Mademoiselle Clairon

Identificação

  • Nome civil: Claire-Josèphe-Hippolyte Léris de la Tude (1723–1803)
  • Nome artístico: Mademoiselle Clairon — uma das maiores trágicas da Comédie-Française no século XVIII, célebre pela reforma da declamação e por papéis em Voltaire (Eletra, Idamé)
  • Documento de origem: Mémoires d’Hippolyte Clairon, et réflexions sur l’art dramatique, publicadas em Paris (1798) — a fonte do relato é a sua própria autobiografia, transcrita por Kardec na Revista Espírita

Papel

Protagonista de um dos casos clássicos de aparição registrados antes da codificação espírita e reanalisados por Kardec à luz dos princípios sistematizados a partir de 1857. Em 1743, um jovem bretão (designado nos Memórias apenas como Sr. de S…) apaixonou-se por ela; a paixão não correspondida levou-o a uma longa enfermidade fatal. Ao morrer, ele havia jurado: “Eu a perseguirei, tanto depois de morto quanto a persegui em vida” (RE, fev/1858).

A “perseguição” durou dois anos e meio — exatamente o tempo das relações entre os dois antes da morte do Sr. de S… — e teve sequência fenomenológica observada com nitidez:

  1. Grito agudo ouvido todas as noites às onze horas (hora da morte), partindo de sob as janelas da atriz, audível por familiares, amigos, vizinhos e pela própria polícia.
  2. Tiros de fuzil, com fogo visível mas sem dano material, em janela específica, durante três meses; consignados nos registros policiais.
  3. Bofetadas físicas a Mademoiselle Clairon e a um intendente, projetando ambos ao centro do quarto.
  4. Bater de palmas com cadência de aplauso teatral ouvido junto à porta do apartamento.
  5. Voz melodiosa entoando o início de árias nobres no quarteirão de Bussy.
  6. Cessação completa após dois anos e meio.

Função doutrinária

Para Kardec, o caso é “anedota singularíssima” cuja análise se torna possível apenas com o vocabulário espírita. Quatro aplicações do método:

  1. Crítica à hipótese da ilusão. “Que o tivesse sido uma vez, nada tem de extraordinário, mas que o tivesse sido durante dois anos e meio já se nos afigura mais difícil. Mais difícil ainda é supor que tal ilusão tenha sido partilhada por tantas pessoas, testemunhas auriculares e oculares dos fatos, inclusive pela própria polícia.” (RE, fev/1858)
  2. Identificação do agente espiritual pela coincidência entre as últimas palavras do Sr. de S… e a duração exata do fenômeno.
  3. Classificação do Espírito na escala (escala-espirita): “a ausência de maldade real o afasta naturalmente da última classe, a dos Espíritos impuros, mas evidentemente tinha muito das outras classes da mesma ordem”. O Espírito é descrito como Espírito imperfeito não-impuro — paixão terrena ainda dominante, mas sem maldade ativa.
  4. Leitura evolutiva da fenomenologia. O caráter das manifestações muda: parte de gritos de raiva, passa por tiros (raiva impotente), depois aplausos (lembrança nostálgica) e termina em árias melodiosas (despedida) — narrativa de “evolução para ideias mais sãs” do próprio Espírito perseguidor.

Citações relevantes

Auto-relato registrado nas Memórias e transcrito por Kardec:

“Ouvimos o mesmo grito, sempre à mesma hora, partindo sempre de sob as minhas janelas e como se viesse vagamente do ar… Toda Paris […] sabia da história.” (RE, fev/1858)

Comentário final de Kardec:

“Lá está ele, ao seu lado, vendo-a cercada de amigos, tudo lhe excitando os ciúmes. Seu canto e sua alegria parecem um insulto ao seu desespero e este se traduz por um grito de raiva, repetido diariamente, à mesma hora, como se para censurá-la por se haver recusado a levar-lhe consolo em seus últimos instantes.” (RE, fev/1858)

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Fontes

  • Kardec, Allan. Revista Espírita, fev/1858, “Mademoiselle Clairon e o fantasma”.
  • CLAIRON, Hippolyte. Mémoires d’Hippolyte Clairon, et réflexions sur l’art dramatique. Paris, 1798.
  • Edição local: 1858.