Revista Espírita — Ano de 1863

Sexto volume da Revue Spirite, redigido por allan-kardec entre janeiro e dezembro de 1863. 143 artigos em doze fascículos mensais — volume de transição, em que Kardec consolida posições já formuladas e começa a preparar editorialmente O Evangelho Segundo o Espiritismo (publicado em abr/1864). Ano de dois nós doutrinários que dão a tônica do volume: (1) o ciclo de cinco artigos sobre os possessos de Morzine (jan, fev, abr, mai/1863, continuando o artigo de dez/1862), em que Kardec refuta médicos materialistas e estabelece a metodologia de desobsessão coletiva; (2) o artigo programático “Período de luta” (dez/1863), que divide a história do Espiritismo em seis fases e situa o presente como abertura da terceira (luta), inaugurada pelo Auto-de-fé de Barcelona (09/10/1861). O volume registra também o primeiro decreto episcopal francês contra a doutrina — pastoral do Bispo de Argel de 18/08/1863 (publicada em RE nov/1863) —, o ingresso público de Camille Flammarion como aliado científico (resenha do livro de estreia em jan/1863), a morte e categorização de Jean Reynaud como “precursor do Espiritismo” (ago/1863) e a revisão pública da doutrina sobre possessão no caso da Senhorita Júlia (dez/1863).

“Espíritas, não vos inquieteis, porque a saída não é duvidosa. A luta é necessária e o triunfo será mais brilhante. Eu disse e repito: Eu vejo o fim; eu sei quando e como ele será atingido.” — Kardec, RE, dez/1863, “Período de luta”.

Dados bibliográficos

Posição no projeto editorial

1863 é ano de consolidação entre dois marcos: a publicação de O Livro dos Médiuns (jan/1861, fechamento do segundo pilar do Pentateuco) e a publicação de O Evangelho Segundo o Espiritismo (abr/1864). Não há livro novo de Kardec nesse ano. A Revista funciona como laboratório editorial do ESE — artigos sobre prece, caridade, fé, Jesus como mestre moral, ressurreição vs. reencarnação, lei evangélica vs. lei mosaica preparam o material que entrará no Pentateuco no ano seguinte.

A SPEE, no seu sexto ano de atividade, opera em regime estável: sessões gerais e particulares; admissão por carta com profissão de fé; correspondência regular com Lyon, Bordeaux, Bruxelas, Argélia, México, Sicília. O volume documenta a primeira ofensiva episcopal coordenada em terra francesa — pastoral do Bispo de Argel (ago/1863), polêmicas com o Padre Marouzeau, com o Pe. Nampon, com sermões em Lyon, Argel, Tours. A leitura de Kardec é programática: “a partir desse momento os ataques tomaram um caráter de violência inusitada. Foi dada a palavra de ordem: sermões furibundos, mandamentos, anátemas, excomunhões, perseguições individuais, livros, brochuras, artigos de jornais” (RE dez/1863, “Período de luta”). Em “Aos leitores da Revista” (abr/1863), o codificador chega a se desculpar pela monotonia editorial imposta pela urgência polêmica.

Marcos cronológicos

MêsMarcos do fascículo
Janeiro⭐ “Estudos sobre os possessos de Morzine — II artigo” (causas da obsessão e meios de combate; perispírito como agente da ação espiritual; teoria geral da obsessão no contexto da epidemia de Morzine); ⭐ “Identidade de um Espírito encarnado” (Sr. Delanne evoca em Lille, à 23h30, a esposa viva em Paris; ela revela detalhe verificável — uma parenta dormindo com ela “por acaso” — confirmado por carta dois dias depois; caso paradigmático de desprendimento em vida); “Boieldieu na milésima representação da Dame Blanche”; “Carta sobre o Espiritismo (do Renard de Bordeaux)”; “Algumas palavras sobre o Espiritismo (do Écho de Sétif, Argélia)”; “Resposta a uma pergunta sobre o Espiritismo religioso”; ⭐ “Bibliografia — A pluralidade dos mundos habitados por Camille Flammarion” (resenha extensa do livro de estreia de Flammarion, jovem astrônomo do Bureau des Longitudes, membro da SPEE e médium das Estudos Uranográficos assinadas por Galileu publicadas em set/1862; obra apresentada como confirmação científica de “uma das revelações capitais feitas pelos Espíritos”); ⭐ “Subscrição em favor dos operários de Rouen” (abertura, no escritório da Revista, de subscrição em favor dos têxteis desempregados pela crise do algodão americano).
Fevereiro⭐ “Estudos sobre os possessos de Morzine — III artigo” (dois novos casos transmitidos pelo Dr. Chaigneau de Saint-Jean d’Angély e por outros; análise do papel do exorcismo); “Sermões contra o Espiritismo”; ⭐ “A loucura espírita — Resposta ao Sr. Burlet, de Lyon” (refutação de artigo médico-estatístico sobre supostos casos de loucura causados pelo Espiritismo); ⭐ “Círculo Espírita de Tours — Discurso de instalação”; “Variedade — cura por um Espírito”; “Paz aos homens de boa vontade” (dissertação); “Poesia Espírita — O doente e o médico”.
Março⭐ “Luta entre o passado e o futuro” (artigo programático sobre a inevitabilidade do progresso doutrinário); ⭐ “Falsos irmãos e amigos ineptos” (advertência sobre dois tipos de “amigos” prejudiciais — os adeptos exaltados que produzem publicações intempestivas + os agentes infiltrados que misturam Espiritismo a magia, cartomancia, palpites de loteria, para desacreditar a doutrina; “recebemos três beijos de Judas”; matriz para a vigilância organizacional sobre as falanges instrumentais); “Morte do Sr. Guillaume Renaud, de Lyon”; ⭐ “Resposta da Sociedade Espírita de Paris a questões religiosas” (sessão de 13/02/1863); “Decisão da SPEE sobre perguntas dirigidas de Tonnay-Charente”; “Palestras familiares — Clara Rivier”; “Fotografia dos Espíritos”.
Abril⭐ “Estudos sobre os possessos de Morzine — IV artigo” (caracteres essencialmente obsessivos da afecção; análise dos relatórios médicos do Dr. Constant); “Resultados da leitura das obras espíritas”; “Os sermões continuam, mas não se assemelham”; ⭐ “Suicídio falsamente atribuído ao Espiritismo” (caso F… de Tours, casal idoso suicidado em 1863; refutação ponto a ponto do artigo de Le Monde“se eles pretendiam fazer evocações, é que realmente não as faziam”; documentação por peças autênticas do escrivão e do promotor: as causas reais foram falência comercial e processos prévios de suicídio anteriores ao Espiritismo); ⭐ “Os Espíritos e o Espiritismo — pelo Sr. Flammarion” (segundo artigo de Flammarion, extraído da Revue Française); ⭐ “Aos leitores da Revista” (Kardec se justifica pela predominância de artigos de fundo e refutações: “as circunstâncias nos forçaram a dar maior desenvolvimento aos artigos de fundo e a registrar as comunicações espíritas, pela necessidade de certas refutações de atualidade. Em breve poderemos restabelecer o equilíbrio”); “Encerramento da subscrição ruanesa”.
Maio⭐ “Estudos sobre os possessos de Morzine — V e último artigo” (refutação direta do Dr. Constant e do Dr. Chiara — “é um conjunto mórbido formado de diferentes sintomas tomados um pouco em todo o quadro patológico das moléstias nervosas e mentais” — Kardec demonstra que a tese da causa puramente higiênica/alimentar não explica nenhum dos fatos centrais: cessação das crises ao sair da comuna, antipatia religiosa em pessoas religiosas, sentimento dual de “terceira pessoa que fala”, ineficácia tanto dos remédios quanto dos exorcismos; tese kardequiana: “em Morzine abateu-se uma nuvem de Espíritos malfazejos”; matriz para Gênese cap. XIV); “Algumas refutações”; “Prece pelas pessoas que foram estimadas”; “Terrível argumento contra o Espiritismo”; ⭐ “Exames das comunicações mediúnicas que nos enviam” (advertência metodológica).
Junho⭐ “Do princípio da não-retrogradação do Espírito” (artigo doutrinário sobre a impossibilidade de regresso a estados inferiores já ultrapassados); “Algumas refutações (2º artigo)”; ⭐ “Orçamento do Espiritismo, ou exploração da credulidade humana” (refutação de acusação de exploração comercial); “Um Espírito coroado nos jogos florais”; “O leão e o corvo”; “O osso para roer”; ⭐ “Considerações sobre o Espírito batedor de Carcassone” (caso Sr. Sab* + Sr. Jaubert em Toulouse, 04/05/1863: evocação mental obtém prenome Félicia e parentesco “era sua esposa” desconhecidos do médium e impossíveis de adivinhação; demonstração de identidade por dado verificável); ⭐ “Meditações sobre o futuro”.
Julho⭐ “Dualidade do homem provada pelo sonambulismo”; ⭐ “Caráter filosófico da Sociedade Espírita de Paris” (publicação das cartas de admissão de Hermann Hobach e Paul Albert como exemplo da seriedade dos pedidos; refutação do boato de que a SPEE cobraria 10 francos de ouvintes — “jamais um ouvinte pagou um cêntimo; nenhum dos nossos médiuns é remunerado”; afirmação da dimensão exclusivamente moral da Sociedade); “Aparições simuladas no teatro”; “Quadro mediúnico na exposição de Constantinopla”; “Novo jornal espírita da Sicília”; ⭐ “Primeira carta ao Padre Marouzeau” (Kardec responde, dois anos depois, à brochura do cura: “Para começar, dir-vos-ei que se não respondi diretamente à vossa brochura, foi porque anunciastes que ela deveria enterrar-nos vivos. Quis esperar o acontecimento e constato com prazer que não estamos mortos” — método de refutação por princípios em vez de réplica pessoal; o critério é “reconduzir ao bem”, não converter a uma seita); ⭐ “Uma expiação terrestre — Max, o mendigo”.
Agosto⭐ “Jean Reynaud e os precursores do Espiritismo” (necrologia de Jean Reynaud, m. 28/06/1863, autor de Terre et Ciel (1854) — obra condenada e posta no Index pela cúria de Roma — que admitiu a pluralidade das existências por intuição; categorização de Reynaud na linhagem Swedenborg → teósofos → Charles Fourier → Jean Reynaud → Espiritismo moderno; comunicação de Santo Agostinho conclusiva; “a ideia matriz tem tido numerosos precursores que abriram caminho e prepararam o terreno”); ⭐ “Pensamentos espíritas em vários escritores” (extratos de Lamartine, Voyage en Orient); “Destino do homem nos dois mundos (por Hippolyte Renaud)”; ⭐ “Ação material dos Espíritos sobre o organismo”; “Ainda uma palavra sobre os espectros artificiais e ao Sr. Oscar Comettant”; “Palestras familiares de além-túmulo”.
Setembro⭐ “União da filosofia e do Espiritismo (I)” (texto introdutório de F. Herrenschneider em série de dois artigos: pretensão de aliança entre Filosofia e Espiritismo como base da regeneração social; refutação do materialismo, do hegelianismo e do espiritualismo eclético); “Perguntas e problemas sobre a expiação e a prova”; ⭐ “Segunda carta ao Padre Marouzeau”; “Écho de Sétif ao Sr. Lebranc de Prébois”; “Notícias bibliográficas — Revelações sobre minha vida sobrenatural por Daniel Dunglas Home”; “Sermões sobre o Espiritismo”.
Outubro⭐ “Reação das ideias espiritualistas”; ⭐ “Enterro de um espírita na vala comum” (caso de espírita ao qual a Igreja recusou sepultura católica); ⭐ “Inauguração do retiro de Cempuis” (inauguração da capela e do retiro de Cempuis (Oise) pelo Sr. Prévost, membro da SPEE, em 19/07/1863, dia de São Vicente de Paulo, com distribuição de pão, vinho e carne aos pobres da paróquia; caso paradigmático de “fortuna usada em vida”: “depois de ter sofrido o contragolpe das revoluções que lhe fizeram perder sua fortuna, ele a reedificou por sua coragem e perseverança. Hoje, que chegou à idade do repouso, ele se contenta com o estritamente necessário”); ⭐ “Benfeitores anônimos”; “Espíritos visitantes — François Franckowski”; ⭐ “Da proibição de evocar os mortos” (refutação de Deuteronômio 18:11 com regra hermenêutica decisiva: lei mosaica divide-se em (a) lei divina permanente, dada no Sinai, e (b) lei civil/disciplinar, apropriada ao caráter do povo hebreu de então; o Decálogo não proíbe evocação; Jesus modificou Moisés em pontos análogos — “dente por dente”“perdoai aos inimigos”; conclusão: a proibição é “simples medida disciplinar e de circunstância”); “Notícias bibliográficas — O Espiritualismo racional pelo Sr. G. H. Love”; “Sermões sobre o Espiritismo”.
Novembro⭐ “União da filosofia e do Espiritismo (II)”; ⭐ “Pastoral do Sr. Bispo de Argel contra o Espiritismo” (carta circular pastoral de 18/08/1863: art. 1º — proibição da prática do Espiritismo a todos e a cada um na diocese de Argel; art. 2º — recusa de absolvição aos espíritas; art. 3º — leitura pública nas paróquias; primeiro decreto episcopal francês contra a doutrina; Kardec marca: “Essa data ficará marcada nos anais do Espiritismo, como a de 9 de outubro de 1861” — referência ao Auto-de-fé de Barcelona); ⭐ “Exemplos da ação moralizadora do Espiritismo”; “Novo sucesso do Espiritismo em Carcassonne”; “Pluralidade das existências e dos mundos habitados — pelo Dr. Gelpke”.
Dezembro⭐ “Utilidade do ensino dos Espíritos”; ⭐ “O Espiritismo na Argélia” (continuação da resposta à pastoral do Bispo de Argel — relato dos efeitos do decreto: “mais de vinte cartas nos foram mandadas da Argélia, todas confirmando os resultados previstos”, isto é, multiplicação de adeptos pelo eco da repressão); ⭐ “Elias e João Batista — Refutação” (resposta a pároco que objeta à reencarnação por causa da ressurreição da carne; argumentos: Mt 22:23-32 — “serão como anjos do céu” sem corpo carnal; Mt 11:13-15 — “é ele mesmo que é esse Elias que deve vir”; argumento químico — átomos do corpo dispersos em outros seres vivos via ciclo da matéria, impossibilidade física da ressurreição idêntica); ⭐ “São Paulo, precursor do Espiritismo” (comunicação de François-Nicolas Madeleine, sessão de 09/10/1863: I Cor 13 — caridade “fora da caridade não há salvação”; I Cor 12 — dons do Espírito Santo = faculdades mediúnicas; I Cor 15:35-50 — “corpo espiritual” = perispírito, “a carne e o sangue não podem possuir o reino de Deus” refutando a ressurreição da carne); ⭐ “Um caso de possessão — Senhorita Júlia” (revisão pública de doutrina: Kardec admite a categoria de “verdadeira possessão” — substituição parcial de Espírito encarnado por errante; dois casos: Sra. A…/Charles Z… + Senhorita Júlia/Fredegunda); ⭐ “Período de luta” (artigo programático com a teoria das seis fases do Espiritismo); ⭐ “Instruções dos Espíritos” (Paris, 14/08/1863, complemento doutrinário ao “Período de luta”: preparação dos espíritas para a fase ofensiva “não sereis martirizados fisicamente, como nos primeiros tempos da Igreja; não erguerão fogueiras homicidas, como na Idade Média, mas vos torturarão moralmente”).

Linhas-de-força do volume

1. Estudos sobre os possessos de Morzine — ciclo de cinco artigos

A peça doutrinária central de 1863 é o ciclo de cinco artigos sobre a epidemia de obsessão coletiva em Morzine (vila da Haute-Savoie), iniciado em dez/1862 e concluído em mai/1863. Cerca de 120 habitantes — sobretudo mulheres jovens — foram acometidos por crises violentas com sintomas dramáticos (insensibilidade à dor, fala em terceira pessoa, antipatia religiosa, cessação ao sair da comuna). Médicos enviados pelo governo (Drs. Constant e Chiara) atribuíram tudo a alimentação ruim, temperamento linfático e contágio nervoso; Kardec, em cinco artigos sucessivos, articula:

Refutação da causa puramente material. A tese de Constant não explica os efeitos centrais: por que as crises cessam quando o doente cruza a ponte para a comuna vizinha? por que a antipatia religiosa atinge pessoas naturalmente devotas? por que os remédios são ineficazes — mas, segundo as próprias doentes, “são bons para a moça, isto é, para o ser corporal; mas não para o outro, aquele que não é visto”?

Tese kardequiana. Em Morzine “abateu-se, de momento, uma nuvem de Espíritos malfazejos”. Não são “demônios” no sentido teológico — “nós os chamamos apenas maus Espíritos e Espíritos inferiores, o que muito difere pelas consequências, visto como a ideia ligada aos demônios é a de seres à parte, enquanto eles não passam de almas de homens que foram maus na terra, mas que acabarão por se melhorarem um dia”. Diferença decisiva entre subjugação obsessional e a categoria teológica de “possessão diabólica”.

Tratamento. Nem remédios nem exorcismos; prece fervorosa coordenada + magnetização mental + força moral. Caso modelo: a moça internada em manicômio curada por seis pessoas que oravam diariamente “durante alguns instantes” pedindo a Deus e aos bons Espíritos.

Material que entra integralmente em Gênese cap. XIV (faits réputés surnaturels) e na metodologia de obsessão de OPE. Referência cruzada explícita no caso Senhorita Júlia (dez/1863).

2. “Período de luta” (dez/1863) — teoria das seis fases do Espiritismo

Artigo programático que divide a história do Espiritismo em seis fases:

FaseCaráterMarcos
CuriosidadeMesas girantes (1853–1856)
FilosóficoPublicação do Livro dos Espíritos (1857)
LutaAtual. Aberto pelo Auto-de-fé de Barcelona (09/10/1861)
ReligiosoPróxima
Intermediárioreceberá sua denominação característica” mais tarde
Renovação socialabrirá a era do século vinte

Tese: na fase atual “as comunicações dos Espíritos tenham tido em cada período um caráter especial: no primeiro eram frívolas e levianas; no segundo eram graves e instrutivas; a partir do terceiro elas pressentiram a luta e suas várias peripécias”. As comunicações pós-1861 advertem os adeptos contra golpes morais, desgastes psicológicos, defecções por orgulho, em contraste com o martírio físico das primeiras eras cristãs.

A profecia da 6ª fase — “renovação social na era do século XX” — articula-se com a comunicação “Nova geração” de jan/1866 (RE 1866) e com a missão pedagógica dos Espíritos reencarnantes. Texto-chave para a filosofia da história espírita.

3. Caso Senhorita Júlia (dez/1863) — revisão pública da doutrina sobre possessão

Até dez/1863 Kardec sustentava categoricamente que “não havia possessos no sentido vulgar do vocábulo, mas subjugados”. No artigo “Um caso de possessão — Senhorita Júlia” ele muda publicamente de opinião:

“Mudamos de opinião sobre essa afirmativa absoluta, porque agora nos é demonstrado que pode haver verdadeira possessão, isto é, substituição, posto que parcial, de um Espírito encarnado por um Espírito errante.” (RE, dez/1863)

Dois casos sustentam a revisão. (a) Sra. A…/Charles Z… — dama médium sonâmbula em cuja cadeira o Espírito de Charles, antigo amigo morto de apoplexia, “toma posse” episódica do corpo (espreguiçando-se, torcendo o bigode, falando em primeira pessoa); o Espírito da Sra. A… fica ao lado, “olha-me e ri, vendo-me em suas vestes”. Possessão “inocente” e não-malévola. (b) Senhorita Júlia/Fredegunda — empregada doméstica saboiana de 23 anos, sonâmbula natural, vítima por seis meses de crises em que luta com a rainha franca Fredegunda (séc. VI), por vezes calcando-se a si mesma aos pés (“infame Fredegunda! Queres meter-te em minha caixa, mas eu te expulsarei”); dualidade nela mesma, sem confundir presentes com a perseguidora; cura completa após cuidado de uma família espírita.

A revisão é refinamento do próprio codificador, não divergência. Documenta o princípio kardequiano de que o controle universal corrige o ensino dos próprios codificadores quando os fatos exigem (cf. caso Jobard em RE dez/1861: a abjuração das próprias teorias).

4. Camille Flammarion como aliado científico (jan + abr/1863)

Camille Flammarion (1842–1925), com 20 anos no início de 1863, é calculador do Observatório Imperial de Paris e membro da SPEE. Em set/1862 ele havia psicografado as Estudos Uranográficos assinadas por Galileu — série de comunicações sobre a constituição dos mundos habitados publicada na Revista. Em jan/1863, Kardec dedica resenha extensa ao livro de estreia de Flammarion, La pluralité des mondes habités:

“O Sr. Flammarion é um dos membros da Sociedade Espírita de Paris, e seu nome figura como médium nas notáveis dissertações assinadas por Galileu, que publicamos em setembro último, sob o título de Estudos Uranográficos. Por esse duplo motivo, sentimo-nos felizes ao lhe fazer menção especial.” (RE, jan/1863)

A obra é apresentada como confirmação científica, pela astronomia, pela física, pela meteorologia e pela fisiologia, de “uma das revelações capitais feitas pelos Espíritos” — a pluralidade dos mundos habitados. Em abr/1863 Kardec republica artigo de Flammarion extraído da Revue Française (“Os Espíritos e o Espiritismo”). É aqui que se estabelece a aliança que culminará no discurso fúnebre de Flammarion no túmulo de Kardec em 31/03/1869, reproduzido em OPE.

A observação final de Kardec ao resenhar o livro — “a gente se admira que um jovem, na idade em que os outros ainda estão nos bancos escolares, tenha tido tempo de se apropriar delas e, com mais forte razão, aprofundá-las. É para nós uma prova evidente de que seu Espírito não se acha no início, ou que, malgrado seu, ele é assistido por outro Espírito” — antecipa, em registro espírita, a interpretação que o próprio Flammarion daria de sua precocidade.

5. Jean Reynaud e os precursores do Espiritismo (ago/1863)

Jean Reynaud (n. fev/1808, Lyon; m. 28/06/1863, Paris), engenheiro de minas politécnico, ex-Subsecretário de Estado da Instrução Pública (1848), filósofo democrata, autor de Terre et Ciel (1854) — obra que sustentou a pluralidade das existências e dos mundos por intuição, sem qualquer apoio em manifestações espíritas, e que foi condenada e posta no Index pela cúria de Roma. A morte súbita de Reynaud aos 55 anos é tomada por Kardec como ocasião para um artigo histórico-doutrinário sobre os precursores:

“Como todas as grandes ideias que revolucionaram o mundo, o Espiritismo não nasceu de súbito. Ele germinou em mais de um cérebro e mostrou-se, aqui e ali, pouco a pouco, como que para habituar os homens à ideia.” (RE, ago/1863)

Linhagem traçada: Swedenborg (séc. XVIII) → doutrina dos teósofos (início do séc. XIX) → Charles Fourier (progresso da alma pela reencarnação) → Jean Reynaud (mesmo princípio, “sondando o infinito com a ciência às mãos”) → manifestações americanas (1848) → filosofia espírita (1857). Comunicação de Santo Agostinho conclui o artigo: “Mais uma circunstância que vai ser favorável ao Espiritismo. Jean Reynaud tinha feito o que devia fazer nesta última existência. Vão falar de sua morte, de sua vida e, mais do que nunca, de suas obras. Ora, falar de suas obras é pôr o pé no caminho do Espiritismo.”

Reynaud reaparecerá como Espírito comunicante feliz em C&I, 2ª parte, cap. II — exilado voluntário que tinha consciência da pátria espiritual.

6. Pastoral do Bispo de Argel (nov–dez/1863) — primeiro decreto episcopal francês

Em 18 de agosto de 1863, o Bispo de Argel publica Carta circular e pastoral sobre a superstição dita Espiritismo. Três artigos operacionais: (1) proibição da prática do Espiritismo “a todos e a cada um” na diocese; (2) recusa de absolvição aos espíritas; (3) leitura pública nas paróquias. É a primeira ordenação episcopal francesa contra a doutrina — eco institucional do Auto-de-fé de Barcelona (1861), agora em terra francesa.

Kardec marca a data:

“Essa data ficará marcada nos anais do Espiritismo, como a de 9 de outubro de 1861, dia para sempre memorável do auto de fé de Barcelona.” (RE, nov/1863)

A resposta combina argumento jurídico (a proibição não atinge os não-católicos da diocese — judeus, protestantes, muçulmanos, materialistas, indiferentes), argumento empírico (sermões anteriores em Lyon decuplicaram o número de adeptos: “em Lyon, ao terceiro ano [após o sermão de 1860], contavam-se mais de trinta mil”), argumento teológico (se há na ordenação só “uma destas três coisas — charlatanismo, alucinação ou intervenção diabólica”, a hipótese da intervenção é fraqueza confessada da Igreja, que não consegue impedir o diabo) e argumento profético (comunicação de Espírito de 1861: “O Espiritismo penetrará nos campos pelos padres — a princípio involuntariamente, depois voluntariamente”).

Em dez/1863, “O Espiritismo na Argélia” registra o desfecho: “mais de vinte cartas nos foram mandadas da Argélia, todas confirmando os resultados previstos” — isto é, multiplicação dos adeptos pelo eco da repressão.

7. Refutação da ressurreição da carne — São Paulo + Elias e João Batista (dez/1863)

Par doutrinário final do volume sobre ressurreição vs. reencarnação, preparando o material que entrará em ESE caps. IV, V e VII:

(a) Elias e João Batista — Refutação. Resposta a pároco que objetou “se Elias reencarnou em João Batista, com qual corpo se apresentará no juízo final?“. Kardec dispara três argumentos: (i) escriturístico — Mt 22:23-32, episódio dos saduceus e da mulher dos sete maridos, em que Jesus responde “depois da ressurreição os homens não terão esposa nem as mulheres marido, mas serão como os anjos de Deus no céu”; logo, sem corpo carnal; (ii) explícito — Mt 11:13-15, “é ele mesmo que é esse Elias que deve vir; quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça”; (iii) químico“o corpo do homem, como todas as substâncias orgânicas animais e vegetais, é composto de elementos diversos. Esses elementos se dispersam e entram na composição de outros corpos. Se forem plantadas batatas nas proximidades de um sepulcro, essas batatas vão alimentar-se dos gases e dos sais provenientes da decomposição do corpo do morto; vós comereis essas galinhas; tereis em vós partes que pertenceram a outros. Quando ressuscitardes ambos, no dia de juízo, cada um com seu corpo, como fareis?“.

(b) São Paulo, precursor do Espiritismo. Comunicação de François-Nicolas Madeleine na sessão de 09/10/1863 que classifica São Paulo como precursor por três pontos doutrinários decisivos: (i) I Cor 13“Fora da caridade não há salvação” como marca da fraternidade evangélica antecipada; (ii) I Cor 12 — os “dons do Espírito Santo” identificados como as faculdades mediúnicas (“ele descreve, na citada epístola, e de maneira indiscutível, as principais faculdades mediúnicas”); (iii) I Cor 15:35-50 — a passagem sobre o “corpo espiritual” identificada como doutrina antecipada do perispírito: “o que pode ser esse corpo espiritual, que não é o corpo animal, senão o corpo fluídico, cuja existência é demonstrada pelo Espiritismo, o perispírito, de que a alma é revestida após a morte? Numa palavra, ele ressuscita com o seu corpo espiritual”. A sentença “a carne e o sangue não podem possuir o reino de Deus” é tratada como refutação direta da ressurreição literal. Material que estrutura a leitura kardequiana de São Paulo em ESE e Gênese.

8. “Da proibição de evocar os mortos” (out/1863) — hermenêutica do Pentateuco

O artigo enfrenta a objeção católica fundada em Deuteronômio 18:11 e estabelece regra hermenêutica decisiva para toda a leitura espírita do Pentateuco bíblico:

“Há duas partes distintas na lei de Moisés: a lei de Deus propriamente dita, promulgada no Monte Sinai e a lei civil ou disciplinar, apropriada aos costumes e ao caráter do povo. Uma é invariável, a outra se modifica conforme o tempo.” (RE, out/1863)

Argumentos articulados: (a) o Decálogo não proíbe a evocação; logo, a proibição não está na lei divina; (b) Jesus modificou Moisés em pontos análogos — “Moisés vos disse ‘dente por dente, olho por olho’; eu vos digo ‘fazei o bem aos que vos querem mal’”; (c) o Evangelho não menciona a proibição; (d) “É um ponto muito grave para que o Cristo o tivesse omitido de suas instruções, quando tratou de questões de ordem muito mais secundária”; (e) os Espíritos vêm espontaneamente a quem não os chama, “se nos proíbem de chamar os Espíritos, não podem impedir que eles venham”. Conclusão: a proibição é “simples medida disciplinar e de circunstância”, motivada pelo perigo da idolatria e da magia entre povos vizinhos (egípcios, caldeus, moabitas).

A regra hermenêutica — lei mosaica permanente (Decálogo) × lei mosaica circunstancial (legislação social do deserto) — é matriz para toda a relação entre Espiritismo e Pentateuco bíblico, permitindo a Kardec preservar a moral revelada sem se vincular à legislação levítica.

9. “Caráter filosófico da SPEE” (jul/1863) — manifesto institucional

Resposta a calúnias correntes em Paris (boato de que a SPEE cobraria 10 francos de ouvintes; acusação de “exploração da credulidade humana”). Kardec publica duas cartas de admissão (Hermann Hobach, espírita curado moral e fisicamente pelo Livro dos Espíritos; Paul Albert, jovem profundamente transformado pela leitura) como modelos do tipo de adepto admitido. Tese central:

“Jamais um ouvinte pagou um cêntimo; nenhum dos nossos médiuns é remunerado, pois todos, sem exceção, dão seu concurso por puro devotamento à causa; o Espiritismo é uma coisa puramente moral, que não pode, assim como as coisas santas, ser objeto de uma exploração.” (RE, jul/1863)

Anúncio do projeto de “anais autênticos e duráveis” da SPEE — “um monumento especial será feito em tempo hábil”. O artigo articula-se com “Falsos irmãos e amigos ineptos” (mar/1863) para constituir o dossiê de defesa institucional do volume.

10. “Falsos irmãos e amigos ineptos” (mar/1863) — vigilância sobre dois tipos de “amigos”

Advertência metódica sobre dois perigos internos:

Amigos ineptos. Adeptos exaltados que produzem publicações intempestivas, dão crédito a comunicações apócrifas com nomes ilustres, estimulam excentricidades. “Melhor um inimigo declarado que um amigo inepto.” Critério metodológico: “os Espíritos verdadeiramente superiores aconselham, mas nem se impõem nem adulam jamais; toda prescrição imperiosa é um sinal suspeito.”

Falsos irmãos. Agentes infiltrados — confessadamente identificados por Kardec (“recebemos três beijos de Judas”) — que misturam Espiritismo a magia, cartomancia, quiromancia, palpites de loteria, escritos políticos, com objetivo de fornecer aos detratores o material de desacreditação. “Como não há charlatanice filantrópica, a abnegação e o desinteresse absolutos dos médiuns tiram dos detratores um de seus mais poderosos meios de denegrir.”

Material que estrutura a organização de grupos espíritas (filtros de admissão, escolha de elementos, recusa de assuntos comprometedores em sessões abertas) e antecipa a Constituição do Espiritismo de 1868.

11. Caridade institucional — Subscrição de Rouen + retiro de Cempuis

Duas operações de caridade-em-vida documentadas nos fascículos:

Subscrição em favor dos operários de Rouen (jan–abr/1863, 4 fascículos). A SPEE coordena, no escritório da Revista, subscrição em favor dos operários têxteis de Rouen vítimas da crise do algodão (consequência do bloqueio da Confederação durante a Guerra Civil Americana, 1861–1865). Listas publicadas; encerramento em abr/1863.

Retiro de Cempuis (out/1863). O Sr. Prévost, membro da SPEE, inaugura em 19 de julho de 1863, dia de São Vicente de Paulo, capela e retiro em Cempuis (Oise) destinados a idosos desvalidos e órfãos. Discurso de inauguração reproduzido na íntegra. “Depois de ter sofrido o contragolpe das revoluções que lhe fizeram perder sua fortuna, ele a reedificou por sua coragem e perseverança. Hoje, que chegou à idade do repouso, ele se contenta com o estritamente necessário.” Caso paradigmático que opõe a caridade em vida à caridade testamentária: “ao contrário de muitos outros, não espera não precisar de mais nada para que seus irmãos em Jesus Cristo participem do seu supérfluo”.

12. “União da filosofia e do Espiritismo” (set + nov/1863) — articulação metafísica

Série de dois artigos de F. Herrenschneider sobre a aliança entre Filosofia e Espiritismo. Tese central: o Espiritismo derruba três sistemas concorrentes — materialismo (alma como fenômeno material), hegelianismo (alma como momento da ideia absoluta), espiritualismo eclético cousiniano (alma como força sem extensão nem solidez) — opondo-lhes um fato único: “a realidade substancial, viva e atual da alma não encarnada”. Os “quatro princípios primordiais” do eu (substância, força, unidade pessoal, destino) são apresentados como inferíveis da consciência sem necessidade de revelação. Texto que articula o Espiritismo com a filosofia francesa pós-cousiniana e antecipa a Filosofia Espírita de Léon Denis (geração seguinte).

A SPEE em 1863 — operação polêmica madura

A Sociedade Parisiense em 1863 atravessa o 6º ano de atividade. O regulamento estabilizado em mai/1861 (sócios livres, restrição às admissões, sessões gerais × particulares) opera sem mudanças. As sessões documentadas em RE 1863 incluem:

  • Sessão de 13/02/1863 — resposta da SPEE a questões religiosas + decisão sobre perguntas dirigidas de Tonnay-Charente.
  • Sessão de 23/01/1863 (médium Sr. Leymarie) — palestra familiar com Clara Rivier.
  • Sessão de 14/08/1863 — comunicação “Instruções dos Espíritos” preparando os adeptos para a fase ofensiva.
  • Sessão de 09/10/1863 — comunicação de François-Nicolas Madeleine sobre São Paulo, precursor do Espiritismo.
  • Sessão de outono/1863 — análise do caso Senhorita Júlia.

Correspondência regular com Lyon, Bordeaux, Bruxelas, Argélia (numerosos relatos enviados após a pastoral do Bispo de Argel), México, Sicília (novo jornal espírita anunciado em jul/1863), Marselha, Tours, Toulouse, Carcassonne, Saint-Jean d’Angély. A Revista publica respostas a polêmicas com Le Monde (antigo Univers Religieux), Journal des Débats, Bibliothèque Catholique, Revue Française (favorável, via Flammarion).

Comunicantes recorrentes

  • sao-luis — orientador habitual; comunicações nas sessões da SPEE.
  • Espírito de Verdade — voz coletiva nas comunicações morais.
  • Santo Agostinho — comunicação conclusiva sobre Jean Reynaud (ago/1863); orientação metodológica em “União da filosofia e do Espiritismo”.
  • Lamennais — continuação das “Meditações filosóficas e religiosas” via médium Alfred Didier, série iniciada em dez/1861.
  • Charles Nodier, Alfred de Musset, Gérard de Nerval, Vauvenargues — autores recorrentes nas seções “Ensino espontâneo” e “Palestras familiares de além-túmulo”.
  • Galileu — Espírito autor das Estudos Uranográficos via Flammarion (referência cruzada à série de set/1862).
  • Jean Reynaud — manifestação inicial entre as “Dissertações” de ago/1863; tratamento doutrinário definitivo em C&I.
  • François-Nicolas Madeleine — comunicação sobre São Paulo precursor (sessão de 09/10/1863).
  • Charles Z… — Espírito morto de apoplexia que assume episodicamente o corpo da Sra. A… — caso-modelo da revisão sobre possessão verdadeira.
  • Fredegunda — rainha franca (séc. VI), Espírito perseguidor da Senhorita Júlia.
  • Simeão, por Mateus — comunicação sobre a proibição mosaica de evocar os mortos (médium Sra. Collignon, Bordeaux, mar/1863).
  • William Ellery Channing — pastor unitário americano (continuação do material iniciado em 1861).

Conceitos tratados

  • Aprofundados em 1863: obsessao (ciclo Morzine, 5 artigos; categoria “subjugação obsessional” estabilizada; metodologia de desobsessão por prece coordenada + magnetização mental + força moral) · possessão verdadeira (revisão pública, Senhorita Júlia, dez/1863) · identidade-dos-espiritos (caso Sr. Sab* + Félicia em Toulouse, jun/1863; Sr. Delanne + esposa viva em Lille, jan/1863) · desprendimento-em-vida (Sr. Delanne, jan/1863).
  • Metodologia editorial e organizacional: organizacao-de-grupos-espiritas (artigo “Caráter filosófico da SPEE”, jul/1863; “Falsos irmãos e amigos ineptos”, mar/1863) · discernimento-dos-espiritos (advertências contra publicações intempestivas, comunicações apócrifas e prescrições imperiosas).
  • Ressurreição e reencarnação: perispirito (refutação da ressurreição da carne via I Cor 15 — “corpo espiritual” = perispírito; argumento químico em “Elias e João Batista”) · reencarnacao (refutação católica) · ressurreicao-da-carne (negação por argumento escriturístico + químico).
  • Lei mosaica e Evangelho: regra hermenêutica lei divina permanente × lei civil disciplinar (artigo “Da proibição de evocar os mortos”, out/1863) — matriz para toda a leitura espírita do Pentateuco bíblico.
  • Filosofia da história espírita: seis fases do Espiritismo (artigo “Período de luta”, dez/1863).
  • Pluralidade dos mundos habitados: pluralidade-dos-mundos-habitados (resenha de Flammarion, jan/1863; artigo do Dr. Gelpke, nov/1863; “Destino do homem nos dois mundos” de Hippolyte Renaud, ago/1863).
  • Suicídio: suicidio (caso F… de Tours, abr/1863 — refutação da acusação por documentação autêntica).
  • Caridade prática: caridade (subscrição de Rouen jan–abr/1863; retiro de Cempuis out/1863; benfeitores anônimos out/1863).

Personalidades citadas

  • allan-kardec — diretor; nove artigos de fundo no volume; cinco do ciclo Morzine; “Período de luta”; cartas ao Padre Marouzeau; resposta à pastoral do Bispo de Argel.
  • camille-flammarion — membro da SPEE; médium das Estudos Uranográficos assinadas por Galileu (set/1862); resenha extensa do livro de estreia La pluralité des mondes habités em jan/1863; artigo “Os Espíritos e o Espiritismo” republicado em abr/1863.
  • jean-reynaud — m. 28/06/1863; necrologia e categorização como precursor do Espiritismo em ago/1863.
  • swedenborg · Charles Fourier — citados como precursores na linhagem de germinação providencial do Espiritismo (ago/1863).
  • Hippolyte Renaud — antigo aluno da Escola Politécnica; autor de Destino do homem nos dois mundos analisado em ago/1863.
  • F. Herrenschneider — autor da série “União da filosofia e do Espiritismo” (set + nov/1863).
  • Sr. Prévost — membro da SPEE; fundador do retiro de Cempuis (Oise); discurso de inauguração de 19/07/1863.
  • Sr. Sab* — espírita de Bordeaux; caso de identificação do Espírito de Félicia em sessão com o Sr. Jaubert (Toulouse, 04/05/1863).
  • Sr. Jaubert — magistrado de Carcassonne, médium do Espírito Batedor (caso prolongado).
  • Sr. Delanne — colega da SPEE; evocação da esposa viva em Lille (jan/1863) — pai do futuro Gabriel Delanne.
  • Hermann Hobach · Paul Albert — adeptos cujas cartas de admissão à SPEE são publicadas em jul/1863 como modelos.
  • Dr. Chaigneau — membro honorário da SPEE; presidente da Sociedade Espírita de Saint-Jean d’Angély; transmite casos para o ciclo Morzine.
  • Sr. Leymarie — médium da SPEE; sessão sobre Clara Rivier (23/01/1863).
  • Sra. Collignon — médium em Bordeaux; comunicação de Simeão por Mateus sobre Deuteronômio (mar/1863).
  • Padre Marouzeau — adversário católico; brochura de 1861 respondida por Kardec em duas cartas (jul + set/1863).
  • Pe. Nampon — autor de discurso adverso citado pelo Bispo de Argel.
  • Bispo de Argel — autor da pastoral de 18/08/1863, primeiro decreto episcopal francês contra o Espiritismo.
  • Dr. Constant · Dr. Chiara — médicos enviados a Morzine; teses materialistas refutadas no ciclo de cinco artigos.
  • Sr. Burlet (Lyon) — autor de artigo sobre “loucura espírita” refutado em fev/1863.
  • Dr. Gelpke — autor de obra sobre pluralidade das existências e dos mundos analisada em nov/1863.
  • Lamartine · Victor Hugo — citados como portadores de “ideias espíritas” em escritos não-doutrinários (ago/1863).
  • William Ellery Channing — pastor unitário americano (continuação do material iniciado em 1861).
  • Daniel Dunglas Home — sua obra Revelações sobre minha vida sobrenatural é resenhada em set/1863.
  • Eugène Scribe — Espírito comunicante (continuação do material iniciado em out/1861).

Divergências

Nenhuma divergência interna registrada. A Revista é redigida pelo próprio codificador (nível 2 da hierarquia de autoridade). Três pontos exigem registro mas não constituem divergências doutrinárias:

  1. Revisão da doutrina sobre possessão (Senhorita Júlia, dez/1863). Kardec passa de “não há possessos no sentido vulgar, apenas subjugados” (posição até dez/1863) para “pode haver verdadeira possessão, isto é, substituição parcial de um Espírito encarnado por um Espírito errante”. Refinamento doutrinário do próprio codificador, devido à observação direta de novos casos. Não é divergência: é o princípio do controle universal aplicado em tempo real ao próprio ensino. A categoria nova (possessão parcial) coexiste com a categoria anterior (subjugação obsessional) — não a substitui. Mesmo padrão metodológico do caso Jobard em RE dez/1861 (abjuração das próprias teorias).

  2. Pastoral do Bispo de Argel (18/08/1863). Divergência eclesial (Igreja Católica francesa) com o Espiritismo, não divergência interna de fontes. Tratamento idêntico ao do Auto-de-fé de Barcelona (1861) — registro histórico-polêmico.

  3. Réplicas a Drs. Constant, Chiara, Padre Marouzeau, Pe. Nampon, Bispo de Argel, Sr. Burlet. Polêmica externa, não divergência interna.

Fontes

  • KARDEC, Allan. Revue Spirite — Journal d’Études Psychologiques, ano 1863. Paris: Bureaux de la Revue Spirite, 1863.
  • Edição brasileira: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1863. Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: Edicel.
  • Edição FEB: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1863. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
  • Disponível online: Kardecpédia — Revista Espírita 1863.
  • Edição local: 1863 (143 artigos integrais baixados da Kardecpédia).