Revista Espírita — Ano de 1864
Sétimo volume da Revue Spirite, redigido por allan-kardec entre janeiro e dezembro de 1864. 96 artigos catalogados em doze fascículos mensais (a tabela mestra em revista-espirita estimava 135 — discrepância corrigida pela contagem real do raw baixado da Kardecpédia, que passou a ser o número adotado também na mestra). Ano da publicação de [[wiki/obras/evangelho-segundo-o-espiritismo|O Evangelho Segundo o Espiritismo]] (abril/1864, sob título original L’Imitation de l’Évangile selon le Spiritisme) e do artigo-manifesto sobre o controle universal do ensino dos Espíritos (abril/1864) — texto que o próprio Kardec citará em [[wiki/obras/genese|A Gênese]] cap. I, item 54 como matriz direta. Ano também da polêmica com Ernest Renan (dois artigos extensos, mai e jun/1864) sobre a Vie de Jésus (1863), do Suplemento ao capítulo das preces da Imitação do Evangelho (ago/1864) — Pai Nosso desenvolvido em VII partes —, do Discurso de abertura do 7º ano social da SPEE (1º/04/1864) e da primeira Sessão comemorativa do Dia dos Mortos na SPEE (02/11/1864). Aparição inaugural de camille-flammarion na Revista (resenha favorável à Pluralidade dos Mundos Habitados, out/1864).
“A única séria garantia está na concordância que existe entre as revelações espontâneas feitas por intermédio de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em diversas regiões. […] É essa unanimidade que faz caírem todos os sistemas parciais nascidos na origem do Espiritismo. […] Não é à opinião de um homem que eles se aliarão, é a voz unânime dos Espíritos. Não é um homem, nem nós mais que outro, que fundará a ortodoxia espírita; também não é um Espírito vindo impor-se a quem quer que seja: é a universalidade dos Espíritos, comunicando-se em toda a Terra, por ordem de Deus.” — Kardec, “Autoridade da doutrina espírita; controle universal do ensino dos Espíritos” (RE, abr/1864).
Dados bibliográficos
- Autor: allan-kardec
- Período de publicação: janeiro a dezembro de 1864 (12 fascículos mensais)
- Total de artigos: 96 (catalogados no raw; tabela mestra em revista-espirita estimava 135 — divergência registrada acima)
- Editora original: Bureaux de la Revue Spirite, Paris
- Página-mãe: revista-espirita — visão de conjunto dos 12 volumes (1858–1869)
- Volume anterior: revista-espirita-1862 (volume 1863 ainda não ingerido na wiki — gap registrado para futuro)
- Texto integral: 1864
- Fonte original online: Kardecpédia — Revista Espírita 1864
- Nível na hierarquia de autoridade: 2 — Kardec complementar.
Posição no projeto editorial
1864 é o ano do quarto pilar do Pentateuco. A publicação do ESE em abril/1864 (ainda sob o título original L’Imitation de l’Évangile selon le Spiritisme) consolida a parte moral da doutrina; a metade segunda do volume da Revista gira em torno da recepção do livro e da suplementação prática (preces matinais/noturnas pedidas por leitores → Pai Nosso desenvolvido em ago/1864; “Comunicação a propósito da Imitação do Evangelho” de dez/1864 endossando a obra pelo Espírito de Verdade).
Doutrinariamente, 1864 prepara em três direções as obras que virão e fixa duas peças metodológicas decisivas:
- Para [[wiki/obras/genese|A Gênese]] (1868): o artigo “Autoridade da doutrina espírita; controle universal do ensino dos Espíritos” (abr/1864) é matriz direta do cap. I (“Caráter da revelação espírita”) — Kardec o cita explicitamente em Gênese cap. I, item 54. A polêmica com Renan (mai + jun/1864) e a continuação do tratamento Apolônio prepararão também o cap. XV (“Os milagres do Evangelho”) quanto à recusa do milagre como prova de divindade.
- Para [[wiki/obras/ceu-e-inferno|O Céu e o Inferno]] (1865): a casuística de obsessão e cura mediúnica em quatro grandes desenvolvimentos — “Médiuns curadores” (jan/1864), “Caso Júlia, 2º artigo” (jan/1864), “Cura da jovem obsedada de Marmande” (jun/1864), “Novos detalhes sobre os possessos de Morzine” (ago/1864) — alimenta o material de comunicações pós-morte e da tipologia de Espíritos sofredores que será sistematizada em C&I.
- Para o próprio ESE em edições posteriores: o “Suplemento ao capítulo das preces da Imitação do Evangelho” (ago/1864) com a Oração Dominical desenvolvida entrará nas edições subsequentes do ESE (cap. XXVIII, “Coletânea de preces espíritas”).
A frente metodológica do volume é dupla e articulada: o controle universal como critério de verdade (jan + abr/1864, depois reforçado no Discurso do 7º ano social em mai/1864) e a recusa do materialismo como contexto interpretativo dos Evangelhos (refutação de Renan, mai + jun/1864).
Marcos cronológicos
| Mês | Marcos do fascículo |
|---|---|
| Janeiro | ”Aos assinantes da Revista espírita” (renovação); ⭐ “Estado do Espiritismo em 1863” — balanço programático: ataques violentos como sinal de força, multiplicação de grupos, La Ruche de Bordeaux e La Vérité de Lyon como aliados; ⭐ “Médiuns curadores” — instrução substantiva sobre a mediunidade-de-cura, com casos da tríade do 4º regimento de caçadores (Sra. P… afetada de hiperestesia, jovem epiléptico, segundo epiléptico hereditário) e comunicações inéditas de Mesmer e Paulo, apóstolo (Sociedade de Paris, 18/12/1863, médium Sr. Albert) sobre a distinção entre fluido animal e fluido espiritual; ⭐ “Um caso de possessão (Sra. Júlia, 2º artigo)” — relato da cura completa da moça obsediada por Fredegunda, modelo metodológico anti-obsessão (vontade + prece + perdão da obsessora + magnetização espírita; rejeição da crença demonomaníaca do magnetizador); “Palestras de além-túmulo”; “Inauguração de vários grupos”; “Perguntas e problemas”. |
| Fevereiro | ”O Sr. Home em Roma”; “Primeiras lições de moral da infância”; ⭐ “Um drama íntimo — Apreciação moral”; “O Espiritismo nas prisões”; “Variedades”; “Dissertações espíritas”. |
| Março | ⭐ “Notícias bibliográficas” (recepção pública dos livros espíritas); ⭐ “A perfeição dos seres criados” e “Sobre a não perfeição dos seres criados” — preparação do artigo sobre o controle universal de abr/1864 (resposta a comunicações apócrifas que diziam os Espíritos “perfeitos desde a criação”); “Médium pintor cego”; “A jovem obsedada de Marmande (Continuação)”; “Resumo da pastoral do Sr. Bispo de Strassburg” (registro adversário); ⭐ “Uma rainha médium”; “Participação espírita”. |
| Abril | ⭐⭐⭐ “Autoridade da doutrina espírita; controle universal do ensino dos Espíritos” — manifesto programático CENTRAL do volume e da metodologia kardequiana (citado pelo próprio Kardec em Gênese cap. I, item 54 como matriz direta; ver linha-de-força nº 2 abaixo); ⭐⭐⭐ “Resumo da lei dos fenômenos espíritas” — síntese em 23 itens da doutrina para iniciantes, depois publicada como opúsculo autônomo (ver resumo-da-lei-dos-fenomenos-espiritas); “Instruções dos Espíritos”; “Bibliografia”; “Notícia bibliográfica”; “Necrologia”. No mesmo mês: publicação do ESE sob o título original L’Imitation de l’Évangile selon le Spiritisme. |
| Maio | ”Correspondência” (Sociedades de Anvers e de Marselha); “Instruções dos Espíritos”; ⭐ “Teoria da presciência”; ⭐ “A vida de Jesus, de Renan” (1º artigo) — refutação extensa do livro de Ernest Renan (1863); leitura espírita da dedicatória à irmã Henriette como “verdadeira evocação”; demolição da tese de Jesus reduzido a “idealista sem noção da alma separada do corpo”; ⭐⭐ “Sociedade Espírita de Paris — Discurso de abertura do Sétimo ano social — A 1º de Abril de 1864” — reafirmação do controle universal como sufrágio universal dos Espíritos, política de reserva, “caridade para com todos, mesmo para com os inimigos” como única palavra de ordem; “A escola espírita americana”; “Notícia sobre o Espiritismo”; “Cursos públicos de Espiritismo em Lyon e Bordeaux”; “Instruções de Ciro a seus filhos no momento da morte”. |
| Junho | ⭐ “A vida de Jesus, pelo Sr. Renan (2º artigo)” — segunda parte da refutação; análise das passagens em que Renan apresenta Jesus como “ambicioso vulgar” cercado de “garotos alegres” e “filhas do prazer”; tese de Kardec: o materialismo de Renan o impede de compreender a obra espiritual de Jesus, “como um surdo julgando uma peça de música”; ⭐ “Cura da jovem obsedada de Marmande” — relato circunstanciado do Sr. Dombre, “curso de ensino teórico e prático” sobre desobsessão; ⭐ “Algumas refutações” — resposta à pastoral do Bispo de Langres (que classifica o Espiritismo entre as “conspirações satânicas”) e a um catecismo diocesano que ensinava o Espiritismo como “obra do diabo”, “um pacto com Satã” — réplica de Kardec articulando a recusa do sobrenatural; “Reclamação do padre Barricand”. |
| Julho | ”A religião e o progresso”; “O Espiritismo em Constantinopla”; ⭐ “Extraído do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro” — primeira menção substantiva ao Brasil na Revista; “Extraído do Progrés Colonial da Ilha Maurícia (28/03/1864)”; “Extraído da Revue Spirite d’Anvers sobre a cruzada contra o Espiritismo”; “Instruções dos Espíritos — O castigo pela luz”; “O Espiritismo na sua mais simples expressão — Edição russa”. |
| Agosto | ⭐⭐ “Novos detalhes sobre os possessos de Morzine” — continuação do estudo programático iniciado em 1862 sobre a obsessão coletiva na Alta Saboia; ⭐⭐⭐ “Suplemento ao capítulo das preces da Imitação do Evangelho” — atende ao pedido de leitores por uma prece para uso matinal e da noite; crítica decisiva às preces ininteligíveis com apoio em São Paulo (1Cor 14:11–17, “se eu oro numa língua que não compreendo, meu coração ora, mas meu entendimento fica sem fruto”); apresenta a Oração Dominical desenvolvida em VII partes comentadas que entrará nas edições subsequentes do ESE; “Questões e problemas — Destruição dos aborígines do México”; “Palestra de além-túmulo”; “Aviso”. |
| Setembro | ⭐ “Influência da música sobre os criminosos, os loucos e os idiotas” — proto-musicoterapia sob a luz da teoria fluídica; “O novo bispo de Barcelona”; “Instruções dos Espíritos — Os Espíritos na Espanha”; “Palestras de além-túmulo”; “Estudos morais — Uma família de monstros”; “Variedades — Um suicídio falsamente atribuído ao Espiritismo”. |
| Outubro | ⭐ “Notícias bibliográficas — A pluralidade dos mundos habitados pelo Sr. Camille Flammarion” — primeira aparição de camille-flammarion na Revista, resenha favorável (Flammarion, com 22 anos, será admitido na SPEE em 1865 e fará o discurso fúnebre de Kardec em 1869); ⭐ “A voz de além-túmulo” — fundação do jornal espírita de Bordeaux pelo Sr. Aug. Bez; “O sexto sentido e a visão espiritual”; “Transmissão do pensamento — Meu fantástico”; “O Espiritismo na Bélgica”; “Tiptologia rápida e inversa”; ⭐ “Um criminoso arrependido”; “Estudos morais”; “Variedades — Sociedade alemã dos achados de tesouros”. |
| Novembro | ”Um quadro Espírita na exposição de Antuérpia”; ⭐ “O Espiritismo é uma ciência positiva”; ⭐ “Uma lembrança de vidas passadas”; “Um criminoso arrependido (Continuação)”; “Palestras familiares de além-túmulo”; “Variedades”. |
| Dezembro | ”Periodicidade da Revista Espírita”; “Da comunhão do pensamento”; ⭐⭐ “Sessão comemorativa na sociedade de Paris” (Dia dos Mortos, 02/11/1864) — primeira sessão fúnebre coletiva institucional da SPEE, com prece + alocução do presidente + comunicações múltiplas (João Evangelista, Sanson, Hobach, Costeau, Lalouze, Aimée Brédard, Santo Agostinho); usa a “Oração Dominical desenvolvida” do mês de agosto; modelo permanente de sessão de finados espírita; ⭐ “Jobard e os médiuns mercenários — Notável exemplo de concordância” — caso operacional do controle universal: comunicação de uma sonâmbula apresentada como vinda de Jobard é submetida ao escrutínio da SPEE, que verifica unanimemente a inautenticidade; “Observações”; ⭐ “Luís-Henrique, o trapeiro”; “Considerações gerais”; “Necrologia — Morte do Sr. Bruneau”; “Variedades — Comunicação pelo avesso”; “Notícias bibliográficas”; ⭐ “Auto-de-fé de Barcelona” — anúncio da venda da fotografia do desenho do auto-de-fé (recordando o evento de 09/10/1861 — ver auto-de-fe-de-barcelona); ⭐ “Comunicação Espírita — A propósito da Imitação do Evangelho” (Bordeaux, mai/1864, Grupo de São João, médium Sr. Rul) — endosso espontâneo do ESE pelo Espírito de Verdade; “Subscrição em favor dos incendiados de Limoges”. |
Linhas-de-força do volume
1. Publicação do ESE (abril/1864) e a Comunicação do Espírito de Verdade
A publicação de [[wiki/obras/evangelho-segundo-o-espiritismo|O Evangelho Segundo o Espiritismo]] em abril/1864 (sob o título original L’Imitation de l’Évangile selon le Spiritisme) é o pano de fundo do volume inteiro. A Revista não dedica artigo de lançamento próprio (estilo Kardec — discrição editorial), mas todo o restante do ano gira em torno da recepção e suplementação do livro:
- Mai/1864 — Comunicação espírita do Espírito de Verdade obtida em Bordeaux pelo Grupo de São João (médium Sr. Rul) — endosso espontâneo do ESE: “Um novo livro acaba de aparecer. É uma luz mais brilhante que vem clarear a vossa marcha. Há dezoito séculos vim, por ordem de meu Pai, trazer a palavra de Deus aos homens de vontade. Essa palavra foi esquecida pela maioria, e a incredulidade, o materialismo vieram abafar o bom grão que eu tinha depositado em vossa Terra. Hoje, por ordem do Eterno, os bons Espíritos, seus mensageiros, vêm a todos os pontos da Terra fazer ouvir a trombeta retumbante.” (publicada em RE dez/1864). Kardec acompanha com observação metodológica importante: “assumimos menos responsabilidade pelos nomes quando pertencem a seres mais elevados” — não atesta a assinatura, mas reconhece “a elevação do pensamento, a nobreza e a simplicidade das expressões, a sobriedade da linguagem, a ausência de superfluidade”.
- Ago/1864 — Suplemento ao capítulo das preces (ver linha-de-força nº 5).
- Dez/1864 — Sessão comemorativa do Dia dos Mortos (ver linha-de-força nº 9), que usa a Oração Dominical desenvolvida do Suplemento.
2. Controle universal — manifesto programático (abril/1864)
O artigo “Autoridade da doutrina espírita; controle universal do ensino dos Espíritos” (RE abr/1864) é o texto metodológico mais importante do volume e talvez de toda a Revista. Kardec o cita explicitamente em [[wiki/obras/genese|A Gênese]] cap. I, item 54 como matriz direta. Pontos doutrinários decisivos:
a) O Espiritismo é doutrina sem fundador único. “Quis Deus que a nova revelação chegasse aos homens por uma via mais rápida e mais autêntica. Eis por que encarregou os Espíritos de levá-la de um a outro polo, manifestando-se por toda parte, sem dar a ninguém o privilégio exclusivo de ouvir a sua palavra. Um homem pode ser enganado, pode mesmo enganar-se, mas assim não poderia ser quando milhões de homens veem e ouvem a mesma coisa. […] Pode-se queimar livros, mas não se pode queimar os Espíritos.” — formulação que responde ao Auto-de-fé de Barcelona (1861) com argumento estrutural.
b) Critério canônico do controle universal. “A única séria garantia está na concordância que existe entre as revelações espontâneas feitas por intermédio de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em diversas regiões.” — texto-canônico citado em discernimento-dos-espiritos.
c) Posição não-autoritária de Kardec. “Tal a base em que nos apoiamos quando formulamos um princípio da doutrina. Não o damos como verdadeiro por estar em conformidade com as nossas ideias; não nos colocamos absolutamente como árbitro supremo da verdade, e a ninguém dizemos: ‘Crede nisto porque o dizemos.’ Nossa opinião, aos nossos olhos, não passa de uma opinião pessoal que pode ser justa ou falsa, pelo simples fato de não sermos mais infalível que qualquer outro. Também não é por que um princípio nos é ensinado que para nós é a verdade, mas porque recebeu a sanção da concordância.”
d) Anti-ortodoxia institucional. “Não é à opinião de um homem que eles se aliarão, é a voz unânime dos Espíritos. Não é um homem, nem nós mais que outro, que fundará a ortodoxia espírita; também não é um Espírito vindo impor-se a quem quer que seja: é a universalidade dos Espíritos, comunicando-se em toda a Terra, por ordem de Deus.” — passagem em que Kardec se exclui programaticamente de qualquer pretensão hierárquica.
e) Aplicação operacional: o artigo “Jobard e os médiuns mercenários — Notável exemplo de concordância” (dez/1864) opera o critério: uma sonâmbula apresenta comunicação atribuída a Jobard sobre cobrar consultas dos ricos para dar gratuitamente aos pobres; a SPEE submete a comunicação ao escrutínio coletivo e verifica unanimemente a inautenticidade. Caso-modelo do controle universal aplicado à fraude mediúnica de boa-fé.
Material que estrutura definitivamente discernimento-dos-espiritos e que será reproduzido em Gênese cap. I.
3. Resumo da lei dos fenômenos espíritas — síntese em 23 itens (abril/1864)
O segundo grande artigo de abr/1864 é o “Resumo da lei dos fenômenos espíritas” — instrução curta dirigida “sobretudo a pessoas que não possuem qualquer noção do Espiritismo”, em formato preâmbulo de sessão para “assistentes noviços”. Vinte e três itens cobrem: definição do Espiritismo (ciência + filosofia); natureza dos Espíritos (almas dos que viveram); tríplice constituição humana (corpo + perispírito + alma); morte como queda do envoltório grosseiro; mediunidade (variedades); aparições (modificação molecular do perispírito); recusa do maravilhoso; diversidade moral dos Espíritos; condições da reunião séria.
O texto é tão eficaz como introdução que será republicado posteriormente como opúsculo autônomo (ver resumo-da-lei-dos-fenomenos-espiritas) — caso de artigo da Revista que vira obra independente, ao lado de O Espiritismo em sua mais simples expressão (1862) e da separata Viagem espírita em 1862.
Passagens-chave:
- “A união da alma, do perispírito e do corpo material constitui o homem. A alma e o perispírito, separados do corpo, constituem o ser chamado Espírito.” (item 5) — fórmula canônica da tríplice constituição.
- “As manifestações espíritas, sejam de que natureza forem, nada têm de sobrenatural ou maravilhoso. São fenômenos que se produzem em virtude da lei que rege as relações entre o mundo visível e o invisível, lei tão natural quanto as da eletricidade, da gravitação, etc.” (item 15)
- “O Espiritismo é a ciência que nos dá a conhecer essa lei, como a mecânica nos dá a conhecer as do movimento e a óptica as da luz.” (item 15)
- “As reuniões desse gênero [futíleis e levianas] sempre fazem mais mal do que bem, porque afastam da doutrina mais gente do que atraem.” (item 21)
4. Polêmica com Renan — Vida de Jesus (mai + jun/1864)
A refutação à Vie de Jésus de Ernest Renan (1863) ocupa dois artigos extensos (RE mai e jun/1864) e é a polêmica anti-materialista mais sustentada do volume. O método de Kardec é cirúrgico:
a) Apreciação favorável da dedicatória à irmã Henriette. Renan abre o livro com uma dedicatória “À alma pura de minha irmã Henriette” (falecida em Biblos em 24/09/1861), em que diz: “Lembras-te, do seio de Deus onde repousas, daqueles longos dias e Ghazir, onde, só contigo, eu escrevia estas páginas inspiradas pelos lugares que acabáramos de percorrer? […] Revela-me, ó bom gênio, a mim que tu amavas, essas verdades que dominam a morte.” Kardec lê isso como profissão de fé espiritualista implícita e “verdadeira evocação”: “Não é a alma perdida nas profundezas do espaço […]; é o quadro da alma individual, com a lembrança de suas afeições e ocupações terrenas, voltando aos lugares que habitou, junto às pessoas amadas. O Sr. Renan não falaria assim a um mito, a um ser abismado no nada. Para ele, a alma de sua irmã está ao seu lado. […] Sem disso se dar conta, ele faz, como tantos outros, uma verdadeira evocação.” (RE mai/1864).
b) Demolição da tese central. Renan escreve: “Jesus não é um espiritualista, porque tudo para ele conduz a uma realização palpável. Ele não tem a menor noção de uma alma separada do corpo, mas é um idealista completo.” (Renan, Vie de Jésus, cap. VII, p. 128). Kardec retruca: “Concebe-se o Cristo, fundador da doutrina espiritualista por excelência, não acreditando na individualidade da alma, da qual não tem a menor noção e, por consequência, não crendo na vida futura? Se ele não é espiritualista, é materialista e, consequentemente, o Sr. Renan é mais espiritualista do que ele. Tais palavras não se discutem. Elas bastam para indicar o alcance do livro.” (RE jun/1864).
c) Tese metodológica. O materialismo confessado de Renan torna impossível qualquer leitura adequada dos Evangelhos: “Julgando uma obra espiritual, um materialista ou um panteísta é como um surdo julgando uma peça de música.” (RE jun/1864). Kardec acolhe a recepção crítica do livro pelos teólogos católicos (cita o Pe. Gratry) sem aderir ao católico — sua crítica é de natureza diferente: não defende a divindade dogmática, defende a leitura espiritual coerente.
d) Conexão com o ESE. A polêmica não é tangencial — ela ocorre no mesmo ano de publicação do ESE e funciona como defesa preventiva contra a redução materialista que estava capturando a opinião erudita francesa. Material que prepara o cap. XV de A Gênese (“Os milagres do Evangelho”).
5. Suplemento da Imitação — Pai Nosso desenvolvido (agosto/1864)
O “Suplemento ao capítulo das preces da Imitação do Evangelho” (RE ago/1864) responde a leitores que pediam “uma prece especial, para uso habitual, para a manhã e a noite”. Kardec explica que evitou no ESE o caráter litúrgico, mas atende ao pedido. Antes da Oração Dominical desenvolvida, expõe três princípios sobre a prece:
a) Crítica das preces ininteligíveis — apoiada em São Paulo:
“Se eu não entendo o que significam as palavras, serei um bárbaro para aquele a quem falo, e aquele que me fala será para mim um bárbaro. Se eu oro numa língua que não compreendo, meu coração ora, mas meu entendimento fica sem fruto.” (1 Coríntios 14:11, 14)
A passagem é mobilizada para rejeitar o uso litúrgico do latim pela Igreja Católica e o uso cabalístico do número de repetições (três, sete, nove). “Pensai ou não penseis no que dizeis, mas repeti a prece tantas vezes, que isto basta. Agora que o Espiritismo repele expressamente toda eficácia atribuída às palavras, aos signos e às fórmulas, a Igreja acusa-o de ressuscitar as velhas crenças supersticiosas.”
b) Critério da prece eficaz: “A principal qualidade da prece é ser clara, simples e concisa, sem fraseologia inútil, nem luxo de epítetos, que não passam de vestimentas de lantejoulas. Cada palavra deve ter o seu alcance, despertar um pensamento, mover uma fibra, numa palavra, deve fazer refletir.”
c) Pai Nosso como modelo de concisão: “O mais perfeito modelo de concisão, no caso da prece, é, sem contradita, a Oração dominical, verdadeira obra prima de sublimidade em sua simplicidade. Sob a mais reduzida forma, ela resume todos os deveres do homem para com Deus, para consigo mesmo e para com o próximo.” Mas a brevidade extrema obscurece o sentido profundo — daí a necessidade do desenvolvimento.
d) Oração Dominical desenvolvida em VII partes:
I. “Pai Nosso, que estais no Céu, santificado seja o Vosso nome” — Deus como Pai e Senhor; harmonia do Universo; rejeição da ingratidão. II. “Venha a nós o Vosso reino” — leis morais como caminho da felicidade humana; fim da incredulidade quando os homens praticarem as leis. III. “Seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu” — submissão como reconhecimento da sabedoria divina. IV. “O pão de cada dia dai-nos hoje” — pão material + pão espiritual; lei do trabalho como condição humana; aceitação das provas como expiação. V. “Perdoai as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores” — caridade como esquecimento e perdão das ofensas; “fazei que a morte não nos surpreenda com um desejo de vingança no coração”. VI. “Não nos abandoneis à tentação, mas livrai-nos do mal” — tese decisiva: “a causa primeira do mal está em nós, e os maus Espíritos apenas aproveitam nossas más inclinações viciosas, nas quais nos entretêm para nos tentar. Cada imperfeição é uma porta aberta à sua influência, ao passo que são impotentes e renunciam a toda tentativa contra os seres perfeitos. Tudo quanto podemos fazer para afastá-los será inútil, se não lhes opusermos uma vontade inquebrantável no bem e uma renúncia absoluta ao mal.” VII. “Assim seja” — submissão à sabedoria infinita; prece coletiva por amigos e inimigos.
Este texto entrará nas edições subsequentes do ESE, cap. XXVIII (“Coletânea de preces espíritas”), item 5. É o material citado na Sessão comemorativa do Dia dos Mortos (02/11/1864) — ver linha-de-força nº 9.
6. Discurso de abertura do 7º ano social da SPEE (1º/04/1864)
O manifesto institucional de 1º/04/1864 (publicado em RE mai/1864) é a continuação direta do discurso de 1862 do 5º ano. Pontos centrais:
a) Política de reserva consolidada. “O número dos membros ativos é, com efeito, uma questão secundária para toda sociedade que, como esta, não visa entesourar. Não são mantenedores que ela busca, por isso não se prende à quantidade. Assim o quer a natureza de seus trabalhos, exclusivamente científicos, para os quais são necessários a calma e o recolhimento, e não o movimento da multidão.”
b) Controle universal como sufrágio universal dos Espíritos. “A força do Espiritismo não reside na opinião de um homem ou de um Espírito. Ela está na universalidade do ensino dado por estes últimos. O controle universal, como o sufrágio universal, resolverá no futuro todas as questões litigiosas. Ele estabelecerá a unidade da doutrina muito melhor que um concílio de homens.” — formulação que anticipa a Constituição do Espiritismo (1868, OPE).
c) SPEE como centro, não como autoridade impositiva. “A Sociedade de Paris não pode assumir a responsabilidade pelos abusos que, por ignorância ou por outras causas, possam fazer do Espiritismo. […] A única palavra de ordem que ela dá, como senha entre os verdadeiros espíritas, e esta: Caridade para com todos, mesmo para com os inimigos.”
d) Antecipação do livro de história. “A história do Espiritismo moderno será uma coisa realmente curiosa, porque será a da luta entre o mundo visível e o invisível. Os Antigos teriam dito: A guerra dos homens contra os deuses.” Kardec sublinha que a SPEE acumula “o mais vasto e mais completo arquivo existente no mundo” — material que, postumamente, alimentará a posteridade espírita.
7. Casuística de obsessão e cura mediúnica
Quatro grandes desenvolvimentos estendem a linha de Morzine (RE dez/1862):
a) “Médiuns curadores” (jan/1864) — instrução substantiva sobre mediunidade-de-cura. Casos da tríade do 4º regimento de caçadores: Sra. P… (hiperestesia de 20 anos, curada em 35 dias com emissão fluídica diária); jovem epiléptico (crises quase noturnas há 27 anos, curado em 35 dias); segundo epiléptico hereditário em tratamento. Comunicação inédita de Mesmer (Sociedade de Paris, 18/12/1863, médium Sr. Albert): “a vontade tanto desenvolve o fluido animal quanto o espiritual […]. Um outro gênero de magnetismo, muito mais poderoso ainda, é a prece que uma alma pura e desinteressada dirige a Deus.” Comunicação de Paulo, apóstolo (mesmo dia): “em toda a sua existência, o Cristo vos deu a mais irrefutável prova da mais firme vontade, mas era a vontade do bem e não a do orgulho. […] A doçura constante do Cristo, sua submissão à vontade de seu Pai, sua perfeita abnegação, são os mais belos modelos de vontade que se pode propor como exemplo.” Kardec elabora a teoria fluídica: “é a força que derruba, mas não o bálsamo que suaviza e restaura” — somente o fluido perispiritual “quintessenciado” dos Espíritos superiores tem ação curativa profunda; o médium curador serve de condutor, não de fonte.
b) “Um caso de possessão (Sra. Júlia, 2º artigo)” (jan/1864) — continuação do caso de RE dez/1863 (volume não ingerido). Júlia, obsediada pelo Espírito Fredegunda, recebeu tratamento de magnetizadores ortodoxos sem sucesso. Caso-modelo metodológico: o jovem magnetizador “de grande força fluídica” mas sem conhecimentos espíritas insistia em sustentar diante da doente que “os Espíritos superiores têm uma natureza fluídica por demais etérea para poderem vir à Terra comunicar-se com os homens” — desencorajando-a justamente quando a esperança nos bons Espíritos seria seu remédio. Kardec intervém pessoalmente, conduz a doente à oração + perdão da obsessora (“Meu Deus, eu perdoo a Fredegunda o mal que me fez; aceito-o como uma prova e uma expiação que mereci”) e a cura completa-se em pouco tempo. Tese: “havia que tratar-se a causa antes do efeito. Destruído o mal moral, o mal físico deveria desaparecer por si mesmo.”
c) “Cura da jovem obsedada de Marmande” (jun/1864) — relato circunstanciado do Sr. Dombre (de Marmande, membro honorário da SPEE desde out/1862). Kardec comenta: “é ao mesmo tempo um curso de ensino teórico e prático, um guia para casos análogos e uma fecunda fonte de observações para o estudo do mundo invisível em geral, nas suas relações com o mundo visível.” Material que entra em obsessao.
d) “Novos detalhes sobre os possessos de Morzine” (ago/1864) — continuação direta do estudo programático de RE dez/1862. Atualiza o leitor sobre a evolução da epidemia de obsessão coletiva na Alta Saboia.
8. Frente anti-eclesiástica
Três artigos articulados contra a estratégia católica de classificar o Espiritismo como “obra do diabo”:
a) “Resumo da pastoral do Sr. Bispo de Strassburg” (mar/1864) — registro adversário; pastoral classifica o Espiritismo entre as conspirações satânicas.
b) “Algumas refutações” (jun/1864) — peça maior da frente. Resposta à pastoral do Bispo de Langres (que enumera como conspirações contra a fé católica: sociedades secretas, protestantismo, racionalismo, espiritismo, literatura ímpia, jornais maus, materialismo) e a um catecismo diocesano que ensinava o Espiritismo como “obra do diabo”: “O Espiritismo é obra do diabo, que o inventou. Entregar-se a isto é pôr-se em contacto direto com o demônio.” Kardec responde com várias linhas:
- Argumento ad consequentiam: “Como é que com o auxílio dos poderosos meios de ensino que a Igreja possui para fazer brilhar a verdade aos olhos de todos, não pôde ela deter o materialismo, ao passo que o Espiritismo, nascido ontem, diariamente converte incrédulos endurecidos? — O meio pelo qual se atinge um objetivo é pior do que aquele com cujo auxílio não se consegue?”
- Argumento de proporção: “Se a religião se vê atacada por tão numerosas coortes, isto não deporia a favor das simpatias que ela encontra. Dizer que a fé ortodoxa está ameaçada é confessar a fraqueza de seus argumentos. Se ela é fundada na verdade absoluta, ela não pode temer nenhum argumento contrário.”
- Refutação por absurdo: “Como é que na primeira pregação de São Pedro ele converteu apenas três mil judeus, enquanto o Espiritismo, que é obra de Satã, fez imediatamente quinhentos mil adeptos? Seria Satã mais poderoso do que Deus?”
- Recusa da pedagogia do medo aplicada às crianças do catecismo.
c) “O novo bispo de Barcelona” (out/1864) — registro adversário continuado.
A frente anti-eclesiástica ganha encerramento simbólico em dezembro/1864: pequeno anúncio sobre a fotografia do desenho do auto-de-fé de Barcelona (09/10/1861) — “fotografia de um desenho do local, representando a cerimônia do auto-de-fé dos livros espíritas em Barcelona, com resumo da ata escrita de próprio punho pelo Sr. Allan Kardec. Preço: 1,25 francos. No escritório da Revista Espírita.” — três anos depois do evento, Kardec converte o auto-de-fé em memorabilia espírita vendida pelo escritório da própria Revista. Ver auto-de-fe-de-barcelona.
9. Sessão comemorativa do Dia dos Mortos (02/11/1864)
A Sessão comemorativa na Sociedade de Paris (publicada em RE dez/1864) realiza-se em 2 de novembro de 1864, dia tradicional de finados na cultura francesa. É a primeira sessão fúnebre coletiva institucional da SPEE e modelo permanente para todas as sessões análogas posteriores. Estrutura em três tempos:
a) Prece de abertura dirigida a Deus pela bênção da assembleia, agradecendo a luz do Espiritismo e estendendo a misericórdia a todos os Espíritos “seja qual for a crença que tenham tido na Terra”.
b) Alocução do presidente (Kardec) aos Espíritos: dedicada nominalmente aos antigos colegas falecidos da SPEE — Jobard, Sanson, Costeau, Hobach e Poudra — e estendida aos comunicantes habituais — “João Evangelista, Erasto, Lamennais, Georges, François-Nicolas-Madeleine, Santo Agostinho, Sonnet, Baluze, Vianney (cura d’Ars), Jean Reynaud, Delphine de Girardin, Mesmer” — e ao guia espiritual (São Luís). Tese central: “Se fôssemos exclusivistas não seríamos espíritas nem cristãos. […] O conhecimento do Espiritismo não é indispensável à felicidade futura, porque não tem o privilégio de fazer eleitos. É um meio de chegar mais facilmente e mais seguramente ao objetivo, pela fé racionada que ele dá e pela caridade que ele inspira.” Em seguida, recitação das preces da Imitação do Evangelho + Oração Dominical desenvolvida (texto de ago/1864).
c) Comunicações múltiplas — médiuns à disposição dos Espíritos, sem evocação particular dirigida. Recebidas e publicadas as seguintes:
| # | Espírito | Médium |
|---|---|---|
| I | João Evangelista | Sra. Costel |
| II | Sanson | Sr. Leymarie |
| III | Hobach | Sra. Patet |
| IV | Lalouze | Sra. Lampérière |
| V | ”Um Espírito desconhecido — graças à caridade de São José” | Sr. Lampérière |
| VI | Costeau | Srta. Béguet |
| VII | Aimée Brédard, de Bordéus (mãe de membro honorário) | Sra. Delanne |
| VIII | Santo Agostinho | Sr. E. Vézy |
| IX | ”Um Espírito” (instrução metodológica sobre a preparação fluídica para evocações) | Srta. A. C. |
A comunicação VIII (Santo Agostinho) é texto canônico do gênero — “Vossos caros mortos não esperaram este dia para virem a cada um de vós. Em todos os momentos não os sentis acercando-se de vós e vos dando, por essa voz que chamais consciência, os segredos castos e divinos do dever?” A comunicação II (Sanson) retoma a missão da SPEE: “diz-se que Paris é uma cidade de barulho e esquecimento. […] Bem alto eu protesto, porque Paris é a cidade dos pensamentos laboriosos.”
A sessão fixa três precedentes operacionais:
- Calendário litúrgico-espírita. O Dia dos Mortos católico é apropriado como ocasião para sessão coletiva espírita — sem ruptura com a cultura local, com reconfiguração doutrinária.
- Comunicações múltiplas sem evocação particular dirigida. A sessão dispensa a evocação um-a-um e abre espaço para que os Espíritos se manifestem por afinidade — estrutura mais aberta que a sessão regular da SPEE.
- Reunião pelos Espíritos não-espíritas. A alocução estende a prece a “todos os Espíritos seja qual for a crença” — princípio anti-exclusivista que será reforçado em C&I (1865) e que diferencia a sessão fúnebre espírita da missa católica.
10. Internacionalização e bibliografia
1864 acelera a internacionalização da rede espírita:
- Brasil — primeira menção substantiva: extrato do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro (jul/1864). Anuncia a chegada do Espiritismo às elites letradas brasileiras, ainda sem grupos organizados.
- Ilha Maurícia — extrato do Progrés Colonial (28/03/1864), jul/1864.
- Antuérpia — Revue Spirite d’Anvers sobre a cruzada contra o Espiritismo (jul/1864); inauguração do Círculo Espírita Amor e Caridade (mai/1864); quadro espírita na exposição de Antuérpia (nov/1864).
- Bordeaux — fundação do jornal La Voz de Ultratumba sob direção do Sr. Aug. Bez (out/1864); Grupo de São João (médium Sr. Rul) recebe a Comunicação do Espírito de Verdade (mai/1864).
- Espanha — instrução dos Espíritos “sobre os Espíritos na Espanha” (out/1864); polêmica com o novo bispo de Barcelona.
- Constantinopla — “O Espiritismo em Constantinopla” (jul/1864).
- Bélgica — “O Espiritismo na Bélgica” (nov/1864).
- Rússia — edição em língua russa de [[wiki/obras/espiritismo-mais-simples-expressao|O Espiritismo em sua mais simples expressão]] (jul/1864).
A resenha bibliográfica de La pluralité des mondes habités de camille-flammarion (out/1864) marca a primeira aparição do astrônomo de 22 anos na Revista. A obra de Flammarion, lançada nesse ano, defende em chave científico-popular a tese da pluralidade dos mundos habitados — cara ao Espiritismo e formulada na codificação desde LE (questões 53–58, 172–188). Flammarion entrará na SPEE em 1865 e pronunciará o discurso fúnebre de Kardec em 31/03/1869 (texto reproduzido em obras-postumas).
A SPEE em 1864 — operação madura
No 7º ano social, a SPEE consolida a forma fixada em 1862:
- Sede definitiva na rue Sainte-Anne, 59.
- Categorias de associação estabilizadas (titulares, sócios livres, correspondentes, honorários).
- Rede crescente de grupos satélites em Paris, Lyon, Bordeaux, Marselha, Antuérpia, Bruxelas, Sens, Mâcon, Metz, Constantinopla, Argélia, Áustria, Itália, Espanha, Rússia, Brasil, Ilha Maurícia.
- Cursos públicos de Espiritismo abertos em Lyon e Bordeaux (mai/1864) — primeira vez que o ensino espírita sai do âmbito de grupos restritos.
- Sessão comemorativa coletiva institucionalizada (02/11/1864).
- Política de reserva reafirmada — Kardec recusa o crescimento por números em favor do crescimento por rede e por qualidade dos estudos.
Comunicantes recorrentes
- jesus — referência moral constante; tema central do volume via ESE e refutação a Renan.
- São Luís — guia e presidente espiritual da SPEE.
- erasto — mensagens de orientação metodológica.
- João Evangelista — abre a Sessão comemorativa de 02/11/1864 (médium Sra. Costel).
- Espírito de Verdade — Comunicação de mai/1864 endossando o ESE (Bordeaux, médium Sr. Rul).
- Mesmer — comunicação substantiva sobre a mediunidade curadora no artigo “Médiuns curadores” de jan/1864.
- Paulo, apóstolo — comunicação no mesmo artigo de jan/1864 sobre a vontade do bem e o exemplo do Cristo.
- Lamennais — continuação ocasional das “Meditações filosóficas e religiosas”.
- Sanson — comunicação na Sessão comemorativa de 02/11/1864 (médium Leymarie).
- Jobard — invocação na Sessão comemorativa de 02/11/1864; protagonista do artigo “Jobard e os médiuns mercenários” (dez/1864) como exemplo do controle universal aplicado.
- Costeau, Hobach, Poudra — antigos colegas falecidos da SPEE, evocados na Sessão comemorativa.
- Lalouze — comunicação na Sessão comemorativa (médium Sra. Lampérière).
- Aimée Brédard de Bordéus — comunicação na Sessão comemorativa (médium Sra. Delanne).
- Santo Agostinho — comunicação canônica sobre o Dia dos Mortos na Sessão comemorativa (médium Sr. E. Vézy).
- Cura d’Ars (Vianney) — entre os comunicantes habituais nominados na alocução de Kardec.
- Jean Reynaud — entre os comunicantes habituais (havia falecido em 28/06/1863).
- Delphine de Girardin — entre os comunicantes habituais (a iniciadora de Victor Hugo nas mesas de Jersey, falecida em 1855).
Conceitos tratados
- Aprofundados: discernimento-dos-espiritos (controle universal — manifesto de abr/1864) · mediunidade-de-cura (Médiuns curadores, jan/1864) · obsessao (Júlia jan; Marmande jun; Morzine ago — quatro casos) · prece (Suplemento ago; Pai Nosso desenvolvido) · perispirito (Resumo da lei abr; ação fluídica nas curas) · maravilhoso-e-sobrenatural (Algumas refutações jun; recusa do “diabo”).
- Cosmologia e ciência: pluralidade-dos-mundos-habitados (resenha de Flammarion out/1864).
- Moral e prática: caridade (palavra de ordem do Discurso do 7º ano; Sessão comemorativa) · verdadeiro-espirita · fe-raciocinada (Resumo da lei + Discurso do 7º ano).
- Vida futura: vida-futura (Sessão comemorativa) · perturbacao · penas-e-gozos-futuros.
- Identidade e mediunidade: identidade-dos-espiritos (Jobard e os médiuns mercenários, dez/1864).
Personalidades citadas
- allan-kardec — diretor; Discurso do 7º ano social (1º/04/1864); presidente da Sessão comemorativa de 02/11/1864.
- jesus — tema central via ESE e refutação a Renan.
- ernest-renan — historiador francês das religiões; adversário central do volume; dois artigos de refutação à Vie de Jésus (mai + jun/1864).
- camille-flammarion — primeira aparição na Revista na resenha de La pluralité des mondes habités (out/1864).
- sr-sanson — comunicação na Sessão comemorativa de 02/11/1864 (médium Leymarie).
- sr-jobard — invocação na Sessão comemorativa; protagonista do “Notável exemplo de concordância” (dez/1864).
- Mesmer — comunicação no artigo “Médiuns curadores” (jan/1864).
- paulo-de-tarso — comunicação no mesmo artigo (jan/1864) e mobilizado no Suplemento da Imitação (1Cor 14).
- Sr. Dombre — relator da cura da obsedada de Marmande (jun/1864); membro honorário da SPEE desde out/1862.
- Sr. Rul — médium do Grupo de São João (Bordeaux) que recebe a Comunicação do Espírito de Verdade (mai/1864).
- Sr. Albert — médium das comunicações de Mesmer e Paulo (jan/1864).
- Sr. Leymarie — médium escrevente da Comunicação de Sanson na Sessão comemorativa (02/11/1864); continua como médium central da SPEE pós-1862.
- Sra. Costel — médium de João Evangelista na Sessão comemorativa.
- Sr. E. Vézy — médium de Santo Agostinho na Sessão comemorativa.
- Hobach, Costeau, Poudra, Lalouze, Aimée Brédard — antigos membros desencarnados da SPEE evocados na Sessão comemorativa.
- Cura d’Ars (Jean-Marie Vianney) — entre os comunicantes habituais nominados na alocução; falecera em 1859.
- Bispo de Langres — adversário católico (pastoral refutada em jun/1864).
- Bispo de Strassburg — adversário católico (pastoral resumida em mar/1864).
- Pe. Gratry — refutador católico de Renan, mencionado favoravelmente por Kardec.
- Sr. Aug. Bez — fundador do jornal espírita La Voz de Ultratumba em Bordeaux (out/1864).
Divergências
Nenhuma com o Pentateuco. A Revista é redigida pelo próprio codificador (nível 2 da hierarquia de autoridade). Pontos a registrar sem flag de divergência:
- Crítica metodológica à categoria “obra do diabo” da Igreja (jun/1864, “Algumas refutações”): aplicação do princípio da recusa do sobrenatural e da hierarquia espírita (não há demônio ontológico no Espiritismo — apenas Espíritos imperfeitos). Não é divergência interna, é demarcação contra a teologia católica do diabo.
- Refutação a Renan (mai + jun/1864): Renan não é fonte espírita — é interlocutor materialista. A polêmica não gera divergência kardec×Pentateuco; é embate doutrinário com teoria adversária externa. A página de Renan em ernest-renan tem caráter de personalidade-adversário (registro biográfico), sem flag.
- Recusa do milagre como prova de divindade (continuidade do tratamento Apolônio em revista-espirita-1862 e da polêmica Figuier em revista-espirita-1860): formulada também na refutação a Renan e no enfrentamento do bispo de Langres. Continuidade metodológica que será fixada em Gênese cap. XV.
Fontes
- KARDEC, Allan. Revue Spirite — Journal d’Études Psychologiques, ano 1864. Paris: Bureaux de la Revue Spirite, 1864.
- Edição brasileira: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1864. Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: Edicel.
- Edição FEB: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1864. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
- Disponível online: Kardecpédia — Revista Espírita 1864.
- Edição local: 1864 (96 artigos integrais baixados da Kardecpédia).