Perispírito

Definição

Envoltório semimaterial do Espírito, de natureza intermédia entre o Espírito e a matéria grosseira — o elo que liga a alma ao corpo (LE, q. 93, q. 135).

“Envolve-o uma substância, vaporosa para os teus olhos, mas ainda bastante grosseira para nós; assaz vaporosa, entretanto, para poder elevar-se na atmosfera e transportar-se aonde queira.” (LE, q. 93)

A etimologia é apresentada por Kardec em nota: do mesmo modo que o perisperma envolve o gérmen do fruto, uma substância envolve o Espírito propriamente dito — daí perispírito (LE, q. 93, comentário).

Origem da substância

O perispírito é haurido do fluido universal de cada globo, razão pela qual não é idêntico em todos os mundos. Ao passar de um mundo a outro, o Espírito “muda de envoltório, como mudais de roupa” (LE, q. 94).

Em mundos superiores, o perispírito é mais etéreo; na Terra, para manifestar-se, o Espírito precisa revestir-se de matéria mais grosseira (LE, q. 94, letra a).

Função

Permite a comunicação entre a alma (Espírito) e o corpo físico: “É preciso que seja assim para que os dois possam comunicar-se um com o outro. Por meio desse laço é que o Espírito atua sobre a matéria e reciprocamente.” (LE, q. 135).

O homem é, portanto, composto de três partes: corpo material, alma (Espírito encarnado) e perispírito (LE, q. 135, comentário).

Após a morte, o perispírito persiste junto ao Espírito, conservando a aparência da última encarnação (LE, q. 150, letra a).

No Livro dos Médiuns

O LM detalha o papel do perispírito como agente das manifestações físicas:

  • O Espírito não é “um ponto, uma abstração; é um ser limitado e circunscrito, ao qual só falta ser visível e palpável, para se assemelhar aos seres humanos” (LM, 1ª parte, cap. I, item 3).
  • Nas aparições, o perispírito pode tornar-se visível e mesmo tangível, conforme as condições fluídicas do meio (LM, 2ª parte, cap. VI).
  • A bicorporeidade ocorre quando o perispírito de uma pessoa viva se torna visível em local distante do corpo (LM, 2ª parte, cap. VII).
  • Na transfiguração, o perispírito do médium se modifica temporariamente sob influência de outro Espírito (LM, 2ª parte, cap. VII).
  • O perispírito é o veículo pelo qual o Espírito haure o fluido universal e atua sobre a matéria inerte (LM, 2ª parte, cap. IV, item 74).

Aprofundamento em A Gênese

O cap. XIV de A Gênese apresenta o desenvolvimento mais completo sobre o perispírito:

  • Origem fluídica: “O perispírito […] é um dos mais importantes produtos do fluido cósmico; é uma condensação desse fluido em torno de um foco de inteligência ou alma” (Gênese, cap. XIV, item 7). Corpo carnal e perispírito “têm pois origem no mesmo elemento primitivo; ambos são matéria, ainda que em dois estados diferentes” (Gênese, cap. XIV, item 7).
  • Variação conforme o mundo: “Do meio onde se encontra é que o Espírito extrai o seu perispírito […]. Os elementos constitutivos do perispírito naturalmente variam, conforme os mundos” (Gênese, cap. XIV, item 8).
  • Variação conforme o grau moral: “a constituição íntima do perispírito não é idêntica em todos os Espíritos”. O envoltório “se modifica com o progresso moral que este realiza em cada encarnação” (Gênese, cap. XIV, item 10).
  • Irradiação fluídica: o perispírito não se circunscreve ao corpo — “irradia ao seu derredor e o envolve como que de uma atmosfera fluídica” (Gênese, cap. XIV, item 18). Por essa expansão, o encarnado se relaciona com Espíritos livres e com outros encarnados.
  • Couraça moral: “O perispírito, portanto, é uma couraça a que se deve dar a melhor têmpera possível. Ora, como as suas qualidades guardam relação com as da alma, importa se trabalhe por melhorá-la” (Gênese, cap. XIV, item 21).

Texto-matriz na Revista Espírita (RE mar/1866)

O cap. XIV de [[wiki/obras/genese|A Gênese]] tem como base direta o tratado “Introdução ao estudo dos fluidos espirituais” publicado em 1866 (10 seções romanas). Pontos centrais especificamente sobre o perispírito:

  • Mecanismo de formação fluídica (seção VII): “o perispírito é, igualmente, uma condensação do fluido cósmico em redor do foco de inteligência, ou alma. Mas aqui a transformação molecular opera-se diferentemente, porque o fluido conserva sua imponderabilidade e suas qualidades etéreas.”
  • Identidade material com o corpo, em estado diferente: “O corpo perispiritual e o corpo humano têm, pois, sua fonte no mesmo fluido; um e outro são matéria, embora sob dois estados diferentes.”
  • Articulação com Moisés (Gn 2:7): “Sendo o fluido universal o princípio de todos os corpos da Natureza, animados e inanimados […] Moisés estava certo quando disse: ‘Deus formou o corpo do homem do limo da terra’. Isto não quer dizer que Deus tomou um pouco de terra, a petrificou e com ela modelou o corpo do homem […], mas que o corpo era formado dos mesmos princípios ou elementos.”
  • Articulação com Paulo (1Co 15): “Como envoltório do Espírito após a morte, ele foi suspeitado desde a mais alta Antiguidade […]. São Paulo diz em termos precisos que nós renascemos com um corpo espiritual.”
  • Aparições como modificação atômica momentânea: “De qualquer maneira pela qual se opere a modificação atômica do fluido, não há coesão como nos corpos materiais; a aparência se forma e se dissipa instantaneamente, o que explica as aparições e as desaparições súbitas.”

Base escritural: 1 Coríntios 15

A referência neotestamentária clássica do perispírito é 1 Coríntios 15, onde Paulo enfrenta a pergunta “como ressuscitarão os mortos? E com que corpo virão?” (1 Co 15:35).

Paulo elabora a distinção entre corpo natural (soma psychikon, animal/orgânico) e corpo espiritual (soma pneumatikon):

“Semeia-se o corpo em corrupção; ressuscitará em incorrupção. Semeia-se em ignomínia, ressuscitará em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscitará com vigor. Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual.” (1 Co 15:42–44)

“A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção.” (1 Co 15:50)

Kardec cita diretamente Paulo para fundamentar a teoria do perispírito:

“O corpo carnal e o perispírito têm pois origem no mesmo elemento primitivo; ambos são matéria, ainda que em dois estados diferentes.” (Gênese, cap. XIV, item 7)

A passagem paulina resolve, em chave espírita, o aparente paradoxo da “ressurreição” cristã: não se trata de reanimação de cadáver, mas da persistência consciente do Espírito em seu corpo espiritual (perispírito) após a separação do corpo carnal (cf. LE, q. 150, letra a).

Eco em 2 Coríntios 5. Paulo retoma a mesma estrutura conceitual em sua segunda carta aos coríntios, agora em chave de continuidade existencial:

“Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus. […] Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor.” (2 Co 5:1, 8)

O “tabernáculo” (corpo físico, morada provisória) e a “casa eterna não feita por mãos” (vida do Espírito em seu corpo espiritual) traduzem em metáfora arquitetônica o mesmo dualismo de 1 Co 15:44. Para o Espiritismo, a “casa eterna nos céus” é o perispírito persistindo na erraticidade — não morada metafísica abstrata, mas envoltório fluídico do Espírito em sua continuidade consciente (LE q. 150, 165–169; C&I 2ª parte cap. I). Ver segunda-epistola-aos-corintios.

Variação conforme o mundo e o grau moral. Paulo acrescenta:

“E há corpos celestes e corpos terrestres, mas uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres. Uma é a glória do sol, e outra a glória da lua, e outra a glória das estrelas; porque uma estrela difere em glória de outra estrela.” (1 Co 15:40–41)

“Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais.” (1 Co 15:48)

A diferenciação paulina dos “corpos” segundo o “mundo” habitado articula-se com a doutrina kardequiana da variação do perispírito conforme o mundo (Gênese, cap. XIV, item 8 — “os elementos constitutivos do perispírito naturalmente variam, conforme os mundos”) e conforme o grau moral do Espírito (Gênese, cap. XIV, item 10 — “a constituição íntima do perispírito não é idêntica em todos os Espíritos”). Ver primeira-epistola-aos-corintios.

No C&I — papel na passagem

O Céu e o Inferno (2ª parte, cap. I) apresenta o papel do perispírito no momento da morte como chave para compreender o processo da passagem:

“A extinção da vida orgânica traz a separação da alma e do corpo pela ruptura do laço fluídico que os une; mas esta separação nunca é brusca; o fluido perispiritual se liberta pouco a pouco de todos os órgãos.” (C&I, 2ª parte, cap. I, item 4)

A dificuldade do desprendimento depende da força de aderência entre corpo e perispírito, que é proporcional ao apego à matéria. No homem materialista, “tudo contribuiu para apertar os laços que o prendem à matéria; nada veio afrouxá-los durante a vida” (C&I, 2ª parte, cap. I, item 8). No Espírito desmaterializado, os laços são tão fracos que “se rompem sem nenhum abalo” (C&I, 2ª parte, cap. I, item 11).

Na morte violenta, como nenhuma desagregação parcial ocorreu, o desprendimento é mais penoso: “O Espírito, pego de improviso, fica como que atordoado; mas, sentindo que pensa, acredita que ainda está vivo” (C&I, 2ª parte, cap. I, item 12).

Ver perturbacao e morte.

Na palestra de Divaldo Franco (~2023)

Divaldo explica o perispírito ao público como “o corpo intermediário entre o Espírito e o corpo físico”, usando linguagem acessível: “é o que o povo chama de corpo astral; Kardec dá o nome de perispírito — é semimaterial, é uma matéria semiespiritual.” No contexto da palestra, o perispírito aparece como o mecanismo da obsessão: o ex-namorado desencarnado de sua prima Baby mantinha ligação com ela pelo perispírito, causando afonia sem causa orgânica (cf. LM, 2ª parte, cap. XXIII, item 245). Ver quando-o-invisivel-se-torna-inevitavel.

Galeria multimilenar dos nomes (Joanna, O Homem Integral, cap. 38)

No tratado mais completo do Modelo Organizador Biológico (MOB) na sua bibliografia, Joanna de Ângelis reúne os nomes pelos quais o perispírito atravessou a história do pensamento, atestando o reconhecimento intuitivo do envoltório semi-material desde a Antiguidade:

  • HipócratesEnormon
  • PlotinoCorpo Aéreo ou Ígneo
  • TertulianoCorpo Vital da Alma
  • OrígenesAura
  • PauloCorpo Espiritual / Corpo Incorruptível (1 Co 15)
  • VedantaManontaya-Kosha
  • Budismo EsotéricoKainarupa
  • EgípciosKa
  • Zend AvestaBaodhas
  • Cabala hebraicaRouach
  • Tradicionalismo gregoEidôlon
  • LatinosImago
  • ChinesesKhi
  • AristótelesCorpo sutil e etéreo
  • ConfúcioCorpo Aeriforme
  • LeibnizCorpo fluídico

Joanna cita o filósofo escocês Woodsworth caracterizando o perispírito como “Mediador plástico, através do qual passa a torrente de matéria fluente que destrói e reconstrói incessantemente o organismo vivo” — formulação convergente com a teoria fluídica de Gênese cap. XIV. A função técnica destacada por Joanna: “plasmar no corpo físico as necessidades morais evolutivas, através dos genes e cromossomos”; é, portanto, o esboço, o modelo, a forma em que se desenvolve o corpo físico — na sua intimidade energética se agregam as células e se modelam os órgãos. Cf. o-homem-integral.

Nas Obras Póstumas

Kardec aprofunda a teoria do perispírito como princípio das manifestações (OPE, “Manifestações dos Espíritos”, §I):

  • O perispírito “é mais ou menos etéreo, conforme os mundos e o grau de depuração do Espírito” (OPE, §I, item 9).
  • Serve de “intermediário ao Espírito e ao corpo” — “o corpo recebe a impressão; o perispírito a transmite e o Espírito […] a recebe” (OPE, §I, item 10).
  • “Não se acha encerrado nos limites do corpo, como numa caixa” — é expansível, forma atmosfera individual, e o pensamento/vontade podem dilatá-lo a distâncias infinitas (OPE, §I, item 11).

Na seção sobre fotografia e telegrafia do pensamento, Kardec desenvolve que cada indivíduo possui um fluido próprio que o envolve como atmosfera. Essas atmosferas fluídicas “se entrecruzam e misturam, sem jamais se confundirem” — base das simpatias e antipatias. O pensamento “cria imagens fluídicas” no perispírito, como fotografias, permitindo que videntes e Espíritos leiam pensamentos alheios (OPE, “Fotografia e telegrafia do pensamento”).

Páginas relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, q. 93–94, q. 135, q. 150. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns. 1ª parte, cap. I, item 3; 2ª parte, caps. IV, VI–VII. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. A Gênese, cap. XIV, itens 7–12, 18, 21. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. O Céu e o Inferno. 2ª parte, cap. I — “A passagem”. FEB.