Mediunidade
Definição
Faculdade que permite a um ser humano servir de intermediário entre os Espíritos e os homens. O termo médium vem do latim medium (meio, intermediário).
“Todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos é, por esse fato, médium. Essa faculdade é inerente ao homem; não constitui, portanto, um privilégio exclusivo.” (LM, 2ª parte, cap. XIV, item 159)
Ensino de Kardec
Universalidade e grau
A mediunidade é inerente ao homem — “raras são as pessoas que dela não possuam alguns rudimentos” (LM, 2ª parte, cap. XIV, item 159). Entretanto, chama-se propriamente médium aquele em quem a faculdade “se mostra bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes, de certa intensidade” (LM, 2ª parte, cap. XIV, item 159).
Duas grandes categorias
| Categoria | Descrição |
|---|---|
| Médiuns de efeitos físicos | Aptos a produzir fenômenos materiais: movimentos, ruídos, transportes, aparições tangíveis (LM, 2ª parte, cap. XVI, item 187) |
| Médiuns de efeitos intelectuais | Aptos a receber e transmitir comunicações inteligentes: escrita, palavra, visão, audição (LM, 2ª parte, cap. XVI, item 187) |
Principais variedades (quadro sinótico, item 187–196)
Efeitos físicos: tiptólogos, motores, de translação/suspensão, de efeitos musicais, de aparições, de transporte, noturnos, pneumatógrafos, curadores, excitadores.
Efeitos intelectuais: sensitivos, audientes, falantes, videntes, inspirados, de pressentimentos, proféticos, sonambúlicos, extáticos, pintores/desenhistas, músicos.
Médiuns escreventes (psicógrafos): mecânicos, semimecânicos, intuitivos, inspirados, polígrafos, poliglotas, iletrados (LM, 2ª parte, cap. XVI, itens 191–196).
O quadro sinótico foi elaborado com “particular cuidado” pelos Espíritos Erasto e Sócrates (LM, 2ª parte, cap. XVI, item 185).
O médium como intérprete
O Espírito do médium nunca é completamente passivo: “O Espírito do médium é o intérprete, porque está ligado ao corpo que serve para falar e por ser necessária uma cadeia entre vós e os Espíritos que se comunicam” (LM, 2ª parte, cap. XIX, item 223, 6ª). Mesmo nos médiuns mecânicos, “o cérebro desempenha sempre um papel ativo” (LM, 2ª parte, cap. XVI, item 187, nota dos Espíritos).
Desenvolvimento e perigos
A mediunidade se desenvolve pelo exercício, mas “as regras da poesia, da pintura e da música não fazem que se tornem poetas, pintores, ou músicos os que não têm o gênio” (LM, Introdução). A faculdade pode ser perdida ou suspensa (LM, 2ª parte, cap. XVII).
O exercício abusivo pode causar fadiga e enfraquecimento orgânico por “emissão demasiado abundante de fluido vital” (LM, 2ª parte, cap. XIV, item 161). Quanto à saúde mental, “tal faculdade não constitui, em si mesma, indício de um estado patológico” (LM, 2ª parte, cap. XIV, item 161).
Mediunato
Termo criado pelos Espíritos para designar a missão providencial dos médiuns: “uma tarefa que ele deve desempenhar e pela qual será feliz ou infeliz, conforme o uso que dela fizer” (LM, 2ª parte, cap. XXXI, comunicação XII).
Desdobramentos
A qualidade das comunicações obtidas depende de três fatores: (1) o grau do Espírito comunicante; (2) as qualidades morais e aptidões do médium; (3) a intenção e seriedade do grupo ou evocador (LM, 2ª parte, cap. XVI, item 186).
Aplicação prática
A mediunidade não é fim em si — é meio de comunicação e instrução. Kardec adverte contra a leviandade: “De muitas dificuldades se mostra içada a prática do Espiritismo e nem sempre isenta de inconvenientes a que só o estudo sério e completo pode obviar” (LM, Introdução).
Desenvolvimento por Léon Denis
Em O Grande Enigma (cap. VII, “A Ideia de Deus e a Experimentação Psíquica”), Denis alerta para os perigos da prática mediúnica desacompanhada de elevação moral. “Em torno do nosso planeta atrasado, uma vida poderosa flutua, invisível, onde dominam os espíritos levianos e zombeteiros, aos quais se misturam espíritos perversos e malfeitores” (cap. VII). Sem a prece e o pensamento dirigido a Deus, o experimentador fica exposto a “mistificações inumeráveis” e “manobras pérfidas” que podem conduzir o médium à obsessão.
Denis defende que o Espiritismo não pode ser reduzido a ciência positiva — “sua missão real consiste, sobretudo, em desenvolver a vida moral nos homens” (cap. VII). A ideia de Deus, a prece e a intenção pura são condições indispensáveis para atrair Espíritos elevados e obter comunicações úteis. Posição alinhada com Kardec (LM, 2ª parte, caps. XXIII e XXIX).
Nas notas complementares 4–6, Denis passa em revista as provas experimentais do espiritualismo moderno (Crookes, Lombroso, Richet, Lodge, Bottazzi, Eusapia Palladino) e defende a identidade dos Espíritos comunicantes.
Ver o-grande-enigma.
Mediunidade no NT: Atos dos Apóstolos
Atos é o compêndio neotestamentário mais rico em fenomenologia mediúnica coletiva e individual. Três pontos estruturais:
-
Pentecostes como anúncio programático (At 2:1–21). A descida do Espírito sobre os discípulos, com línguas de fogo e xenoglossia coletiva, é apresentada como cumprimento de Joel: “derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão” (At 2:17). Pedro cita a profecia para afirmar o que Kardec reafirmará dezenove séculos depois (LM, 2ª parte, cap. XIV, item 159): a mediunidade é inerente ao homem, não privilégio sacerdotal ou hereditário.
-
Repertório fenomenológico apostólico. Atos documenta praticamente toda a tipologia mediúnica catalogada em LM, cap. XVI:
- Aparições tangibilizadas e visões: Jesus a Paulo em Damasco (At 9), Corinto (At 18:9) e Jerusalém (At 23:11); Cornélio e Pedro (At 10); varão macedônico (At 16:9); anjo no navio (At 27:23).
- Xenoglossia/profecia: Pentecostes (At 2); doze de Éfeso (At 19:6); Ágabo (At 11:28; 21:10–11).
- Curas por imposição e por contato: coxo da Porta Formosa (At 3), sombra de Pedro (At 5:15), Paulo e os lenços (At 19:11–12), pai de Públio (At 28:8).
- Transporte: Felipe arrebatado após o batismo do eunuco (At 8:39).
- Desmaterialização/ação sobre matéria: libertação de Pedro (At 12:7–10).
- Morte aparente: Êutico (At 20:9–12).
-
Critérios de discernimento — positivos e negativos. Atos estabelece contrastes que fundamentam LM, caps. XXIII (obsessão) e XXIX (desinteresse):
- Simão, o Mago (At 8:18–24) tenta comprar o dom — origem do termo simonia. Pedro rejeita sem meias palavras: o dom não se vende.
- Sete filhos de Ceva (At 19:13–16) tentam usar o nome de Jesus como fórmula mágica; o Espírito os agride. A eficácia mediúnica não vem da palavra, vem da sintonia moral do operador.
- Pitonisa de Filipos (At 16:16–18): mediunidade autêntica no fenômeno, corrompida pela exploração comercial. Paulo encerra a operação. Coerente com Viagem Espírita em 1862: “os médiuns interesseiros e profissionais são desconhecidos […] seriam repelidos por todos os grupos”.
Ver também paulo-de-tarso e pedro-apostolo para os repertórios individuais.
Mediunidade em 1 Coríntios: os dons e a ordenação
1 Coríntios 12–14 é o maior corpus neotestamentário explicitamente dedicado ao que o Espiritismo chama de mediunidade. Paulo organiza o tema em três eixos: a diversidade dos dons (cap. 12), a primazia da caridade (cap. 13) e a ordenação prática do culto mediúnico (cap. 14).
Os dons do Espírito (1 Co 12)
“Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. […] Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; e a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; e a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas.” (1 Co 12:4, 8–10)
A lista paulina mapeia com notável precisão as categorias do quadro sinótico de LM 2ª parte caps. XVI–XVII (itens 187–196):
| Dom em 1 Co 12 | Correlato no quadro de LM |
|---|---|
| sabedoria, ciência | médiuns inspirados, sensitivos, intuitivos |
| fé | médiuns excitadores |
| dons de curar | médiuns curadores |
| operação de maravilhas | médiuns de efeitos físicos |
| profecia | médiuns proféticos, inspirados |
| discernimento de espíritos | cap. XXIV (identificação dos Espíritos) |
| variedade de línguas | médiuns poliglotas, xenoglossia |
| interpretação de línguas | médiuns intuitivos em chave linguística |
A metáfora paulina do corpo único com muitos membros (12:12–27) articula, em chave espiritual, a solidariedade dos médiuns no seio de um grupo: cada dom é complementar, nenhum é desprezível, e a exclusão de um empobrece o todo. “Se um membro padece, todos os membros padecem com ele” (12:26) — formulação paulina da solidariedade universal (cf. LE q. 775).
Primazia da caridade (cap. 13)
Paulo interrompe a tipologia dos dons para afirmar a primazia da moral sobre os fenômenos:
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé […] e não tivesse amor, nada seria.” (1 Co 13:1–2)
A mediunidade sem caridade não santifica, não aproveita. É a mesma tese de Kardec em Viagem Espírita em 1862 (o período moralista sucede o fenomênico) e em caridade como critério de verdadeiro espírita. O v. 8 — “havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá” — confirma que os dons são meio, não fim.
Ordenação prática do culto mediúnico (1 Co 14)
Quatro princípios operacionais são formulados com clareza rara no NT:
- Sujeição do espírito ao médium. “Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (14:32). O médium não é autômato; conserva ou deve conservar a lucidez e o controle (LM 2ª parte cap. XIX, item 223 — “o cérebro desempenha sempre um papel ativo”). Resistir à irrupção tumultuada é sinal de saúde mediúnica.
- Critério da paz. “Deus não é Deus de confusão, senão de paz” (14:33). Comunicações que deixam medo, confusão ou perturbação não procedem de Espíritos elevados. A paz interior é critério positivo de autenticidade (LM 2ª parte cap. XXIV).
- Julgamento coletivo. “Falem dois ou três profetas, e os outros julguem” (14:29). Ninguém tem acesso privilegiado à verdade; a comunicação se valida pelo exame conjunto dos pares (LM 2ª parte cap. XXVI, item 279 — concordância universal).
- Edificação como finalidade. “Faça-se tudo para edificação” (14:26); “faça-se tudo decentemente e com ordem” (14:40). A mediunidade serve à comunidade, não ao protagonismo individual.
A tríade controle + paz + julgamento coletivo é síntese paulina do que hoje constituiria a boa prática da reunião mediúnica espírita. Ver discernimento-dos-espiritos para o desdobramento específico do dom listado em 1 Co 12:10 e do critério de 14:29.
Ver primeira-epistola-aos-corintios para leitura integral dos capítulos 12–14.
Manifesto operacional em André Luiz (Missionários da Luz, 1945, cap. 9)
Em sessão noturna de instrução a aprendizes em sono físico, o Instrutor Alexandre formula o que pode ser lido como o manifesto operacional da mediunidade espírita à luz do Cristo. A formulação resume e articula em prosa direta o quadro kardequiano:
“Mediunidade não é disposição da carne transitória e sim expressão do Espírito imortal. Naturalmente, o intercâmbio aprimorado, entre os dois Planos, requere sadias condições do vaso sagrado de possibilidades fisiológicas que o Senhor vos confiou para santificação; todavia, o corpo é instrumento elevado nas mãos do artista, que deve ser divino.” [[obras/missionarios-da-luz|(André Luiz / Chico Xavier, Missionários da Luz, cap. 9)]]
Cinco eixos:
- Subordinação ao Cristo como porta. “Mediunidade constitui ‘meio de comunicação’, e o próprio Jesus nos afirma: ‘eu sou a porta… se alguém entrar por mim será salvo’ (Jo 10:9). […] Sem o Cristo, a mediunidade é simples ‘meio de comunicação’ e nada mais, mera possibilidade de informação, como tantas outras, da qual poderão assenhorear-se também os interessados em perturbações” (cap. 9). A formulação retoma 1 Co 13 e ESE cap. XV: o fenômeno sem caridade é vazio.
- Universalidade. “O valor mediúnico não é dom de privilegiados, é qualidade comum a todos os homens, requisitando a boa vontade sincera no terreno da elevação” (cap. 9) — eco direto de LM, 2ª parte, cap. XIV, item 159.
- Recusa do fenomenismo. “Não provoqueis o desenvolvimento prematuro de vossas faculdades psíquicas! Ver sem compreender ou ouvir sem discernir pode ocasionar desastres vultosos ao coração” (cap. 9). Coerente com a passagem do “período da curiosidade” ao “período da filosofia” em Viagem Espírita em 1862.
- Princípio de afinidade. “Sem os valores da preparação, encontrareis irremediavelmente a companhia dos que fogem aos processos educativos do Senhor” (cap. 9). Aplicação direta da escala espírita como lei magnética: cada um atrai o seu nível.
- Mediunidade ≠ santificação. “Não julgueis que a morte da forma santifique o ser que a habitou! […] Desencarnação não expressa santificação” (cap. 9). Releitura de LM 2ª parte cap. XIX, item 223 (o Espírito do médium é intérprete) e cap. XXIV (identidade dos Espíritos).
A obra apresenta também caso clínico de cada faculdade: psicografia (caps. 1–2, com a anatomia do médium em transe e a epífise como “glândula da vida espiritual”), mediunidade de incorporação/psicofonia (caps. 16–17, casos de Dionísio e Marinho), passes magnéticos (cap. 19, Anacleto e a regra dos 10 socorros), materialização (caps. 10–12, sob Calimério). Para a doutrina dos centros vitais como base anatômica das faculdades, ver centros-vitais.
Ver missionarios-da-luz.
Mediunidade contra o “Cérbero animista” [[obras/no-mundo-maior|(André Luiz, No Mundo Maior, 1947, cap. 9)]]
Dois anos depois do manifesto de Missionários da Luz, o Assistente Calderaro retoma o tema com ângulo distinto: a crítica ao uso inquisitorial da hipótese animista. André Luiz pergunta se os reflexos condicionados de Pavlov (estudados no caso de epilepsia perispiritual de Marcelo, cap. 8) não explicariam as “mistificações inconscientes” que perturbam os círculos espíritas — e Calderaro reconhece a base de verdade da tese animista, mas denuncia seu uso como veto a candidatos:
“A tese animista é respeitável. Partiu de investigadores conscienciosos e sinceros, e nasceu para coibir os prováveis abusos da imaginação; entretanto, vem sendo usada cruelmente pela maioria dos nossos colaboradores encarnados, que fazem dela um órgão inquisitorial, quando deveriam aproveitá-la como elemento educativo, na ação fraterna. Milhares de companheiros fogem ao trabalho, amedrontados, recuam ante os percalços da iniciação mediúnica, porque o animismo se converteu em Cérbero.” [[obras/no-mundo-maior|(Calderaro, No Mundo Maior, cap. 9)]]
Quatro pontos articulam a doutrina:
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A mediunidade tem evolução, campo, rota. “Nenhuma árvore nasce produzindo, e qualquer faculdade nobre requer burilamento.” Exigir comunicações precisas de aprendizes é ignorar lições elementares da natureza — e “exigem meros aparelhos de comunicação, como se a luz espiritual se transmitisse da mesma sorte que a luz elétrica por uma lâmpada vulgar”.
-
Contraste Moisés × Jesus como dois padrões. “Moisés desempenhou sua tarefa, compelido pelas expressões fenomênicas que o cercavam; recebe, sob incoercível comoção, os sublimes princípios do Decálogo, sentindo defrontar-se com figuras e vozes materializadas do Plano espiritual; entretanto, […] sua doutrina, venerável embora, baseia-se no exclusivismo e no temor. Com Jesus, o aspecto da mediunidade é diferente. Mantém-se o Mestre em permanente contato com o Pai, através da própria consciência, do próprio coração; transmite aos homens a Revelação Divina, vivendo-a em si mesmo” (cap. 9). A mediunidade desejável é a de intuição pura — comunhão consciente com Deus, não fenomenologia externa.
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O médium como “ponte” e o aprendizado pela cessão. “Para ser instrumento relativamente exato, é-lhe imprescindível haver aprendido a ceder, e nem todos os artífices da oficina mediúnica realizam, a breve trecho, tal aquisição, que reclama devoção à felicidade do próximo, elevada compreensão do bem coletivo, avançado espírito de concurso fraterno e de serena superioridade nos atritos com a opinião alheia.”
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Reflexos condicionados aplicados ao mediunismo. Os princípios pavlovianos não explicam apenas a psicopatologia; explicam também porque “uma mente humana, cedendo, não a meros reflexos condicionados, mas a emissões de outra mente em sintonia com a dele” pode produzir comunicações genuínas — desde que o intermediário cresça em valor próprio.
O caso prático ilustrativo é o da médium Eulália (cap. 9), em formação em pequeno grupo: dos onze presentes, oito captam a emissão mental de um médico desencarnado anônimo, cada qual em livre associação (uma rememora hospital, outro Vicente de Paulo, outra paisagem de enfermaria); três permanecem impermeáveis (duas se contristam por perder cinema, uma se distrai com tarefas domésticas). Demonstra empiricamente que a mistificação inconsciente é fenômeno real e que a comunicação genuína de Espíritos pode passar por canais imperfeitos quando há “boa vontade criadora”.
A doutrina articula-se a 1 Co 14:32 (“os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas”) e a LM, 2ª parte, cap. XIX: o médium é intérprete, não autômato.
Ver no-mundo-maior.
A fisiologia sutil em Mecanismos da Mediunidade (André Luiz, 1959)
Quatro anos depois de Nos Domínios da Mediunidade, André Luiz fecha o ciclo doutrinário da série com um tratado expositivo dedicado integralmente à fisiologia da mediunidade. Mecanismos da Mediunidade é o livro em que cada faculdade isolada nos volumes anteriores recebe formulação sistemática pelo léxico da microfísica do séc. XX (eletromagnetismo, eletrônica, química, fisiologia), sob declarada subordinação à codificação — um capítulo inteiro, “Registros de Allan Kardec”, funciona como dedicatória aos pontos de LE, LM, ESE, C&I e Gênese em que a doutrina já estava fixada.
Cinco contribuições estruturam o livro e preenchem lacunas da wiki:
- onda-mental (cap. 11) — pensamento como radiação eletromagnética sutil; cérebro como emissor-receptor; sintonia como motor da mediunidade; vontade como cíclotron.
- ideoplastia (cap. 19) — modelagem de formas pelo pensamento; disciplina das sessões de efeitos físicos.
- psicometria (cap. 20) — leitura medianímica de objetos como operação coletiva (Espíritos induzem o sensitivo).
- desdobramento (cap. 21) — três regimes (artificial, natural, voluntário/instruído); base fisiológica da mediunidade sonâmbula.
- mediunidade-curativa (cap. 22) — passe pelo circuito sangue–fluido cósmico; médium passista como representante do magnetizador espiritual; vontade do paciente como coautoria.
Capítulos finais articulam animismo como gradiente, não dicotomia (cap. 23 — ver animismo); etiologia espírita das psicopatias (cap. 24, expansão do tratamento de obsessao por reencarnação a partir das zonas purgatoriais); oração como reflexo condicionado positivo (cap. 25, “comutador das correntes mentais”); e Jesus como Médium de Deus (cap. 26, exibindo todas as categorias mediúnicas — efeitos físicos, intelectuais, curativos), com Maria, José, Zacarias, Isabel, Simeão e Ana apresentados como “médiuns preparadores” do influxo crístico.
A obra contém ainda a formulação canônica da Lei do Campo Mental (cap. 17): “a criatura consciente, seja onde for no Universo, apenas assimilará as influências a que se afeiçoe. Cada mente é como se fora um mundo, respirando nas ondas criativas que despede”.
Ver mecanismos-da-mediunidade.
Mediunidade ontológica universal [[obras/nos-dominios-da-mediunidade|(André Luiz, Nos Domínios da Mediunidade, 1955)]]
O 9º livro da série radicaliza a tese da universalidade até alcançar dimensão ontológica. Áulus, Assistente especializado em ciências mediúnicas, abre o curso (cap. 1) com o princípio que organiza a obra inteira: “a mente permanece na base de todos os fenômenos mediúnicos”. A ideia é “um ‘ser’ organizado por nosso Espírito, a que o pensamento dá forma e ao qual a vontade imprime movimento e direção”. Decorre o axioma da sintonia — “atraímos os Espíritos que se afinam conosco, tanto quanto somos por eles atraídos” — e o critério moral: “não existe aperfeiçoamento mediúnico sem acrisolamento da individualidade”.
No fecho (cap. 30), Áulus amplia o conceito a categoria ontológica universal:
“O lavrador é o médium da colheita, a planta é o médium da frutificação e a flor é o médium do perfume. (…) A Arte é a mediunidade do Belo. (…) o juiz é o médium das leis. (…) A família consanguínea é uma reunião de almas em processo de evolução. (…) A paternidade e a maternidade, dignamente vividas no mundo, constituem sacerdócio dos mais altos para o Espírito reencarnado.” (cap. 30)
Toda atividade humana é mediunidade — o homem filtra os recursos que o cercam e molda-lhes a manifestação, segundo as suas possibilidades. A formulação coerente com 1 Co 12 (corpo único com muitos membros) e com a teleologia kardequiana da mediunidade como serviço (LM, 2ª parte, cap. XXXI — mediunato).
NDM introduz ainda o mandato mediúnico como categoria distinta da mediunidade comum: delegação outorgada pelo Plano Superior por crédito moral acumulado, com mentor fixo, programa pré-encarnatório e responsabilidade ampliada. Ver mandato-mediunico para o tratamento completo. O psicoscópio (cap. 2) — aparelho fluídico que ausculta a alma — funciona como instrumento auxiliar da pedagogia: ver psicoscopio.
A obra é o tratado mais sistemático da série sobre tipologia mediúnica: psicofonia consciente (cap. 6) e sonambúlica (cap. 8), possessão completa (cap. 9), sonambulismo torturado (cap. 10), desdobramento em serviço (cap. 11), clarividência/clariaudiência (cap. 12), serviço de passes (cap. 17), dominação telepática (cap. 19), mediunidade no leito de morte (cap. 21), fascinação com xenoglossia (cap. 23), psicometria (cap. 26), efeitos físicos (cap. 28). Ver nos-dominios-da-mediunidade.
Na Viagem Espírita em 1862
Kardec registra a multiplicação dos médiuns e o declínio dos de efeitos físicos em favor dos de comunicações inteligentes (moralistas) — confirmando a passagem do “período da curiosidade” ao “período da filosofia”. Enfatiza o desinteresse como qualidade essencial:
“Os médiuns interesseiros e profissionais são desconhecidos nos lugares que visitamos […]. Aquele que fizesse profissão de sua faculdade não inspiraria a menor confiança; muito ao contrário, seria repelido por todos os grupos.” [[obras/viagem-espirita-em-1862|(Kardec, Viagem Espírita em 1862, Impressões gerais)]]
Qualidades do bom médium: “modéstia, simpatia e devotamento”. Deve oferecer seu concurso para tornar-se útil, nunca para satisfazer à vaidade; aceitar e solicitar a crítica; não tomar partido das comunicações recebidas.
Ver viagem-espirita-em-1862, organizacao-de-grupos-espiritas.
Páginas relacionadas
- psicografia — principal forma de comunicação escrita
- mandato-mediunico — categoria distinta com mentor fixo e crédito moral acumulado (NDM, cap. 16)
- psicoscopio — aparelho fluídico de auscultação da alma (NDM, cap. 2)
- obsessao — principal perigo da prática mediúnica
- evocacao — chamada dirigida a Espíritos
- manifestacoes-espiritas — fenômenos produzidos
- identidade-dos-espiritos — discernimento nas comunicações
- discernimento-dos-espiritos — dom e prática crítica de avaliar origem e qualidade das comunicações (1 Co 12:10; LM cap. XXIV)
- escala-espirita — régua de avaliação dos Espíritos comunicantes
- emancipacao-da-alma — fundamento da mediunidade sonambúlica
- fluidos — o fluido vital como agente mediúnico
- onda-mental — substrato fluídico do intercâmbio (Mecanismos cap. 11)
- animismo — fenômenos com cooperação consciente/inconsciente do médium
- ideoplastia — formas-pensamentos materializadas
- psicometria — leitura medianímica de objetos
- desdobramento — emancipação parcial do perispírito
- mediunidade-curativa — passe e fluidoterapia
- livro-dos-mediuns
- o-que-e-o-espiritismo — cap. II, introdução à mediunidade e seus tipos
- mecanismos-da-mediunidade — tratado expositivo da fisiologia mediúnica (1959)
- atos-dos-apostolos — Pentecostes e repertório fenomenológico apostólico
Fontes
- Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Caps. XIV–XXII (itens 159–236).
- Denis, Léon. O Grande Enigma, cap. VII; notas complementares 4–6. Trad. Maria Lucia Alcantara de Carvalho. CELD, 2011.
- XAVIER, Francisco Cândido (André Luiz). Missionários da Luz. Rio de Janeiro: FEB, 1945. Caps. 1–2, 9, 16–19. Edição: missionarios-da-luz.
- XAVIER, Francisco Cândido (André Luiz). No Mundo Maior. Rio de Janeiro: FEB, 1947. Cap. 9 (crítica ao “Cérbero animista”, contraste Moisés × Jesus, caso Eulália). Edição: no-mundo-maior.
- XAVIER, Francisco Cândido (André Luiz). Nos Domínios da Mediunidade. Rio de Janeiro: FEB, 1955. Caps. 1, 2, 16, 30 (tese da mente, psicoscópio, mandato, mediunidade ontológica universal). Edição: nos-dominios-da-mediunidade.
- XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo (André Luiz). Mecanismos da Mediunidade. Rio de Janeiro: FEB, 1959. 26 capítulos (fisiologia sutil, onda mental, ideoplastia, psicometria, desdobramento, mediunidade curativa, animismo, Jesus e mediunidade). Edição: mecanismos-da-mediunidade.