Desapego dos bens terrenos

Definição

Desprendimento interior dos bens materiais, usando-os sem apego e reconhecendo sua transitoriedade. Não se trata de ascetismo ou recusa da riqueza, mas do uso justo e caridoso dos bens.

Ensino de Kardec

A riqueza como prova

Deus não condena a riqueza em si, mas o abuso e o apego: “A riqueza é uma prova tão perigosa para aquele que a possui, como a miséria o é para o que a sofre” (ESE, cap. XVI, item 7). A riqueza coloca o ser humano diante da tentação do egoísmo e da avareza: pode ser instrumento de bem ou de perdição, conforme o uso que dela se faz.

”Não se pode servir a Deus e a Mamon”

Kardec comenta o ensino de Jesus: “Servir a Mamon é subordinar o pensamento, a atividade e a vida ao gozo dos bens materiais” (ESE, cap. XVI, item 2). O apego aos bens terrenos escraviza o Espírito e o desvia de sua finalidade superior. “Verdadeira propriedade para o homem é aquela que ele pode levar deste mundo” — isto é, as qualidades morais (ESE, cap. XVI, item 8).

Parábola do mau rico

A parábola do rico e Lázaro ilustra a inversão de condições na vida futura: “O rico que gozou de todos os bens da Terra sem pensar no próximo está condenado a ver a felicidade dos outros enquanto padece” (ESE, cap. XVI, item 7). Não é a riqueza que condena, mas a falta de caridade no uso dela.

Parábola dos talentos

Os talentos recebidos — incluindo a riqueza — devem frutificar em benefício dos outros: “O homem não é mais que um depositário; cumpre-lhe render conta do emprego que haja dado aos bens” (ESE, cap. XVI, item 9). Quem enterrou o talento por medo ou avareza será chamado à prestação de contas.

Emprego da riqueza

Kardec é claro: “O emprego da fortuna é benefício ou malefício, segundo a intenção de quem a possui. Os que a aplicam em benefício de seus semelhantes cumprem a lei de amor e de caridade” (ESE, cap. XVI, item 10). A riqueza bem empregada é instrumento de progresso coletivo.

O que o LE ensina

O LE complementa: “A miséria e a riqueza são provas igualmente difíceis” (LE, q. 814). O uso dos bens da Terra deve servir às necessidades da vida e ao bem do próximo (LE, q. 711). A desigualdade de riquezas é consequência da diversidade de inteligências e aptidões dos Espíritos (LE, q. 806).

Desdobramentos

O desapego dos bens terrenos não exige renúncia material, mas libertação interior. O Espírito desapegado usa os bens sem ser usado por eles. A pobreza voluntária e extrema não é virtude espírita; o que se pede é o uso consciente, fraterno e justo da riqueza.

Aplicação prática

Na vida prática, o desapego manifesta-se na generosidade, na simplicidade de costumes e na disposição de partilhar. Na casa espírita, a campanha do quilo, os bazares beneficentes e os projetos assistenciais são expressões coletivas do desapego. Nos estudos, o cap. XVI do ESE é tema rico para reflexão sobre consumismo, ansiedade financeira e solidariedade.

Páginas relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Cap. XVI (“Não se pode servir a Deus e a Mamon”), itens 1–10.
  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Parte 3, cap. VII (q. 803–824) — “Lei de igualdade”; q. 711 — uso dos bens da Terra.