Jesus

Identificação

Jesus de Nazaré, o Cristo. No Espiritismo, é apresentado como o tipo mais perfeito oferecido por Deus ao homem, guia e modelo da Humanidade.

Papel doutrinário no LE

“Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo? — Jesus.” (LE, q. 625)

“Para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo, e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da sua lei.” (LE, q. 625, comentário)

Papel no ESE

Jesus e o foco central de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Kardec reafirma que ele e “o tipo da perfeicao moral” e guia para a Humanidade, dedicando os 28 capitulos da obra ao comentario sistematico de suas maximas e parabolas, a luz da Doutrina Espirita.

O ESE organiza-se inteiramente em torno dos ensinamentos morais de Jesus, extraidos dos Evangelhos canonicos e comentados por Kardec com o auxilio de comunicacoes de Espiritos superiores. Cada capitulo parte de uma maxima ou parabola evangelica e a desdobra em aplicacao pratica para a vida moral do ser humano.

Caridade segundo Jesus

“Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus? — Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.” (LE, q. 886)

Papel em A Gênese

O cap. XV de A Gênese analisa a “superioridade da natureza de Jesus” e explica os milagres do Evangelho pela teoria dos fluidos e das leis naturais — curas, possessos, aparições, transfiguração, desaparecimento do corpo (Gênese, cap. XV). Jesus é apresentado como Espírito de ordem elevadíssima, cuja ação sobre os fluidos espirituais explica os fenômenos atribuídos a ele sem recurso ao sobrenatural.

A promessa do Consolador (João 14–16) é comentada no cap. XVII: Kardec identifica o Consolador prometido com a revelação espírita (Gênese, cap. XVII, seção “Anunciação do Consolador”).

Natureza do Cristo (Obras Póstumas)

Em Obras Póstumas, Kardec dedica um extenso estudo em 9 seções à questão da natureza de Jesus, examinando sistematicamente os milagres, as palavras do próprio Cristo, a opinião dos apóstolos, as predições dos profetas e o sentido do “Verbo” e de “Filho de Deus”.

Conclusões de Kardec:

  1. Os milagres não provam a divindade. São fenômenos naturais explicáveis pelo magnetismo, fluidos e faculdades psíquicas — presentes em muitos indivíduos, inclusive “heréticos e idólatras”. A própria Igreja, ao atribuir milagres ao demônio, retira deles o caráter exclusivamente divino (OPE, “Estudo sobre a natureza do Cristo”, §II).

  2. As palavras de Jesus afirmam subordinação ao Pai. Jesus declara repetidamente: “Não tenho falado por mim mesmo; aquele que me enviou foi quem me prescreveu o que tenho de dizer”; “A doutrina que prego não é minha, mas daquele que me enviou.” A qualidade de “Messias” ou “enviado” implica posição subordinada (OPE, §III).

  3. Os apóstolos o tratam como enviado de Deus, não como Deus. Paulo o chama “um só homem, que é Jesus-Cristo” e afirma que “o Filho estará, ele mesmo, submetido àquele que lhe terá submetido todas as coisas” (I Cor, 15:28). “A idéia exclusiva que ressalta desses textos é a da sua subordinação a Deus” (OPE, §VI).

  4. Os profetas o anunciam como servidor. Deus designa o Messias por “meu servidor” — “conseguintemente por seu subordinado. Nada há, em suas palavras, que implique a idéia de igualdade de poder, nem de consubstancialidade” (OPE, §VII).

  5. “O Verbo se fez carne” não implica identidade com Deus. Jesus recebeu diretamente a palavra de Deus e a assimilou; trouxe-a ao nascer. “Como um embaixador transmite as palavras do seu soberano, sem ser o soberano” (OPE, §VIII).

  6. “Filho de Deus” não implica igualdade. Jesus é “Filho bem-amado de Deus” por ter alcançado a perfeição; chama-se “Filho único” não por ser o único perfeito, mas por ser o único predestinado àquela missão na Terra. A qualificação “Filho do homem”, usada com insistência por Jesus, lembra que ele pertence à Humanidade (OPE, §IX).

  7. O dogma da divindade é obra dos homens. Surgiu gradualmente; foi adotado no Concílio de Nicéia (séc. IV) sob pressão política de Constantino. “Semelhante dogma resultou, pois, de decisão dos homens e não de uma revelação divina” (OPE, §VIII).

Esta análise é coerente com a posição do LE (q. 625: Jesus como tipo da perfeição moral) e de A Gênese (cap. XV: superioridade da natureza de Jesus explicada pelos fluidos).

No Evangelho segundo João

O quarto Evangelho é a principal fonte sobre os discursos longos de Jesus e suas declarações “Eu sou”. João registra passagens capitais para a doutrina espírita:

  • Subordinação ao Pai: “O Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma” (Jo 5:19); “Meu Pai é maior do que eu” (Jo 14:28); “A ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17:3) — Jesus distingue claramente entre si e Deus, confirmando a posição de Kardec (OPE, §III).
  • Unidade moral, não ontológica: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10:30) — mas pede a mesma unidade para todos os discípulos: “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti” (Jo 17:21).
  • “Sois deuses”: Jesus cita o Salmo 82 para mostrar que a filiação divina é questão de grau, não de natureza exclusiva (Jo 10:34-36).
  • “Meu Pai e vosso Pai”: Após a ressurreição, Jesus declara: “eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20:17) — a filiação divina é compartilhada.
  • Humanidade de Jesus: “Jesus chorou” diante de Lázaro (Jo 11:35), confirmando sua condição de Espírito encarnado, não Deus em essência.
  • Preexistência: “Antes que Abraão existisse, eu sou” (Jo 8:58) — preexistência do Espírito, não identidade com Deus.

Ver evangelho-segundo-joao.

No Evangelho segundo Mateus

Primeiro Evangelho canônico e o mais citado por Kardec no ESE. Preserva os cinco grandes discursos pedagógicos de Jesus e é fonte primária de passagens capitais para o Espiritismo:

  • Sermão da Montanha (Mt 5–7): bem-aventuranças, amor aos inimigos, Pai Nosso, regra de ouro — base dos caps. V–X e XXVIII do ESE.
  • Missão apostólica e distinção corpo/alma: “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma” (Mt 10:28) — fundamento evangélico da imortalidade do Espírito (ESE, cap. II).
  • Reencarnação reconhecida por Jesus: “Elias já veio, e não o conheceram” (Mt 17:12; cf. Mt 11:14) — João Batista identificado como reencarnação de Elias (ESE, cap. IV).
  • Reuniões mediúnicas: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18:20).
  • Maior mandamento: amar a Deus e ao próximo (Mt 22:37–40) — síntese da Lei (ESE, cap. XI).
  • Caridade prática como critério do juízo: “O que fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25:40).
  • Entrega consciente na paixão: “Não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26:39); “mais de doze legiões de anjos” disponíveis recusadas (Mt 26:53) — a paixão é escolha, não fatalidade.
  • Grande Comissão: “Ide, ensinai todas as nações… eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28:19–20).

Ver evangelho-segundo-mateus.

Cristo no Apocalipse (visões joaninas)

O Apocalipse traz a galeria mais densa de imagens cristológicas alegóricas do NT, todas dirigidas a João em êxtase mediúnico em Patmos (c. 95 d.C.):

  • Filho do Homem com cabelos brancos, olhos como chama de fogo, voz como muitas águas, espada de dois fios saindo da boca (Ap 1:13–16) — eco direto de Daniel 7:9, 13. Os cabelos brancos = sabedoria atemporal; os olhos = capacidade de ver com plena luz; a espada = palavra moral. Não divinização ontológica — alegoria da soberania moral plena de Jesus como Espírito puro (LE q. 625).
  • Cordeiro como havendo sido morto (Ap 5:6) com sete pontas e sete olhos = os sete Espíritos de Deus enviados a toda a terra. O Cordeiro é digno de abrir o livro selado (5:9 — “porque foste morto, e com o teu sangue nos compraste para Deus”) porque completou a missão até a cruz; convergência com a kenose de Fp 2:5–11. Conceito próprio: sete-espiritos-de-deus.
  • Alfa e Ômega, princípio e fim (Ap 1:8; 21:6; 22:13) — leitura espírita: Jesus participa do “princípio e fim” do projeto criador enquanto guia e modelo da humanidade terrestre [[obras/a-caminho-da-luz|(LE q. 625; Emmanuel, A Caminho da Luz, caps. 1–3, sobre Jesus na gestação planetária)]], não como ontologicamente igual a Deus (cf. OPE, “Estudo sobre a natureza do Cristo”).
  • Cavaleiro Fiel e Verdadeiro, Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 19:11–16) — pico cristológico do livro. Soberania moral, não política; o “manto tinto em sangue” = referência alegórica ao sacrifício na cruz, não veste literal. A espada que sai da boca (19:15) retoma 1:16 — palavra moral, não arma.
  • “Eis que estou à porta, e bato” (Ap 3:20) — descrição da inspiração espiritual respeitosa do livre-arbítrio. Convergência com ESE Introdução (Cristo como guia que aguarda o consentimento da consciência).
  • “Eu, Jesus, enviei o meu anjo” (Ap 22:16) — Jesus atua através de Espíritos intermediários, não por contato direto com o médium humano. Estrutura mediúnica idêntica à da Codificação kardequiana (signatários do ESE; Espírito de Verdade dirigindo coletivamente a revelação).
  • “Raiz e geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã” (Ap 22:16) — autoidentificação final: Jesus reivindica continuidade com a tradição messiânica do AT e ao mesmo tempo se apresenta como luz que orienta a humanidade na transição (cf. 2 Pe 1:19, “estrela da alva”).
  • “O testemunho de Jesus é o espírito de profecia” (Ap 19:10) — formulação compacta do critério kardequiano de discernimento: a profecia autêntica é a que confirma e desenvolve a moral do Cristo. Convergência com ESE Prolegômenos (Espírito de Verdade) e com a tese das Três Revelações.

A leitura espírita do conjunto: imagens alegóricas da soberania moral plena de Jesus, recebidas em comunicação mediúnica e formuladas no vocabulário apocalíptico judaico do I século — não material para a doutrina trinitária ontológica, fixada séculos depois. Ver apocalipse.

Hino cristológico em Filipenses 2 (kenose)

Em Fp 2:5–11, Paulo insere fragmento hímnico provavelmente pré-paulino que se tornou pedra angular da cristologia trinitária:

“De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, também Deus o exaltou soberanamente […] toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.” (Fp 2:5–11)

O verbo “esvaziou-se” (gr. ekenōsen) deu origem ao termo técnico kenose. A leitura calcedoniana absolutizou a “forma de Deus” e a “igualdade com Deus” como prova da consubstancialidade Filho-Pai; a leitura espírita preserva o eixo ético (descenso voluntário do Espírito superior pelo bem da humanidade) e dissolve a metafísica trinitária. Coerente com OPE: Jesus é “Filho”, não Pai; Mensageiro, não Origem — e a aclamação a Cristo redunda explicitamente “para glória de Deus Pai” (2:11). Tratamento conceitual completo em kenose-de-cristo; divergência registrada em jesus-igual-a-deus-em-filipenses-2.

Governador espiritual da Terra (Emmanuel)

Em A Caminho da Luz, Emmanuel apresenta Jesus como o responsável direto pela formação e organização do planeta, desde a gênese planetária até a direção das civilizações:

  • Membro da “Comunidade de Espíritos Puros e Eleitos”, dirigiu a separação da Terra da nebulosa solar, a formação da Lua, da atmosfera e dos oceanos [[obras/a-caminho-da-luz|(Emmanuel/Chico Xavier, A Caminho da Luz, cap. 1)]].
  • Comandou os “operários espirituais” que conduziram a evolução biológica, do protoplasma aos antropóides, fixando as linhagens definitivas das espécies (cap. 2).
  • Recebeu os Espíritos degredados de Capela “à luz do seu reino de amor e de justiça”, exortando-os à edificação pelo cumprimento dos deveres de solidariedade (cap. 3).
  • Enviou missionários a todas as civilizações e encarnou na Palestina como o “Sublime Missionário” (caps. 10–12).

“Em tudo e sobre todos, irradia-se a luz desse fio de espiritualidade que diviniza a matéria […] vemos a fonte de extraordinária luz, de onde parte o primeiro ponto geométrico desse fio de vida e de harmonia.” [[obras/a-caminho-da-luz|(Emmanuel/Chico Xavier, A Caminho da Luz, Introdução)]]

Ver a-caminho-da-luz.

O encontro com Públio Lêntulus em Cafarnaum (Há Dois Mil Anos…)

Em ha-dois-mil-anos (1939), Emmanuel narra em primeira pessoa, na encarnação como o senador romano Públio Lêntulus, um diálogo direto com Jesus à margem do lago de Genesaré em ano 33 d.C. Cena que articula doutrinariamente a soteriologia do livre-arbítrio na hora da Graça:

“Senador, porque me procuras? […] Pastor das almas humanas, desde a formação deste planeta, há muitos milênios venho procurando reunir as ovelhas tresmalhadas, tentando trazer-lhes ao coração as alegrias eternas do reinado de Deus e de sua justiça!” [[obras/ha-dois-mil-anos|(Emmanuel / Chico Xavier, Há Dois Mil Anos…, cap. “O Messias de Nazaret”)]]

Doutrina central: o “minuto glorioso” — a Graça é oferecida, mas a escolha permanece com a criatura.

“Soa para teu espírito, neste momento, um minuto glorioso, se conseguires utilizar tua liberdade para que seja ele, em teu coração, doravante, um cântico de amor, de humildade e de fé, na hora indeterminável da redenção, dentro da eternidade… Mas, ninguém poderá agir contra a tua própria consciência, se quiseres desprezar indefinidamente este minuto ditoso!” (idem)

A cura simultânea da filha leprosa Flávia opera não pelo merecimento do pai, mas pela fé da mãe — “é, sim, a fé e o amor de tua mulher, porque a fé é divina… Basta um raio só de suas energias poderosas para que se pulverizem todos os monumentos das vaidades da Terra”. Articula a doutrina de ESE cap. XIX (a fé que opera maravilhas) com a ação fluídica de Gênese cap. XIV.

Parábolas

Obras associadas

  • livro-dos-espiritos — modelo e guia da Humanidade (LE, q. 625).
  • evangelho-segundo-o-espiritismo — foco central da obra; suas maximas e parabolas sao comentadas ao longo dos 28 capitulos.
  • genese — milagres de Jesus explicados (cap. XV); Consolador (cap. XVII).
  • obras-postumas — estudo sobre a natureza do Cristo (9 seções).
  • a-caminho-da-luz — governador espiritual da Terra, da gênese planetária à transição (Emmanuel/Chico Xavier).
  • ha-dois-mil-anos — encontro com Públio Lêntulus em Cafarnaum; o “minuto glorioso” do livre-arbítrio na hora da Graça; cura de Flávia (Emmanuel/Chico Xavier).
  • jesus-ensina-em-cafarnaum-eelde — primeira pregação e desobsessão na sinagoga de Cafarnaum (Marcos 1:21–28).
  • evangelho-segundo-joao — discursos longos, declarações “Eu sou”, promessa do Consolador, natureza do Cristo.
  • evangelho-segundo-mateus — cinco grandes discursos pedagógicos; base da maior parte das citações evangélicas do ESE.
  • epistola-aos-filipenses — hino cristológico (Fp 2:5–11) com a kenose como modelo de humildade voluntária; “para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho” (Fp 1:21).
  • apocalipse — galeria de imagens cristológicas alegóricas: Cordeiro, Filho do Homem, Alfa e Ômega, Cavaleiro Fiel e Verdadeiro, Rei dos reis, “estou à porta, e bato”.
  • jesus-e-o-evangelho-a-luz-da-psicologia-profunda — comentário sistemático de um item de cada capítulo I–XXVII do ESE em chave junguiana (Joanna de Ângelis / Divaldo Franco, LEAL, 2000); Jesus como “Psicoterapeuta por excelência”, reafirmação enfática da cristologia kardequista antitrinitária.

Páginas relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, q. 625, q. 886. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. FEB.
  • KARDEC, Allan. Obras Póstumas, “Estudo sobre a natureza do Cristo”. Tradução de Guillon Ribeiro. FEB.
  • XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). A Caminho da Luz. FEB, 1939.
  • XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). Há Dois Mil Anos… Rio de Janeiro: FEB, 1939. Edição: ha-dois-mil-anos.