Taciano

Identificação

Protagonista de ave-cristo (Emmanuel / Chico Xavier, 1953). Patrício romano, filho biológico de Quinto Varro e de Cíntia, criado como filho adotivo de Vetúrio Opílio (padrasto e amante de Cíntia, mandante da morte de Varro). Vive em Lião (Gália Lugdunense) entre o reinado de Sétimo Severo e o de Décio. Casado com Helena (filha de Vetúrio), pai de Lucila e Blandina. Arquétipo da conversão tardia — atravessa toda a vida adulta como pagão devoto às divindades olímpicas, hostil ao Cristianismo nascente, e converte-se apenas no poste de martírio do Anfiteatro Flaviano em 250 d.C.

Papel

A trajetória de Taciano cobre setenta anos e é o eixo dramático da obra:

  • Juventude em Lião. Cria-se ignorando a verdade sobre a morte do pai biológico. Casa-se com Helena por arranjo familiar, sem descobrir antes do casamento o adultério da esposa com o intendente Teódulo. Detesta os “galileus” — promove arruaças contra cristãos em Roma e festejos no Templo de Vesta.
  • Encontro com Basílio e Lívia. Numa travessia do Ródano com a filha pequena Blandina, conhece o velho afinador grego e a filha cantora — ambos cristãos. Sem saber, recebe deles o aceno de uma fraternidade real que jamais experimentara em casa. Lívia torna-se preceptora de Blandina; Basílio é-lhe pai espiritual de modo silencioso.
  • Reencontro com o pai sob Maximino. Em Lião, o presbítero Corvino — reencarnação do próprio Quinto Varro — aparece como humilde jardineiro e enfermeiro do palácio. Sem reconhecê-lo, Taciano sente afeto inexplicável. Quando Corvino é decapitado em praça pública, o velho gladiador Flávio Súbrio confessa a verdade: aquele homem era seu pai. Súbrio enforca-se. No leito da agonia, Corvino revela tudo, não condena Vetúrio, recomenda paciência. Taciano sai abalado mas ainda preso ao paganismo: “não admito uma fé que anula o brio e o valor!”
  • Devastação familiar sob Décio e Valeriano. Helena conspira para que Basílio e Lívia sejam denunciados; Basílio morre no cavalete junto de Lucano Vestino; Lívia, cegada por Clímene, foge. Anos depois, em viagem para tratar Blandina (que definha sem causa aparente), Taciano cruza por acaso com Lívia agonizando em Neápolis. Junto dela está Quinto Celso, menino órfão que ela adotara — terceira encarnação de Varro. Lívia morre. Taciano e Blandina trazem Celso para Lião como filho adotivo.
  • Conversão no Anfiteatro Flaviano. Em Roma, durante a perseguição, Celso é apanhado em casa de Ênio Pudens. Taciano voluntariamente acompanha o filho adotivo à prisão. No anfiteatro, vendo o testemunho coletivo dos cristãos, “intimamente renovado, Taciano sorria”. Amarrados ao mesmo poste, recitam juntos o Pai Nosso enquanto as chamas tomam o corpo de Celso. No instante do trespasse, identifica no espírito que se ergue do poste o próprio pai biológico — Quinto Varro — que finalmente o recebe nos braços, confirmando a missão paternal cumprida ao longo de três encarnações.

Doutrina dramatizada

  • Conversão tardia (paralelo do bom ladrão, ESE cap. XII) — o Cristo aceita o coração no último instante, quando a vida testemunhal alheia se torna inegável.
  • Paternidade espiritual atravessando reencarnações sucessivas — Taciano não é resgatado por uma intervenção isolada; é cercado por décadas pelo mesmo espírito (Varro → Corvino → Celso) que insiste, espera, ama.
  • Endurecimento do orgulho como prisão moral“o teu coração, embora generoso, é uma pérola encarcerada numa caixa de bronze… O excesso de inteligência eclipsou-te a visão” (Lívia agonizante a Taciano, cap. 5).

Citações relevantes

“Coragem, meu pai! Estaremos juntos… A morte não existe e Jesus reina para sempre!” (Quinto Celso a Taciano, no anfiteatro)

“Meu filho! meu filho!… eu senti o poder do Cristo em mim!… agora, eu também sou cristão!” (Taciano no poste, momentos antes do trespasse)

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Fontes

  • XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). Ave, Cristo! Rio de Janeiro: FEB, 1953. Edição: ave-cristo.