Incrustação Planetária (teoria de Jobard, rejeitada por Kardec)

Definição curta

Hipótese cosmológica proposta pelo Sr. Jobard em revista-espirita-1860 (abr/1860, “Formação da Terra — Teoria da incrustação planetária”), segundo a qual a Terra atual teria sido formada pela fusão de quatro corpos planetários menores (designados Ásia, África, Europa, América), cada um trazendo sua própria raça humana, fauna e flora pré-formadas. Kardec não adota a teoria — explicita reservas e usa o caso para fixar o princípio metodológico decisivo sobre os limites da autoridade dos Espíritos em matéria científica.

A página é incluída na wiki não porque a teoria seja doutrinariamente correta, mas porque o caso é matriz da metodologia kardequiana: é o exemplo mais explícito, no Pentateuco e na Revista, do método de submeter ao crivo da razão e dos fatos mesmo as comunicações elaboradas e elogiáveis vindas de Espíritos.

Ensino de Kardec

A teoria de Jobard, em síntese

“Depois da elevação do planeta desconhecido […], a alma da Terra recebeu ordem de reunir seus satélites para formar nosso globo atual, segundo as regras do progresso em tudo e por tudo. Apenas quatro desses astros consentiram na associação que lhes era proposta; só a Lua persistiu em sua autonomia, porque os globos também possuem o livre-arbítrio. […] O planeta Ásia nos trouxe a raça amarela, a de mais antiga civilização; o África, a raça negra; o Europa, a raça branca e o América, a raça vermelha. Certamente a Lua nos teria trazido a raça verde ou azul.” (Jobard, citado em RE abr/1860)

Vários médiuns, segundo Jobard, teriam transmitido independentemente versões da mesma teoria — argumento em favor de sua origem espírita.

A posição de Kardec

Posição inicial cautelosa:

“A teoria da formação da Terra pela incrustação de vários corpos planetários já foi dada em várias épocas, por certos Espíritos e através de médiuns desconhecidos uns dos outros. Não somos adeptos dessa doutrina, que confessamos não ter sido ainda suficientemente estudada para sobre ela nos pronunciarmos, mas reconhecemos que merece um sério exame.” (RE, abr/1860)

Posição doutrinária firme — fora da moral, teorias dos Espíritos exigem reservas:

“Fora da moral, que não pode ter duas interpretações, não devem ser aceitas teorias científicas dos Espíritos, senão com muitas reservas, porque, uma vez mais, não estão encarregados de nos trazer a Ciência acabada; estão longe de tudo saber, sobretudo no que concerne ao princípio das coisas; enfim, é preciso desconfiar das ideias sistemáticas, que alguns dentre eles querem que prevaleçam e às quais não têm escrúpulo de dar uma origem divina.” (RE, abr/1860)

Por que os Espíritos não trazem a ciência pronta:

“Deus quer que adquiramos o conhecimento pelo trabalho, e não encarregou os Espíritos de no-lo trazer preparado, favorecendo a nossa preguiça.” (RE, abr/1860)

Por que Espíritos podem errar em ciência:

“Não basta ser Espírito para possuir a ciência universal, pois assim a morte nos faria quase iguais a Deus. […] Há, pois, Espíritos adiantados, e outros mais ou menos atrasados […]. Há, ainda, os meio sábios, os falsos sábios, os presunçosos, os sistemáticos e até os hipócritas. Estes são os mais perigosos, porque afetam uma aparência séria, de ciência e de sabedoria, em favor da qual frequentemente proclamam, em meio a algumas verdades e boas máximas, as mais absurdas coisas. Para melhor enganar, não receiam enfeitar-se com os mais respeitáveis nomes.” (RE, abr/1860)

Critério de avaliação — a lógica e os fatos, não o nome do Espírito:

“O grande critério do ensino dado pelos Espíritos é a lógica. Deus nos deu a capacidade de julgamento e a razão, para delas nos servirmos. Os bons Espíritos no-las recomendam, no que nos dão uma prova de sua superioridade. Os outros delas se afastam. Eles querem ser acreditados sob palavra, pois sabem que têm tudo a perder, em caso de exame.” (RE, abr/1860)

Por que Kardec considera a hipótese sem fundamento

  1. Geologia. As camadas geológicas da Terra mostram continuidade na sedimentação e nas eras; não se observa “linha de soldadura” entre supostos corpos originalmente distintos.
  2. Equilíbrio físico. “Parece difícil que tal acontecimento se tenha realizado e, sobretudo, que o equilíbrio de semelhante caos tenha podido estabelecer-se em seis dias de 24 horas. Os movimentos da matéria inerte estão submetidos a leis eternas, que não podem ser derrogadas senão por milagres.”
  3. Heterogeneidade racial. Embora Kardec reconheça que “as raças primitivas da Terra provêm de origens diferentes”, ele atribui isso a emigrações espirituais (raça adâmica como imigração de Espíritos vindos de outro mundo, ver raca-adamica) e a evoluções locais, não a fusão de planetas físicos.

O subproduto admissível: alma da Terra

Kardec rejeita a teoria da incrustação como cosmologia física, mas admite separadamente o conceito de “alma da Terra” que aparece na carta de Jobard:

“Resta-nos explicar o que se deve entender por alma da Terra, porque não entra na cabeça de ninguém atribuir uma vontade à matéria. Os Espíritos sempre disseram que alguns entre eles têm atribuições especiais. Agentes e ministros de Deus, dirigem, conforme o seu grau de elevação, os fatos de ordem física, bem como os de ordem moral. Assim como alguns velam pelos indivíduos, dos quais se constituem gênios familiares ou protetores, outros tomam sob seu patrocínio reuniões de indivíduos, grupos, cidades, povos e mesmo mundos. A alma da Terra deve, pois, ser entendida como o Espírito chamado por sua missão a dirigi-la e fazê-la progredir, tendo sob suas ordens as inumeráveis legiões de Espíritos encarregados de velar pela realização de seus desígnios. O Espírito diretor de um mundo deve ser, necessariamente, de uma ordem superior, e tanto mais elevado quanto mais adiantado for o mundo.” (RE, abr/1860)

Este conceito — Espírito diretor de mundo — é admitido pelo Espiritismo e desenvolvido em genese (cap. XI) e em material chicoxaveriano posterior (Emmanuel/Chico Xavier, A Caminho da Luz, Jesus como Espírito diretor da Terra).

Desdobramentos

A regra metodológica geral

A formulação fixada em RE abr/1860 é caso-modelo de como o Espiritismo lida com hipóteses dos Espíritos:

  1. Em moral: o ensino dos Espíritos elevados é doutrinariamente válido sem reservas (regra da unanimidade do ensino moral).
  2. Em ciência: o ensino dos Espíritos é hipótese provisória, sujeita à confirmação por (a) lógica interna, (b) fatos verificados, (c) consenso entre Espíritos elevados de várias proveniências, (d) controle pelo “controle universal”.
  3. Quando a hipótese científica de um Espírito contradiz fatos verificados: a hipótese é rejeitada, ainda que assinada por Espírito de nome ilustre — porque “para melhor enganar, [Espíritos sistemáticos] não receiam enfeitar-se com os mais respeitáveis nomes”.

Aplicação tardia (LM, 1861)

A formulação entra praticamente intacta em livro-dos-mediuns cap. XX (“Influência moral do médium”) e cap. XXIV (“Da identidade dos Espíritos”). Em particular, o item 268 de LM (controle universal) é a versão sistematizada da regra de RE abr/1860.

Aplicação tardia (Gênese, 1868)

Em genese cap. VI (“Uranografia geral”) e cap. VII (“Esboço geológico da Terra”), Kardec fixa a cosmologia espírita: formação progressiva da Terra por leis físicas comuns, em períodos geológicos longos; rejeição implícita de teorias como a da incrustação. O conceito de “alma da Terra” não é desenvolvido em Gênese, mas a tese geral dos Espíritos diretores de mundo está em cap. XI (“Gênese espiritual”).

Aplicação prática

  • Em estudo doutrinário: o caso é exemplo paradigmático para discutir como o Espiritismo distingue moral e ciência no ensino dos Espíritos.
  • Em palestra: material excelente para discursar sobre o controle universal e a recusa do dogmatismo na codificação. A frase “o grande critério do ensino dado pelos Espíritos é a lógica” é citação canônica.
  • Em diálogo com leituras espíritas tardias: a teoria reaparece eventualmente em autores fora do mainstream kardequiano (alguns autores do séc. XX em registro mediúnico contestável). A regra de Kardec permanece o critério: lógica + fatos + consenso, não nome do Espírito.

Divergências

Nenhuma com o Pentateuco. A teoria da incrustação não é divergência kardec×complementar — é hipótese de Espíritos transmitida por Jobard (encarnado), explicitamente rejeitada por Kardec na própria Revista, antes mesmo da fixação em LM e Gênese. O conceito de alma da Terra, separadamente, é compatível com o Pentateuco.

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Fontes

  • KARDEC, Allan. Revista Espírita, abr/1860, “Formação da Terra — Teoria da incrustação planetária” (carta de Jobard + resposta-comentário longo de Kardec). Edição local: 1860.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. 2ª parte, caps. XX e XXIV.
  • KARDEC, Allan. A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Caps. VI, VII, XI.