Louis Figuier
Identificação
- Nome: Guillaume Louis Figuier (15/02/1819 – 08/11/1894)
- Origem: Montpellier, França
- Vida: doutor em medicina (Montpellier, 1841) e em ciências (Paris); professor de farmácia em Montpellier e depois em Paris (Escola Superior de Farmácia)
- Obra: divulgador científico de larga audiência. Autor de Exposition et histoire des principales découvertes scientifiques modernes (1850–1851), La Terre avant le déluge (1863), Les Merveilles de la Science (1867–1869), entre outros. Em 1860 publica os quatro volumes de Histoire du merveilleux dans les temps modernes — objeto da polêmica com Kardec
- Falecimento: 08/11/1894, Paris
Papel
Adversário materialista do Espiritismo, refutado por Kardec em três artigos longos da revista-espirita-1860 (set, set, dez/1860). Seu livro História do Maravilhoso e do Sobrenatural propõe-se a fazer “a última palavra da Ciência” contra o Espiritismo, reduzindo todos os fenômenos da hagiografia católica, do magnetismo animal e das mesas girantes a sugestão hipnótica e fraude.
A função doutrinária é tripla:
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Caso-modelo do adversário sério (não-injurioso) que serve de propaganda involuntária ao Espiritismo. Diferente de Oscar Comettant (em RE/dez/1859) ou C.M. da Gazette de Lyon (RE/out/1860) — que recorrem ao escárnio —, Figuier escreve com erudição e civilidade, “de maneira muito séria, e não se arrasta na lama das injúrias grosseiras e do personalismo” (RE, set/1860). Por isso mesmo Kardec o trata também com seriedade: “a obra do Sr. Figuier está nas melhores condições. […] Ver-se-á nisso a última palavra da Ciência contra esta doutrina e então o público saberá a que se ater.”
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Identificação programática do ponto de partida materialista/ateísta. Kardec faz o que considera obrigatório antes de discutir qualquer crítica ao Espiritismo: descer ao princípio. Para ele, Figuier parte da negação da alma e de qualquer força fora da matéria — “Dizer que é por uma instintiva e injustificada desconfiança em suas próprias forças que o homem é levado a colocar acima de si forças invisíveis, […] não é apenas materialismo, mas ateísmo” (RE, set/1860). Esse ponto de partida invalida o crítico em matéria de Espiritismo: “Quem não admite um Espírito em si não pode admiti-lo fora de si”.
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Refutação técnica da teoria hipnose-sugestão como causa única. Em dez/1860 Kardec demole o quarto volume de Figuier ponto por ponto — anacronismo histórico (“como ignora o Sr. Figuier que Tertuliano fala em termos explícitos das mesas girantes e falantes? Que os chineses conheciam esse fenômeno desde tempos imemoriais?”); falta de observação direta; teoria dos “sleep nervoso” contraditada por fatos que Figuier “passa em silêncio, por uma razão muito simples: é que não os conhece”.
A polêmica é matriz programática para o tratamento ulterior em genese caps. XIII–XV (“Os fluidos / Os milagres / Os fluidos espíritas”).
Citações relevantes
Sobre o ponto de partida materialista de Figuier:
“Por uma instintiva e injustificada desconfiança em suas próprias forças, o homem é levado a colocar acima de si forças invisíveis, que se exercem numa esfera inacessível. Esta disposição congênita existiu em todos os períodos da História da Humanidade […]” (Figuier, citado por Kardec em RE, set/1860)
Resposta de Kardec ao mesmo trecho:
“Dizer que é por uma instintiva e injustificada desconfiança em suas próprias forças que o homem é levado a colocar acima de si forças invisíveis, que se exercem numa esfera inacessível, é reconhecer que o homem é tudo, pode tudo, e que acima dele nada há. Se não nos enganamos, isso não é apenas materialismo, mas ateísmo.” (RE, set/1860)
Conclusão programática de Figuier:
“A negação do maravilhoso, eis a conclusão a tirar deste livro, que poderia chamar-se o maravilhoso explicado. Se atingirmos o objetivo a que nos propusemos, teremos a convicção de ter prestado um verdadeiro serviço para o bem de todos.” (Figuier, Histoire du merveilleux, prefácio, citado em RE set/1860)
Refutação por Kardec:
“Dar a conhecer os abusos e desmascarar a fraude e a hipocrisia por toda parte onde se encontrem é, sem contradita, prestar um serviço muito grande. Mas cremos que é fazer um serviço muito prejudicial à Sociedade, assim como aos indivíduos, atacar o princípio pelo fato de terem dele abusado. É querer cortar uma boa árvore porque deu um fruto bichado.” (RE, set/1860)
Sobre o anacronismo histórico de Figuier:
“Como ignora o Sr. Figuier que Tertuliano fala em termos explícitos das mesas girantes e falantes? Que os chineses conheciam esse fenômeno desde tempos imemoriais? Que é praticado pelos tártaros e siberianos? Que há médiuns entre os tibetanos? Que os havia entre os assírios, entre os gregos e entre os egípcios? Que todos os princípios fundamentais do Espiritismo se acham nas filosofias sânscritas?” (RE, dez/1860)
Sobre o efeito propagandístico involuntário:
“Não se poderia crer no número de adeptos que, sem o querer, fez o Sr. Louis Figuier com a sua Histoire du merveilleux, na qual pretende tudo explicar pela alucinação, quando, em definitivo, nada explica, porque seu ponto de partida é a negação de toda força fora da Humanidade e sua teoria material não pode resolver todos os casos.” (RE, nov/1860, “Bibliografia — Carta de um católico”)
Obras associadas
- Histoire du merveilleux dans les temps modernes (4 vols., 1860) — obra refutada na Revista Espírita de 1860. O 4º volume trata especificamente das mesas girantes e dos médiuns.
- La Terre avant le déluge (1863) — popularização da geologia pré-histórica.
- Les Merveilles de la Science (1867–1869) — divulgação científica em vários volumes.
- Le Lendemain de la mort, ou la vie future selon la science (1871) — Figuier propõe, paradoxalmente, uma teoria da vida pós-morte em planetas de outros sistemas estelares; afastamento parcial de seu materialismo de 1860.
Páginas relacionadas
- maravilhoso-e-sobrenatural — recusa programática das categorias por Kardec, formulada em refutação a Figuier.
- discernimento-dos-espiritos — método kardequiano de descer ao ponto de partida do crítico.
- revista-espirita-1860 — três artigos de refutação (set, set, dez/1860).
- sao-luis — orientador da SPEE; controle universal aplicado.
Fontes
- KARDEC, Allan. Revista Espírita, set/1860 (“O maravilhoso e o sobrenatural” + “História do maravilhoso e do sobrenatural — Por Louis Figuier”) e dez/1860 (“História do maravilhoso (pelo Sr. Louis Figuier)”). Edição local: 1860.
- FIGUIER, Louis. Histoire du merveilleux dans les temps modernes. Paris: L. Hachette, 1860. 4 volumes.