Allan Kardec
Identificação
- Nome civil: Hippolyte Léon Denizard Rivail
- Pseudônimo espírita: Allan Kardec
- Nascimento: 3 de outubro de 1804, Lyon, França
- Desencarnação: 31 de março de 1869, Paris, França
Papel
Codificador da Doutrina Espírita. Reuniu, ordenou, submeteu à crítica da razão e deu forma de doutrina aos ensinos dos Espíritos obtidos em séries de comunicações mediúnicas com diversos médiuns, a partir de 1855.
Do método que empregou resultou o Pentateuco:
- O Livro dos Espíritos (1857) — os princípios.
- O Livro dos Médiuns (1861) — a parte experimental e os fenômenos mediúnicos.
- O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864) — a parte moral.
- O Céu e o Inferno (1865) — a justiça divina à luz do Espiritismo.
- A Gênese (1868) — milagres e predições.
Também fundou a Revista Espírita (jan/1858 — ver revista-espirita e os volumes revista-espirita-1858, revista-espirita-1859, revista-espirita-1860, revista-espirita-1861, revista-espirita-1862, revista-espirita-1863, revista-espirita-1864, revista-espirita-1865, revista-espirita-1866, revista-espirita-1867 e revista-espirita-1868) e a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (1º de abril de 1858, anunciada na Revista de mai/1858 — endereço inicial rue Sainte-Anne, 59; mudada em jan/1859 para a rue Montpensier, 12, no Palais-Royal; em jul/1860 retorna à rue Sainte-Anne, 59, mesmo endereço da residência de Kardec). A Revista funcionou como tribuna doutrinária e laboratório das obras sistematizadas, e a Sociedade como centro regular de observação e validação coletiva de comunicações mediúnicas, base do que mais tarde será chamado controle universal do ensino dos Espíritos (LM, 2ª parte, cap. XXIV).
Em jul/1859, no relatório anual da Sociedade, Kardec anuncia que renuncia à direção operacional (“a qualquer função na Sociedade, mesmo a de diretor de estudos”) em razão de “trabalhos mais consideráveis, que exigem longos e laboriosos estudos e que não absorverão menos de dez anos” (RE, jul/1859) — alusão direta ao projeto do Pentateuco, cujos prazos efetivos coincidem [[obras/genese|(2ª edição definitiva do LE em 1860, LM em 1861, ESE em 1864, C&I em 1865, A Gênese em 1868)]]. Continuou como simples membro titular e diretor da Revista; a Sociedade permaneceu sendo o ambiente operacional de onde emergiram as comunicações que alimentaram o Pentateuco.
Método
Kardec não se atribui autoria doutrinária, mas função de coordenador: as respostas vêm dos Espíritos; a ele cabe perguntar com ordem e método, comparar respostas de diversos médiuns em diversos locais, submeter tudo ao crivo da razão e do bom-senso, e rejeitar o que não se sustente.
Viagem a Lyon (set/1860) e o Banquete de 19 de setembro
Em setembro de 1860, três anos após a publicação da 1ª edição de O Livro dos Espíritos e cinco anos após a iniciação no Espiritismo, Kardec realiza sua primeira grande viagem doutrinária, com etapa principal em Lyon — sua cidade natal. Em 19/09/1860 é homenageado em banquete pelos espíritas lioneses; o discurso-resposta é texto de referência da codificação (publicado em revista-espirita-1860 de outubro). Três pontos doutrinários decisivos:
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Três categorias de espíritas. Curiosos (limitam-se à realidade dos fenômenos); filósofos teóricos (compreendem o alcance moral mas não praticam); espíritas cristãos (praticam a moral e aceitam todas as suas consequências). Ideal regulador firmado.
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Pequenos grupos como modelo organizacional. “Vinte grupos de dez pessoas, por exemplo, inquestionavelmente obterão mais, e farão mais prosélitos do que uma reunião única de duzentas pessoas” — recomendação programática contra a tentação da grande sociedade. Material que estrutura LM cap. XXIX e a Constituição do Espiritismo de 1868.
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Profecia “Paris é o cérebro, Lyon será o coração”. Resposta espontânea recebida na própria viagem: “Por que admirar-te? Lyon foi a cidade dos mártires. A fé aqui é viva. Ela fornecerá apóstolos ao Espiritismo.”
Imediatamente antes, em out/1860, Kardec havia respondido publicamente ao artigo zombeteiro da Gazette de Lyon (02/08/1860, assinado por “C.M.”) que ridicularizara operários espíritas lioneses como “alucinados que romperam com toda crença religiosa”. A resposta firma a defesa social do Espiritismo entre as classes laboriosas — “esqueceis que Jesus era operário […] Por que Jesus escolheu seus apóstolos entre o povo, e não entre os homens de letras?” — argumento que prepara a aliança Espiritismo + classes laboriosas que dominará o discurso de Lyon na década seguinte.
Segunda viagem doutrinária — Lyon e Bordeaux (set–out/1861)
1861 é ano-nó. Em 5–10 de janeiro publica-se [[wiki/obras/livro-dos-mediuns|O Livro dos Médiuns]], complemento experimental do LE — fim da gestação do segundo pilar do Pentateuco. Em maio abre-se o 4º ano da SPEE com discurso institucional de Kardec criando os sócios livres, restringindo a admissão de ouvintes e protegendo a Sociedade contra inimigos visíveis e invisíveis.
Em set–out/1861 Kardec realiza sua segunda viagem doutrinária — Sens, Mâcon, Lyon (com banquete em 19/09/1861, segundo aniversário consecutivo), Bordeaux (reunião geral em 14/10/1861, com inauguração da Sociedade Espírita local + banquete) e Metz. Lyon passou de centenas (1860) a milhares de espíritas; Bordeaux configura uma rede com Roustaing, Bouché de Vitray e Sabô. Os dois discursos longos são publicados em revista-espirita-1861 (out e nov/1861) e contêm:
- A categoria do espírita cristão consolidada como ideal regulador;
- O Espiritismo como doutrina puramente moral, “que está em todas as religiões” (Lyon, 19/09/1861);
- A defesa do princípio dos pequenos grupos (com remissão explícita ao LM nº 28 e nº 341);
- A primeira menção doutrinária de Erasto como autor de Epístola aos Espíritas Lioneses (lida por Kardec no banquete de 19/09).
Em paralelo, dois grandes eventos externos marcam o ano:
- Auto-de-fé de Barcelona — 9 de outubro de 1861: queima pública de 300 volumes espíritas pela Igreja católica espanhola; cinzas enviadas a Kardec, que conserva fragmento meio queimado do LE. Leitura programática: “Não esqueçais a data de 9 de outubro de 1861 […] dia de festa, e não de luto, porque é o penhor de vosso próximo triunfo!” Tratamento detalhado em auto-de-fe-de-barcelona.
- Morte do Sr. Jobard — 27 de outubro de 1861: presidente honorário da SPEE, abjurou suas próprias teorias errôneas (alma coletiva, incrustação planetária) ao ser-lhe demonstrado o erro; primeiras comunicações pós-morte iniciam em nov/1861, depois compiladas em C&I, 2ª parte, cap. II.
Em dezembro/1861 Kardec publica o artigo programático “Organização do Espiritismo” (25 itens) — manifesto sobre a estruturação supralocal da doutrina (pequenos grupos, SPEE como Sociedade Iniciadora não hierárquica, recusa da palavra afiliação, grupos diretores, assembleia geral anual). É matriz da Constituição do Espiritismo que ele escreverá em 1868 (OPE).
Maturação institucional e terceira viagem doutrinária (1862)
Em 1º de abril de 1862 abre-se o 5º ano da SPEE. Kardec pronuncia discurso institucional (1862) com balanço dos cinco anos e prestação de contas detalhada do donativo anônimo de 10.000 francos recebido em 1860 — quase a totalidade absorvida pelo aluguel da nova sede (rue Sainte-Anne, 59) por seis anos. Estabelece que o que recebe pelas obras é canalizado de volta para a propaganda: “não visando lucro pessoal de tais publicações, nossa intenção é aplicar os direitos […] em favor da distribuição gratuita de nossas obras sobre o Espiritismo às pessoas que não as puderem adquirir” (RE jan/1862).
Em set–out/1862, Kardec realiza a terceira viagem doutrinária — “durante uma viagem de mais de seis semanas e um percurso total de 693 léguas, estivemos em vinte cidades e assistimos a mais de cinquenta reuniões” (RE nov/1862). O relato compõe a separata depois publicada como livro viagem-espirita-em-1862. Inclui visita aos possessos de Morzine (Alta Saboia) — caso paradigmático de obsessão coletiva analisado em RE dez/1862; ver possessos-de-morzine.
Outros marcos doutrinários de 1862:
- “Ensaio de interpretação da doutrina dos anjos decaídos” (jan/1862) — matriz de Gênese cap. XI sobre a raca-adamica.
- “Controle do ensino espírita” (jan/1862) — manifesto programático do controle universal.
- Caso Sanson (mai–out/1862) — modelo de discurso fúnebre espírita; estreia substantiva do médium Leymarie.
- Estudo biográfico de Apolônio de Tiana (out/1862) — recusa do milagre como prova de divindade.
- Instituição dos membros honorários da SPEE (out/1862) — Dombre, Jaubert, Bouché de Vitray, Roustaing entre os primeiros.
Pentateuco fechado, doença e “Os tempos são chegados” (1865–1866)
Após a publicação de [[wiki/obras/ceu-e-inferno|O Céu e o Inferno]] em agosto/1865 — quinto livro do Pentateuco — Kardec entra na fase final de sua atuação. Na Alocução de reabertura da SPEE de 6/10/1865 (publicada em 1865), declara expressamente: “os trabalhos que me restam para terminar são consideráveis, devo apressar-me, a fim de estar pronto em tempo oportuno”. Os trabalhos: [[wiki/obras/genese|A Gênese]] (1868), 2ª edição da Constituição do Espiritismo (1868), 4ª edição revisada de O Que é o Espiritismo, e o material que comporá [[wiki/obras/obras-postumas|Obras Póstumas]] (1890).
1866 — ano-charneira pós-Pentateuco. Kardec adoece em abril/1866 — período de “sonolência e absorção quase contínuas” mencionado no artigo “Um sonho instrutivo” (1866) com a visão simbólica da borracha enrolada sob a roda (24/04/1866). É o primeiro registro público de uma fragilidade física que se agravará nos anos seguintes. Apesar disso, 1866 é ano de alta produtividade doutrinária: quatro artigos do volume são textos-matriz integrais de capítulos de Gênese (caps. I, II, XIV, XVIII). O artigo ⭐⭐⭐ “Os tempos são chegados” + “Instruções dos Espíritos sobre a regeneração da humanidade” (1866) fixa em prosa madura a doutrina da geracao-nova já anunciada por Mesmer (RE mai/1865) e antecipada na comunicação de 30/jan/1866 (cit. em OPE, Livro das Previsões).
SPEE em 1866 — 9º ano social. Reabertura em 1/abr/1866. Três exéquias institucionais: Sr. Didier (livreiro-editor das obras de Kardec, m. 02/12/1865, com alocução de Kardec na SPEE em 8/12/1865 — RE jan/1866); Sra. Dozon, Sr. Fournier, Sr. D’Ambel (RE dez/1866). Adesão pública de magistrados de alto escalão: Sr. Jaubert (vice-presidente do tribunal de Carcassonne, RE jan + mar/1866) e Sr. F. Blanchard (carta ao La Liberté, RE abr/1866).
Pré-Gênese e excursão a Bordeaux (1867)
1867 é o ano da redação avançada de [[wiki/obras/genese|A Gênese]] (publicada em janeiro de 1868). Quatro artigos da [[wiki/obras/revista-espirita-1867|Revista Espírita de 1867]] são trechos antecipados ou matrizes literais do livro: “Caracteres da revelação espírita” (set, 44 itens que entram literalmente como cap. I), “Do emprego da palavra ‘milagre’” (mai, matriz de cap. XIII), “Atmosfera espiritual” (mai, matriz de cap. XIV), e “O homem antes da história” de Flammarion (dez, matéria dos caps. X–XI, com nota editorial explícita de Kardec confirmando a redação avançada).
Em janeiro/1867 Kardec publica menção críptica ao sucessor em “Aos nossos correspondentes”: “Aquele que for chamado a lhe tomar as rédeas cresce na sombra e revelar-se-á oportunamente, não por sua pretensão a uma supremacia qualquer, mas por seus atos, que chamarão a atenção de todos. A esta hora ele ignora a si mesmo” — continuidade direta da virada testamentária da Alocução de 6/10/1865.
Em junho/1867 Kardec realiza excursão a Bordeaux para o banquete de Pentecostes da Sociedade Bordelesa reconstituída (~120 convivas, 4× mais que o ano anterior); passa também por Tours e Orléans. Constatações da viagem: (a) diminuição gradativa das prevenções; (b) desinteresse pelos efeitos físicos extraordinários; (c) assimilação rápida pelas classes populares — “não é necessário ser sábio para ter sentimento e raciocínio”. Última grande excursão antes da morte (31/03/1869).
Fechamento do Pentateuco e Constituição Transitória (1868) — última fase em vida
1868 é o último ano completo de Kardec em vida e o ano de fechamento doutrinário e abertura institucional do projeto codificador:
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Janeiro/1868: publicação de [[wiki/obras/genese|A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo]] — quinto livro do Pentateuco, completando o programa anunciado na Alocução de reabertura da SPEE de 6/10/1865 (“os trabalhos que me restam para terminar são consideráveis, devo apressar-me, a fim de estar pronto em tempo oportuno”). A Revue Spirite acompanha o livro com a comunicação de São Luís sobre A Gênese (1868, médium Desliens, 18/12/1867 — “Esta obra chega no momento certo […] o Espiritismo entra numa nova fase. Ao atributo de consolador, alia o de instrutor e diretor do Espírito”) e a defesa científica do cap. X em “A geração espontânea e a Gênese” (1868).
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1º de novembro de 1868: discurso da Sessão anual comemorativa dos mortos (1868) — texto que fixa a doutrina da comunhão de pensamentos e a formulação canônica do estatuto do Espiritismo: “no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto […] Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor as pessoas inevitavelmente ter-se-iam equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral”. Enumeração programática do credo espírita em ~14 itens.
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Dezembro/1868: publicação da Constituição Transitória do Espiritismo (1868) — primeiro projeto institucional formal em 9 capítulos. Recusa do chefe individual (“o pior de todos os chefes seria aquele que se desse por eleito de Deus”); proposta de Comitê Central de 12 membros titulares com presidência rotativa anual por sorteio; programa anexo (biblioteca, museu, dispensário, caixa de socorro, casa de retiro). Último texto programático publicado por Kardec em vida — morrerá quatro meses depois (31/03/1869), antes de instituir o Comitê. A versão final, mais elaborada, sai postumamente em [[wiki/obras/obras-postumas|Obras Póstumas]] (1890).
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Outras peças centrais de 1868: ⭐ “Comentários sobre os Messias do Espiritismo” (mar/1868) — pluralidade dos messias, identificação inconsciente, século XX como século dos messias; ⭐ “O fim do mundo em 1911” (abr/1868) — recusa metodológica de profecia apocalíptica datada; ⭐ “O partido espírita” (jul–ago/1868) — manifesto contra a categorização político-partidária após denúncia ao Senado pelo conselheiro Genteur; ⭐ “Doutrina de Lao-Tseu — Filosofia Chinesa” (out/1868) — primeiro tratamento sistematizado de filosofia chinesa não-cristã.
Detalhe completo do volume em revista-espirita-1868.
Volume terminal e desencarnação (1869)
1869 é o ano da consolidação final. Quatro fascículos da Revue Spirite (jan, fev, mar, abr) ainda saem editados pelo próprio Kardec. Eixos da última fase:
- Estatística inaugural — “Estatística do Espiritismo” (1869) é a primeira tentativa programática de mapeamento sociológico do movimento espírita: ~6-7 milhões de espíritas no mundo (600 mil na França, 4-10 milhões nos EUA), 70% homens / 30% mulheres, 60% aflitos / 0% sensualistas. Retificação amistosa pelo La Solidarité sobre a omissão da Ásia (mediunidade escrita por bagueta sobre areia praticada pelos Tao-Tsé chineses desde Lao-Tseu).
- “A carne é fraca” (1869) — possivelmente o último grande artigo doutrinário pessoal publicado em vida; tese fisiológico-moral central: “a carne não é fraca senão porque o espírito é fraco”, “o espírito é o artífice de seu próprio corpo, por assim dizer, modela-o” — continuidade direta de Gênese cap. XI (Gênese Espiritual).
- Mudança para a Avenida e Villa Ségur, 39, atrás dos Inválidos — anunciada em 1869 (“Aviso muito importante”) com data de 1º de abril; é o endereço onde Kardec sofreria o aneurisma cerebral em 31/03/1869, no momento em que se preparava para sair para a SPEE. O número de abril é, portanto, diagramado em vida e parcialmente impresso após a morte; a Errata final assinada “ALLAN KARDEC” é provavelmente sua última assinatura impressa.
- Inauguração da Livraria Espírita (rua de Lille, 7), primeira instituição editorial colaborativa não-comercial da doutrina — embrião da Société Anonyme du Spiritisme que Amélie Boudet (viúva) assumirá após 31/03/1869. Concretização da primeira peça do programa anexo da Constituição Transitória.
- Comparação com o Espiritualismo americano (“Profissão de fé espírita americana”, 1869) — última peça programática internacional: “a maior barreira que separa os espíritas dos dois continentes é o Oceano”; reconhecimento solidário de que ao Espiritualismo americano falta “um centro de ação para coordenar os princípios”.
- Comunicações pós-morte centrais — Lamartine (m. fev/1869) e Fourier (autocrítica doutrinária) em RE abr/1869, fechamento da linhagem precursora.
Desencarnação em 31 de março de 1869 — aneurisma cerebral. Discurso fúnebre no Père Lachaise por Camille Flammarion em 02/04/1869 (publicado na Revue de mai/1869, sob nova direção de Pierre-Gaëtan Leymarie, e nas [[wiki/obras/obras-postumas|Obras Póstumas]] de 1890). Detalhe completo do volume terminal em revista-espirita-1869.
Primeira iniciação no Espiritismo
Nas Obras Póstumas, Kardec relata em primeira pessoa os passos que o levaram ao Espiritismo:
- 1854 — Ouve falar das mesas girantes pelo magnetizador Sr. Fortier. Concebe o movimento pela força mecânica, mas rejeita a ideia de inteligência numa mesa: “Só acreditarei quando o vir e quando me provarem que uma mesa tem cérebro para pensar” (OPE, “A minha primeira iniciação no Espiritismo”).
- Maio de 1855 — Visita a Sra. Plainemaison (rua Grange-Batelière, 18), por convite do Sr. Pâtier. “Foi aí que, pela primeira vez, presenciei o fenômeno das mesas que giravam, saltavam e corriam em condições tais que não deixavam lugar para qualquer dúvida.” Entrevê algo sério por trás das aparentes futilidades.
- 1855–1856 — Frequenta as sessões da família Baudin (médiuns: as Srtas. Baudin, escrita com auxílio de “carrapeta”). Aplica o método experimental: “Observar, comparar e julgar, essa a regra que constantemente segui.” Descobre que os Espíritos não são infalíveis — “o saber de que dispunham se circunscrevia ao grau de adiantamento” — e trata-os como “meios de me informar e não reveladores predestinados”.
- 1856 — Frequenta também as reuniões do Sr. Roustan com a Srta. Japhet. Submete o trabalho a verificação por múltiplos médiuns: “mais de dez médiuns prestaram concurso”.
- 18 de abril de 1857 — Publicação da primeira edição de O Livro dos Espíritos, fruto da “comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação”.
Missão de Kardec (Livro das Previsões)
A Segunda Parte das Obras Póstumas reproduz extratos do Livro das Previsões — comunicações mediúnicas de 1855 a 1868 sobre a missão de Kardec e o futuro do Espiritismo. Estudo sistemático em missao-de-kardec. Destaques:
- Primeira revelação da missão (30 de abril de 1856) — Espíritos superiores revelam a Kardec sua missão de codificador.
- Futuro do Espiritismo (15 de abril de 1860) — Previsões sobre a expansão da Doutrina.
- Meu sucessor (22 de dezembro de 1861) — Kardec preocupa-se com a continuidade da obra.
- A nova geração (30 de janeiro de 1866) — Espíritos mais adiantados encarnarão para protagonizar a renovação.
- Regeneração da Humanidade (25 de abril de 1866) — Visão do papel do Espiritismo na transformação social.
- Constituição do Espiritismo (1868) — Projeto inacabado de organização institucional: necessidade de direção central (comissão, não indivíduo), prevenção contra cismas, caráter essencialmente progressivo da Doutrina. “Se tenho razão, todos acabarão por pensar como eu; se estou em erro, acabarei por pensar como os outros” (OPE, “Constituição do Espiritismo”, §II).
Obras em escopo desta wiki
- Pentateuco (acima) — nível 1 na hierarquia de autoridade.
- Obras Póstumas, O Que é o Espiritismo, O Espiritismo em sua mais simples expressão, Resumo da lei dos fenômenos espíritas, Revista Espírita, Viagem Espírita em 1862 — nível 2.
Homenagens em obras psicografadas
- cronicas-de-alem-tumulo — Humberto de Campos / Chico Xavier (FEB, 1935), cap. 21 “O grande Missionário”. Homenagem comemorativa pelos 132 anos do nascimento (03/10/1804–03/10/1936) articulando Kardec à linhagem de João Batista: “O Consolador prometido à Terra pelo coração misericordioso do Divino Mestre, e que é o Espiritismo, teve o sacrifício de Allan Kardec — o precursor da sua gloriosa disseminação no peito atormentado das criaturas humanas.” Reforça a linhagem Flammarion → Delanne / Léon Denis / Richet como herdeira intelectual. Texto narrativo com cena de leito de morte e cortejo de “homens do povo, seres infelizes que ele havia consolado”. Compatível com a tese explícita de [[wiki/obras/o-consolador|O Consolador]] (Emmanuel/Chico, 1940) que identifica o Espiritismo com o Consolador prometido em Jo 14:16.
Páginas relacionadas
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- obras-postumas
- missao-de-kardec — estudo sistemático da missão (Pentateuco + Livro das Previsões + A Caminho da Luz)
Fontes
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Introdução, Prolegômenos e Nota explicativa. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- KARDEC, Allan. Obras Póstumas, “A minha primeira iniciação no Espiritismo” e “Livro das Previsões”. Tradução de Guillon Ribeiro. FEB.