Bem-aventurança dos brandos

Definição

Terceira bem-aventurança do Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que são brandos, porque possuirão a Terra” (S. Mateus, 5:5). Kardec a trata no capítulo IX do ESE, em conjunto com a bem-aventurança dos pacificadores (Mt 5:9), pois ambas fundam o mesmo princípio — a recusa da violência e a supremacia da afabilidade moral sobre a força bruta.

Ensino de Kardec

Brandura como lei

“Por estas máximas, Jesus faz da brandura, da moderação, da mansuetude, da afabilidade e da paciência, uma lei. Condena, por conseguinte, a violência, a cólera e até toda expressão descortês de que alguém possa usar para com seus semelhantes” (ESE, cap. IX, item 4). A recomendação vai muito além do gesto: atinge a palavra e o pensamento. Jesus adverte que até “aquele que se puser em cólera contra seu irmão merecerá condenação” (S. Mateus, 5:22), porque “toda palavra ofensiva exprime um sentimento contrário à lei do amor e da caridade” (ESE, cap. IX, item 4).

”Possuirão a Terra” — a Terra regenerada

Kardec enfrenta a aparente contradição: Jesus recomenda desapego dos bens terrenos, mas promete aos brandos a posse da Terra. A solução vem no item 5 do capítulo IX:

“Por aquelas palavras quis dizer que até agora os bens da Terra são açambarcados pelos violentos, em prejuízo dos que são brandos e pacíficos; que a estes falta muitas vezes o necessário, ao passo que outros têm o supérfluo. Promete que justiça lhes será feita, assim na Terra como no céu, porque serão chamados filhos de Deus. Quando a Humanidade se submeter à lei de amor e de caridade, deixará de haver egoísmo; o fraco e o pacífico já não serão explorados, nem esmagados pelo forte e pelo violento. Tal a condição da Terra, quando, de acordo com a lei do progresso e a promessa de Jesus, se houver tornado mundo ditoso, por efeito do afastamento dos maus.” (ESE, cap. IX, item 5)

A “Terra” prometida é a Terra transformada em mundo regenerador, onde os Espíritos de bem predominarão e os violentos serão afastados — tema que Kardec desenvolve em A Gênese (cap. XVIII). A bem-aventurança é, portanto, também uma profecia sobre a transição planetária.

Afabilidade verdadeira vs. polidez de verniz

Os Espíritos esclarecem o risco da aparência. “A educação e a frequentação do mundo podem dar ao homem o verniz dessas qualidades. Quantos há cuja fingida bonomia não passa de máscara para o exterior (…); que são brandas, desde que nada as agaste, mas que mordem à menor contrariedade” (Lázaro, ESE, cap. IX, item 6). A brandura legítima se reconhece na constância: “Aquele cuja afabilidade e doçura não são tingidas nunca se desmente: é o mesmo, tanto em sociedade, como na intimidade.”

Paciência e resignação como formas da brandura

“A paciência também é uma caridade e deveis praticar a lei de caridade ensinada pelo Cristo (…). Outra há, porém, muito mais penosa e, conseguintemente, muito mais meritória: a de perdoarmos aos que Deus colocou em nosso caminho para serem instrumentos do nosso sofrer e para nos porem à prova a paciência” (Espírito amigo, ESE, cap. IX, item 7). “A obediência é o consentimento da razão; a resignação é o consentimento do coração, forças ativas ambas” (Lázaro, ESE, cap. IX, item 8) — brandura não é inércia, é firmeza moral.

A cólera como sintoma de orgulho

“O orgulho vos induz a julgar-vos mais do que sois (…). Que é o que vos faz repelir, coléricos, os mais ponderados conselhos, senão o orgulho ferido por uma contradição?” (Espírito protetor, ESE, cap. IX, item 9). A raiz da violência é quase sempre o amor-próprio ferido; a brandura exige, portanto, humildade. E Kardec desfaz a desculpa fisiológica: “O corpo não dá cólera àquele que não na tem. (…) Todas as virtudes e todos os vícios são inerentes ao Espírito” (ESE, cap. IX, item 10).

Desdobramentos

Brandura não é covardia

Jesus foi brando, mas expulsou os vendilhões do templo; chamou raposa a Herodes e hipócritas aos fariseus. A brandura evangélica convive com firmeza profética. O que a bem-aventurança condena é a violência que fere o irmão — pela mão, pela palavra ou pelo desprezo —, não a firmeza moral que denuncia o mal.

Lei de igualdade realizada

A posse da Terra prometida aos brandos é, materialmente, o fim da apropriação pela força — o momento histórico em que a lei de igualdade (LE, q. 803–824) deixará de ser ideal e será vivida. A bem-aventurança descreve o estado social de um mundo regenerador, onde o fraco deixa de ser presa do forte.

Raiz da paciência: fé na justiça de Deus

Brandos são os que não precisam desforrar-se porque confiam que Deus ajusta as contas. Por isso a bem-aventurança é gêmea da lei de causa e efeito e da paciência evangélica: quem sabe que nada se perde no julgamento divino não tem pressa de fazer justiça com as próprias mãos.

Aplicação prática

A prática da bem-aventurança começa no controle da palavra: silenciar a resposta áspera, recusar o ataque pessoal, não devolver injúria com injúria. Prossegue no controle do pensamento: vigiar os julgamentos internos que antecedem a violência. Em casa espírita, é a brandura nas reuniões, no trato com o consulente irritado, com o companheiro de grupo divergente. Onde houver palavra ferina, já não há brandura, por mais educada que seja a aparência.

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Fontes

  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Cap. IX (“Bem-aventurados os que são brandos e pacíficos”), itens 1–10.
  • Kardec, Allan. A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Cap. XVIII (“Os tempos chegados”), sobre a transição planetária.
  • Novo Testamento. S. Mateus 5:5, 21–22.