Revista Espírita — Ano de 1861

Quarto volume da Revue Spirite, redigido por allan-kardec entre janeiro e dezembro de 1861. 172 artigos em doze fascículos mensais — o volume mais extenso publicado até então. Ano de dois nós doutrinários simultâneos: (1) publicação de O Livro dos Médiuns (5–10 jan/1861), fechando o segundo pilar do Pentateuco; (2) segunda viagem doutrinária de Kardec (set–out/1861) por Sens, Mâcon, Lyon, Bordeaux e Metz, com dois banquetes (Lyon 19/09; Bordeaux 14/10) cujos discursos consolidam a categoria do espírita cristão e o princípio dos pequenos grupos. O volume é também o do primeiro grande choque externo da codificação — o Auto-de-fé de Barcelona (09/10/1861), queima pública de 300 volumes espíritas pela Igreja, episódio interpretado por Kardec como “penhor de vosso próximo triunfo”. Ainda em 1861: morte do Sr. Jobard (27/10), presidente honorário da SPEE; “Organização do Espiritismo” (dez/1861), artigo programático em 25 itens que será matriz da Constituição do Espiritismo de 1868; “Ensaio sobre a teoria da alucinação” (jul/1861), que separa a alucinação real (impressão cerebral retrospectiva) das aparições genuínas.

“Não esqueçais a data de 9 de outubro de 1861. Ela ficará marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é o penhor de vosso próximo triunfo!” — Kardec, RE, nov/1861, “Os restos da idade média”.

Dados bibliográficos

Posição no projeto editorial

1861 fecha a fase fundadora aberta em jan/1858. Com [[wiki/obras/livro-dos-mediuns|O Livro dos Médiuns]] (jan/1861) Kardec completa a articulação filosófica (LE, 1857/1860) + experimental (LM, 1861) que constituirá a base sobre a qual O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864) e os volumes seguintes serão erguidos. O volume documenta também o primeiro momento de organização nacional da doutrina — Lyon e Bordeaux passam de centros nascentes (1859–1860) a sociedades constituídas com regulamento, médiuns formados, banquetes anuais e correspondência regular com a SPEE de Paris. A “Organização do Espiritismo” (dez/1861) sistematiza essa expansão territorial num modelo organizacional explícito — pequenos grupos, grupos diretores, assembleias gerais — que será reaproveitado integralmente na Constituição do Espiritismo (OPE, 1868).

A SPEE em 1861 inaugura seu 4º ano de atividade (mai/1861), institui a categoria de sócios livres, restringe a admissão de ouvintes e formaliza o regulamento. As sessões dividem-se entre gerais e particulares, o que estabilizará o modelo até a morte de Kardec.

Marcos cronológicos

MêsMarcos do fascículo
Janeiro”Boletim da SPEE”; ⭐ “O Livro dos Médiuns” (anúncio do lançamento, 5–10 jan/1861, Didier & Cie., como complemento experimental do LE — “Os Espíritos, sejam quais forem, são as almas dos que viveram”); “La Bibliothèque catholique — Contra o Espiritismo” (refutação da ofensiva católica); ⭐ “Carta sobre a incredulidade — I” (artigo doutrinário sobre como dialogar com incrédulos); ⭐ “O Espírito batedor de Aube” (caso prolongado de manifestação física espontânea com identificação do Espírito); “Ensino espontâneo dos Espíritos”.
Fevereiro”Boletim”; “O Sr. Squire” (caso americano de manifestações na obscuridade); “Escassez de médiuns”; “Carta sobre a incredulidade (Conclusão)”; ⭐ “Suicídio de um ateu — Sr. J. B. D…” (evocação paradigmática: “Por que o nada não existe?! Sofro por ser obrigado a crer em tudo aquilo que negava. Minha alma está como que num braseiro, horrivelmente atormentada” — material que entra em ceu-e-inferno e fundamenta o tratamento de suicidio); “Questões e problemas”; “Ensinos espontâneos”.
Março”O homenzinho ainda vive” (crônica de manifestação infantil); “A cabeça de Garibaldi” (curiosidade política); “Assassinato do Sr. Poinsot” (caso jurídico-mediúnico); “Palestras familiares de além-túmulo”; “Ensinos e dissertações espíritas”.
Abril⭐ “Mais uma palavra sobre o Sr. Deschanel” (resposta a artigo do Journal des Débats); ⭐ “O Sr. Louis Jourdan e o Livro dos Espíritos” (resenha favorável publicada em Le Siècle — primeiro grande jornal a tratar do LE com simpatia); “Resposta”; “Apreciação da história do maravilhoso do Sr. Louis Figuier, pelo Sr. Escande” (sequência da polêmica iniciada em 1860); “O mar, pelo Sr. Michelet” (resenha); “Palestras familiares de além-túmulo”; “Correspondência”; “Ensinos espíritas”.
Maio⭐ “Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas — Discurso do Sr. Allan Kardec” (manifesto de abertura do 4º ano da SPEE: instituição dos sócios livres, restrição às admissões, recusa de transformar sessões em demonstração pública); ⭐ “O anjo da cólera” (caso de Wilna na Lituânia, 1852: aparição da peste à mocinha de doze anos; explicação por São Luís — não era flagelo personificado, mas o Espírito familiar testando a fé; “Os Espíritos são instrumentos da vontade divina, e muitas vezes são elevados à altura de mensageiros celestes”); ⭐ “Fenômenos de transporte” (aporte espontâneo de objetos; caso de Orléans com anel da mãe morta trazido pela aparição; matriz para LM cap. VIII); “Palestras familiares — O Dr. Glas”; “Questões e problemas”; “Ensinamentos espíritas”.
Junho⭐ “Channing — Discurso sobre a vida futura” (sermão pronunciado por William Ellery Channing em 1834, após a morte de um amigo, traduzido por Kardec como instrução; Channing — pastor unitário americano, 1780–1842 — torna-se Espírito comunicante recorrente); “Correspondência”; ⭐ “A prece” (artigo doutrinário longo que prepara material de ESE caps. XXVII–XXVIII); “Palestras familiares de além-túmulo”; “Efeitos do desespero”; “Dissertações e ensinos espíritas”.
Julho⭐ “Ensaio sobre a teoria da alucinação” (artigo programático que dá uma teoria positiva da alucinação real“a alucinação é a visão retrospectiva, pela alma, de uma imagem impressa no cérebro” — distinguindo-a rigorosamente das aparições reais; matriz de genese cap. XIV e LM, 2ª parte, cap. VI–VII); ⭐ “Uma aparição providencial” (caso do navio do Sr. Robert Bruce, escrita direta na ardósia em 1828 — “Dirija para noroeste”; náufragos resgatados pela orientação espírita); “Palestras — Os amigos não nos esquecem no outro mundo”; “Carta do presidente da sociedade espírita do México”; “Desenhos misteriosos — Novo gênero da mediunidade”; ⭐ “Exploração do Espiritismo” (advertência metodológica contra a mediunidade interesseira); “Variedades”; “Os Espíritos e a gramática”; “Dissertações”.
Agosto”Fenômenos psico-fisiológicos”; ⭐ “Manifestações americanas” (caso do médium Sr. Fay em Nova York, 1861, publicado pelo Banner of Light; instrumentos voando, voz na corneta; nota crítica de Kardec — “o desinteresse absoluto é uma garantia ainda melhor que todas as precauções materiais” — distância metodológica do espiritismo americano pago); ⭐ “Palestras familiares — Don Peyra, prior de Amilly” (sacerdote do priorato de Amilly com fama de feiticeiro, evocado em 1860; caso doutrinário sobre mediunidade vs. ocultismo); “Correspondência — Carta do Sr. Mathieu sobre os médiuns trapaceiros”; “Dissertações”.
Setembro⭐ “O estilo é o homem” (discussão do aforismo de Buffon entre vários Espíritos comunicantes; introdução à metodologia de identificação por estilo, que entra em LM cap. XXIV); “Palestras familiares de além-túmulo”; “Correspondência”; ⭐ “Dissertações — Um Espírito israelita a seus correligionários” (instrução sobre a unidade espiritual entre judeus e cristãos); “Variedades — Uma notícia falsa”.
Outubro⭐ “O Espiritismo em Lyon” (relato de Kardec da segunda viagem; cidade já tem milhares de espíritas, “não mais por centenas”; rede de grupos em Brotteaux, Guillotière, Perrache, Croix-Rousse, Vaise, Saint-Just; caráter operário marcante, “reuniões edificantes” incluindo crianças; alocução do grupo de Saint-Just); ⭐ “Banquete oferecido pelos espíritas lioneses ao Sr. Allan Kardec — 19 de setembro de 1861” (160 convivas; alocuções de Dijoud — chefe de oficina, presidente do grupo de Brotteaux —, Courtet, Bouillant); ⭐ “Discurso do Sr. Allan Kardec no banquete de Lyon” (texto programático: a cordialidade fraterna como prova do Espiritismo cristão; recusa da rivalidade entre ricos e operários — “esqueceis que Jesus era operário”; classes laboriosas como novo elemento da legião espírita; o Espiritismo como doutrina puramente moral que não é seita, mas “está em todas as religiões”; recomendação dos pequenos grupos — “vinte grupos de quinze a vinte pessoas obterão mais”); ⭐ “Epístola de Erasto aos Espíritas Lioneses” (texto longo do Espírito de Erasto lido por Kardec; referência aos mártires lioneses Sanctus, Alexandre, Attale, Episode, Blandina, Irineu; igualdade cristã como igualdade ante a justiça de Deus, não comunismo; advertências contra obsessão, falsos profetas, médiuns fascinados; “é melhor repelir dez verdades momentaneamente do que admitir uma só mentira”; categoria do “Espírito emancipador que preside aos trabalhos doutrinários); “Palestras familiares — Eugène Scribe” (dramaturgo francês morto em 20/02/1861; reflexão sobre teatro como instrumento moral; “é tempo das ideias espíritas serem propagadas em todas as camadas sociais, porque então o teatro será moralizado por si mesmo”); “Ensinamentos e dissertações”; “Sociedade espírita de Metz” (relato de visita).
Novembro⭐ “Os restos da idade média — Auto de Fé das Obras Espíritas em Barcelona” (relato detalhado do evento de 09/10/1861; lista das 9 obras queimadas; ata do auto-de-fé; cinzas enviadas a Kardec — “um fragmento do Livro dos Espíritos, consumido pela metade, que nós conservamos preciosamente”; questão de direito internacional levantada — “eis um bispo estrangeiro que se institui juiz do que convém ou não convém à França”; comunicações dos Espíritos Dollet e São Domingos; ver auto-de-fe-de-barcelona); ⭐ “Opinião de um jornalista sobre o Livro dos Espíritos” (artigo do Akhbar da Argélia, 15/10/1861, sob pseudônimo “Ariel” — “resta um livro de alta filosofia, de uma moral eminentemente pura”); ⭐ “O Espiritismo em Bordéus” (relato de visita; rede crescente; aproximação social dos extremos “o rico e o operário se apertam as mãos cordialmente”; jovem médium musical e desenhista; pequeno discurso do filho de cinco anos do Sr. Sabô); ⭐ “Reunião geral dos espíritas bordeleses — 14 de outubro de 1861” (inauguração da Sociedade Espírita de Bordeaux; discurso do Sr. Sabô; “Algumas considerações sobre o Espiritismo” pelo Dr. Bouché de Vitray — primeira menção a Roustaing como “distinto advogado e sobretudo consciencioso, destinado a representar papel marcante nos fastos do Espiritismo”; longo discurso de Kardec — sobre a inevitabilidade da doutrina, os dois tipos de inimigos, a reafirmação do princípio dos pequenos grupos com remissão explícita ao LM nº 28 e nº 341); ⭐ “Banquete oferecido ao Sr. Allan Kardec pelos espíritas bordeleses”; “Poesias do momento, ditas pelo Sr. Dombre, de Marmande”; “Bibliografia”.
Dezembro”Aviso” (renovação das assinaturas para 1862); “Próximo lançamento de novas obras do Sr. Allan Kardec” (anúncio de O Espiritismo na sua expressão mais simples e Refutação das críticas contra o Espiritismo); ⭐ “Organização do Espiritismo” (artigo programático em 25 itens — manifesto sobre a estruturação supralocal da doutrina: pequenos grupos vs. sociedade única; SPEE como Sociedade Iniciadora, não hierarquia; recusa explícita da palavra afiliação; proposição dos grupos diretores formados por delegados; assembleia geral anual; três tipos de espírita — experimentador, imperfeito, espírita cristão — como filtro de admissão; matriz da Constituição do Espiritismo de 1868; “Para nós será uma glória escrever em sua fachada: Escola do Espiritismo Moral, Filosófico e Cristão”); ⭐ “Necrologia — Morte do Sr. Jobard” (presidente honorário da SPEE morto em Bruxelas, 27/10/1861, de apoplexia, aos 69 anos; abjuração explícita das suas próprias teorias errôneas — “Se me atrapalhei tanto no dédalo dos sistemas filosóficos, é que me faltava uma bússola. Essa chave está na reencarnação”; comunicações pós-morte iniciam imediatamente — desenvolvidas em jan/1862; material que entra em C&I, 2ª parte, cap. II); ⭐ “Auto-de-fé em Barcelona” (continuação de novembro: extratos extensos de Las Novedades de Madrid e La Corona de Barcelona; consequências políticas); ⭐ “A toutinegra, o pombo e o peixinho” (fábula em verso de C. Dombre, de Marmande, lida no banquete de Bordeaux; moral: “a cordial assistência só se encontra nos pequenos”); ⭐ “Do sobrenatural — pelo Sr. Guizot” (extratos extensos do capítulo “Do sobrenatural” de L’Église et la société chrétienne en 1861 do estadista cristão François Guizot; análise crítica prometida para o próximo número); ⭐ “Meditações filosóficas e religiosas” (início da série ditada por Lamennais ao médium Alfred Didier — Sansão como emblema da força divina, anunciando o Espiritismo).

Linhas-de-força do volume

1. Ano de O Livro dos Médiuns — fechamento do segundo pilar

A publicação anunciada em jan/1861 (“O Livro dos Médiuns”) apresenta a obra como complemento experimental do LE que cristaliza a metodologia da mediunidade. Kardec define o tom doutrinário com gravidade incomum:

“Os Espíritos, sejam quais forem, são as almas dos que viveram. Em seu meio estaremos, infalivelmente, de um momento para outro. […] Transformar as manifestações em brincadeira é faltar com o respeito que talvez um dia reclamemos para nós próprios, e que jamais é violado impunemente.” (RE, jan/1861, “O Livro dos Médiuns”)

Daí em diante, o LM passa a ser referência cruzada constante na Revista — nos discursos de Lyon e Bordeaux, na “Organização do Espiritismo”, nas remissões sobre obsessão (cap. XXIII), reuniões espíritas (cap. XXIX) e identidade dos Espíritos (cap. XXIV). 1861 fecha a fase em que a Revista funcionava como laboratório aberto: a partir de 1862 ela passará a antecipar conteúdo do ESE.

2. Segunda viagem doutrinária — Lyon e Bordeaux como capitais regionais

A viagem de set–out/1861 é a primeira operação coordenada de mapeamento da rede. Kardec passa por Sens, Mâcon, Lyon (banquete em 19/09 — segundo aniversário consecutivo da mesma data), Bordeaux (reunião geral em 14/10 + banquete) e Metz. O salto numérico em Lyon é o mais visível:

  • 1860: ~30 convivas no banquete; um único centro (Brotteaux); poucos médiuns iniciantes.
  • 1861: 160 convivas; rede de grupos em Brotteaux, Guillotière, Perrache, Croix-Rousse, Vaise, Saint-Just; numerosos médiuns escreventes, videntes, desenhistas, curadores; estimativa de 30.000 espíritas em um a dois anos. “Não mais são contados, e calcula-se que, seguindo a mesma progressão, em um ou dois anos serão mais de trinta mil” (RE, out/1861).

A alocução do grupo de Saint-Just (operários) é texto-chave do volume:

“Senhor Allan Kardec, discípulo de Jesus, intérprete do Espírito de Verdade, sois nosso irmão em Deus. […] Tomastes a pesada enxada para descobrir a semente do Espiritismo, que se tinha encerrado num terreno de granito. Vós a semeais nos quatro cantos do globo, e até nos pobres bairros de ignorantes, que começam a saborear o pão da vida.” (RE, out/1861)

Bordeaux (14/10) inaugura formalmente a Sociedade Espírita local com regulamento, reproduzindo o modelo lyonês mas em escala mais técnica — médica (Dr. Bouché de Vitray), jurídica (Roustaing), comercial. A frase-síntese de Kardec consolida a categoria: “o que mais o charlatanismo teme é ser compreendido”.

3. Discurso de Lyon — três categorias e três adversários

O discurso de 19/09/1861 retoma e desenvolve o de 1860, agora com vocabulário consolidado. Os três pontos doutrinários decisivos:

a) Espiritismo como doutrina puramente moral, não seita.

“Não é, como pretendem alguns, sempre porque não o conhecem, uma religião nova, uma seita que se forma à custa das mais antigas. É uma doutrina puramente moral, que absolutamente não se ocupa dos dogmas e deixa a cada um a inteira liberdade de suas crenças, desde que nenhuma impõe. […] Não é uma seita política, como não o é religiosa. É a constatação de um fato que não pertence mais a um partido do que a eletricidade e as estradas de ferro.” (RE, out/1861)

b) Três categorias de adversários. Os trocistas (incrédulos), os ignorantes (que combatem sem conhecer) e os interessados (cujos interesses materiais são feridos). Os terceiros são “os verdadeiros inimigos do Espiritismo, como em todos os tempos o têm sido de todas as ideias de progresso”.

c) Aliança com as classes laboriosas. “Esqueceis que Jesus era operário […] Por que Jesus escolheu seus apóstolos entre o povo, e não entre os homens de letras?” — argumento que define a base social da expansão lyonesa e que retornará em 1862, 1864 e 1868. Os operários atestam pela própria vida o que o Espiritismo faz: vencem o suicídio, a embriaguez, o desespero, o ódio. “Eis para que serve o Espiritismo, esta loucura, esta quimera, como o chamais.”

4. Epístola de Erasto aos Espíritas Lioneses — a pedagogia do Espírito emancipador

A Epístola de Erasto aos Espíritas Lioneses (out/1861) é um dos textos doutrinários mais densos do volume. Erasto, identificado como discípulo de São Paulo, tece três fios:

Fio histórico. Lyon como cidade dos mártires da Igreja primitiva: “vossa missão é sempre a mesma, porque o paganismo romano, sempre de pé, sempre vivaz, ainda enlaça o mundo”. Sanctus, Alexandre, Attale, Episode, Blandina, Irineu — nomes invocados como linhagem espiritual reencarnada nos espíritas lyoneses.

Fio doutrinário. Igualdade cristã redefinida contra leituras comunistas: “a igualdade proclamada pelo Cristo, e que nós mesmos professamos nos vossos grupos amados, é a igualdade ante a justiça de Deus, isto é, nosso direito, conforme nosso dever cumprido, de subir na hierarquia dos Espíritos”. Recusa explícita do “comunismo antissocial” como alternativa espírita.

Fio metodológico. Advertência contra obsessão e médiuns fascinados — texto-chave para LM cap. XXIII:

“Repeli-os impiedosamente, a todos esses Espíritos que dão conselhos exclusivos, pregando a divisão e o isolamento. […] Em geral desconfiai das comunicações que tenham um caráter de misticismo ou de estranheza, ou que prescrevam cerimônias e atos bizarros.” (Erasto, RE out/1861)

“Numa palavra, deixai-me repetir o que já aconselhei aos espíritas parisienses: é melhor repelir dez verdades momentaneamente do que admitir uma só mentira, uma única teoria falsa.” (Erasto, RE out/1861)

A epístola introduz a categoria do “grande Espírito emancipador que “preside aos nossos trabalhos sob o olhar do Todo-Poderoso” — designação coletiva da Falange dos Espíritos do Senhor.

5. “Organização do Espiritismo” (dez/1861) — matriz da Constituição

O artigo de dezembro em 25 itens é o manifesto organizacional da codificação. Tese central: a doutrina não pode ser concentrada em sociedade única; a vitalidade está nos pequenos grupos coordenados horizontalmente. Pontos doutrinários decisivos:

  1. Recusa da centralização. “Não acrediteis que abrindo a porta ao primeiro que aparecer fareis mais prosélitos. […] Vinte grupos de quinze a vinte pessoas obterão mais e farão mais pela propaganda do que uma sociedade única de quatrocentos membros.”

  2. SPEE como Sociedade Iniciadora. Recusa explícita da palavra afiliação: “a Sociedade de Paris não poderia ter a pretensão de absorver as outras sociedades. […] Como Sociedade iniciadora e central, pode estabelecer com os outros grupos ou Sociedades relações puramente científicas, mas a isto se limita o seu papel.”

  3. Grupos diretores. Onde houver vários grupos numa cidade, “um grupo central, formado de delegados de todos os grupos, tomaria o nome de grupo diretor”. Modelo aplicado a Bordeaux (matriz) e Lyon.

  4. Três tipos de espírita. Experimentador (acredita nos fatos), imperfeito (admira a moral mas não a pratica), espírita cristão (pratica e aceita as consequências). “Um grupo formado exclusivamente por elementos desta última classe estaria nas melhores condições”.

  5. Filtro de admissão. Estudo prévio + profissão de fé categórica + adesão formal à doutrina do LE. Para os assistentes ocasionais, “é necessário sobretudo, e sem exceção, afastar os curiosos e quem quer que seja atraído por motivo frívolo”.

  6. Assembleia geral anual. “Uma assembleia geral anual poderia reunir os espíritas dos diversos grupos numa festa familiar, que seria, ao mesmo tempo, a festa do Espiritismo.”

A linguagem orgânica é deliberadamente biológica: “que faça como as abelhas: que enxames saídos da colmeia materna fundem novas colmeias que por sua vez formarão outras”. Material que estrutura a organizacao-de-grupos-espiritas e a Constituição do Espiritismo (OPE, 1868).

6. Auto-de-fé de Barcelona — primeiro grande choque institucional

Em 9 de outubro de 1861, às 10h30, na esplanada onde se executavam os criminosos, por ordem do Bispo de Barcelona, foram queimados 300 volumes e brochuras espíritas: Revista Espírita (Kardec), Revue Spiritualiste (Piérard), O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Que é o Espiritismo, Fragmento de sonata ditada pelo Espírito de Mozart, Carta de um católico sobre o Espiritismo (Dr. Grand), A História de Joana d’Arc (ditada à ermance-dufaux), A realidade dos Espíritos demonstrada pela escrita direta (Goldenstubbe).

A justificativa do Bispo escala a questão a direito internacional: “A Igreja católica é universal, e sendo estes livros contra a fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outros países” — pretensão que Kardec denuncia em duas frentes (nov/1861 e dez/1861).

A leitura de Kardec é programática e antecipa o efeito multiplicador da perseguição:

“Espíritas de todos os países! Não esqueçais a data de 9 de outubro de 1861. Ela ficará marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é o penhor de vosso próximo triunfo!” (RE, nov/1861, “Os restos da idade média”)

Cinzas foram enviadas a Kardec, que conserva fragmento meio queimado do LE “como um testemunho autêntico desse ato de insensatez”. O eco na imprensa espanhola — Las Novedades de Madrid, La Corona de Barcelona — transforma o evento de tentativa de censura em campanha de divulgação. Comunicações espirituais de São Domingos (“era preciso que algo ferisse num golpe violento certos Espíritos encarnados”) e Dollet (livreiro do séc. XVI, “as fogueiras apagar-se-ão por si mesmas, e se os livros são lançados ao fogo, o pensamento imortal lhes sobrevive”) acompanham o relato. Tratamento detalhado em auto-de-fe-de-barcelona.

7. Morte do Sr. Jobard — caso-modelo de progressão pós-morte

Jean-Baptiste Jobard, diretor do Museu Real da Indústria de Bruxelas e presidente honorário da SPEE, morre em 27 de outubro de 1861 de apoplexia, aos 69 anos. A necrologia de Kardec (dez/1861) contém duas chaves doutrinárias decisivas:

a) Abjuração explícita das próprias teorias errôneas. Jobard tinha sido partidário da teoria da alma coletiva e, em 1860, propusera a Teoria da Incrustação Planetária (rejeitada por Kardec; ver incrustacao-planetaria). Antes de morrer já havia abandonado os dois sistemas:

“Se me atrapalhei tanto no dédalo dos sistemas filosóficos, é que me faltava uma bússola. Eu só encontrava caminhos sem saída e que não me levavam a nada. Nenhum me dava uma solução concludente dos mais importantes problemas. […] Ora! Essa chave está na reencarnação, que tudo explica de maneira tão lógica, tão conforme à justiça de Deus, que a gente diz naturalmente: Sim, é preciso que seja assim.” (Jobard, citado por Kardec, RE dez/1861)

b) Manifestação espontânea pós-morte. “Depois de sua morte, o Sr. Jobard fez pouco caso de certas teorias científicas que havia sustentado em vida”. As conversas com seu Espírito iniciam em nov/1861 e desenvolvem-se em jan/1862. Material que entra integralmente em C&I, 2ª parte, cap. II.

O caso é exemplar do princípio kardequiano de que o controle universal corrige tanto o ensino dos Espíritos quanto o dos encarnados: Jobard em vida defendeu duas teorias que a observação subsequente desmentiu, e ele próprio reconheceu o engano antes da morte. “A obstinação nas ideias falsas jamais foi tida como prova de bom-senso. […] O Sr. Jobard provou que era ao mesmo tempo homem de senso e de espírito, ao abjurar sem hesitação suas primeiras teorias sobre o Espiritismo, ao ser-lhe demonstrado que não estava certo.”

8. “Ensaio sobre a teoria da alucinação” (jul/1861) — separação metodológica

Antes do volume, a categoria “alucinação” era usada indiscriminadamente — pelos materialistas para descartar todas as aparições espirituais, pelos espíritas leigos para minimizar comunicações desconfortáveis. Kardec produz no fascículo de jul/1861 a primeira teoria positiva da alucinação real, com base fisiológico-espírita explícita:

“As imagens que chegam ao cérebro, através dos olhos, nele deixam uma impressão que nos lembra um quadro. […] Quando imaginamos uma cena que vimos, não há senão uma questão de memória, porque na realidade não estamos vendo. Mas, num certo estado de emancipação, a alma vê no cérebro e nele encontra essas imagens, sobretudo aquelas que mais impressionaram. […] Aí está a verdadeira alucinação, a fonte primeira das ideias fixas. A ideia fixa é a lembrança exclusiva de uma impressão. A alucinação é a visão retrospectiva, pela alma, de uma imagem impressa no cérebro.” (RE, jul/1861)

A teoria preserva o materialismo médico no que ele tem de razoável (impressões cerebrais como substrato físico) e o ultrapassa pelo movimento decisivo: é a alma desprendida que essas impressões — sem alma desprendida não há alucinação. Critério de distinção das aparições reais: inteligência efetiva, atualidade verificável, coincidência espacial-temporal (caso do oficial de marinha que vê o cortejo fúnebre do tio em África no momento exato; caso do Dr. Félix Mallo que vê a paciente morta na hora da morte). Material que entra em LM, 2ª parte, cap. VI–VII e em Gênese cap. XIV.

9. “Suicídio de um ateu” (fev/1861) — o argumento existencial

A evocação do Sr. J.B.D… (homem instruído, materialista, afogado voluntariamente dois anos antes) é caso-modelo do tratamento kardequiano do suicídio. O diálogo é abrupto e violento — “O Espírito escreve com extrema dificuldade. A letra é grande, irregular, convulsa e quase ilegível. De início denota cólera, quebra o lápis e rasga o papel”. Os pontos doutrinários:

”— Tédio da vida sem esperança.” ”— Por que o nada não existe?!” ”— Sofro por ser obrigado a crer em tudo aquilo que negava. Minha alma está como que num braseiro, horrivelmente atormentada.” (RE, fev/1861)

Kardec extrai a tese: “Compreende-se o suicídio quando a vida é sem esperança. […] Com o Espiritismo o futuro se desenrola e a esperança se legitima. O suicídio, então, não tem objetivo; ainda mais, reconhece-se que por tal meio não se escapa a um mal senão para cair num outro cem vezes pior. Eis por que o Espiritismo já subtraiu tantas vítimas à morte voluntária.” Material que entra em LE q. 943–957, ESE cap. V e C&I, 2ª parte. Ver suicidio.

10. Discurso de abertura do 4º ano da SPEE (mai/1861) — estabilização institucional

O manifesto institucional de maio/1861 consolida as reformas que protegerão a SPEE até a morte de Kardec:

  • Sócios livres — categoria intermediária que permite avaliar candidatos antes da admissão como titulares; “participando dos trabalhos e dos estudos da Sociedade, aproveitam tudo quanto nela se faz, mas como não têm voz na parte administrativa, não podem, em caso algum, comprometer a responsabilidade da Sociedade”.
  • Restrição às admissões de ouvintes“Nossas sessões não são de demonstração. […] Estudai primeiro e vede depois.”
  • Interdição da leitura de comunicações externas sem prévia autorização — proteção contra fraude e contra ditados produzidos para forçar a SPEE a se pronunciar.
  • Proteção contra inimigos invisíveis“sabemos que a sua tática é procurar semear a desunião, lançar o facho da discórdia, inspirar a inveja, a desconfiança e as suscetibilidades pueris que geram a desafeição. Oponhamo-lhes a barreira da caridade, da mútua benevolência.”

11. Fenômenos de transporte e “Uma aparição providencial” (mai e jul/1861)

Dois casos de fenômenos físicos espontâneos compõem a base experimental para LM cap. VIII (Dos transportes) e cap. VII (Da bicorporeidade e da transfiguração):

Caso de Orléans (mai/1861). Senhora cuja mãe, três anos morta, lhe aparece em 01/01/1861 e deixa sobre a mesa o anel que ela mesma havia colocado no dedo da mãe na hora da morte. Confirmação por escrita direta da mensagem “A meu querido pai. Laura” assinada pela filha de dois anos morta há oito anos. Caso é singular porque o objeto fisicamente enterrado retorna — fenômeno de aporte que Kardec admite com cautela.

Caso do navio do Sr. Robert Bruce (jul/1861, Oxford Chronicle 1828). Imediato vê na cabine do capitão um estranho que escreve em ardósia “Dirija para noroeste”. O capitão muda a rota e encontra um navio quebrado com náufragos famintos; entre eles, o passageiro de quem caligrafia coincide. “Ele caiu num profundo sono […] e durante o sono ele exprimiu a confiança de que em breve iríamos ser salvos.” Caso clássico de bicorporeidade em sono provocado pela necessidade.

12. “A prece” (jun/1861) e início das Meditações de Lamennais (dez/1861)

O artigo “A prece” de jun/1861 é texto longo que prepara material de ESE caps. XXVII–XXVIII (Da prece; Coletânea de preces espíritas). Em paralelo, o Espírito de Lamennais inicia em dez/1861 a série “Meditações filosóficas e religiosas” através do médium Alfred Didier — começa com a parábola de Sansão como emblema da força divina sucessivamente personificada (Sansão, Hércules, Rolando) e culmina anunciando: “Eis os três seres que devolverão à Humanidade seu vigor primitivo: chamam-se Fé, Esperança e Caridade. Eles virão dentro de alguns anos e fundarão uma nova doutrina que os homens chamarão Espiritismo”. Kardec adverte com seu rigor habitual: “Lamennais, que sem contradita é um Espírito bom e elevado, não tem a pretensão de já ser perfeito, e o caráter sombrio, melancólico e místico do homem incontestavelmente se reflete no do Espírito” — controle universal aplicado em tempo real.

A Sociedade Parisiense em 1861 — operação madura

A SPEE em 1861 atinge sua forma estabilizada. O regulamento adotado em 1860 (sessões gerais × particulares) é complementado em mai/1861 pela instituição dos sócios livres. As sessões de 1861 incluem evocações de personagens públicos (Eugène Scribe, Don Peyra, Jobard pós-morte), comunicações longas de São Luís, Espírito de Verdade, Erasto, Lamennais, Charles Nodier, Alfred de Musset. A correspondência regular com Lyon, Bordeaux, Bruxelas, Sens, Mâcon, Metz, Bordéus, México, Marselha, Argélia atesta a transformação da Sociedade em centro nacional e internacional. Em paralelo, a Revista de 1861 publica respostas a polêmicas com Le Siècle, Journal des Débats, Bibliothèque Catholique, La Bibliographie Catholique, Akhbar, Diário de Barcelona, Las Novedades.

Comunicantes recorrentes

  • sao-luis — orientador habitual; resposta sobre o anjo da cólera (mai); orientação sobre o Espírito batedor de Aube (jan).
  • erasto — autor da Epístola aos Espíritas Lioneses (out); peça da Epístola aos Espíritas Bordeleses (lida em 14/10).
  • Espírito de Verdade — voz coletiva nas comunicações morais.
  • Lamennais — inicia em dez/1861 as “Meditações filosóficas e religiosas” através do médium Alfred Didier; série continuada em 1862.
  • Charles Nodier — comunicante recorrente em ditados.
  • Alfred de Musset — comunicações poéticas e dissertações.
  • Eugène Scribe — primeira aparição doutrinária em out/1861, dramaturgo morto em 20/02/1861; reflexão sobre o teatro como instrumento moral.
  • William Ellery Channing — pastor unitário americano (1780–1842); sermão sobre vida futura traduzido por Kardec em jun/1861.
  • Don Peyra — sacerdote do priorato de Amilly, evocado em 13/01/1860 (publicado em ago/1861); caso doutrinário sobre mediunidade e ocultismo.
  • sr-jobard — agora como Espírito desencarnado (a partir de 27/10/1861); manifesta-se em nov/1861 e nas conversas que serão publicadas em jan/1862.
  • São Domingos — comunicação espontânea sobre o Auto-de-fé, “era preciso que algo ferisse num golpe violento certos Espíritos encarnados”.
  • Dollet — Espírito que se identifica como “antigo livreiro do século XVI”; comunicação sobre o Auto-de-fé.
  • Mozart — comunicação musical através de jovem médium-músico de Bordeaux (16 anos); partitura assinada cuja caligrafia coincide com autógrafos históricos do compositor.
  • Sr. Jean-Baptiste D… — suicida materialista de fev/1861; caso paradigmático.
  • Gérard de Nerval, Leão X, Cazotte, Charles Nodier, Lamennais, Vauvenargues, Marsillac, André Chénier — autores recorrentes de ditados publicados nas seções “Ensino espontâneo” e “Palestras familiares de além-túmulo”.

Conceitos tratados

Personalidades citadas

  • allan-kardec — diretor; segunda viagem doutrinária; banquetes Lyon (19/09) e Bordeaux (14/10); resposta ao Auto-de-fé.
  • erasto — Epístola aos Espíritas Lioneses (out/1861); peça lida no banquete de Bordeaux (14/10).
  • sr-jobard — morte em 27/10/1861; abjuração das teorias errôneas; primeiras comunicações pós-morte.
  • ermance-dufaux — sua História de Joana d’Arc figura entre as obras queimadas em Barcelona.
  • roustaing — primeira menção em RE (14/10/1861); “distinto advogado e sobretudo consciencioso”, apresentado pelo Dr. Bouché de Vitray.
  • Eugène Scribe (1791–1861) — dramaturgo francês morto em 20/02/1861; Espírito comunicante em out/1861.
  • William Ellery Channing (1780–1842) — pastor unitário americano; sermão sobre vida futura traduzido por Kardec em jun/1861.
  • Don Peyra, prior de Amilly — sacerdote estudioso de Química com fama de feiticeiro; caso de mediunidade ocultista (ago/1861).
  • François Guizot (1787–1874) — estadista e historiador francês cristão; capítulo “Do sobrenatural” extratado por Kardec em dez/1861.
  • Sr. Dijoud — chefe de oficina, presidente do grupo espírita de Brotteaux (Lyon); discurso no banquete de 19/09/1861.
  • Sr. Sabô — presidente da Sociedade Espírita de Bordeaux; discurso na reunião geral de 14/10/1861.
  • Dr. Bouché de Vitray — médico de Bordeaux; discurso longo de 14/10/1861 sobre a entrada na Doutrina via Roustaing.
  • Padre Marouzeau — adversário católico cuja brochura será refutada em obra anunciada para 1862.
  • Louis Jourdan — articulista do Le Siècle que publicou resenha favorável ao LE em abr/1861.
  • Deschanel — articulista do Journal des Débats respondido por Kardec em abr/1861.
  • Bispo de Barcelona — autor da ordem do Auto-de-fé de 09/10/1861.
  • C. Dombre — poeta de Marmande presente no banquete de Bordeaux; autor da fábula “A toutinegra, o pombo e o peixinho” (dez/1861).
  • Lamartine — citado em “Meditações” de Lamennais.
  • Voltaire — citado por Guizot.

Divergências

Nenhuma com o Pentateuco. A Revista é redigida pelo próprio codificador (nível 2 da hierarquia de autoridade). Dois pontos exigem registro mas não constituem divergências doutrinárias:

  • Roustaing aparece pela primeira vez em RE 1861 apenas como “advogado distinto” que apresentou o Dr. Bouché de Vitray ao Espiritismo. A doutrina divergente que Roustaing publicará a partir de 1865 (corpo plástico de Jesus, três véus, etc.) ficará registrada no volume correspondente quando ingerido. Em 1861 não há tensão alguma.
  • Auto-de-fé de Barcelona é divergência eclesial, não doutrinária. A Igreja católica espanhola condena, queima, censura; o Espiritismo responde com argumento de direito internacional, indignação política e leitura providencial. Não há posição doutrinária católica articulada nessa altura — apenas sentença episcopal.

A advertência de Kardec sobre as comunicações de Lamennais (“o caráter sombrio, melancólico e místico do homem incontestavelmente se reflete no do Espírito”) é exemplo metodológico do princípio do controle universal, não divergência registrável: o Espírito de Lamennais não é fonte autônoma de doutrina, mas comunicante a ser pesado pelo conjunto.

Fontes

  • KARDEC, Allan. Revue Spirite — Journal d’Études Psychologiques, ano 1861. Paris: Bureaux de la Revue Spirite, 1861.
  • Edição brasileira: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1861. Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: Edicel.
  • Edição FEB: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1861. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
  • Disponível online: Kardecpédia — Revista Espírita 1861.
  • Edição local: 1861 (172 artigos integrais baixados da Kardecpédia).