Síntese — Série Psicológica de Joanna de Ângelis
Pergunta motivadora
Kardec já entregou, entre 1857 e 1868, o essencial da estrutura humana: Espírito, perispírito e corpo (LE q. 132, q. 165); reencarnação como mecanismo de progresso (LE Parte 2); lei de causa e efeito como motor moral (LE q. 873-919); e tripartição clínica das obsessões (LM cap. XXIII).
Por que, então, Joanna de Ângelis dedica 22 anos e 16 volumes — de Jesus e Atualidade (1989) a Psicologia da Gratidão (2011) — a reler essa mesma estrutura no vocabulário da Psicologia? Não em qualquer Psicologia: ela mobiliza Jung (sombra, arquétipos, Self, individuação) e a chamada “Quarta Força” — Maslow, Assagioli, Grof, Wilber, escolas que, a partir dos anos 1960, recolocam a dimensão espiritual no centro da clínica. Há ganho doutrinário concreto nisso, ou é só roupagem para o leitor contemporâneo?
E, sobretudo: como o projeto se sustenta, ao longo de duas décadas, sem virar mistura indiscriminada de doutrinas? Joanna acolhe Reich em parte, descarta Nietzsche, relê Freud como matriz negativa, promove Jung e Maslow a interlocutores principais — e ainda assim, no vol. 11 cap. 4, reafirma a cristologia kardecista com vigor: “Jesus e Deus são independentes […] Jesus-Homem, Filho e não Pai”. Como?
A tese desta síntese: a Série Psicológica não é adorno. É leitura clínica do Pentateuco. Toma LE q. 919 (“Conhece-te a ti mesmo”) como mandato operacional e usa a Psicologia secular como vocabulário traduzível para o leitor dos séc. XX-XXI, sem reescrever a ontologia espírita. Onde Kardec deixou estrutura, Joanna oferece terapia.
Análise
Arco cronológico (1989-2011)
A Série se divide em quatro momentos:
| Vol. | Título | Ano | Eixo distintivo |
|---|---|---|---|
| 1 | Jesus e Atualidade | 1989 | Manifesto: Jesus-psicoterapeuta antecipa Maslow/Assagioli/Grof/Klein |
| 2 | O Homem Integral | 1990 | Modelo Organizador Biológico (cap. 38); Jesus como biótipo do Homem Integral |
| 3 | Plenitude | 1991 | Sofrimento como “doença da alma”; diálogo Buda–Jesus–Kardec |
| 4 | Momentos de Saúde e Consciência | 1992 | Saúde como conquista interior; consciência como “força não-intelectual” |
| 5 | O Ser Consciente | 1993 | Quarta Força: ego × self, mecanismos de fuga, gigantes da alma |
| 6 | Autodescobrimento | 1995 | Manual prático: inconsciente sagrado, sicários da alma, três olhos de Boaventura |
| 7 | Desperte e Seja Feliz | 1996 | Registro homilético; tríade autorrealização (amor-perdão-serviço); tipologia da dor |
| 8 | Vida: Desafios e Soluções | 1997 | Maslow + metanecessidades; meditação operacional; Édipo/Eletra reencarnatório |
| 9 | Amor, Imbatível Amor | 1998 | Amorterapia sistematizada; subpersonalidades (Assagioli) |
| 10 | O Despertar do Espírito | 2000 | Psicossíntese de Assagioli; autoperdão; vitória sobre a morte |
| 11 | Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda | 2000 | Comentário sistemático ao ESE em chave junguiana |
| 12 | Triunfo Pessoal | 2002 | Tratado clínico-existencial; QI/QE/QS; numinoso de Otto |
| 13 | Conflitos Existenciais | 2005 | Manual clínico-doutrinário: 20 conflitos no padrão psicogênese/transtornos/terapia |
| 14 | Encontro com a Paz e a Saúde | 2007 | Sesquicentenário do LE; ponte tripartite LE/Evangelho/Psicologia Profunda |
| 15 | Em Busca da Verdade | 2009 | Volume mais sistematicamente junguiano; parábolas como dispositivos arquetípicos |
| 16 | Psicologia da Gratidão | 2011 | Sesquicentenário do LM; gratidão como dispositivo de individuação |
Quatro momentos:
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Manifesto e precursores (1989-1992) — Jesus e Atualidade (vol. 1) lança a tese motor: Jesus como psicoterapeuta que antecipou intuitivamente Maslow, Assagioli, Grof, Klein. O Homem Integral (vol. 2) sistematiza pela primeira vez o Modelo Organizador Biológico (cap. 38, com galeria multimilenar dos nomes do perispírito — Hipócrates, Plotino, Tertuliano, Vedanta, Leibniz). Plenitude (vol. 3) organiza o sofrimento segundo as Quatro Nobres Verdades budistas, em diálogo tripartite com Jesus e Kardec. Momentos de Saúde e Consciência (vol. 4) fecha o ciclo introdutório com tom mais homilético — saúde como conquista interior e consciência como sede da lei de Deus (LE q. 621).
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Tratado clínico (1993-1998) — O Ser Consciente (vol. 5) consolida a Quarta Força como vocabulário central; Autodescobrimento (vol. 6) é o manual prático de interiorização, com a defesa explícita do uso conjugado de psicofármacos e transformação moral no distúrbio de pânico (cap. 9). Vida: Desafios e Soluções (vol. 8) introduz Maslow + metanecessidades + meditação operacional. Amor, Imbatível Amor (vol. 9) culmina o ciclo com a amorterapia sistematizada (cap. 60) e o vocabulário das subpersonalidades.
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Virada junguiana (2000-2002) — O Despertar do Espírito (vol. 10) adota a psicossíntese de Assagioli como ferramenta operacional articulada com a tripartição kardecista. Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda (vol. 11) recua até Jung como fonte — onde os volumes anteriores adotavam o vocabulário transpessoal, aqui Joanna lê o ESE em chave de sombra coletiva, anima/animus, Self e arquétipos. Triunfo Pessoal (vol. 12) integra Jung com cérebro triúno de MacLean e a Bhagavad Gita.
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Consolidação clínico-existencial (2005-2011) — Conflitos Existenciais (vol. 13) cataloga 20 conflitos no padrão tripartite uniforme psicogênese/transtornos/terapia. Encontro com a Paz e a Saúde (vol. 14) homenageia o sesquicentenário do LE com a ponte tripartite explícita. Em Busca da Verdade (vol. 15) é o mais sistematicamente junguiano da Série. Psicologia da Gratidão (vol. 16) é monográfico sobre uma única virtude moral, fechando o arco no sesquicentenário do LM.
Método: Jesus-psicoterapeuta
A tese-motor é declarada já no prefácio de Jesus e Atualidade (1989) e reaparece em todos os volumes seguintes: Jesus, antes de ser objeto de devoção, é operador clínico cuja prática antecipa intuitivamente a Psicologia Humanista (Maslow), a Psicossíntese (Assagioli), a Transpessoal (Grof) e a terapia pelo amor e perdão (Klein, Johnson). O Homem Integral (1990) cunha a fórmula que a Série inteira retomará: Jesus é o “biótipo do Homem Integral, por haver desenvolvido todas as aptidões herdadas de Deus” (cap. 39). Ver jesus-psicoterapeuta para o conceito-síntese.
A tese atinge maturidade hermenêutica no vol. 15 (Em Busca da Verdade), em que as parábolas de Jesus são tomadas como dispositivos psicoterapêuticos arquetípicos: a parábola do Filho Pródigo estrutura três capítulos inteiros, com tese-aporte de que ambos os filhos estão doentes — o irmão mais velho como Abel mitológico que agora “gostaria de assassinar Caim que voltou”; a parábola dos talentos (Mt 25:14-30) é relida como antídoto à preguiça espiritual (cap. 7).
O vol. 16 (Psicologia da Gratidão) cunha a formulação cristológica mais distintiva da Série: Jesus como “Homem-luz, único ser que não tinha o lado sombra, maior exemplo de maturidade psicológica” (cap. 3), com Mt 5:44-45 (“amai os vossos inimigos”) lido como “a maneira psicológica saudável da gratidão”. A tensão é produtiva: terapeutizar Jesus poderia conduzir a um deslizamento humanista; Joanna evita a queda mantendo, no mesmo vol. 11, a cristologia kardecista antitrinitária explícita (caps. 4 e 16).
Ponte tripartite Kardec ↔ Jung ↔ Quarta Força
A ponte interdisciplinar é a contribuição estrutural da Série. Sua arquitetura, declarada com clareza no prefácio do vol. 15, opera por equivalência funcional — não identidade ontológica:
Self ≈ “princípio inteligente” kardecista (LE q. 540, citada em nota da autora espiritual no vol. 15 cap. 10).
A correspondência operacional, em forma sinótica:
| Vocabulário Kardec / Doutrina Espírita | Vocabulário Jung / Quarta Força | Equivalência funcional (não identidade) |
|---|---|---|
| Princípio inteligente (LE q. 540) | Self (Jung) | Centro organizador permanente do ser |
| Espírito encarnado em prova | Ego (Jung) | Instância que opera no plano consciente |
| Perispírito (LE q. 132, q. 165) | Inconsciente individual (registros) | Substrato dos arquivos psíquicos da personalidade |
| Heranças reencarnatórias e paixões inferiores | Sombra individual e coletiva (Jung) | Conteúdos rejeitados ou ainda não integrados |
| Polaridade sexual alternada em vidas sucessivas | Anima/Animus (Jung) | Polaridade interna a integrar para a totalidade |
| Progresso espiritual (LE q. 776-800) | Individuação (Jung) | Caminho da fragmentação à totalidade |
| Reino dos Céus (Jesus) | Numinoso (Otto via Jung); peak experience (Maslow); samadhi | Estado de plenitude e sintonia última |
| Hierarquia das virtudes (LE Parte 3) | Hierarquia + metanecessidades (Maslow) | Estágios escalonados do progresso pessoal |
| Conhecimento de si (LE q. 919) | Autoconhecimento clínico | Mandato operacional comum |
A tabela é mapa de correspondência, não dicionário de tradução: cada par opera em planos distintos (ontológico em Kardec, fenomenológico em Jung) e converge no que produz para a clínica e para o estudo, não no que afirma sobre a estrutura última do real.
A tripartição operacional:
- Camada Kardec — Espírito / perispírito / corpo (LE q. 132, q. 165; LM cap. XXIII para o tratado das obsessões; LE q. 919 para o mandato do autoconhecimento). Ver perispirito, autoconhecimento.
- Camada Jung — Self ↔ “princípio inteligente”; ego ↔ ser encarnado em prova; sombra (coletiva e individual) ↔ paixões inferiores e heranças reencarnatórias; anima/animus ↔ polaridades sexuais alternadas em vidas sucessivas (vol. 12 cap. 5; vol. 14 cap. 4); Selbst (vol. 11 cap. 16) sem identificação ontológica entre Self e Deus; arquétipos com raiz reencarnacionista — discordância parcial nominal de Jung (vol. 8 cap. 7; vol. 11 cap. 23). O Aion de Jung é citado nominalmente: “Cristo é o homem interior a que se chega pelo caminho do autoconhecimento” (vol. 15 cap. 5).
- Camada Quarta Força — Maslow (hierarquia de necessidades + metanecessidades, vol. 8 cap. 10, com 1Ts 5:16 como mandamento da metanecessidade; Maslow + Frankl integrados no vol. 16 cap. 9); Ken Wilber (estágios pré-pessoal/pessoal/transpessoal + mediunidade lúcida como nível complementar, vol. 14 cap. 9); Roberto Assagioli (psicossíntese eu pessoal × Eu superior, vol. 10; subpersonalidades, vol. 9 cap. 61, com a imagem do ressentimento como brasa que queima primeiro a mão de quem o carrega); Stanislav Grof; Rudolf Otto via Jung — o numinoso como ponto culminante explícito da terapêutica, equivalente operacional do Reino dos Céus, do samadhi e da individuação plena (vol. 12 cap. 11; vol. 15 cap. 10; vol. 16 cap. 11). Ver psicologia-transpessoal.
A ponte funciona porque Joanna submete cada autor secular ao crivo da cristologia kardecista:
- Reich/Lowen — reconhecidos pela Teoria dos Anéis, mas registrada a “omissão da natureza espiritual” (vol. 9 cap. 3); diálogo crítico explícito sobre sublimação sexual no vol. 10 cap. 4 — registro mais polêmico que sexualidade-em-andre-luiz.
- Nietzsche — descartado como “tentativa frustrada de desprezar o homem”, o “super-homem” lido como projeto malogrado (vol. 15 cap. 6).
- Freud — relido como Psicologia Negativa; Adler/Frankl integrados como Psicologia Positiva matriz terapêutica nomeada (vol. 13 cap. 5, com quadro teórico granulado: Karen Horney, Anna Freud + Heinz Hartmann + Erik Erikson — psicologia do ego; John Bowlby — vinculação; Hans Selye 1948 — definição de estresse; John Locke — fobias; Erich Fromm — orientação para transações; Viktor Frankl — sentido).
- Jung e Maslow — promovidos a interlocutores principais. Mas nenhum substitui Kardec.
Hermenêutica reencarnatória das psicopatologias
O aporte mais distintivamente espírita da Série é a releitura clínica das psicopatologias contemporâneas como vestígios reencarnatórios e/ou interferência obsessiva, ancorada em LM cap. XXIII (tripartição das obsessões — simples / fascinação / subjugação). O vol. 14 cap. 6 retoma a tripartição com aparato neurofisiológico contemporâneo (história da psiquiatria desde Pinel/Bicêtre 1873, Charcot/Salpêtrière 1880-1890, Freud/Jung/Adler/Bleuler/Kraepelin).
Casos catalogados ao longo da Série:
- Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) — Pôncio Pilatos e Lady Macbeth lidos como casos clínicos de cobrança espiritual via psicosfera do perispírito (vol. 12 cap. 6).
- Fobias — claustrofobia relida como reminiscência de morte aparente; agorafobia como medo de multidões pretéritas (vol. 8 cap. 7; vol. 13 cap. 17). Ver medo.
- Complexos de Édipo e Eletra — relidos como vínculos pretéritos a desligar: mãe-filho que foram marido-esposa “naufragados desastradamente” em encarnação anterior (vol. 8 cap. 2; convergente com “vinculação”/“desvinculação” de Emmanuel em vida-e-sexo caps. 14-15).
- Dependências químicas — drogadição, tabagismo, alcoolismo lidos como vampirização energética por desencarnados que perderam o substrato fisiológico do vício (vol. 13 caps. 12-14); dipsomania como “fruto de reencarnações compulsórias” (vol. 10 cap. 3).
- Esquizofrenia, sociopatias, somatoformes, terrorismo — sintomas de vazio existencial e/ou interferência obsessiva (vol. 12 caps. 6-8).
- Síndrome de pânico — distúrbio em que Joanna defende explicitamente o uso conjugado de psicofármacos e transformação moral (vol. 6 cap. 9), antecipando em registro clínico o que outros volumes farão para depressão e ansiedade.
A categoria-mãe que organiza esse catálogo clínico é o autodesamor, cunhado e sistematizado no vol. 14 cap. 3 (autocondenação, autopiedade, autoconsciência como antídoto). O eixo terapêutico que atravessa as 16 obras é a articulação amor → autoperdão → individuação, ancorada em culpa saudável (= sentido de responsabilidade) × culpa-castigo (vol. 13 cap. 6; vol. 10 cap. 2).
Aportes próprios da Série
Catálogo das contribuições que não estão em Kardec nem disponíveis na psicologia secular sem a lente espírita:
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Amorterapia (vol. 9 cap. 60) — definição operacional explícita: “processo mediante o qual se pode contribuir conscientemente em favor de uma sociedade mais saudável… decorre do auto-amor”. Ancoragem psiconeuroimunológica: enzimas saudáveis, sistema nervoso simpático, imunoglobulinas. Cunhada antes no vol. 7 cap. 22 com a fórmula “Não se apagam incêndios, usando-se combustíveis”. Ver onda-mental para o pensamento bem-direcionado em Neurolinguística + Neurociência (vol. 8 cap. 11.3).
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Tipologia pedagógica da dor — dor-elevação / dor-conquista / dor-resgate (vol. 7 cap. 21), distinta da tipologia clínica de Plenitude (vol. 3).
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Tríades operacionais:
- Autorrealização — amor-perdão-serviço (vol. 7 cap. 18).
- Vontade — paciência + perseverança + autoconfiança (vol. 8 cap. 8) ou desejo + persistência + objetivo (vol. 10 cap. 4) — formulações distintas para fases distintas do projeto.
- Fé — natural × raciocinada/científica × herança religiosa cultural (vols. 14 cap. 10 e 15 cap. 9), com o conceito do “gene de Deus” (gene da fé inata) e evidência psicofisiológica via placebo/nocebo.
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Inversão pedagógica do mandamento de Jesus — Si → próximo → Deus (vols. 9 cap. 63, 12 e 13 cap. 19), declarada explicitamente como recurso metodológico (“para fins metodológicos, invertemos a ordem”), sem reescritura da ordem canônica de ESE caps. XI–XII. Joanna situa essa inversão como acomodação prática à dificuldade de conceber o Absoluto, não como reordenação doutrinária.
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Self assexuado integrando anima/animus na individuação (vol. 14 cap. 4 — único capítulo da Série dedicado integralmente à questão de gênero, com datas-marco históricas do feminismo: tecelãs de Nova Iorque 8/mar/1857, Clara Zelkin 1910, Marcha Mundial 2000). Reconhecimento explícito do homossexualismo como não-patológico (vol. 14 cap. 8, referência à OMS), com explicação reencarnatória via prevalência alternada anima/animus “sem nenhum caráter de natureza cármica, punitiva”.
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Inteligência tripartida QI/QE/QS — primeira sistematização explícita da Inteligência Espiritual no corpus, com ancoragem neurofisiológica em “ponto-luz” detectado por pósitrons nos lobos temporais (vol. 12 cap. 2), antecipando Goleman para a inteligência emocional (vol. 8 cap. 11.1).
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Gratidão como dispositivo de individuação (vol. 16 cap. 11) — “a gratidão é, portanto, um momento de individuação” — equivalência funcional com Reino dos Céus, sukha e estado numinoso. Perdão definido como “gênero de gratidão desconhecido” (vol. 16 cap. 10) — formulação distintiva.
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Diagnóstico clínico da ingratidão como “síndrome de atraso moral e de perturbação emocional” (vol. 16 cap. 9), filha da soberba e da inveja.
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Único manual operacional de meditação e visualização da Série (vol. 8 cap. 11.2) — protocolo passo a passo, “destituída de compromissos religiosos ou vínculos sectaristas”.
Coerência cristológica kardecista
A coerência ao longo de 22 anos se sustenta porque a Série mantém disciplinarmente a cristologia kardecista. As reafirmações, espalhadas pelos volumes, funcionam como ancoragem doutrinária:
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Antitrinitarismo — vol. 11 caps. 4 e 16: “Jesus e Deus são independentes […] Jesus-Homem, Filho e não Pai”. A formulação é categórica e desmonta qualquer leitura trinitária da terapeutização de Jesus.
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Unicidade da reencarnação de Jesus na Terra — vol. 11 cap. 5: leitura de Jo 3:3 a Nicodemos (“nascer de novo”) como reencarnação literal, com distúrbios psíquicos sediados no perispírito.
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Universalismo histórico kardecista — vol. 11 cap. 4: Krishna, Buda, Lao-Tsé, Confúcio, Hermes Trismegisto como “ovelhas que não pertencem a este rebanho” (Jo 10:16), compatível com a hierarquia kardecista das missões.
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Tabor relido como revogação implícita da proibição mosaica de comunicação com o mundo espiritual (vol. 11 cap. 26 — Moisés e Elias retornando “desvestidos de matéria”); convergente com o tratado kardecista da mediunidade (LM cap. XXIII).
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Citação direta de Kardec em prefácios e introduções: vol. 10 introdução (“Espírito, perispírito e matéria, conforme estabeleceu o insigne Allan Kardec”); vol. 11 prefácio (“Firmada nas excelentes colocações expostas por Allan Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo”); vol. 15 cap. 6 com ESE cap. XVII item 3 nominalmente atribuído ao “Codificador” — citação literal e extensa de “O homem de bem” como retrato psicológico do ser plenificado/individuado.
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Homenagens a Kardec ancorando o arco:
- Vol. 8 (1997) — 140 anos do LE + 50 anos de mediunidade de Divaldo.
- Vol. 13 (2005) — 140 anos de O Céu e o Inferno (declarada no prefácio).
- Vol. 14 (2007) — sesquicentenário do LE (1857-2007), declarada no prefácio.
- Vol. 16 (2011) — sesquicentenário do LM (1861-2011), declarada em nota de rodapé do cap. 11.
-
Releitura das dez leis morais kardecistas como “psicologia da dignidade humana” (vol. 16 cap. 9), com equivalência operacional explícita entre o esquema de Kardec (“Da lei divina ou natural” → “Da lei de justiça, de amor e de caridade” → “Da perfeição moral”) e a individuação junguiana / estado numinoso.
A consequência editorial: a Série é simultaneamente um catálogo clínico autocontido (acessível ao leitor que entra pelo vol. 13 ou 16) e um arco coerente da auto-realização à individuação plena (acessível ao leitor que percorre os 16 volumes em cronologia).
Conclusão
O projeto Joanna não é adorno terapêutico contemporâneo. É leitura clínica do Pentateuco que toma LE q. 919 como mandato operacional e mobiliza Quarta Força + Jung como vocabulário traduzível para o leitor do séc. XX-XXI sem reescrever a ontologia kardecista. O ganho doutrinário concreto está na ponte: onde Kardec deixou estrutura ontológica e moral, Joanna instrumentaliza terapia — amorterapia (vol. 9), tipologia da dor (vol. 7), tríades operacionais, releitura clínica das obsessões (vol. 14 cap. 6), gratidão como dispositivo de individuação (vol. 16).
A coerência ao longo de 22 anos se sustenta porque cada autor secular passa pelo crivo da cristologia kardecista: Reich é parcialmente integrado (mas registrada a omissão da natureza espiritual); Nietzsche é descartado; Freud é relido como matriz negativa; Jung e Maslow são promovidos a interlocutores principais — mas nenhum substitui Kardec. As reafirmações antitrinitárias do vol. 11, as homenagens diretas aos sesquicentenários do LE (vol. 14) e do LM (vol. 16), e a releitura explícita das dez leis morais kardecistas (vol. 16 cap. 9) ancoram o projeto.
Tensões existem — o uso seletivo de Jung (arquétipos com raiz também reencarnacionista, vol. 8 cap. 7), a inversão pedagógica do mandamento de Jesus (vols. 9, 12, 13 cap. 19), a equivalência funcional Self ≈ “princípio inteligente” — e Joanna as declara explicitamente como recursos metodológicos, sem reescritura. Não há contradição com Kardec; há aprofundamento e tradução cultural. Por isso a Série não dispara a regra de divergência — é nível 3 que se mantém disciplinarmente subordinado ao nível 1.
Para o estudante de palestra: a Série é o corpus mais sistemático em PT-BR de articulação Kardec ↔ Psicologia Profunda + Quarta Força. Cada volume é citável isoladamente; lidos em sequência, formam um tratado de individuação espírita.
Páginas referenciadas
Personalidade
- joanna-de-angelis — Espírito autor, mentora de Divaldo Franco
- divaldo-franco — médium psicógrafo
- poncio-pilatos — caso clínico de TOC obsessivo (vol. 12 cap. 6)
Conceitos
- jesus-psicoterapeuta — eixo articulado em Jesus e Atualidade e O Ser Consciente
- psicologia-transpessoal — eixo da Quarta Força
- autoconhecimento — programa terapêutico ancorado em LE q. 919
- perispirito — peça intermediária do tripé que Joanna defende contra a dualidade espiritualista
- individuacao — meta-síntese da terapêutica espírito-junguiana
- numinoso — Otto via Jung; equivalente operacional do Reino dos Céus
- autodesamor — categoria-mãe sistematizada no vol. 14
- gratidao — dispositivo de individuação no vol. 16
- medo — cristalização da tese medo×amor (vol. 13 cap. 4)
- culpa — culpa saudável × culpa-castigo (vol. 13 cap. 6)
- vazio-existencial — sintoma das psicopatologias contemporâneas
- onda-mental — pensamento bem-direcionado (vol. 8 cap. 11.3)
- parabola-do-filho-prodigo — leitura junguiana extensa no vol. 15 caps. 1-3
- parabola-dos-talentos — antídoto à preguiça espiritual (vol. 15 cap. 7)
Pentateuco
- livro-dos-espiritos — base ontológica e moral; sesquicentenário homenageado no vol. 14
- livro-dos-mediuns — tripartição clínica das obsessões (cap. XXIII); sesquicentenário homenageado no vol. 16
- evangelho-segundo-o-espiritismo — comentado sistematicamente no vol. 11
- ceu-e-inferno — 140 anos homenageados no vol. 13
Sínteses irmãs
- hierarquia-de-autoridade — nível 3 e regra de divergência
- parabolas-de-jesus — índice das parábolas relidas pela Série em chave arquetípica
- sexualidade-em-andre-luiz — comparação de tom com a sublimação sexual de Joanna (vol. 10 cap. 4)
As 16 obras da Série
- jesus-e-atualidade (1989) — vol. 1, manifesto
- o-homem-integral (1990) — vol. 2, Modelo Organizador Biológico
- plenitude (1991) — vol. 3, sofrimento como doença da alma
- momentos-de-saude-e-consciencia (1992) — vol. 4, saúde e consciência
- o-ser-consciente (1993) — vol. 5, Quarta Força consolidada
- autodescobrimento (1995) — vol. 6, manual prático
- desperte-e-seja-feliz (1996) — vol. 7, registro homilético
- vida-desafios-e-solucoes (1997) — vol. 8, retorno técnico
- amor-imbativel-amor (1998) — vol. 9, amorterapia
- o-despertar-do-espirito (2000) — vol. 10, psicossíntese
- jesus-e-o-evangelho-a-luz-da-psicologia-profunda (2000) — vol. 11, comentário ao ESE
- triunfo-pessoal (2002) — vol. 12, tratado clínico-existencial
- conflitos-existenciais (2005) — vol. 13, manual clínico-doutrinário
- encontro-com-a-paz-e-a-saude (2007) — vol. 14, sesquicentenário do LE
- em-busca-da-verdade (2009) — vol. 15, virada junguiana plena
- psicologia-da-gratidao (2011) — vol. 16, sesquicentenário do LM
Fontes
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Jesus e Atualidade. Salvador: LEAL, 1989.
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). O Homem Integral. Salvador: LEAL, 1990.
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Plenitude. Salvador: LEAL, 1991.
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Momentos de Saúde e Consciência. Salvador: LEAL, 1992.
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). O Ser Consciente. Salvador: LEAL, 1993.
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Autodescobrimento — Uma Busca Interior. Salvador: LEAL, 1995. Série Psicológica vol. 6.
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Desperte e Seja Feliz. Salvador: LEAL, 1996. Série Psicológica vol. 7. ISBN 978-85-61879-90-7.
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Vida: Desafios e Soluções. Salvador: LEAL, 1997. Série Psicológica vol. 8. ISBN 978-85-61879-88-4.
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Amor, Imbatível Amor. Salvador: LEAL, 1998. Série Psicológica vol. 9.
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). O Despertar do Espírito. Salvador: LEAL, 2000. Série Psicológica vol. 10.
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda. Salvador: LEAL, 2000. Série Psicológica – Especial vol. 11. ISBN 978-85-8266-055-3.
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Triunfo Pessoal. Salvador: LEAL, 2002. Série Psicológica vol. 12. ISBN 978-85-61879-93-8.
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Conflitos Existenciais. Salvador: LEAL, 2005. Série Psicológica – Especial vol. 13. ISBN 978-85-8266-057-7.
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Encontro com a Paz e a Saúde. Salvador: LEAL, 2007. Série Psicológica vol. 14, comemorativa do Sesquicentenário de O Livro dos Espíritos.
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Em Busca da Verdade. Salvador: LEAL, 2009. Série Psicológica vol. 15. ISBN 978-85-61879-09-9.
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Psicologia da Gratidão. Salvador: LEAL, 2011. Série Psicológica – Especial vol. 16. ISBN 978-85-8266-060-7.
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, 1857. Especialmente q. 132, q. 165, q. 540, q. 919.
- Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, 1861. Especialmente cap. XXIII (tripartição das obsessões) e cap. XXIV (identificação dos Espíritos pelo estilo).
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, 1864. Especialmente cap. XI (“Amar o próximo como a si mesmo”), cap. XII, cap. XVII item 3 (“O homem de bem”).