Bem-aventurança dos pobres de espírito

Definição

Primeira bem-aventurança do Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os pobres de espírito, pois que deles é o reino dos céus” (S. Mateus, 5:3). Kardec dedica-lhe o capítulo VII do ESE e esclarece que “pobres de espírito” não designa os baldos de inteligência, mas os humildes — os que não se envaidecem do saber nem se julgam superiores aos demais.

Ensino de Kardec

O que se deve entender por pobres de espírito

“Por pobres de espírito Jesus não entende os baldos de inteligência, mas os humildes, tanto que diz ser para estes o reino dos céus e não para os orgulhosos” (ESE, cap. VII, item 2). O orgulho intelectual é o alvo direto dessa palavra: os que “formam geralmente tão alto conceito de si próprios e da sua superioridade, que consideram as coisas divinas como indignas de lhes merecer a atenção” (ibid.).

A humildade é “ato de submissão a Deus”, ao passo que o orgulho “é a revolta contra ele” (ESE, cap. VII, item 2). Por isso Kardec conclui: “Mais vale, pois, que o homem, para felicidade do seu futuro, seja pobre em espírito, conforme o entende o mundo, e rico em qualidades morais.”

Aquele que se eleva será rebaixado

Jesus reforça o princípio em várias ocasiões: “aquele que se humilhar e se tornar pequeno como esta criança será o maior no reino dos céus” (S. Mateus, 18:4); “todo aquele que se eleva será rebaixado e todo aquele que se abaixa será elevado” (S. Lucas, 14:11). Kardec comenta que o Espiritismo confirma a teoria pelo exemplo: “na posição de grandes no mundo dos Espíritos” encontram-se “os que eram pequenos na Terra; e bem pequenos, muitas vezes, os que na Terra eram os maiores” (ESE, cap. VII, item 6). As virtudes são a única “grandeza que não se perde nunca”; riquezas, títulos e nobreza de nascimento ficam no túmulo.

Mistérios ocultos aos doutos e aos prudentes

“Graças te rendo, meu Pai, Senhor do céu e da Terra, por haveres ocultado estas coisas aos doutos e aos prudentes e por as teres revelado aos simples e aos pequenos” (S. Mateus, 11:25; ESE, cap. VII, item 7). Kardec explica que “simples e pequenos” são os humildes, “os que se humilham diante de Deus e não se consideram superiores a toda a gente”, ao passo que os “doutos e prudentes” são “os orgulhosos, envaidecidos do seu saber mundano” (ESE, cap. VII, item 8). O Espiritismo confirma a regra: os Espíritos preferem ensinar “os que procuram, de boa-fé e com humildade, a luz” (ESE, cap. VII, item 9).

O orgulho como fonte dos vícios

Toda a moral de Jesus, lembra Kardec, “se resume na caridade e na humildade, isto é, nas duas virtudes contrárias ao egoísmo e ao orgulho” (ESE, cap. XVII, item 3). Sem humildade não há caridade verdadeira, porque “este sentimento nivela os homens, dizendo-lhes que todos são irmãos” (Lacordaire, ESE, cap. VII, item 11). E Lázaro acrescenta: “Sem a humildade, apenas vos adornais de virtudes que não possuís, como se trouxésseis um vestuário para ocultar as deformidades do vosso corpo” (ibid.).

Desdobramentos

Diferença essencial em relação à leitura tradicional

A incredulidade, lembra Kardec, zombou da máxima “tomando-a à letra” (ESE, cap. VII, item 2). A leitura espírita desfaz o equívoco: Jesus não exalta a ignorância, mas a humildade interior. Saber muito não é obstáculo — envaidecer-se do saber é. Por isso o sábio humilde e o simples sincero estão, ambos, no caminho do Reino; o orgulhoso, por mais instruído que seja, está fora.

Base do progresso moral

Como a humildade dispõe a alma a reconhecer suas faltas, ela é a porta de entrada para o progresso. O orgulho, ao contrário, “é a fonte de todos os vícios, como a humildade é a fonte de todas as virtudes” (ESE, cap. VII, item 5). Os Espíritos superiores, observa Kardec, são invariavelmente humildes; os orgulhosos denunciam-se pela vaidade das comunicações (LM, 2ª parte, cap. XXIV).

A reencarnação ilustra a regra

O Espiritismo mostra outra aplicação do princípio nas existências sucessivas: “os que, numa existência, ocuparam as mais elevadas posições, descem, em existência seguinte, às mais ínfimas condições, desde que os tenham dominado o orgulho e a ambição” (ESE, cap. VII, item 6). A humildade aprendida nas provas prepara elevações futuras; o orgulho colhido no poder terreno acarreta quedas.

Aplicação prática

Pobre de espírito é o estudante sincero que, por mais leitura que tenha feito, continua perguntando, duvida de si antes de duvidar dos outros, não se julga dono da verdade e acolhe o pequeno e o simples como iguais. Na casa espírita, traduz-se em recusa dos “primeiros lugares”, em ouvir antes de falar, em aceitar correção fraterna sem melindre. Quem lê o ESE e se crê mais “evoluído” por isso já desmente a bem-aventurança que estuda.

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Fontes

  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Cap. VII (“Bem-aventurados os pobres de espírito”), itens 1–13.
  • Novo Testamento. S. Mateus 5:3; 11:25; 18:1–5; 20:20–28; S. Lucas 14:1, 7–11.