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O Despertar do Espírito
Dados bibliográficos
- Autor espiritual: Joanna de Ângelis
- Médium: Divaldo Pereira Franco
- Tipo: Livro psicografado
- Local de psicografia: Salvador-BA (assinatura final em Santo André, 11 de dezembro de 1999)
- Editora: LEAL — Livraria Espírita Alvorada Editora
- Data: 2000 (1ª ed.); ed. consultada — 8ª ed., 40º-42º milheiro, 2007
- Estrutura: prefácio “O Despertar do Espírito” + 10 capítulos, cada um subdividido em 3 subseções
- Nível: 3 — Complementar aprovado
- Posição na série: vol. 10 da Série Psicológica de Joanna de Ângelis, sucessor cronológico de amor-imbativel-amor (1998); seguido por jesus-e-o-evangelho-a-luz-da-psicologia-profunda (Especial vol. 11, 2000) e triunfo-pessoal (vol. 12, 2002)
- Texto integral: joanna-de-angelis-o-despertar-do-espirito
- Dedicatória: homenagem à Conferência Espírita Brasil-Portugal (Salvador, 16-19 de março de 2000), promovida por FEB e Federação Espírita Portuguesa via FEEB, comemorando os 500 anos do Descobrimento do Brasil
Tese central
A obra diagnostica o descompasso entre o homo tecnologicus (envolto em globalização, mídia, automação) e o ser espiritual que habita o corpo. Para Joanna, os “milênios de cultura e de civilização que lhes alargaram os horizontes do entendimento não lhes solucionaram os grandes desafios da emoção” — e a psicologia espírita é convocada como “ponte entre os notáveis contributos dos estudos ancestrais dos eminentes psicólogos” e o reencarnacionismo, iluminando “os desvãos e os abismos do inconsciente individual e coletivo”.
O ponto de ancoragem kardequiano está na introdução, em formulação que merece citação literal: “Uma visão porém, mais adequada para a sua análise, é a que decorre do ser tridimensional — Energia pensante, psicossoma e soma, ou mais legitimamente Espírito, perispírito e matéria, conforme estabeleceu o insigne Allan Kardec — porquanto transitam de um para outro campo vibratório de estrutura diferenciada as construções mentais, verbais e as ações.”
A ferramenta operacional do volume é a psicossíntese de Roberto Assagioli — a integração entre o “eu pessoal” (centro da consciência, equivalente ao ego) e o “Eu superior” (Self, Espírito, Superconsciente). Joanna articula essa polaridade com a tripartição kardequiana e, em registro espírita explícito, complementa o quadro com o capítulo sobre animismo e obsessão que a psicologia acadêmica não alcança.
Estrutura por capítulo
Prefácio — O Despertar do Espírito
Diagnóstico do homo tecnologicus: globalização, INTERNET, “robotização”, “desumanização dos sentimentos”. Crítica à “fé religiosa que oferece cerimônias complexas de cunho meramente social, objetivando a promoção do ego em detrimento do Eu profundo”. Apresentação da psicologia espírita como ponte entre Quarta Força e tripartição kardequiana.
1 — A Busca
Torvelinho social e solitude · Cansaço e desânimo · Perda do sentido ético existencial. Cita Roberto Assagioli (Psicossíntese), Maslow (self-actualization, retomando termo de Kurt Goldstein), Jung (individuação). Defende a solitude como “providência terapêutica” indispensável: “É no silêncio que se pode encontrar Deus”. Descreve o desânimo em três etiologias: enfermidade orgânica, estresse continuado, e — peculiarmente — o “descobrimento do canal de ligação entre o Eu e o ego” que, mal conduzido, produz “fuga consciente do mundo” e amargura pós-êxtase.
2 — Auto-realização
Subpersonalidades (O problema dos eus) · Necessidade da culpa · Encontro com a verdade. Núcleo conceitual do livro. As subpersonalidades (Pierre Janet em La Bicêtre / Charcot, William James, Assagioli) são lidas em duas chaves complementares: (a) fragmentações egóicas (ressentimento, ciúme, inveja, ódio); (b) ocorrências obsessivas — “personalidades espirituais, que transitam no mundo fora da matéria, interferem no comportamento humano, submetendo, não poucas vezes, o eu individual a transtornos de natureza obsessiva, não detectados pela Psicologia acadêmica convencional”. Joanna remete o leitor a Amor, Imbatível Amor, cap. “Vitória do amor (Amor-perdão)”, em nota da própria autora espiritual.
A distinção operacional culpa terapêutica × culpa punitiva estrutura o cap.: a culpa lúcida é “elemento positivo”, “uma plena conscientização de conduta, com vistas à vigilância emocional e racional para os futuros cometimentos”; a culpa enfermiça “se mascara e adormece no inconsciente profundo” e produz “algoz interior”. Joanna substitui o vocabulário de pecado pelo de responsabilidade — em consonância com a tradição kardequiana — e operacionaliza o autoperdão como “racionalização do ato” que “abre campo para o entendimento do fato menos feliz, sem punição, nem justificação doentia”.
Encerra com Jesus como “Psicoterapeuta Incomum”: “Busca a verdade e a verdade te libertará” (Jo 8:32, citação atribuída).
3 — Problemas Psicológicos Contemporâneos
Violência urbana · Alcoolismo e Toxicomania · Sexolatria. Diagnóstico social. A violência é lida no eixo dupla-herança (atavismos antropológicos + injustiça sócio-econômica), com galeria de “Espíritos fortes” que venceram penúria/escravidão como contraprova: Sócrates, Epícteto, Lincoln, Gandhi, Steinmetz, Martin Luther King Jr.. Alcoolismo e toxicomania são tratados em chave obsessivo-reencarnacionista: a dipsomania como “fruto de reencarnações compulsórias, as quais os infelicitadores se recusaram a aceitar como recurso de recuperação moral”. A sexolatria retoma Freud (libertação da castração vitoriano-clerical), o conflito Reich-Lowen, e introduz Romanos 14:14 — “nenhuma coisa é de si mesma imunda, a não ser para aquele que a tem por imunda” — como princípio: “o comportamento imundo não é o do sexo propriamente dito, porém de quem o vive”.
4 — Atividades Libertadoras
Auto-identificação · Educação e disciplina da vontade · Sublimação da função sexual. A auto-identificação opera por via paradoxal — “auto-identificar-se é desidentificar-se de tudo aquilo que foi assimilado por imposição”. Correção de linguagem proposta como prática: não “meu Espírito” mas “Eu Espírito, tenho um corpo”. A disciplina da vontade é sistematizada como tríade — desejo real (do exercício) + persistência (na execução) + objetivo alcançável. A sublimação sexual distancia-se tanto da abstinência quanto da liberdade reichiana: “O sexo, convenha-se considerar por definitivo, existe em função da vida e não esta em dependência exclusiva dele”.
5 — Experiências Transpessoais
Doenças psicossomáticas · Instabilidade emocional · Superconsciente. Trata da somatização dos conflitos não digeridos e da abertura ao Superconsciente como “estados alterados de consciência” — distinção entre fenômenos místicos genuínos e fugas regressivas. Diálogo aberto com a Psicossomática.
6 — Encontro com a Harmonia
Conflitos do cotidiano · O ser humano perante si mesmo · Libertação do Ego. O ego “narcisista, dominador e fátuo” é apresentado como obstáculo central; a libertação se opera pela “abertura ao Eu superior”, em que “os conflitos cederão lugar aos sentimentos de beleza, de automisericórdia e autocompaixão, sem o pieguismo mórbido da autopiedade depressiva”.
7 — Relacionamentos Humanos
Relacionamentos familiares · Relacionamentos com parceiros ou cônjuges · Relacionamentos sociais. Aplicação do quadro psicossintético aos vínculos. Trata das projeções na figura paterna/materna, da convergência reencarnacionista nos cônjuges (sem o desenvolvimento exaustivo de Vida: Desafios e Soluções) e dos automatismos sociais.
8 — Sentimentos Tumultuados
Conflitos de culpa e de vergonha · O medo e seus vários aspectos · Falta de amor. Catálogo dos sentimentos perturbadores. A vergonha é diferenciada da culpa terapêutica do cap. 2; o medo é tipologizado em variedades (de morrer, de viver, de amar, de envelhecer); a falta de amor é tratada como matriz das demais síndromes.
9 — Desafios Afligentes
Luta pela vida · Desespero · Medo da velhice. A “arte de envelhecer, de ceder passo, de amparar as gerações novas” é apresentada como “valiosa conquista da maturidade psicológica”. A anedota do cantor de ópera convidado a aposentar-se (“melhor que digam: ‘mas já?’… que ‘que pena, mas ainda não!’”) funciona como parábola pedagógica.
10 — Sem Conflitos nem Fobias
Vitória sobre a morte · Encontro com a saúde · Auto-realização e paz. Cap. de fechamento. A vitória sobre a morte é apresentada não como ausência de fim, mas como ressignificação: “Pensando-se na morte, ao invés de supô-la como devastação e sombra, deve-se considerá-la como harmonia e luz”. O encontro com a saúde é definido como esforço pessoal e intransferível — “trata-se de um esforço que o paciente tem o dever de empreender”. A auto-realização e paz são apresentadas como degraus, não terminais: “a marcha da evolução, no entanto, não cessa na auto-realização e na paz, que são de momento um clímax, facultando abrirem-se novos painéis de progresso”.
A obra encerra com a parábola hindu do pote rachado que, ao perder água pelo caminho, revelava-se ter irrigado as flores que adornavam a casa do amo: “É sempre possível transformar limite em harmonia, falta em completude e ausência em esperança.”
Aportes específicos frente à série
- Subpersonalidades em chave dupla — fragmentação egóica + interferência obsessiva. Amor, Imbatível Amor já havia introduzido o vocabulário “subpersonalidades × superpersonalidades” (cap. 61, com Assagioli + Robin Kasarjian); aqui a leitura espírita é mais explícita ao integrar o animismo da Psicologia Espírita.
- Distinção operacional culpa terapêutica × culpa punitiva — sistematização inédita na série. Joanna substitui o eixo “pecado/perdão” pelo eixo “responsabilidade/autoperdão/reabilitação”, em movimento alinhado com o tratamento kardequiano de dores-da-alma e expiacao-e-arrependimento.
- Disciplina da vontade como tríade desejo + persistência + objetivo — formulação distinta da tríade paciência, perseverança, autoconfiança apresentada em Vida: Desafios e Soluções (cap. 8). Os dois quadros são complementares, não substitutos.
- Sublimação sexual em diálogo crítico com Reich/Lowen — reconhece a contribuição da bioenergética sem aderir ao vitalismo libidinal, em registro mais polêmico do que o de sexualidade-em-andre-luiz.
- Diagnóstico de problemas contemporâneos como sintoma do homo tecnologicus — capítulo 3 catalogado em três flagelos (violência urbana, alcoolismo/toxicomania, sexolatria) lidos como manifestações de vazio existencial, não como patologias isoladas. O quadro converge com a tese central de o-ser-consciente (Quarta Força como redescoberta científica) mas leva-a ao diagnóstico social.
- Vitória sobre a morte como degrau, não terminal — alinhada com o “esquecimento providencial das vidas passadas” de desperte-e-seja-feliz (cap. 19), mas com ênfase no enfrentamento existencial da finitude orgânica.
Conceitos tratados
- psicologia-transpessoal — Quarta Força como ponto de partida; psicossíntese de Assagioli como ferramenta operacional
- autoconhecimento — auto-identificação por desidentificação; programa terapêutico ancorado em LE q. 919
- perispirito — peça intermediária da tripartição “Espírito, perispírito e matéria, conforme estabeleceu o insigne Allan Kardec”
- obsessao — interferência obsessiva como vetor das psicopatologias graves (cap. 2 e 3)
- dores-da-alma — substituição do vocabulário “pecado” por “responsabilidade”
- reencarnacao — heranças do inconsciente individual como reflexos de existências pretéritas
- sexualidade-em-andre-luiz — sublimação sexual em registro complementar ao tratamento joanniano de cap. 4
- expiacao-e-arrependimento — culpa terapêutica como reabilitação não-castradora
Personalidades citadas
- joanna-de-angelis — Espírito autora
- divaldo-franco — médium psicógrafo
- allan-kardec — codificador, ancoragem da tripartição (introdução)
- jesus — apresentado como “Psicoterapeuta Incomum” (citação Jo 8:32)
Personalidades históricas mencionadas (sem página na wiki)
- Quarta Força e Psicologia Transpessoal: Roberto Assagioli (psicossíntese — referência central da obra), Abraham Maslow, Kurt Goldstein
- Psicologia profunda clássica: Sigmund Freud, Carl Gustav Jung, Alfred Adler, Erich Fromm, William James, Pierre Janet, Jean-Martin Charcot
- Bioenergética: Wilhelm Reich, Alexander Lowen
- Filosofia/inconsciente: Gottfried Leibniz, Georg W. F. Hegel, Arthur Schopenhauer, Carl Gustav Carus, Friedrich Nietzsche
- Apóstolo citado: Paulo de Tarso (Romanos 14:14, no cap. 3)
- Exemplos morais (“Espíritos fortes”): Sócrates, Epícteto, Abraham Lincoln, Mahatma Gandhi, Charles Steinmetz, Martin Luther King Jr.
Divergências
Nenhuma divergência estrutural com Kardec identificada. O vocabulário de psicologia (Self, individuação, “carma” em sentido implícito) opera como ferramenta integrada à tripartição kardequiana, em linha com o tratamento já aprovado em o-ser-consciente e autodescobrimento. O mito de Adão e Eva é tratado como arquétipo/figura mitológica — alinhado com a leitura kardequiana de C&I e Gênese (não-literal). A culpa do “pecado original” é apresentada criticamente, como “herança atávica” superável pelo conceito de responsabilidade.
Fontes
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). O Despertar do Espírito. Salvador: LEAL — Livraria Espírita Alvorada Editora, 2000. 8ª ed., 40º-42º milheiro, 2007. Edição: joanna-de-angelis-o-despertar-do-espirito.
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. q. 919 (Conhece-te a ti mesmo).
- Kardec, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. (Tripartição Espírito-perispírito-matéria; tratamento da culpa-responsabilidade.)
- Bíblia. João 8:32 (atribuída a Jesus como “Psicoterapeuta Incomum”); Romanos 14:14 (cap. 3, sublimação sexual).
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Amor, Imbatível Amor. Salvador: LEAL, 1998. Cap. “Vitória do amor (Amor-perdão)” — referência interna explícita da própria autora espiritual.