Quem tem instrução, que ensine; quem tem saúde, que trabalhe; quem tem recursos, que partilhe; quem tem mediunidade, que a exerça com caridade. Não há talento pequeno demais para ser útil, nem posição humilde demais para produzir frutos. O essencial é não enterrar o que se recebeu.
Leitura junguiana de Joanna de Ângelis
Em Em Busca da Verdade (LEAL, 2009 — Série Psicológica vol. 15), a parábola dos talentos abre o cap. 7 — A possível saúde integral (subseções: A parábola dos talentos · A conquista do Si · Binômio saúde-doença) e é relida em chave junguiana. Joanna parte de um diagnóstico das paradoxias contemporâneas da saúde — anorexia e bulimia, fast foods, cirurgias bariátricas eletivas, retirada de costelas em busca da silhueta-Barbie, gurus psicologicamente enfermos — para mostrar que a inutilidade dos talentos recebidos somatiza-se em adoecimento individual e coletivo: a parábola é, hoje, manual de saúde integral, não exortação moral abstrata.
Os talentos, nessa leitura, são aptidões adormecidas no Self à espera de despertamento; o servo que enterra o talento é o ego paralisado pelo medo da sombra, incapaz de pôr em circulação o capital recebido. A leitura permanece convergente com Kardec em ESE cap. XVI item 9 — a inutilidade não é virtude, é falta moral —, mas adiciona a tese psicológica de que o talento “enterrado” cristaliza-se como conflito interno: o capital não posto em circulação no plano moral somatiza, deprime, vampiriza.
A conquista do Si (segunda subseção do capítulo) opera o binômio saúde-doença como gradiente da integração ego↔Self: a doença não é fatalidade, é convite à interiorização — e os talentos despertos são a moeda dessa integração. O tédio existencial, a depressão e os transtornos somáticos contemporâneos são, todos, formas modernas de “esconder o talento na terra”; a saúde integral é o reverso desse gesto — pôr a render, no plano moral e psíquico, o que foi confiado pelo Pai.
Páginas relacionadas
- desapego-dos-bens-terrenos · progresso-espiritual · livre-arbitrio
- caridade · lei-do-trabalho
- evangelho-segundo-o-espiritismo
Fontes
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVI (“Não se Pode Servir a Deus e a Mamon”), item 9. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Novo Testamento. S. Mateus, 25:14–30.
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, q. 928–929. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Em Busca da Verdade. Salvador: LEAL, 2009. Série Psicológica vol. 15. Cap. 7 (A possível saúde integral — leitura junguiana dos talentos como aptidões adormecidas no Self).