Síntese — Série Psicológica de Joanna de Ângelis

Pergunta motivadora

Kardec já entregou, entre 1857 e 1868, o essencial da estrutura humana: Espírito, perispírito e corpo (LE q. 132, q. 165); reencarnação como mecanismo de progresso (LE Parte 2); lei de causa e efeito como motor moral (LE q. 873-919); e tripartição clínica das obsessões (LM cap. XXIII).

Por que, então, Joanna de Ângelis dedica 22 anos e 16 volumes — de Jesus e Atualidade (1989) a Psicologia da Gratidão (2011) — a reler essa mesma estrutura no vocabulário da Psicologia? Não em qualquer Psicologia: ela mobiliza Jung (sombra, arquétipos, Self, individuação) e a chamada “Quarta Força” — Maslow, Assagioli, Grof, Wilber, escolas que, a partir dos anos 1960, recolocam a dimensão espiritual no centro da clínica. Há ganho doutrinário concreto nisso, ou é só roupagem para o leitor contemporâneo?

E, sobretudo: como o projeto se sustenta, ao longo de duas décadas, sem virar mistura indiscriminada de doutrinas? Joanna acolhe Reich em parte, descarta Nietzsche, relê Freud como matriz negativa, promove Jung e Maslow a interlocutores principais — e ainda assim, no vol. 11 cap. 4, reafirma a cristologia kardecista com vigor: “Jesus e Deus são independentes […] Jesus-Homem, Filho e não Pai”. Como?

A tese desta síntese: a Série Psicológica não é adorno. É leitura clínica do Pentateuco. Toma LE q. 919 (“Conhece-te a ti mesmo”) como mandato operacional e usa a Psicologia secular como vocabulário traduzível para o leitor dos séc. XX-XXI, sem reescrever a ontologia espírita. Onde Kardec deixou estrutura, Joanna oferece terapia.


Análise

Arco cronológico (1989-2011)

A Série se divide em quatro momentos:

Vol.TítuloAnoEixo distintivo
1Jesus e Atualidade1989Manifesto: Jesus-psicoterapeuta antecipa Maslow/Assagioli/Grof/Klein
2O Homem Integral1990Modelo Organizador Biológico (cap. 38); Jesus como biótipo do Homem Integral
3Plenitude1991Sofrimento como “doença da alma”; diálogo Buda–Jesus–Kardec
4Momentos de Saúde e Consciência1992Saúde como conquista interior; consciência como “força não-intelectual”
5O Ser Consciente1993Quarta Força: ego × self, mecanismos de fuga, gigantes da alma
6Autodescobrimento1995Manual prático: inconsciente sagrado, sicários da alma, três olhos de Boaventura
7Desperte e Seja Feliz1996Registro homilético; tríade autorrealização (amor-perdão-serviço); tipologia da dor
8Vida: Desafios e Soluções1997Maslow + metanecessidades; meditação operacional; Édipo/Eletra reencarnatório
9Amor, Imbatível Amor1998Amorterapia sistematizada; subpersonalidades (Assagioli)
10O Despertar do Espírito2000Psicossíntese de Assagioli; autoperdão; vitória sobre a morte
11Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda2000Comentário sistemático ao ESE em chave junguiana
12Triunfo Pessoal2002Tratado clínico-existencial; QI/QE/QS; numinoso de Otto
13Conflitos Existenciais2005Manual clínico-doutrinário: 20 conflitos no padrão psicogênese/transtornos/terapia
14Encontro com a Paz e a Saúde2007Sesquicentenário do LE; ponte tripartite LE/Evangelho/Psicologia Profunda
15Em Busca da Verdade2009Volume mais sistematicamente junguiano; parábolas como dispositivos arquetípicos
16Psicologia da Gratidão2011Sesquicentenário do LM; gratidão como dispositivo de individuação

Quatro momentos:

  1. Manifesto e precursores (1989-1992)Jesus e Atualidade (vol. 1) lança a tese motor: Jesus como psicoterapeuta que antecipou intuitivamente Maslow, Assagioli, Grof, Klein. O Homem Integral (vol. 2) sistematiza pela primeira vez o Modelo Organizador Biológico (cap. 38, com galeria multimilenar dos nomes do perispírito — Hipócrates, Plotino, Tertuliano, Vedanta, Leibniz). Plenitude (vol. 3) organiza o sofrimento segundo as Quatro Nobres Verdades budistas, em diálogo tripartite com Jesus e Kardec. Momentos de Saúde e Consciência (vol. 4) fecha o ciclo introdutório com tom mais homilético — saúde como conquista interior e consciência como sede da lei de Deus (LE q. 621).

  2. Tratado clínico (1993-1998)O Ser Consciente (vol. 5) consolida a Quarta Força como vocabulário central; Autodescobrimento (vol. 6) é o manual prático de interiorização, com a defesa explícita do uso conjugado de psicofármacos e transformação moral no distúrbio de pânico (cap. 9). Vida: Desafios e Soluções (vol. 8) introduz Maslow + metanecessidades + meditação operacional. Amor, Imbatível Amor (vol. 9) culmina o ciclo com a amorterapia sistematizada (cap. 60) e o vocabulário das subpersonalidades.

  3. Virada junguiana (2000-2002)O Despertar do Espírito (vol. 10) adota a psicossíntese de Assagioli como ferramenta operacional articulada com a tripartição kardecista. Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda (vol. 11) recua até Jung como fonte — onde os volumes anteriores adotavam o vocabulário transpessoal, aqui Joanna lê o ESE em chave de sombra coletiva, anima/animus, Self e arquétipos. Triunfo Pessoal (vol. 12) integra Jung com cérebro triúno de MacLean e a Bhagavad Gita.

  4. Consolidação clínico-existencial (2005-2011)Conflitos Existenciais (vol. 13) cataloga 20 conflitos no padrão tripartite uniforme psicogênese/transtornos/terapia. Encontro com a Paz e a Saúde (vol. 14) homenageia o sesquicentenário do LE com a ponte tripartite explícita. Em Busca da Verdade (vol. 15) é o mais sistematicamente junguiano da Série. Psicologia da Gratidão (vol. 16) é monográfico sobre uma única virtude moral, fechando o arco no sesquicentenário do LM.

Método: Jesus-psicoterapeuta

A tese-motor é declarada já no prefácio de Jesus e Atualidade (1989) e reaparece em todos os volumes seguintes: Jesus, antes de ser objeto de devoção, é operador clínico cuja prática antecipa intuitivamente a Psicologia Humanista (Maslow), a Psicossíntese (Assagioli), a Transpessoal (Grof) e a terapia pelo amor e perdão (Klein, Johnson). O Homem Integral (1990) cunha a fórmula que a Série inteira retomará: Jesus é o “biótipo do Homem Integral, por haver desenvolvido todas as aptidões herdadas de Deus” (cap. 39). Ver jesus-psicoterapeuta para o conceito-síntese.

A tese atinge maturidade hermenêutica no vol. 15 (Em Busca da Verdade), em que as parábolas de Jesus são tomadas como dispositivos psicoterapêuticos arquetípicos: a parábola do Filho Pródigo estrutura três capítulos inteiros, com tese-aporte de que ambos os filhos estão doentes — o irmão mais velho como Abel mitológico que agora “gostaria de assassinar Caim que voltou”; a parábola dos talentos (Mt 25:14-30) é relida como antídoto à preguiça espiritual (cap. 7).

O vol. 16 (Psicologia da Gratidão) cunha a formulação cristológica mais distintiva da Série: Jesus como “Homem-luz, único ser que não tinha o lado sombra, maior exemplo de maturidade psicológica” (cap. 3), com Mt 5:44-45 (“amai os vossos inimigos”) lido como “a maneira psicológica saudável da gratidão”. A tensão é produtiva: terapeutizar Jesus poderia conduzir a um deslizamento humanista; Joanna evita a queda mantendo, no mesmo vol. 11, a cristologia kardecista antitrinitária explícita (caps. 4 e 16).

Ponte tripartite Kardec ↔ Jung ↔ Quarta Força

A ponte interdisciplinar é a contribuição estrutural da Série. Sua arquitetura, declarada com clareza no prefácio do vol. 15, opera por equivalência funcional — não identidade ontológica:

Self ≈ “princípio inteligente” kardecista (LE q. 540, citada em nota da autora espiritual no vol. 15 cap. 10).

A correspondência operacional, em forma sinótica:

Vocabulário Kardec / Doutrina EspíritaVocabulário Jung / Quarta ForçaEquivalência funcional (não identidade)
Princípio inteligente (LE q. 540)Self (Jung)Centro organizador permanente do ser
Espírito encarnado em provaEgo (Jung)Instância que opera no plano consciente
Perispírito (LE q. 132, q. 165)Inconsciente individual (registros)Substrato dos arquivos psíquicos da personalidade
Heranças reencarnatórias e paixões inferioresSombra individual e coletiva (Jung)Conteúdos rejeitados ou ainda não integrados
Polaridade sexual alternada em vidas sucessivasAnima/Animus (Jung)Polaridade interna a integrar para a totalidade
Progresso espiritual (LE q. 776-800)Individuação (Jung)Caminho da fragmentação à totalidade
Reino dos Céus (Jesus)Numinoso (Otto via Jung); peak experience (Maslow); samadhiEstado de plenitude e sintonia última
Hierarquia das virtudes (LE Parte 3)Hierarquia + metanecessidades (Maslow)Estágios escalonados do progresso pessoal
Conhecimento de si (LE q. 919)Autoconhecimento clínicoMandato operacional comum

A tabela é mapa de correspondência, não dicionário de tradução: cada par opera em planos distintos (ontológico em Kardec, fenomenológico em Jung) e converge no que produz para a clínica e para o estudo, não no que afirma sobre a estrutura última do real.

A tripartição operacional:

  • Camada Kardec — Espírito / perispírito / corpo (LE q. 132, q. 165; LM cap. XXIII para o tratado das obsessões; LE q. 919 para o mandato do autoconhecimento). Ver perispirito, autoconhecimento.
  • Camada Jung — Self ↔ “princípio inteligente”; ego ↔ ser encarnado em prova; sombra (coletiva e individual) ↔ paixões inferiores e heranças reencarnatórias; anima/animus ↔ polaridades sexuais alternadas em vidas sucessivas (vol. 12 cap. 5; vol. 14 cap. 4); Selbst (vol. 11 cap. 16) sem identificação ontológica entre Self e Deus; arquétipos com raiz reencarnacionista — discordância parcial nominal de Jung (vol. 8 cap. 7; vol. 11 cap. 23). O Aion de Jung é citado nominalmente: “Cristo é o homem interior a que se chega pelo caminho do autoconhecimento” (vol. 15 cap. 5).
  • Camada Quarta Força — Maslow (hierarquia de necessidades + metanecessidades, vol. 8 cap. 10, com 1Ts 5:16 como mandamento da metanecessidade; Maslow + Frankl integrados no vol. 16 cap. 9); Ken Wilber (estágios pré-pessoal/pessoal/transpessoal + mediunidade lúcida como nível complementar, vol. 14 cap. 9); Roberto Assagioli (psicossíntese eu pessoal × Eu superior, vol. 10; subpersonalidades, vol. 9 cap. 61, com a imagem do ressentimento como brasa que queima primeiro a mão de quem o carrega); Stanislav Grof; Rudolf Otto via Jung — o numinoso como ponto culminante explícito da terapêutica, equivalente operacional do Reino dos Céus, do samadhi e da individuação plena (vol. 12 cap. 11; vol. 15 cap. 10; vol. 16 cap. 11). Ver psicologia-transpessoal.

A ponte funciona porque Joanna submete cada autor secular ao crivo da cristologia kardecista:

  • Reich/Lowen — reconhecidos pela Teoria dos Anéis, mas registrada a “omissão da natureza espiritual” (vol. 9 cap. 3); diálogo crítico explícito sobre sublimação sexual no vol. 10 cap. 4 — registro mais polêmico que sexualidade-em-andre-luiz.
  • Nietzsche — descartado como “tentativa frustrada de desprezar o homem”, o “super-homem” lido como projeto malogrado (vol. 15 cap. 6).
  • Freud — relido como Psicologia Negativa; Adler/Frankl integrados como Psicologia Positiva matriz terapêutica nomeada (vol. 13 cap. 5, com quadro teórico granulado: Karen Horney, Anna Freud + Heinz Hartmann + Erik Erikson — psicologia do ego; John Bowlby — vinculação; Hans Selye 1948 — definição de estresse; John Locke — fobias; Erich Fromm — orientação para transações; Viktor Frankl — sentido).
  • Jung e Maslow — promovidos a interlocutores principais. Mas nenhum substitui Kardec.

Hermenêutica reencarnatória das psicopatologias

O aporte mais distintivamente espírita da Série é a releitura clínica das psicopatologias contemporâneas como vestígios reencarnatórios e/ou interferência obsessiva, ancorada em LM cap. XXIII (tripartição das obsessões — simples / fascinação / subjugação). O vol. 14 cap. 6 retoma a tripartição com aparato neurofisiológico contemporâneo (história da psiquiatria desde Pinel/Bicêtre 1873, Charcot/Salpêtrière 1880-1890, Freud/Jung/Adler/Bleuler/Kraepelin).

Casos catalogados ao longo da Série:

  • Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)Pôncio Pilatos e Lady Macbeth lidos como casos clínicos de cobrança espiritual via psicosfera do perispírito (vol. 12 cap. 6).
  • Fobias — claustrofobia relida como reminiscência de morte aparente; agorafobia como medo de multidões pretéritas (vol. 8 cap. 7; vol. 13 cap. 17). Ver medo.
  • Complexos de Édipo e Eletra — relidos como vínculos pretéritos a desligar: mãe-filho que foram marido-esposa “naufragados desastradamente” em encarnação anterior (vol. 8 cap. 2; convergente com “vinculação”/“desvinculação” de Emmanuel em vida-e-sexo caps. 14-15).
  • Dependências químicas — drogadição, tabagismo, alcoolismo lidos como vampirização energética por desencarnados que perderam o substrato fisiológico do vício (vol. 13 caps. 12-14); dipsomania como “fruto de reencarnações compulsórias” (vol. 10 cap. 3).
  • Esquizofrenia, sociopatias, somatoformes, terrorismo — sintomas de vazio existencial e/ou interferência obsessiva (vol. 12 caps. 6-8).
  • Síndrome de pânico — distúrbio em que Joanna defende explicitamente o uso conjugado de psicofármacos e transformação moral (vol. 6 cap. 9), antecipando em registro clínico o que outros volumes farão para depressão e ansiedade.

A categoria-mãe que organiza esse catálogo clínico é o autodesamor, cunhado e sistematizado no vol. 14 cap. 3 (autocondenação, autopiedade, autoconsciência como antídoto). O eixo terapêutico que atravessa as 16 obras é a articulação amor → autoperdão → individuação, ancorada em culpa saudável (= sentido de responsabilidade) × culpa-castigo (vol. 13 cap. 6; vol. 10 cap. 2).

Aportes próprios da Série

Catálogo das contribuições que não estão em Kardec nem disponíveis na psicologia secular sem a lente espírita:

  • Amorterapia (vol. 9 cap. 60) — definição operacional explícita: “processo mediante o qual se pode contribuir conscientemente em favor de uma sociedade mais saudável… decorre do auto-amor”. Ancoragem psiconeuroimunológica: enzimas saudáveis, sistema nervoso simpático, imunoglobulinas. Cunhada antes no vol. 7 cap. 22 com a fórmula “Não se apagam incêndios, usando-se combustíveis”. Ver onda-mental para o pensamento bem-direcionado em Neurolinguística + Neurociência (vol. 8 cap. 11.3).

  • Tipologia pedagógica da dor — dor-elevação / dor-conquista / dor-resgate (vol. 7 cap. 21), distinta da tipologia clínica de Plenitude (vol. 3).

  • Tríades operacionais:

    • Autorrealização — amor-perdão-serviço (vol. 7 cap. 18).
    • Vontade — paciência + perseverança + autoconfiança (vol. 8 cap. 8) ou desejo + persistência + objetivo (vol. 10 cap. 4) — formulações distintas para fases distintas do projeto.
    • Fé — natural × raciocinada/científica × herança religiosa cultural (vols. 14 cap. 10 e 15 cap. 9), com o conceito do “gene de Deus” (gene da fé inata) e evidência psicofisiológica via placebo/nocebo.
  • Inversão pedagógica do mandamento de Jesus — Si → próximo → Deus (vols. 9 cap. 63, 12 e 13 cap. 19), declarada explicitamente como recurso metodológico (“para fins metodológicos, invertemos a ordem”), sem reescritura da ordem canônica de ESE caps. XI–XII. Joanna situa essa inversão como acomodação prática à dificuldade de conceber o Absoluto, não como reordenação doutrinária.

  • Self assexuado integrando anima/animus na individuação (vol. 14 cap. 4 — único capítulo da Série dedicado integralmente à questão de gênero, com datas-marco históricas do feminismo: tecelãs de Nova Iorque 8/mar/1857, Clara Zelkin 1910, Marcha Mundial 2000). Reconhecimento explícito do homossexualismo como não-patológico (vol. 14 cap. 8, referência à OMS), com explicação reencarnatória via prevalência alternada anima/animus “sem nenhum caráter de natureza cármica, punitiva”.

  • Inteligência tripartida QI/QE/QS — primeira sistematização explícita da Inteligência Espiritual no corpus, com ancoragem neurofisiológica em “ponto-luz” detectado por pósitrons nos lobos temporais (vol. 12 cap. 2), antecipando Goleman para a inteligência emocional (vol. 8 cap. 11.1).

  • Gratidão como dispositivo de individuação (vol. 16 cap. 11) — “a gratidão é, portanto, um momento de individuação” — equivalência funcional com Reino dos Céus, sukha e estado numinoso. Perdão definido como “gênero de gratidão desconhecido” (vol. 16 cap. 10) — formulação distintiva.

  • Diagnóstico clínico da ingratidão como “síndrome de atraso moral e de perturbação emocional” (vol. 16 cap. 9), filha da soberba e da inveja.

  • Único manual operacional de meditação e visualização da Série (vol. 8 cap. 11.2) — protocolo passo a passo, “destituída de compromissos religiosos ou vínculos sectaristas”.

Coerência cristológica kardecista

A coerência ao longo de 22 anos se sustenta porque a Série mantém disciplinarmente a cristologia kardecista. As reafirmações, espalhadas pelos volumes, funcionam como ancoragem doutrinária:

  • Antitrinitarismo — vol. 11 caps. 4 e 16: “Jesus e Deus são independentes […] Jesus-Homem, Filho e não Pai”. A formulação é categórica e desmonta qualquer leitura trinitária da terapeutização de Jesus.

  • Unicidade da reencarnação de Jesus na Terra — vol. 11 cap. 5: leitura de Jo 3:3 a Nicodemos (“nascer de novo”) como reencarnação literal, com distúrbios psíquicos sediados no perispírito.

  • Universalismo histórico kardecista — vol. 11 cap. 4: Krishna, Buda, Lao-Tsé, Confúcio, Hermes Trismegisto como “ovelhas que não pertencem a este rebanho” (Jo 10:16), compatível com a hierarquia kardecista das missões.

  • Tabor relido como revogação implícita da proibição mosaica de comunicação com o mundo espiritual (vol. 11 cap. 26 — Moisés e Elias retornando “desvestidos de matéria”); convergente com o tratado kardecista da mediunidade (LM cap. XXIII).

  • Citação direta de Kardec em prefácios e introduções: vol. 10 introdução (“Espírito, perispírito e matéria, conforme estabeleceu o insigne Allan Kardec”); vol. 11 prefácio (“Firmada nas excelentes colocações expostas por Allan Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo”); vol. 15 cap. 6 com ESE cap. XVII item 3 nominalmente atribuído ao “Codificador” — citação literal e extensa de “O homem de bem” como retrato psicológico do ser plenificado/individuado.

  • Homenagens a Kardec ancorando o arco:

    • Vol. 8 (1997) — 140 anos do LE + 50 anos de mediunidade de Divaldo.
    • Vol. 13 (2005) — 140 anos de O Céu e o Inferno (declarada no prefácio).
    • Vol. 14 (2007) — sesquicentenário do LE (1857-2007), declarada no prefácio.
    • Vol. 16 (2011) — sesquicentenário do LM (1861-2011), declarada em nota de rodapé do cap. 11.
  • Releitura das dez leis morais kardecistas como “psicologia da dignidade humana” (vol. 16 cap. 9), com equivalência operacional explícita entre o esquema de Kardec (“Da lei divina ou natural” → “Da lei de justiça, de amor e de caridade” → “Da perfeição moral”) e a individuação junguiana / estado numinoso.

A consequência editorial: a Série é simultaneamente um catálogo clínico autocontido (acessível ao leitor que entra pelo vol. 13 ou 16) e um arco coerente da auto-realização à individuação plena (acessível ao leitor que percorre os 16 volumes em cronologia).


Conclusão

O projeto Joanna não é adorno terapêutico contemporâneo. É leitura clínica do Pentateuco que toma LE q. 919 como mandato operacional e mobiliza Quarta Força + Jung como vocabulário traduzível para o leitor do séc. XX-XXI sem reescrever a ontologia kardecista. O ganho doutrinário concreto está na ponte: onde Kardec deixou estrutura ontológica e moral, Joanna instrumentaliza terapia — amorterapia (vol. 9), tipologia da dor (vol. 7), tríades operacionais, releitura clínica das obsessões (vol. 14 cap. 6), gratidão como dispositivo de individuação (vol. 16).

A coerência ao longo de 22 anos se sustenta porque cada autor secular passa pelo crivo da cristologia kardecista: Reich é parcialmente integrado (mas registrada a omissão da natureza espiritual); Nietzsche é descartado; Freud é relido como matriz negativa; Jung e Maslow são promovidos a interlocutores principais — mas nenhum substitui Kardec. As reafirmações antitrinitárias do vol. 11, as homenagens diretas aos sesquicentenários do LE (vol. 14) e do LM (vol. 16), e a releitura explícita das dez leis morais kardecistas (vol. 16 cap. 9) ancoram o projeto.

Tensões existem — o uso seletivo de Jung (arquétipos com raiz também reencarnacionista, vol. 8 cap. 7), a inversão pedagógica do mandamento de Jesus (vols. 9, 12, 13 cap. 19), a equivalência funcional Self ≈ “princípio inteligente” — e Joanna as declara explicitamente como recursos metodológicos, sem reescritura. Não há contradição com Kardec; há aprofundamento e tradução cultural. Por isso a Série não dispara a regra de divergência — é nível 3 que se mantém disciplinarmente subordinado ao nível 1.

Para o estudante de palestra: a Série é o corpus mais sistemático em PT-BR de articulação Kardec ↔ Psicologia Profunda + Quarta Força. Cada volume é citável isoladamente; lidos em sequência, formam um tratado de individuação espírita.


Páginas referenciadas

Personalidade

Conceitos

Pentateuco

Sínteses irmãs

As 16 obras da Série


Fontes

  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Jesus e Atualidade. Salvador: LEAL, 1989.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). O Homem Integral. Salvador: LEAL, 1990.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Plenitude. Salvador: LEAL, 1991.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Momentos de Saúde e Consciência. Salvador: LEAL, 1992.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). O Ser Consciente. Salvador: LEAL, 1993.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Autodescobrimento — Uma Busca Interior. Salvador: LEAL, 1995. Série Psicológica vol. 6.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Desperte e Seja Feliz. Salvador: LEAL, 1996. Série Psicológica vol. 7. ISBN 978-85-61879-90-7.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Vida: Desafios e Soluções. Salvador: LEAL, 1997. Série Psicológica vol. 8. ISBN 978-85-61879-88-4.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Amor, Imbatível Amor. Salvador: LEAL, 1998. Série Psicológica vol. 9.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). O Despertar do Espírito. Salvador: LEAL, 2000. Série Psicológica vol. 10.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda. Salvador: LEAL, 2000. Série Psicológica – Especial vol. 11. ISBN 978-85-8266-055-3.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Triunfo Pessoal. Salvador: LEAL, 2002. Série Psicológica vol. 12. ISBN 978-85-61879-93-8.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Conflitos Existenciais. Salvador: LEAL, 2005. Série Psicológica – Especial vol. 13. ISBN 978-85-8266-057-7.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Encontro com a Paz e a Saúde. Salvador: LEAL, 2007. Série Psicológica vol. 14, comemorativa do Sesquicentenário de O Livro dos Espíritos.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Em Busca da Verdade. Salvador: LEAL, 2009. Série Psicológica vol. 15. ISBN 978-85-61879-09-9.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Psicologia da Gratidão. Salvador: LEAL, 2011. Série Psicológica – Especial vol. 16. ISBN 978-85-8266-060-7.
  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, 1857. Especialmente q. 132, q. 165, q. 540, q. 919.
  • Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, 1861. Especialmente cap. XXIII (tripartição das obsessões) e cap. XXIV (identificação dos Espíritos pelo estilo).
  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, 1864. Especialmente cap. XI (“Amar o próximo como a si mesmo”), cap. XII, cap. XVII item 3 (“O homem de bem”).