Depressão

Definição

Transtorno afetivo caracterizado pela perda do interesse pela vida, apatia, angústia e carência de neuropeptídeos (serotonina, noradrenalina, dopamina). À luz espírita, não é apenas doença neurológica — é manifestação de um Espírito doente, frequentemente agravada por obsessão espiritual e por débitos de existências passadas.

Ensino de Kardec

O Pentateuco não emprega o termo “depressão”, mas fornece os fundamentos para compreendê-la:

Influência dos Espíritos nos pensamentos

“Os Espíritos influem sobre os nossos pensamentos e ações […]. Há os que nos impelem ao bem e os que nos impelem ao mal.” (LE, q. 459)

Os pensamentos de tristeza, desânimo e pessimismo podem ser sugeridos por Espíritos inferiores que nos cercam por afinidade vibratória (LE, q. 459–465). A pessoa deprimida, com a mente enfraquecida, torna-se especialmente receptiva a essas influências.

Obsessão como fator agravante

A obsessão — domínio que Espíritos inferiores exercem sobre certas pessoas — pode se manifestar como depressão persistente: perda de vitalidade, apatia, desinteresse afetivo (LM, 2ª parte, cap. XXIII, itens 237–254). Espíritos que nos acompanham por dívidas de existências passadas atuam por lei de afinidade: “onde está o devedor, logo ao seu lado está o cobrador” (cf. LM, 2ª parte, cap. XXIII, item 245).

A doença como prova ou expiação

As enfermidades — incluindo as de ordem psicológica — podem ser provas escolhidas pelo Espírito antes de reencarnar ou consequências de faltas passadas (LE, q. 258–262; C&I, 1ª parte, cap. VII). “Não existem doenças, existem doentes” — o Espírito é que adoece, e a doença orgânica ou psíquica é reflexo.

Ondas de Espíritos e a crise atual

Na atualidade, “ondas de Espíritos” perturbados são atraídas pela conduta permissiva da humanidade, agravando a prevalência de transtornos depressivos e obsessivos. Kardec descreve o mecanismo em A Gênese: Espíritos obstinados no mal, que não acompanham o progresso moral do planeta, geram “perturbação e confusão” antes de serem gradualmente afastados (Gênese, cap. XVIII, item 27).

Desdobramentos — visão de Divaldo Franco

Na palestra A conquista da saúde psicológica (~2009), Divaldo Pereira Franco integra a visão espírita com a neurociência moderna:

Causas multifatoriais:

  • Hereditariedade (30–70% de probabilidade conforme histórico parental)
  • Fatores endógenos (doenças infectocontagiosas e sequelas)
  • Fatores exógenos (psicossociais, socioeconômicos, afetivos)
  • Fatores espirituais (obsessão, débitos reencarnatórios, afinidade vibratória)

Mecanismo neurológico: carência de serotonina, noradrenalina e dopamina — substâncias produzidas pelos neurônios para as sinapses cerebrais. A mente (Espírito) comanda o cérebro, não o inverso: “O cérebro não produz o pensamento — decodifica o pensamento. A mente dele se serve.”

Ansiedade como gatilho: viver fora do momento presente, querer estar em toda parte, medo da morte — fatores que desencadeiam a depressão [[obras/conquista-da-saude-psicologica|(Divaldo Franco, A conquista da saúde psicológica)]].

Terapêutica integrada

O Espiritismo não exclui a medicina — complementa-a:

  1. Psiquiatria: farmacologia para restaurar o equilíbrio dos neuropeptídeos
  2. Psicoterapia: busca do sentido da vida, tratamento das causas profundas
  3. Terapêutica espírita: passes (fluidoterapia), água fluidificada, palestras doutrinárias, Evangelho-terapia, desobsessão
  4. Reforma íntima: redescobrir o amor, abandonar a queixa e o ressentimento, cultivar a alegria, tornar-se útil, orar

“Amar proporciona saúde — não é uma questão religiosa, é uma questão médica.” [[obras/conquista-da-saude-psicologica|(Divaldo Franco, A conquista da saúde psicológica)]]

Aplicação prática

O trabalhador espírita que atende pessoas deprimidas deve:

  • Encaminhar ao tratamento médico/psicológico sem hesitar
  • Oferecer a terapêutica espírita como complemento, não substituto
  • Compreender que a doença pode ter componente obsessivo e reencarnatório
  • Estimular a reforma íntima e a busca do sentido da vida

Os “três inimigos” em Joanna de Ângelis (Desperte e Seja Feliz, cap. 7)

Em desperte-e-seja-feliz (1996), Joanna agrupa a depressão com dois outros adversários sutis da paz interior, formando uma tríade nosográfica com terapia diferenciada para cada componente:

“Inúmeros adversários trabalham contra a paz. Destacamos três que são cruéis, na sordidez dos seus processos perseguidores. […] Referimo-nos à depressão, ao ressentimento e à exaltação.”

Imagens-diagnóstico de cada um:

  • Depressão — “noite inopinada em pleno dia… nuvem ameaçadora que tolda o sol… tóxico que envenena lentamente as mais belas florações do ser”.
  • Ressentimento — “mofo que faz apodrecer o sustentáculo onde se apoia. Utilizando-se de causas propiciatórias, desenvolve-se e, invariavelmente, alcança poder destruidor onde se fixa”.
  • Exaltação — “faísca de eletricidade devoradora, atinge os nervos e produz relâmpagos de loucura com trovoadas carregadas de impropérios e rebeldias”.

A terapia é específica para cada componente:

“Para a depressão, imediatamente se deve usar a vacina da coragem pela prece. Para o ressentimento, o raciocínio lúcido, mediante o amor que não espera nada. E para a exaltação, o refrigério da meditação, que recompõe as energias.”

A formulação é complementar — não concorrente — à abordagem neurobiológica desenvolvida por Divaldo em conquista-da-saude-psicologica (2009): aqui a depressão é tratada num registro pastoral, como um dos três adversários sutis a serem combatidos pela prece como recurso prioritário, ao lado da terapêutica integrada (psiquiatria + psicoterapia + terapêutica espírita) que continua valendo nos casos clínicos.

Em Joanna de Ângelis — Triunfo Pessoal (cap. 6)

Em triunfo-pessoal (LEAL, 2002), Joanna desenvolve no cap. 6 (“Transtornos profundos”) o tratamento mais técnico-psiquiátrico da depressão dentro do corpus da Série Psicológica. Articulação em quatro matrizes etiológicas:

  1. Frustração de desejos não realizados — com referência a Freud sobre luto/perda como gatilho saudável até 6-8 semanas. Além disso, é patológico e exige terapêutica bem-elaborada: “Qualquer tipo de perda produz impacto aflitivo, perturbador, como é natural. Demora-se algum tempo, que não deve exceder a seis ou oito semanas.”
  2. Eventos de vida — perda profissional, abandono afetivo, traumatismos cranianos atingindo “duas regiões específicas do tronco cerebral: a rafe, encarregada da produção da serotonina e o locus coeruleus, que produz a noradrenalina”.
  3. Etiologia perinatal“a amargura da mãe que não desejava o filho, do pai violento, dos familiares irresponsáveis, das pelejas domésticas, da insegurança no processo da gestação, produzindo sulcos profundos que se irão manifestar mais tarde como traumas, conflitos, transtornos de comportamento.”
  4. Transferência reencarnatória“o ser espiritual viajor de multifários renascimentos carnais… ressumam como conflito avassalador, a princípio em manifestação de melancolia, de abandono de si mesmo, de desconsideração pelos próprios valores, de perda da autoestima.” Pode disparar intercorrências obsessivas quando a consciência culpada produz “clima psíquico para a sintonia com outras [mentes] fora do corpo somático… gerando sórdidos processos de parasitose espiritual”.

Terapêutica profilática preventiva: identificar-se com os sentimentos e exteriorizá-los enquanto o tempo permite — “Repetem-se as oportunidades desperdiçadas, nas quais se pode dizer aos familiares quanto eles são importantes… Nunca, pois, se devem postergar essas saudáveis e verdadeiras manifestações da afetividade, a fim de serem evitados futuros transtornos de comportamento, quando a culpa pretenda instalar-se em forma de arrependimento pelo não dito.”

A formulação é complementar — não concorrente — à abordagem de Hammed (centrada em LE q. 725, q. 974 e q. 1000) e à dos “três inimigos” de Desperte e Seja Feliz cap. 7. Joanna em Triunfo Pessoal é mais técnico-clínica; em Desperte e Seja Feliz é homilético-pastoral. Ambas convergem na terapia integrada (psiquiatria + psicoterapia + terapêutica espírita) já desenvolvida por Divaldo em conquista-da-saude-psicologica.

Em Hammed — As Dores da Alma

No tema 19 (“Depressão”, ancorado em LE q. 725, q. 974 e q. 1000), Hammed trata a depressão como uma das dores-da-alma — processo psicológico que resgata faltas pelo próprio sofrimento interior (“Já desde esta vida poderemos ir resgatando as nossas faltas?” — LE q. 1000). O comentário é mais moral-pedagógico que clínico: não substitui o diagnóstico psiquiátrico nem a visão neurobiológica desenvolvida por Divaldo Franco. Complementa com a ideia de que a vivência depressiva pode ser ocasião de reparação quando acolhida como processo evolutivo e não como punição.

Páginas relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Q. 258–262 (provas), q. 459–465 (influência dos Espíritos).
  • Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Cap. XXIII, itens 237–254 (obsessão).
  • Kardec, Allan. A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Cap. XVIII, itens 27–28 (transição planetária).
  • Franco, Divaldo Pereira. A conquista da saúde psicológica. Palestra oral, Curitiba-PR, ~2009.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Desperte e Seja Feliz, cap. 7 — “Três inimigos”. Salvador: LEAL, 1996.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Triunfo Pessoal, cap. 6 — “Transtornos profundos / Depressão”. Salvador: LEAL, 2002. 7ª ed., 2013.
  • ESPÍRITO SANTO NETO, Francisco do (Hammed). As Dores da Alma. 8ª ed. Catanduva: Boa Nova, ago/2000. Tema “Depressão” (LE q. 725, q. 974, q. 1000).