Revista Espírita — Ano de 1862

Quinto volume da Revue Spirite, redigido por allan-kardec entre janeiro e dezembro de 1862. 171 artigos em doze fascículos mensais. Ano da consolidação organizacional da SPEE (5º ano de atividade, abertura em 1º de abril de 1862, sede própria custeada pela Caixa do Espiritismo) e da segunda grande viagem doutrinária (set–out/1862, 693 léguas, 20 cidades, 50 reuniões), desta vez incluindo visita aos possessos de Morzine — caso paradigmático de obsessão coletiva que redirecionará a casuística espírita. Volume marcado por dois nós doutrinários: (1) “Ensaio de interpretação da doutrina dos anjos decaídos” (jan/1862) — tese da raça adâmica como geração de Espíritos exilados, que será a matriz do cap. XI de A Gênese; e (2) “Controle do ensino espírita” + “Questões e problemas propostos aos vários grupos espíritas” (jan/1862) — manifesto programático do controle universal como critério decisivo de verdade na doutrina. Estreia substantiva do médium Leymarie (Caso Sanson) e primeiro estudo biográfico de Apolônio de Tiana (out/1862). Roustaing é nomeado membro honorário da SPEE em out/1862 — registro neutro, sem tensão doutrinária ainda.

“Nossa Sociedade […] é necessária. Quando deixar de ser, sob a forma atual, transformar-se-á como todas as coisas. […] Apenas dizemos que a tua retirada seria um erro que lamentarias um dia, porque entravaria os nossos desígnios.” — Comunicação a Kardec, lida no discurso de abertura do 5º ano da SPEE (RE, jun/1862).

Dados bibliográficos

Posição no projeto editorial

1862 é o ano da maturação institucional da codificação. A fase fundadora (1858–1861), encerrada com a publicação de O Livro dos Médiuns e a “Organização do Espiritismo” (dez/1861), abre espaço para uma fase de consolidação prática: a SPEE conquista sede própria, custeada pela Caixa do Espiritismo (donativo anônimo de 10.000 francos administrado por Kardec); o regulamento de 1860 + sócios livres de 1861 é complementado pela instituição dos membros honorários (out/1862); a viagem doutrinária — agora sistemática, com programa de seis semanas — passa a ser instrumento permanente de governança da rede de grupos.

Doutrinariamente, 1862 prepara em três direções as obras que virão:

  1. Para A Gênese (1868): o “Ensaio de interpretação da doutrina dos anjos decaídos” (jan/1862) é matriz direta do cap. XI (“Gênese espiritual”); “Apolônio de Tiana” (out/1862) prepara o cap. XV (“Os fluidos”) sobre o “maravilhoso”; o “Estudo sobre os possessos de Morzine” (dez/1862) avança a teoria fluídica que será sistematizada nos caps. XIV–XV.
  2. Para O Céu e o Inferno (1865): o caso Sanson (mai–out/1862) — exéquias, evocação no dia do enterro, série de cinco palestras pós-morte sobre a transição morte→vida espírita — é caso-modelo. “Castigo de um avarento” (ago/1862, François Riquier) e “Mistérios da torre de São Miguel” (nov/1862, Guillaume Remone enterrado vivo) entram como casuística.
  3. Para o Livro dos Médiuns — referências cruzadas: Morzine é casuística viva para o cap. XXIII (obsessão); o caso Carrère (mar/1862) e a “Verificação de identidade” alimentam o cap. XXIV (identidade dos Espíritos).

A frente anti-materialista (jul–ago/1862) — quatro artigos articulados (“Estatística de suicídios”, “Hereditariedade moral”, “Duplo suicídio por amor e dever”, “Conferência do Sr. Trousseau”) — fixa a posição metodológica que será reaproveitada na resposta aos cientistas oficiais (Trousseau, Figuier, depois Cl. Bernard) ao longo dos volumes seguintes.

Marcos cronológicos

MêsMarcos do fascículo
Janeiro⭐ “Ensaio de interpretação da doutrina dos anjos decaídos” (artigo doutrinário longo de abertura — “a raça adâmica é uma geração de Espíritos expulsos de outro mundo e exilados na Terra já povoada”; analogia da Nova Caledônia, 24/05/1861, companhia disciplinar de 291 homens; matriz de Gênese cap. XI; ver raca-adamica e emigracoes-e-imigracoes-dos-espiritos); “Publicidades das comunicações espíritas” (lançamento da Bibliothèque du monde invisible com Didier & Cie. — Kardec destinará seus direitos “à distribuição gratuita das obras espíritas”, recusando lucro pessoal); ⭐ “Controle do ensino espírita” (manifesto programático: “em caso de divergência, o melhor critério é a conformidade dos ensinos por diferentes Espíritos e transmitidos por médiuns diferentes e estranhos uns aos outros” — matriz de Gênese cap. I); ⭐ “Questões e problemas propostos aos vários grupos espíritas” (cinco questões enviadas como teste prático do controle universal: formação da Terra, alma da Terra, sede da alma humana, etc. — rejeição implícita da teoria da incrustação planetária do Sr. Jobard); “Do sobrenatural — Pelo Sr. Guizot (2º artigo)”; “Testamento em favor do Espiritismo”; “Carta ao Sr. Dr. Morhéry, A propósito da Srta. Godu”.
Fevereiro”Cumprimentos de ano novo”; “Resposta à mensagem de ano novo dos Espíritas lioneses” (por Erasto, ditado solene); ⭐ “O Espiritismo é provado por milagres?” (artigo crítico antecipando Gênese cap. XV: Apolônio de Tiana, os padres do Egito e os falsos profetas anunciados pelo Cristo são contraprovas ao argumento dos milagres como prova de divindade; “se a verdade só fosse provada por milagres, poderíamos perguntar por que os padres do Egito, que estavam em erro, reproduziam perante o Faraó os milagres feitos por Moisés?”); “O vento — Fábula espírita”; “A reencarnação na América”; “Subscrição em favor dos operários lioneses” (continuidade da aliança com as classes laboriosas firmada em 1861); “Meditações filosóficas e religiosas — Lamennais” (continuação da série iniciada em dez/1861, médium Sra. A. Didier).
Março”Aos nossos correspondentes”; “Os Espíritos e o brasão” (artigo doutrinário sobre a impossibilidade da alma ser criada por procriação — “se a alma da criança fosse uma parte da do pai, deveria ter sempre as suas qualidades e imperfeições” — matriz de “Hereditariedade moral”, jul/1862); “Subscrição para um monumento ao Sr. Jobard”; ⭐ “Carrère — Verificação de identidade” (caso paradigmático de identificação de Espírito desconhecido aos médiuns: subchefe ferroviário morto em 18/12/1861 em Bordeaux; descrição feita pela Sra. Beautey — que nunca o havia visto — coincide exatamente com o homem reconhecido pelo marido).
Abril⭐ “Frenologia espiritualista e espírita” (discussão das teorias de Gall e Spurzheim sobre as protuberâncias cerebrais como sede das faculdades; rejeição: o cérebro é instrumento, não causa; a alma é causa; ver alma); “Consequências da doutrina da reencarnação sobre a propagação do Espiritismo”; ⭐ “Epidemia demoníaca na Sabóia” (primeira menção aos possessos de Morzine na Revista, comuna da Alta Saboia, departamento de Thonon — “casos muito numerosos de demonomania” — apoiado em comunicação do Dr. Caille; será desenvolvido em dez/1862); “Respostas à questão dos anjos decaídos” (continuação do debate de janeiro).
Maio⭐ “Exéquias do Sr. Sanson” (membro da SPEE morto em 21/04/1862 após mais de um ano de sofrimentos cruéis; discurso fúnebre de Kardec“esta alma não é o que vulgarmente pensam: uma chama, uma centelha, algo vago e indefinido. […] tem uma forma, um corpo como em vida; mas um corpo fluídico, vaporoso” — texto que se torna modelo de discurso fúnebre espírita; evocação no dia do enterro pelo médium Leymarie, que jamais conhecera Sanson e descreve seu caráter com exatidão; ver sr-sanson); “Causas da incredulidade”; “Resposta de uma senhora a um padre sobre o Espiritismo”; “O padeiro desumano”.
Junho⭐ “Discurso do Sr. Allan Kardec na abertura do ano social a 1º de abril de 1862” (manifesto institucional de abertura do 5º ano da SPEE: balanço dos cinco anos, reafirmação do princípio da reserva — “sendo uma sociedade de estudos, não quis afastar-se dos princípios de sua instituição e […] jamais fez questão de interesses materiais”; oitenta e sete sócios cotizantes; resposta ao “sistema diabólico” da imprensa católica — “atribuir ao diabo tudo quanto é bom nas comunicações é retirar de Deus o bem para homenagear o diabo”; prestação de contas detalhada do donativo de 10.000 francos com discriminação do aluguel da nova sede e do mobiliário); ⭐ “Caso Sanson — 2ª palestra” (Sociedade de Paris, 25/04/1862, médium Leymarie — descrição lúcida da transição morte→vida espírita); “Menino Jesus entre os doutores (Último quadro de Ingres)”; “Princípio vital das sociedades espíritas” (texto-síntese sobre vida orgânica dos grupos espíritas); “Sociedade espírita de Viena”; “Um Espírita apócrifo na Rússia” (alerta contra impostores).
Julho”O ponto de vista”; ⭐ “Estatística de suicídios” (argumento estatístico-sociológico contra o materialismo: o suicídio cresce no séc. XIX em paralelo com o avanço do materialismo, prova de que a recusa da vida futura desespera o homem); ⭐ “Hereditariedade moral” (resposta a leitor de Wiesbaden — “se a alma da criança fosse uma parte da do pai, deveria ter sempre as suas qualidades e imperfeições, em virtude do axioma que a parte é da mesma natureza que o todo”; comunicações de Erasto e São Luís — Espíritos semelhantes se atraem para famílias afins, daí a aparência de hereditariedade moral); ⭐ “Duplo suicídio por amor e dever — Estudo moral” (caso casuístico de duplo suicídio passional, análise moral sob a luz da lei-de-causa-e-efeito); “Aviso”.
Agosto⭐ “Conferência do Sr. Trousseau” (refutação à conferência médica do reputado Prof. Trousseau, que classificava o espiritismo como patologia; defesa metodológica do Espiritismo como ciência observacional); “Necrologia”; “Sociedade Espírita de Constantina”; “Carta do Sr. Jean Reynaud ao Journal des Débats” (carta do filósofo espiritualista, autor de Céu e Terra (1854), que afirma a reencarnação publicamente; ver jean-reynaud); ⭐ “Pandus e Kurus” (extrato do Mahabharata enviado de Nantes — diálogo de Krishna e Arjuna sobre a imortalidade da alma e a reencarnação; “a alma é uma coisa que o gládio não penetra, o fogo não consome, as águas não deterioram e o vento sul não resseca” — prova de que a doutrina das vidas sucessivas tem antiguidade indo-europeia); ⭐ “O planeta Vênus” (ditado espontâneo via médium Costel: Vênus como mundo intermediário entre Mercúrio e Júpiter, habitado por seres mais adiantados que os terrenos — “as doenças aí são ignoradas. […] eles ignoram o bárbaro costume de alimentar-se de cadáveres de animais, ferocidade só existente nos planetas inferiores”; ver pluralidade-dos-mundos-habitados); “Carta ao jornal de Saint-Jean-D’Angely”; ⭐ “Castigo de um avarento” (caso de François Riquier, velho solteirão avarento morto há 4–5 anos em C…, evocado em sono catalético da filha de uma amiga); “Valor da prece”.
Setembro”Inauguração de um grupo espírita em Bordeaux”; “Carta do Sr. Dombre a um pregador” (Dombre defende a doutrina contra ataque eclesiástico em Marmande); “O Espiritismo numa distribuição de Prêmios”; “Perseguições”; “Uma reconciliação pelo Espiritismo”; “Resposta ao convite dos espíritas de Lyon e de Bordeaux” (preparação da viagem doutrinária); “Ao Sr. E. K.” (resposta a leitor).
Outubro⭐ “Apolônio de Tiana” (estudo biográfico extenso do mago grego do séc. I, contemporâneo do Cristo; resenha da nova tradução francesa de Filostrato pelo Sr. Chassang, Casa Didier; análise crítica das duas opiniões eclesiásticas — “louco e impostor” vs. “sequaz de Satã” — e proposta espírita: Apolônio era médium e filósofo; “o que é que faltava a Apolônio para ser um cristão? Muito pouco”; matriz para maravilhoso-e-sobrenatural; ver apolonio-de-tiana); “Resposta a ‘Abeille Agénaise’ Pelo Sr. Dombre”; “Resposta do Sr. Dombre”; ⭐ “Membros honorários da sociedade de Paris” (instituição da categoria de membro honorário; nomeação de Sr. Dombre de Marmande, J. Jaubert vice-presidente do Tribunal Civil de Carcassone, e do Sr. Roustaing entre outros — “para testemunhar sua simpatia e gratidão às pessoas que prestam serviços relevantes e efetivos à causa do Espiritismo, por seu zelo, seu devotamento e seu desinteresse”); “O que deve ser a história do Espiritismo”; ⭐ “Pode um Espírito recuar ante a prova?” (questão doutrinária sobre o livre-arbítrio na fase de planejamento da reencarnação); “Resposta a uma pergunta mental”.
Novembro⭐ “Viagem espírita em 1862” (anúncio da viagem doutrinária set–out/1862: “durante uma viagem de mais de seis semanas e um percurso total de 693 léguas, estivemos em vinte cidades e assistimos a mais de cinquenta reuniões”; a separata, publicada pela Casa Didier, tornar-se-á o livro viagem-espirita-em-1862; durante a viagem Kardec visita os possessos de Morzine in loco — material decisivo para o artigo de dez/1862); “Aos nossos correspondentes”; ⭐ “Os mistérios da torre de São Miguel, em Bordeaux” (caso de Guillaume Remone, homem que assassinou a esposa por ciúme, foi enterrado vivo por engano e tem suas múmias preservadas nos subterrâneos da torre de São Miguel; série de evocações pela Sociedade de Saint-Jean d’Angély em ago/1862; “morri enraivecido, batendo nas paredes do caixão e querendo sair e viver a todo custo” — matriz para tratamento das penas pós-morte); “Remédio dado pelos espíritos”; “Fábulas e poesias diversas” (incluindo “O monólogo do burrico”, carta do Sr. Jaubert, “Por um espírito batedor”); “Dissertações e ensinos espíritas” (O duelo, Bordeaux 21/11/1861, médium Sr. Guipon — texto importante sobre a tese do duelo como duplo crime; “Fundamentos da ordem social”, Lyon 16/09/1862, médium Sr. Émile V., assinado Léon de Muriane; “Aqui jazem 18 séculos de luzes” — quadro alegórico do mesmo médium-pintor); ⭐ “Papel da sociedade de Paris” (Sociedade de Paris, 24/10/1862, médium Leymarie“Paris é o ponto de desembarque do mundo. […] a Sociedade central faz jorrar seu pensamento no Universo. Sua força não está no círculo onde se realizam suas sessões, mas em todos os países onde são seguidas as suas dissertações”).
Dezembro⭐ “Estudo sobre os possessos de Morzine — Causas da obsessão e meios de combate” (artigo extenso e programático sobre a obsessão coletiva, articulando a teoria fluídica do perispírito com a casuística clínica observada in loco; “o perispírito é impregnado das qualidades, ou seja, do pensamento do Espírito, e irradia tais qualidades em torno do corpo”; identificação dos três graus — obsessão, fascinação, subjugação/possessão; tese do remédio — vontade + prece + magnetização espírita, não fórmulas, talismãs ou exorcismos; matriz para LM cap. XXIII; ver possessos-de-morzine); “O Espiritismo em Rochefort” (relato da viagem; polêmica com o jornalista Tony do Spectateur“o Espiritismo não se demonstra”; convite público de Kardec para Tony comparecer à SPEE para contraditá-lo); “É possível o Espiritismo?” (artigo do Écho de Sétif da Argélia, sob assinatura de Jalabert, defesa filosófica da possibilidade do Espiritismo); ⭐ “Charles Fourier, Louis Jourdain e a reencarnação” (refutação à acusação de plágio: Fourier afirmou a reencarnação em Théorie de l’unité universelle, Louis Jourdan em Préres de Ludovic (1849), e os druidas; “aceitamos esse dogma; não o inventamos” — texto-chave da metodologia espírita); ⭐ “O Tugúrio e o Salão — Estudos de costumes Espíritas” (caso narrativo da filha da porteira com modos de duquesa e da filha da grande dama com gostos de cozinheira; ilustração viva da pluralidade das existências e dos pendores inatos); “Dispensário Magnético” (do Sr. Canelle, magnetizador espírita); “Resposta a um senhor de Bordeaux” (lacônica: “como a carta não traz assinatura nem endereço, fizemos o que se faz com toda carta anônima: foi para a cesta de lixo”); “Erratum”.

Linhas-de-força do volume

1. “Anjos decaídos” — matriz da raça adâmica e da Gênese cap. XI

O artigo de abertura de 1862 desenvolve, em cinco páginas densas, a tese que se tornará o cap. XI de A Gênese (1868). Pontos doutrinários decisivos:

a) Os anjos decaídos não são seres criados perfeitos que caíram. “Se os anjos fossem seres criados perfeitos, sendo a revolta contra Deus um sinal de inferioridade, aqueles que se revoltaram não poderiam ser anjos.” O termo “anjo”, no contexto da queda, deve ser tomado em acepção geral — Espíritos. A categoria dos “anjos decaídos” reúne os Espíritos imperfeitos punidos por sua revolta, isto é, pelos materialistas, ateus, hipócritas, ímpios.

b) A raça adâmica é uma geração de Espíritos exilados, não o tronco da humanidade. Os documentos da história chinesa, as leis da antropologia e a comparação com os selvagens da Nova-Holanda (mais primitivos que Adão) provam que a humanidade é mais antiga que Adão. A raça adâmica foi enviada à Terra já povoada por homens primitivos, com a missão de civilizá-los — “trazendo para o seu meio as luzes de uma inteligência já desenvolvida”. Ver raca-adamica.

c) Analogia da Nova Caledônia. Em 24/05/1861, a fragata Iphigénie desembarcou na Nova Caledônia uma companhia disciplinar de 291 homens punidos por suas faltas. O comandante saudou-os com um discurso prometendo “levar com brilho, para o meio das tribos selvagens […] o facho da civilização”. Kardec extrai a homologia: aqueles homens são a Nova Caledônia o que a raça adâmica é à Terra; o discurso do comandante é a linguagem que Deus dirigiu aos Espíritos exilados.

d) O pecado original como remanescente de imperfeição inicial. “Considerado como responsabilidade por uma falta cometida por outrem, o pecado original é uma insensatez e a negação da justiça de Deus. Ao contrário, considerado como consequência e remanescente de imperfeição inicial do indivíduo, não só a razão o admite, mas se considera de plena justiça a responsabilidade dela decorrente.”

e) A passagem de Mateus 24:34 reinterpretada. “Não passará esta geração sem que se cumpram todas estas coisas” — não a geração biológica do tempo do Cristo, mas a geração dos Espíritos que percorreram seus períodos de reencarnação na Terra e estão prestes a deixá-la. Tese da transição planetária e das emigrações e imigrações dos Espíritos.

2. Controle universal — manifesto programático

Janeiro de 1862 traz dois artigos articulados que fixam o controle universal como princípio diretor da codificação:

“Controle do ensino espírita” (jan/1862) define a tese:

“Em caso de divergência, o melhor critério é a conformidade dos ensinos por diferentes Espíritos e transmitidos por médiuns diferentes e estranhos uns aos outros. Quando o mesmo princípio for proclamado ou condenado pela maioria, é preciso nos rendermos à evidência.” (RE, jan/1862)

“Questões e problemas propostos aos vários grupos espíritas” (jan/1862) opera o método: Kardec envia cinco questões doutrinárias aos grupos espíritas correspondentes, pedindo respostas independentes, para teste prático do critério. As questões são deliberadamente arriscadas — incluem a teoria errônea da incrustação planetária (do falecido Sr. Jobard) e a “Religião harmônica” como contraste para verificar se os grupos as rejeitam. Tese implícita: “se a doutrina ou quaisquer pontos doutrinários que professamos fossem reconhecidos como errados, num julgamento unânime, submeter-nos-íamos sem murmuração, sentindo-nos felizes por terem outros encontrado a verdade”.

Material que estrutura discernimento-dos-espiritos e que será integralmente reaproveitado em A Gênese cap. I (“Caráter da revelação espírita”).

3. Bibliothèque du monde invisible — projeto editorial sem lucro pessoal

A “Publicidades das comunicações espíritas” (jan/1862) lança projeto editorial central com Didier & Cie. A fórmula: coleção de volumes in-18 de cerca de 250 páginas, preço uniforme de 2 francos, cada volume com seu título próprio mas integrando a coleção. Publicação seletiva, “reservando-se expressamente o direito de uma escolha rigorosa”.

A passagem decisiva é a autodeclaração de não-lucro:

“Não visando lucro pessoal de tais publicações, nossa intenção é aplicar os direitos que nos couberem pelos cuidados a elas dados, em favor da distribuição gratuita de nossas obras sobre o Espiritismo às pessoas que não as puderem adquirir, ou qualquer outro emprego julgado útil à propagação da doutrina.” (RE, jan/1862)

Princípio reaproveitado em todos os volumes seguintes e em Obras Póstumas — Kardec não acumula patrimônio com a doutrina; o que recebe pelas obras é canalizado de volta para a propaganda.

4. Caso Sanson — modelo de discurso fúnebre espírita

Sanson, membro da SPEE, morre em 21/04/1862 após mais de um ano de sofrimentos cruéis. Em 27/08/1860 ele havia escrito à Sociedade pedindo que, após sua morte, “meditassem com cuidado [a sua experiência] em proveito de uma teoria que se baseia em fatos”. As exéquias inauguram três precedentes:

a) Discurso fúnebre espírita. O texto pronunciado por Kardec à beira da cova torna-se o modelo de todos os discursos fúnebres espíritas subsequentes. A passagem central:

“Esta alma não é o que vulgarmente pensam: uma chama, uma centelha, algo vago e indefinido. Não a vereis, de acordo com idéias supersticiosas, correr à noite pela terra como um fogo fátuo. Não: ela tem uma forma, um corpo como em vida; mas um corpo fluídico, vaporoso, invisível aos nossos sentidos grosseiros e que, entretanto, em certos casos, torna-se visível.” (Kardec, RE mai/1862)

b) Evocação no dia do enterro. A primeira palestra com Sanson ocorre no próprio dia do enterro, em sessão da SPEE, pelo médium Leymarie — que jamais conhecera Sanson e descreve seu caráter (“o tipo do verdadeiro filósofo: não do filósofo cínico, mas daquele que está sempre contente com o que tem”) com exatidão depois confirmada por todos. Estreia substantiva de Leymarie como médium escrevente da SPEE.

c) Caso-modelo de transição lúcida. A série de cinco palestras pós-morte (mai–out/1862) é caso-modelo de descrição lúcida da transição morte→vida espírita por Espírito que viu sua própria morte conscientemente — “o Sr. Sanson viu a sua própria morte e o seu próprio renascimento, circunstância pouco comum devida à elevação de seu Espírito”. Material reaproveitado em ceu-e-inferno, 2ª parte.

5. Discurso de abertura do 5º ano da SPEE — política de reserva e prestação de contas

O manifesto de 1º abril 1862 (publicado em jun/1862) consolida a forma estabilizada da SPEE:

a) Política de reserva. Oitenta e sete sócios cotizantes, “sem contar os sócios honorários e correspondentes” — Kardec afirma que poderia “dobrar, e mesmo triplicar esse número, se ela visasse receita”. A recusa é programática: “sua preponderância nada tem a ver com o número de sócios. Ela está nas ideias que estuda, elabora e divulga”.

b) Caixa do Espiritismo. Prestação de contas detalhada do donativo anônimo de 10.000 francos recebido em 1860. Aplicação: aluguel da nova sede (2.530 francos anuais por seis anos = 9.168 francos), mobiliário e instalação (900 francos), gorjetas e despesas diversas (80 francos). Quase a totalidade dos 10.000 francos absorvidos pelo aluguel — uma biblioteca espírita projetada não pôde ser comprada. Kardec arca pessoalmente com 2.000 francos anuais de despesas adicionais (viagens, etc.), “à custa de ordem, economia e até de privações”.

c) Resposta ao “sistema diabólico”. Frente à ofensiva da imprensa católica que atribui as manifestações ao demônio:

“Atribuir ao diabo tudo quanto é bom nas comunicações é retirar de Deus o bem para homenagear o diabo. Nós nos julgamos mais respeitosos para com a Divindade.” (Kardec, RE jun/1862)

d) Defesa dos pequenos grupos. “Faço votos por sua multiplicação na Sociedade ou fora dela, em Paris ou alhures, porque são os agentes mais ativos de propaganda.” Continuidade do princípio fixado em dez/1861 (“Organização do Espiritismo”).

6. Frente anti-materialista — quatro artigos articulados (jul–ago/1862)

Quatro artigos do volume formam um bloco metodológico contra o materialismo médico-científico:

“Estatística de suicídios” (jul/1862) — argumento sociológico: o suicídio cresce no séc. XIX em paralelo com o avanço do materialismo, prova de que a recusa da vida futura desespera o homem. Reforça suicidio.

“Hereditariedade moral” (jul/1862) — resposta ao leitor de Wiesbaden: como conciliar a anterioridade da alma com a aparência de hereditariedade moral (Racine pai de poeta, Dumas pai de autor ilustre, dinastias militares)? Resposta de Kardec + Erasto + São Luís: “os Espíritos semelhantes se atraem. Daí as famílias de heróis, ou as raças de guerreiros”. A semelhança moral entre pais e filhos não é transmissão, mas atração simpática. Espíritos avançados podem nascer em famílias obscuras (“a fim de mostrar-lhes o caminho do progresso”) e Espíritos atrasados em famílias virtuosas (“para servirem de prova àquelas”). Material que entra em Gênese cap. XI e em encarnacao.

“Duplo suicídio por amor e dever — Estudo moral” (jul/1862) — caso casuístico: jovens que se suicidam por amor frustrado vs. por dever sacrificado. Análise sob a luz da lei-de-causa-e-efeito.

“Conferência do Sr. Trousseau” (ago/1862) — refutação à conferência médica do reputado Prof. Armand Trousseau (1801–1867), professor da Faculdade de Medicina de Paris, que classificava o espiritismo como patologia. Kardec defende o Espiritismo como ciência observacional: “para julgar uma coisa é preciso conhecê-la. A crítica só é permissível ao que fala do que sabe”. Material que prepara o tom da resposta a Figuier e a Cl. Bernard nos volumes seguintes.

7. Apolônio de Tiana — recusa do milagre como prova de divindade

O estudo biográfico de Apolônio de Tiana (out/1862) é resenha extensa da nova tradução francesa de Filostrato pelo Sr. Chassang (Casa Didier). Kardec apresenta Apolônio como personagem-chave para a metodologia espírita:

a) Apolônio como contraprova ao milagre como critério de divindade. “Por que Apolônio de Tiana, que era pagão, curava pelo toque, dava a vista aos cegos, a palavra aos mudos, predizia o futuro e via o que se passava a distância?” A questão, formulada também em “É provado por milagres?” (fev/1862), demolicrá a tese de que os milagres do Cristo provam sua divindade — pois Apolônio fez prodígios análogos.

b) Apolônio como médium-filósofo. Kardec rejeita as duas interpretações eclesiásticas (“louco e impostor” vs. “sequaz de Satã”) e propõe a leitura espírita: Apolônio era médium dotado de cura, dupla vista, presciência, escrita direta, mais filósofo de hábitos sóbrios e moral elevada. “O que é que faltava a Apolônio para ser um cristão? Muito pouco, como se vê.”

c) Distinção decisiva. O que dá superioridade ao Cristo não são os prodígios, mas “a divindade de sua missão, […] a revolução produzida no mundo inteiro pela doutrina que ele, obscuro, e seus apóstolos, tão obscuros quanto ele, pregaram, enquanto que a de Apolônio morreu com ele”. Critério moral-histórico, não taumatúrgico.

Material decisivo para maravilhoso-e-sobrenatural e para o cap. XV de A Gênese (“Os milagres do Evangelho”).

8. Viagem espírita 1862 + Possessos de Morzine

A segunda grande viagem de Kardec (set–out/1862) — “durante uma viagem de mais de seis semanas e um percurso total de 693 léguas, estivemos em vinte cidades e assistimos a mais de cinquenta reuniões” (RE, nov/1862) — é descrita em separata extensa publicada pela Casa Didier (que se tornará o livro viagem-espirita-em-1862). Os destaques na Revista:

a) Visita aos possessos de Morzine. Kardec investiga in loco a epidemia de obsessão coletiva na comuna de Morzine (Alta Saboia). O artigo programático “Estudo sobre os possessos de Morzine” (dez/1862) articula a teoria fluídica do perispírito com a casuística clínica. Tese: a obsessão coletiva é lei natural da ação dos Espíritos imperfeitos sobre os encarnados, manifestada em três graus — obsessão simples, fascinação, subjugação/possessão. Remédio: vontade + prece + magnetização espírita, não fórmulas, talismãs ou exorcismos. Ver possessos-de-morzine.

b) Episódio de Rochefort. Kardec recebe convite para reunião pública em Rochefort, na casa do Sr. La Maison. Polêmica subsequente com o jornalista Tony do Spectateur, que esperava espetáculo de evocações e reportou que “o Espiritismo não se demonstra”. Kardec responde com convite público para Tony comparecer à SPEE para sustentar publicamente sua acusação de que o Espiritismo “mata”. Episódio-modelo da estratégia kardequiana de tratamento da imprensa hostil — não silenciar, não polemizar mesquinhamente, expor o adversário em foro público.

9. Charles Fourier e a reencarnação — demarcação metodológica

“Charles Fourier, Louis Jourdain e a reencarnação” (dez/1862) é texto-chave da metodologia espírita. Frente à acusação de plágio (“a Doutrina Espírita não inventou a reencarnação”), Kardec faz reconhecimento explícito de antecedentes:

  • Charles Fourier (Théorie de l’unité universelle) — afirmou a reencarnação como pedra angular de sua teoria; “vês, meu caro amigo, por esse curto extrato, quanto se assemelham a doutrina de Fourier e o Espiritismo”.
  • Louis JourdanPréres de Ludovic (1849), publicado “antes que se cogitasse do Espiritismo”; livro inteiramente assentado na reencarnação.
  • Jean ReynaudCéu e Terra (1854), livro espiritualista sobre a reencarnação.
  • Druidas“esse princípio era professado pelos Druidas, aos quais, certamente, nós não ensinamos”.
  • Brâmanes — confirmado em “Pandus e Kurus” (ago/1862) com extrato do Mahabharata.

A passagem programática:

“Quando ele [o princípio da reencarnação] nos foi revelado, ficamos surpresos, e o acolhemos com hesitação e desconfiança. Nós até mesmo o combatemos, durante algum tempo, até que a evidência nos foi demonstrada. Assim, nós ACEITAMOS esse dogma e não o INVENTAMOS, o que é muito diferente.” (RE, dez/1862)

Demarcação importante: o Espiritismo é descobridor, não inventor. Material que fixará a posição metodológica em todos os volumes seguintes.

10. Roustaing membro honorário — registro neutro

A nomeação de J.-B. Roustaing entre os membros honorários da SPEE em out/1862 (ao lado de Dombre, Jaubert, Bouché de Vitray, etc.) é registro biográfico sem tensão doutrinária ainda. A divergência roustainguista sobre o corpo plástico de Jesus, os três véus e a interpretação alegórica universal dos Evangelhos só será publicada a partir de 1865, quando Roustaing der à luz Os Quatro Evangelhos (Paris, 1866). Em 1862 ele é apresentado como “distinto advogado” de Bordeaux e propagandista zeloso. Ver roustaing para a divergência posterior.

A SPEE em 1862 — operação madura

Em 1862 a SPEE conquista sua forma definitiva:

  • Sede própria (rue Sainte-Anne, 59) custeada pela Caixa do Espiritismo.
  • Categorias de associação: titulares, sócios livres (1861), correspondentes, honorários (1862).
  • Regulamento estabilizado: sessões gerais × particulares; controle prévio das comunicações lidas.
  • Quatorze comunicações na mesma sessão como pico de produtividade mediúnica.
  • Correspondência regular com Lyon, Bordeaux, Bruxelas, Sens, Mâcon, Metz, Marselha, México, Argélia, Áustria, Itália, Espanha, Polônia, Constantinopla, América.
  • Reuniões particulares organizadas em lares de membros, “canteiros para a formação de médiuns” (Kardec, RE jun/1862).

Comunicantes recorrentes

  • sao-luis — orientador habitual; comunicação sobre hereditariedade moral (mai/1862); Espírito presidente da SPEE.
  • erasto — Resposta à mensagem de ano novo dos espíritas lioneses (fev/1862); comunicação sobre semelhanças familiares (mai/1862).
  • Espírito de Verdade — voz coletiva.
  • sr-sanson — agora como Espírito desencarnado (a partir de 21/04/1862); cinco palestras pós-morte.
  • Lamennais — continuação das “Meditações filosóficas e religiosas” (médium Sra. A. Didier).
  • Charles Nodier, Alfred de Musset, Marguerite, Antônio, Léon de Muriane (Espírito desconhecido até do médium), Georges — comunicantes recorrentes em ditados.
  • Carrère — subchefe ferroviário morto em 18/12/1861, identificado postumamente em mar/1862.
  • Guillaume Remone — homicida enterrado vivo, comunicação extensa em ago/1862 (publicada em nov/1862).
  • François Riquier — avarento punido após a morte (ago/1862).

Conceitos tratados

Personalidades citadas

  • allan-kardec — diretor; segunda viagem doutrinária (set–out/1862); abertura do 5º ano SPEE.
  • sr-sanson — membro SPEE morto em 21/04/1862; cinco palestras pós-morte; modelo de discurso fúnebre.
  • apolonio-de-tiana — primeiro estudo biográfico (out/1862).
  • jean-reynaud — carta ao Journal des Débats (ago/1862); Céu e Terra (1854) reafirmado como precursor.
  • sr-jobard — comunicações pós-morte continuadas em jan/1862; subscrição para monumento (mar/1862).
  • erasto — comunicações em fev e mai.
  • roustaing — nomeado membro honorário da SPEE em out/1862.
  • Sr. Leymarie — médium escrevente das palestras com Sanson (mai–out/1862); estreia substantiva na Revista; futuro discípulo central.
  • Sr. Dombre (de Marmande) — poeta e propagandista; nomeado membro honorário (out/1862); polêmica com a Abeille Agénaise.
  • J. Jaubert — vice-presidente do Tribunal Civil de Carcassone; nomeado membro honorário (out/1862); coleção de fábulas mediúnicas.
  • Carrère — subchefe ferroviário de Bordeaux, morto em 18/12/1861; caso-modelo de identificação (mar/1862).
  • Guillaume Remone — homicida enterrado vivo, séc. XVI–XVII; múmias na torre de São Miguel de Bordeaux (nov/1862).
  • François Riquier — velho solteirão avarento de C…, morto há 4–5 anos; caso de castigo pós-morte (ago/1862).
  • Charles Fourier (1772–1837) — utopista francês, precursor da reencarnação em Théorie de l’unité universelle (dez/1862).
  • Louis Jourdan — redator do Le Siècle; Préres de Ludovic (1849) afirmado como antecedente direto da reencarnação espírita.
  • Armand Trousseau (1801–1867) — professor da Faculdade de Medicina de Paris; conferência adversária refutada em ago/1862.
  • Sr. La Maison — alto funcionário de Rochefort que cedeu sua sala para a reunião pública (out/1862).
  • “Tony” — pseudônimo de jornalista do Spectateur de Rochefort, polemista hostil.
  • François Guizot (1787–1874) — capítulo “Do sobrenatural” comentado (jan/1862, sequência da análise iniciada em dez/1861).
  • Sr. Émile V. — jovem médium-pintor de Lyon (16/09/1862); quadro alegórico “Aqui jaz 18 séculos de luzes”.
  • Sr. Costel — médium do ditado sobre Vênus (ago/1862).
  • Sr. Perchet — sargento do 40º de Linha, médium das comunicações de Marguerite (nov–dez/1862).

Divergências

Nenhuma com o Pentateuco. A Revista é redigida pelo próprio codificador (nível 2 da hierarquia de autoridade). Pontos a registrar sem flag de divergência:

  • Roustaing nomeado membro honorário da SPEE (out/1862) — apenas registro biográfico. A doutrina divergente roustainguista (corpo plástico de Jesus, três véus, interpretação alegórica universal dos Evangelhos) só será publicada a partir de 1865 (em Os Quatro Evangelhos, 1866) e ficará registrada nos volumes correspondentes.
  • Crítica metodológica à categoria “epidemia demoníaca” (abr/1862) — não é divergência: é aplicação rigorosa do princípio da recusa do sobrenatural. Os possessos de Morzine não são possuídos pelo demônio, mas obsediados por Espíritos imperfeitos sob a lei natural da ação dos desencarnados sobre os encarnados.
  • Refutação à acusação de plágio sobre reencarnação (dez/1862) — não é divergência, é demarcação metodológica: o Espiritismo reconhece Charles Fourier, Jean Reynaud, Louis Jourdan, druidas e brâmanes como antecedentes, mas afirma que descobriu a doutrina pela observação, não pela tradição filosófica.

A advertência metodológica de Kardec contra fórmulas, talismãs e exorcismos como remédio à obsessão (dez/1862) é exemplo da recusa programática do sobrenatural — princípio que será reaproveitado nos volumes 1864 e 1868.

Fontes

  • KARDEC, Allan. Revue Spirite — Journal d’Études Psychologiques, ano 1862. Paris: Bureaux de la Revue Spirite, 1862.
  • Edição brasileira: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1862. Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: Edicel.
  • Edição FEB: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1862. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
  • Disponível online: Kardecpédia — Revista Espírita 1862.
  • Edição local: 1862 (171 artigos integrais baixados da Kardecpédia).