Mundos intermediários ou transitórios

Definição

Categoria cosmológica de mundos-pousio estéreis, destinados a Espíritos errantes em trânsito entre encarnações. Não são habitados simultaneamente por seres corpóreos; sua esterilidade é transitória, ligada à fase de formação do globo. O conceito está fixado em O Livro dos Espíritos (q. 234-236, seção “Mundos transitórios”, 2ª parte, cap. VI) e ampliado por Santo Agostinho na Revista Espírita de maio de 1859.

“Sim, há mundos particularmente destinados aos seres errantes, mundos que lhes podem servir de habitação temporária, espécies de bivaques, de campos onde descansem de uma demasiado longa erraticidade, estado este sempre um tanto penoso. São, entre os outros mundos, posições intermédias, graduadas de acordo com a natureza dos Espíritos que a elas podem ter acesso e onde eles gozam de maior ou menor bem-estar.” (LE, q. 234)

Ensino de Kardec

Fonte primária — LE q. 234-236

Os Espíritos respondem três questões diretas em LE, fixando a doutrina:

QuestãoSíntese da resposta
q. 234 — Há mundos que servem de estações aos Espíritos errantes?Sim — “espécies de bivaques, de campos onde descansem de uma demasiado longa erraticidade”. Os Espíritos podem deixá-los livremente: “Figurai-os como bandos de aves que pousam numa ilha, para aí aguardarem que se lhes refaçam as forças, a fim de seguirem seu destino.”
q. 235 — Os Espíritos progridem enquanto ali permanecem?”Certamente. Os que vão a tais mundos levam o objetivo de se instruírem, e de poderem mais facilmente obter permissão para passar a outros lugares melhores e chegar à posição que os eleitos atingem.”
q. 236 — São perpetuamente destinados aos errantes?”Não, a condição deles é meramente temporária.” Não são habitados por seres corpóreos (“estéril é neles a superfície. Os que os habitam de nada precisam”); a esterilidade é transitória; a Natureza ali “reflete as belezas da imensidade”; a Terra já pertenceu a essa categoria — “durante a sua formação”.

O comentário que Kardec acrescenta ao final da q. 236 articula o princípio cosmológico que sustenta toda a categoria:

“Nada é inútil na natureza; tudo tem um fim, uma destinação. Em lugar algum há o vazio; tudo é habitado, há vida em toda parte. Assim, durante a dilatada sucessão dos séculos que passaram antes do aparecimento do homem na Terra, durante os lentos períodos de transição que as camadas geológicas atestam, antes mesmo da formação dos primeiros seres orgânicos […] não havia ausência de vida. Seres isentos das nossas necessidades, das nossas sensações físicas, lá encontravam refúgio. […] Quem ousaria afirmar que, entre os milhares de mundos que giram na imensidade, um só, um dos menores, perdido no seio da multidão deles, goza do privilégio exclusivo de ser povoado?” (LE, q. 236, comentário de Kardec)

Desenvolvimento complementar — RE, mai/1859

Antes da publicação consolidada em LE, o tema havia emergido na Revista Espírita a partir de uma comunicação espontânea de Mozart (abr/1859). Para aprofundá-lo, Kardec submeteu a Santo Agostinho — fora da SPEE, por outro médium — uma série de perguntas que reproduz e estende o material do LE:

Pergunta da REResposta de Santo Agostinho
Existem mundos-estação para Espíritos errantes?”Existem mundos que servem de estações aos Espíritos errantes, ou como pontos de repouso. […] Apresentam diferentes graus, isto é, ocupam posição intermediária entre os outros mundos, conforme a natureza dos Espíritos que os procuram e que aí gozam de maior ou menor bem-estar.”
Os Espíritos podem deixá-los à vontade?”Sim. […] Imaginai-os como aves de arribação pousando sobre uma ilha a fim de refazerem as suas forças para prosseguirem em busca do seu destino.”
Há desses mundos no nosso sistema planetário?”Não.” (informação adicional, não tratada em LE)
A Terra estará um dia nesse número?”Ela já esteve. […] Durante a sua formação.”

A metáfora das aves migratórias é a mesma do LE q. 234 (“bandos de aves que pousam numa ilha”), agora retomada como “aves de arribação”. O artigo da RE confirma e detalha; não introduz divergência.

Desdobramentos

Distinção das outras categorias de mundos

A escala canônica fixada por Kardec no ESE, cap. III, item 4, reconhece cinco categorias hierárquicas de mundos habitados:

  1. Mundos primitivos — destinados às primeiras encarnações da alma humana (ESE, cap. III, itens 4 e 8).
  2. mundos-de-expiacao-e-provas — onde domina o mal; caso atual da Terra (ESE, cap. III, itens 4, 13–15).
  3. mundos-regeneradores — transição entre os de expiação e os felizes; almas que ainda têm o que expiar haurem novas forças (ESE, cap. III, itens 4, 16–18).
  4. mundos-felizes — onde o bem sobrepuja o mal; corpo mais etéreo, sofrimento atenuado (ESE, cap. III, itens 4, 9–12).
  5. Mundos celestes ou divinos — habitações de Espíritos depurados, onde exclusivamente reina o bem (ESE, cap. III, item 4). É o degrau supremo da escala dos mundos, correspondente, do lado dos Espíritos, à 1ª ordem da escala espírita (“Espíritos puros”, LE q. 113).

A categoria transitória (LE q. 234–236) acrescenta-se a essas: não é um sexto degrau na escala moral; é uma fase do ciclo de vida do globo, antes de tornar-se capaz de sustentar vida corpórea organizada. Espíritos errantes estacionam aí porque o lugar lhes é apropriado naquele estágio — sem habitantes “no sentido humano”, sem necessidades fisiológicas (LE q. 236: “Os que os habitam de nada precisam”).

Função na cosmologia espírita

A doutrina cumpre três funções:

  1. Plenitude da criação — nenhum mundo, em nenhuma fase, é desabitado; a vida espiritual antecede e sucede à vida corpórea organizada. Princípio metafísico contra a hipótese de “espaços vazios”.
  2. Lógica das eras geológicas — os longos períodos pré-orgânicos da Terra (atestados pelas camadas geológicas) não foram tempo morto; serviram de pousio a Espíritos errantes.
  3. Articulação com erraticidade — os Espíritos errantes não vagueiam pelo “espaço vazio”; têm pontos de apoio. Ver erraticidade.

Caráter material relativo

LE q. 236 afirma que esses mundos têm superfície estéril mas não desprovida de beleza: “A natureza reflete as belezas da imensidade, que não são menos admiráveis do que aquilo a que dais o nome de belezas naturais.” Santo Agostinho complementa, na RE de mai/1859, que os mundos “têm uma constituição semelhante à dos outros planetas”. Não é uma esfera “espiritual abstrata” oposta ao mundo material; é um plano material refinado, adequado às necessidades fluídicas dos errantes.

Aplicação prática

A doutrina firma que a viagem do Espírito errante não é vagabunda: tem geografia, paradas, “estações” hierarquizadas. Em estudos de palestra, esse material liga (a) a transição planetária da Terra (RE 1864–1868; A Gênese, cap. XVIII) à (b) gestão da erraticidade. Ela completa a cosmologia da genese ao indicar que os globos passam por fases anteriores à habitabilidade humana durante as quais já cumprem função espiritual — princípio fixado já em LE q. 236 ao associar os “lentos períodos de transição que as camadas geológicas atestam” à presença de Espíritos errantes na Terra pré-orgânica.

Posição na codificação posterior

A categoria foi codificada em LE (q. 234-236, na seção “Mundos transitórios”, parte do capítulo sobre os Espíritos errantes) e ampliada na RE de mai/1859. Nos volumes seguintes da Revista e em A Gênese (1868), Kardec trata da formação dos mundos e da pluralidade dos mundos habitados sem retomar formalmente o termo. A doutrina permanece pacificada nessas duas referências, citada em estudos kardequianos modernos para articular cosmologia, erraticidade e formação planetária.

Divergências

Não há.

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Fontes

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, q. 234-236 (“Mundos transitórios”, 2ª parte, cap. VI). Edição local: livro-dos-espiritos.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, q. 113 (“Espíritos puros”, 1ª ordem da escala espírita). Edição local: livro-dos-espiritos.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. III, item 4 (“Diferentes categorias de mundos habitados”). Edição local: evangelho-segundo-o-espiritismo.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita, mai/1859, “Mundos intermediários ou transitórios”. Edição local: 1859.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita, abr/1859, comunicação espontânea de Mozart sobre o tema (artigo precursor).