Anjos

Segundo o Espiritismo, os anjos nao sao seres criados a parte, dotados de perfeicao desde a origem, mas Espiritos que atingiram o grau supremo de purificacao pelo merito de seu proprio trabalho ao longo de sucessivas existencias. “Nao ha na criacao seres privilegiados” --- todos percorrem o mesmo caminho (C&I, 1a parte, cap. VIII, item 12).

Ensino de Kardec

Anjos segundo a Igreja

Kardec apresenta a doutrina oficial da Igreja, extraida da pastoral do cardeal Gousset (1864) e do Concilio de Latrao. Segundo essa visao, os anjos sao:

  • Seres puramente espirituais, anteriores e superiores a humanidade;
  • Criaturas privilegiadas, votadas a bem-aventuranca suprema desde sua formacao;
  • Dotados, por sua propria natureza, de todas as virtudes e conhecimentos, sem ter feito nada para adquiri-los;
  • Distribuidos em tres hierarquias (Serafins, Querubins, Tronos; Dominacoes, Virtudes, Potestades; Principados, Arcanjos, Anjos da Guarda);
  • Puros Espiritos sem mistura com a materia, intermediarios entre Deus e os homens (C&I, 1a parte, cap. VIII, itens 1-2).

A Igreja ve tres ordens na criacao: a criatura espiritual (anjos), a criatura humana (almas unidas a corpos), e a criatura corporal (materia). Um plano “majestoso e completo, como convinha a sabedoria eterna” (C&I, 1a parte, cap. VIII, item 2).

Refutacao de Kardec

Kardec levanta diversas objecoes a essa doutrina:

  1. Falta de unidade. Entre os tres termos (espiritual, humano, corporal), nao ha ligacao necessaria --- sao tres criacoes distintas, com solucao de continuidade, ao passo que na natureza tudo se encadeia numa admiravel lei de unidade (C&I, 1a parte, cap. VIII, item 3).

  2. Contradicao com a cronologia biblica. Se a terra e os homens foram criados ha seis mil anos, o que faziam os anjos encarregados da humanidade durante a eternidade anterior? (C&I, 1a parte, cap. VIII, item 6).

  3. A alma pode progredir? Se a alma, apos a morte, nao adquire mais nada, a alma de uma crianca ou de um ignorante permaneceria eternamente no estado em que se encontrava ao morrer --- uma nulidade eterna. Se ela adquire novos conhecimentos, pode progredir. Se progride, onde se detem o progresso? Nao ha razao para que nao atinja o grau dos anjos (C&I, 1a parte, cap. VIII, item 8).

“Se ela pode chegar la, nao havia nenhuma necessidade de criar seres especiais e privilegiados, isentos de todo labor, e gozando da bem-aventuranca eterna sem ter feito nada para conquista-la.” (C&I, 1a parte, cap. VIII, item 8)

  1. Anjos como cortesaos divinos. Comparar a grandeza de Deus ao fausto dos soberanos terrestres, cercados de milhoes de adoradores prosternados, e rebaixar a Divindade. O que faz Deus verdadeiramente grande e sua bondade e sua justica, nao uma corte celestial (C&I, 1a parte, cap. VIII, item 9).

Anjos segundo o Espiritismo

A revelacao espirita confirma que existem seres dotados de todas as qualidades atribuidas aos anjos, mas revela sua verdadeira natureza e origem:

“As almas ou Espiritos sao criados simples e ignorantes, ou seja, sem conhecimentos e sem consciencia do bem e do mal, mas aptos a adquirir tudo o que lhes falta; eles o adquirem pelo trabalho.” (C&I, 1a parte, cap. VIII, item 12)

O objetivo e a perfeicao, e e o mesmo para todos. Chegam la mais ou menos rapidamente em virtude de seu livre-arbitrio. Todos tem os mesmos graus a percorrer. Deus nao faz a porcao maior nem mais facil para uns do que para outros, porque, sendo justo, nao tem preferencia por nenhum (C&I, 1a parte, cap. VIII, item 12).

“Os anjos sao, pois, as almas dos homens chegadas ao grau de perfeicao que comporta a criatura, e gozando da plenitude da felicidade prometida.” (C&I, 1a parte, cap. VIII, item 13)

A alma, nas primeiras fases de sua existencia, carece de experiencia e e falivel. Cada passo errado e um atraso; ela sofre as consequencias e aprende a sua custa. Pouco a pouco desenvolve-se, aperfeiçoa-se e avanca na hierarquia espiritual, ate chegar ao estado de puro Espirito ou de anjo (C&I, 1a parte, cap. VIII, item 13).

A grande lei de unidade

A humanidade nao esta limitada a terra; ocupa inumeros mundos. Muito antes que a terra existisse, houve Espiritos encarnados em outros mundos que percorreram as mesmas etapas e chegaram ao objetivo. Por toda a eternidade, houve entao puros Espiritos --- mas perdendo-se sua existencia humanitaria no infinito do passado, e para nos como se eles sempre tivessem sido anjos (C&I, 1a parte, cap. VIII, item 14).

“Nao precisou, portanto, criar seres privilegiados, isentos de encargos; todos, antigos ou novos, conquistaram seus graus na luta e por seu proprio merito; todos, enfim, sao os filhos de suas obras.” (C&I, 1a parte, cap. VIII, item 15)

Base neotestamentaria direta — Hebreus

A leitura espirita dos anjos como Espiritos encontra ancoragem explicita no proprio Novo Testamento, no primeiro capitulo da Epistola aos Hebreus:

“Nao sao porventura todos eles espiritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hao de herdar a salvacao?” (Hb 1:14, ACF)

A passagem nomeia os anjos como espiritos (no plural, no mesmo plano ontologico dos demais Espiritos) e os define por funcao (ministrar, servir), nao por natureza criada a parte. E exatamente a leitura que C&I 1a parte cap. VIII articulara: os anjos sao Espiritos purificados em funcao de mediacao, nao casta cosmica separada.

Hebreus reforca a mesma leitura em 13:2:

“Nao vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, nao o sabendo, hospedaram anjos.” (Hb 13:2)

Eco de Abraao hospedando os tres visitantes (Gn 18): os “anjos” transitam entre os dois planos, podem manifestar-se na vida cotidiana sem que o homem perceba a origem espiritual do encontro — linguagem coerente com a acao dos bons Espiritos descrita em LE q. 459–466 e em LM sobre aparicoes e visitas espirituais.

E em Hb 12:22–23 a galeria celestial inclui “muitos milhares de anjos” ao lado dos “espiritos dos justos aperfeicoados” — expressao que confirma a continuidade entre as duas categorias, mais do que sua separacao rigida.

Aplicacao pratica

O tema dos anjos e central para palestras sobre a escala espirita e o destino do Espirito. A visao espirita democratiza a perfeicao: nao ha aristocracia espiritual, nao ha seres criados privilegiados. Todos partem do mesmo ponto e chegam ao mesmo objetivo pelo merito pessoal. Isso reafirma a justica de Deus e oferece esperanca a todos --- o mais imperfeito dos Espiritos possui em si a potencialidade do anjo.

Para estudos comparativos entre Espiritismo e Cristianismo tradicional, este capitulo e especialmente util, pois mostra que o Espiritismo nao nega a existencia dos anjos, mas explica sua origem de forma racional e compativel com os atributos divinos. A argumentacao de Kardec e logica e respeitosa, ideal para dialogos interreligiosos.

Paginas relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Ceu e o Inferno. 1a parte, cap. VIII. FEB.
  • Kardec, Allan. O Livro dos Espiritos. Parte 1a, cap. I. FEB.
  • Biblia Sagrada (ACF). Epistola aos Hebreus, 1:14; 12:22–23; 13:2. Ver epistola-aos-hebreus.