Charles Fourier
Identificação
- Nome: François Marie Charles Fourier
- Nascimento: 7 de abril de 1772, Besançon, França
- Desencarnação: 10 de outubro de 1837, Paris, França (aos 65 anos)
- Profissão: Filósofo social, comerciante (corretor em Lyon, depois caixeiro em Paris e Marselha).
Filósofo social francês, um dos pais do socialismo utópico (com Saint-Simon e Robert Owen) e fundador do sistema do falanstério (phalanstère) — comunidade modelo de produção e habitação coletiva organizada em séries passionais. Autor da Théorie des quatre mouvements et des destinées générales (1808), Traité de l’association domestique-agricole (1822) e Le Nouveau Monde industriel et sociétaire (1829). Postula a teoria das doze paixões fundamentais que, devidamente harmonizadas, conduziriam o homem ao seu destino. Embora seu sistema tenha sido mal-sucedido na aplicação prática (a única tentativa em larga escala, a colônia de Considérant em Réunion no Texas, fracassou em 1855-1860), os fourieristas permaneceram ativos na França até a década de 1870 — entre eles, discípulos espíritas que evocaram seu mestre na Revue Spirite.
Citado por Kardec três vezes com peso doutrinário direto: em 1862 (“Charles Fourier, Louis Jourdain e a reencarnação”), em 1863 (“Jean Reynaud e os precursores do Espiritismo”), e — peça central — em 1869 (comunicação direta de Fourier evocado pelo Grupo Desliens em 09/03/1869), com autocrítica doutrinária seminal sobre os limites do seu sistema.
Como precursor do Espiritismo
Fourier é o segundo elo da linhagem precursora traçada por Kardec, entre Swedenborg (séc. XVIII) e Jean Reynaud (m. 1863). Em RE ago/1863:
“Como todas as grandes ideias que revolucionaram o mundo, o Espiritismo não nasceu de súbito. Ele germinou em mais de um cérebro e mostrou-se, aqui e ali, pouco a pouco, como que para habituar os homens à ideia.” (RE ago/1863)
Linhagem traçada: Swedenborg (séc. XVIII) → doutrina dos teósofos (início do séc. XIX) → Charles Fourier (progresso da alma pela reencarnação) → Jean Reynaud (“mesmo princípio, sondando o infinito com a ciência às mãos”) → manifestações americanas (1848) → filosofia espírita (1857).
A contribuição doutrinária específica de Fourier é a tese da alma progressiva pela reencarnação — defendida por ele antes do Espiritismo:
“O princípio [da reencarnação] foi claramente exposto em várias outras obras anteriores […] entre outras em Céu e Terra de Jean Reynaud e no encantador livrinho do Sr. Louis Jourdan, intitulado Preces de Ludovico, publicado em 1849, sem contar que esse princípio era professado pelos Druidas, aos quais, certamente, nós não ensinamos. […] Assim, nós ACEITAMOS esse dogma e não o INVENTAMOS, o que é muito diferente.” (Kardec, RE dez/1862, “Charles Fourier, Louis Jourdain e a reencarnação”)
Fourier é, portanto, citado por Kardec como fonte filosófica anterior que professou independentemente um dos princípios cardinais do Espiritismo. Continuidade do mesmo argumento em RE ago/1863.
Comunicação pós-morte (RE abr/1869, 09/03/1869, Grupo Desliens)
A peça central é a comunicação direta de Fourier evocado por discípulo fourierista que era ao mesmo tempo espírita (J.G.) — em pergunta franca: “eu te peço comunicar-te comigo, a fim de me fortalecer na convicção que tua admirável teoria dos quatro movimentos fez nascer em mim sobre a lei da harmonia universal, ou de me desenganar se tiveste a infelicidade, tu mesmo, de te enganares”.
A resposta é peça doutrinariamente seminal — autocrítica madura de Fourier desencarnado, com três teses centrais:
Tese 1 — todos os sistemas são transitórios:
“Eu fiz um sistema, destinado, como todos os sistemas, a viver um tempo, depois a transformar-se, a associar-se a novos elementos mais verdadeiros. Como vedes, há ideias como homens. Desde que elas nasceram, elas não morrem: elas se transformam. Grosseiras de início, envoltas na ganga da linguagem, encontram sucessivamente artesãos que as talham e as vão polindo cada vez mais, até que esse eixo informe se tenha tornado o diamante de brilho vivo, a pedra preciosa por excelência.”
Tese 2 — autocrítica do sistemismo de Fourier:
“Busquei conscienciosamente e achei muito. Apoiando-me nos princípios adquiridos, fiz avançar alguns passos o pensamento inteligente e regenerador. O que descobri era verdadeiro em princípio; falseei-o, ao querer aplicá-lo. Quis criar a série, estabelecer harmonias, mas essas séries, essas harmonias não necessitavam de criador; elas existiam desde o começo; eu não podia senão perturbá-las, querendo estabelecê-las sobre as pequenas bases de minha concepção, quando Deus lhes havia dado o Universo por laboratório gigantesco.”
Tese 3 — verdadeiro título de glória de Fourier:
“Meu mais sério título, aquele que ignoram e talvez mais desdenhem, é ter partilhado com Jean Reynaud, Ballanche, Joseph de Maistre e muitos outros, o pressentimento da verdade; é ter sonhado com essa regeneração humana pela provação, essa sucessão de existências reparadoras, essa comunicação do mundo livre e do mundo encadeado à matéria, que tendes a felicidade de tocar com o dedo. Nós tínhamos previsto e vós realizais o nosso sonho.”
Conselho metodológico (epigrama autobiográfico):
“Se quiserdes uma demonstração séria de uma lei universal, buscai a sua aplicação individual. Quereis a verdade? Buscai-a em vós mesmo, e na observação dos fatos de vossa própria vida. Todos os elementos de prova aí estão. Que aquele que quer saber se examine, e encontrará.”
Esta peça de Fourier é o fechamento explícito da linhagem precursora pelos próprios precursores — confirmação pós-morte da tese de Kardec em 1862 e 1863.
Lições principais
- Sistema × verdade. Fourier distingue princípio verdadeiro (que ele captou: existência de leis universais de harmonia) de aplicação errônea (querer construir as séries em vez de descobrir as que Deus já estabeleceu). Lição metodológica para os espíritas.
- Compatibilidade entre fourierismo e Espiritismo. “Os fourieristas e espíritas possam dar-se as mãos” — Kardec sustenta a tese em RE mar/1869 (“Charles Fourier”) com base na comparação programa-a-programa. Os pontos de convergência: (a) dignidade do trabalho; (b) interesse coletivo; (c) progresso indefinido; (d) lei de harmonia universal.
- Reencarnação como pressentimento pré-espírita. Fourier admite a sucessão de existências reparadoras antes do Espiritismo — caso paradigmático de descoberta intuitiva verificada depois pela experiência mediúnica.
- Autocrítica como modelo. A retratação parcial pós-morte (“falseei-o, ao querer aplicá-lo”) é modelo de humildade intelectual no estado de Espírito — categoria-chave para identidade-dos-espiritos e o controle universal.
Obras associadas
- Théorie des quatre mouvements et des destinées générales (1808) — obra capital, formula a teoria dos quatro movimentos (material, orgânico, animal, social).
- Traité de l’association domestique-agricole (1822, depois reeditado em 1841 sob o título Théorie de l’unité universelle).
- Le Nouveau Monde industriel et sociétaire (1829) — exposição do falanstério.
- La Fausse industrie morcelée, répugnante, mensongère, et l’antidote, l’industrie naturelle, combinée, attrayante, véridique (1835-1836) — última grande obra em vida.
- Manuscrits inédits (publicados postumamente, 1851-1858) — incluindo o sistema da atração apaixonada.
Páginas relacionadas
- revista-espirita-1862 — “Charles Fourier, Louis Jourdain e a reencarnação” (dez/1862).
- revista-espirita-1863 — “Jean Reynaud e os precursores do Espiritismo” (ago/1863).
- revista-espirita-1869 — comunicação pós-morte central (abr/1869).
- jean-reynaud — companheiro na linhagem precursora; citado por Fourier como “parceiro do pressentimento da verdade”.
- swedenborg — primeiro elo da linhagem dos precursores.
- lamartine — comunicação na mesma sessão (mar/1869).
- reencarnacao — Fourier como antecedente filosófico no séc. XIX.
- identidade-dos-espiritos — autocrítica como modelo de evolução pós-morte.
Fontes
- KARDEC, Allan. “Charles Fourier, Louis Jourdain e a reencarnação”. Revista Espírita, dezembro de 1862.
- KARDEC, Allan. “Jean Reynaud e os precursores do Espiritismo”. Revista Espírita, agosto de 1863.
- KARDEC, Allan. “Dissertações espíritas — Charles Fourier”. Revista Espírita, abril de 1869 (Paris, Grupo Desliens, 9 de março de 1869).
- KARDEC, Allan. “Charles Fourier” (apreciação programática). Revista Espírita, março de 1869.
- FOURIER, Charles. Théorie des quatre mouvements et des destinées générales. Leipzig: 1808.
- FOURIER, Charles. Le Nouveau Monde industriel et sociétaire. Paris: Bossange père, 1829.
- Edição local integral: 12-dezembro, 04-abril.