Passe

Definição

Transmissão de fluidos benéficos do passista (e, indiretamente, do Espírito assistente) ao paciente, com o objetivo de reequilibrar o perispírito e, por consequência, o corpo físico. Recurso da mediunidade curadora, distinto do socorro psicológico (palavra) e da intercessão pela prece pura. O passe não opera por sugestão, mas por modificação fluídica direta, fundada na lei dos fluidos descrita por Kardec.

Ensino de Kardec

A base doutrinária está em três lugares principais.

LM, 2ª parte, cap. XIV — Os médiuns curadores. Kardec define o médium curador como aquele que “tem o dom de curar pelo simples toque, pelo olhar, pelo gesto, sem o concurso de medicamento algum” (LM, cap. XIV, item 175). A faculdade não é exclusiva nem rara: deriva do magnetismo natural, mas é “duplicada de uma faculdade mediúnica devida à influência dos Espíritos”. Não há dom mágico — há transmissão fluídica regida por leis.

A condição operatória é dupla: vontade firme do passista de fazer o bem, e fé sincera. “Fora desses casos, eles não passam de magnetizadores.” A intenção é parte da técnica.

Gênese, cap. XIV — Os fluidos. Kardec sistematiza o fundamento físico: o universo é constituído de uma matéria-mãe (fluido cósmico universal) que se modifica em fluidos espirituais, vitais e magnéticos. Os Espíritos, encarnados ou não, atuam sobre essa matéria pelo pensamento e pela vontade — “os fluidos espirituais […] tomam a impressão de seu pensamento” (Gênese, cap. XIV, item 14). O passe é, no idioma da Gênese, emissão fluídica modulada pela qualidade moral do emissor.

ESE, cap. XXVIII — Coletânea de preces. Inclui prece para a saúde dos doentes (“O homem foi colocado pela natureza em condições próprias para a conservação do corpo”) e remete o tratamento dos enfermos à articulação entre prece, fé e auxílio espiritual.

A síntese kardequiana: o passe não é técnica externa que se aplica ao paciente; é prolongamento da disposição moral do passista, mediada pelos fluidos. Por isso a regra de Kardec sobre o caráter do médium curador (LM, cap. XX) — sem boa moral, a transmissão se degrada.

Paralelo bíblico

A imposição de mãos é prática regular nos Evangelhos e nos Atos:

  • Jesus toca os doentes para curá-los (Mc 6:5; Mt 8:3; Lc 4:40 — “punha as mãos sobre cada um deles e os curava”);
  • Ananias impõe as mãos sobre Saulo cego em Damasco e ele recobra a vista (At 9:17);
  • Paulo, em Malta, impõe as mãos sobre o pai de Públio e o cura (At 28:8);
  • A imposição de mãos faz parte da consagração de obreiros (At 6:6; 13:3).

A continuidade entre o gesto evangélico-apostólico e o passe espírita é explícita em Kardec — a diferença está apenas no enquadramento doutrinário: a Igreja institucionalizou o gesto como sacramento; o Espiritismo o devolveu à condição de lei natural dos fluidos acessível a qualquer pessoa de boa vontade e moralidade. Ver sinais-de-marcos-16 sobre a leitura kardequiana dos sinais prometidos aos crentes.

Modalidades em Os Mensageiros

A obra descreve, no Posto de Socorro Campo da Paz (caps. 16-32), uma arquitetura tripla de auxílio fluídico, distribuída conforme a capacidade de recepção do paciente. Aniceto explica a André no cap. 25:

“Reparem que, nestes pavilhões, temos mil e novecentos e oitenta abrigados que dormem. Todos recebem diariamente alimento e medicação comuns, mas só quatrocentos são atendidos com alimento e medicação especializados, por se mostrarem mais suscetíveis de justa melhora. Desses quatrocentos, apenas dois terços se revelaram aptos à recepção de passes magnéticos. Muitos não podem receber, por enquanto, a água efluviada. Poucos foram contemplados com o sopro curativo e somente dois se levantaram, ainda assim, profundamente perturbados.” (Os Mensageiros, cap. 25)

A escala revela três tópicos:

  1. Não há automatismo — o recurso aplicado é função do paciente, não da boa vontade do agente. O ato fluídico é regido por leis de afinidade e capacidade.
  2. Há gradação fluídica — passe, água fluidificada e sopro curativo formam série crescente em densidade/diretividade. Cap. 19 dedica-se especificamente ao sopro curativo (a boca do passista funciona como aparelho de transmissão direta, exigindo “estômago são, boca habituada ao bem, mente reta”).
  3. A maioria absoluta dos pacientes não recebe nada além do “alimento e medicação comuns” — o passe seletivo é exceção, não regra. Articula-se com o ESE cap. V (Bem-aventurados os aflitos): a dor segue a economia da Providência, não a vontade do passista.

A formulação operacional vem na sequência (cap. 25), na voz de Aniceto:

“Façamos todos o bem, sem qualquer ansiedade. Semeemo-lo sempre e em toda a parte, mas não estacionemos na exigência de resultados. O lavrador pode espalhar as sementes à vontade e onde quer que esteja, mas precisa reconhecer que a germinação, o crescimento e o resultado pertencem a Deus.”

A semeadura cabe ao passista; a germinação, a Deus.

Passe como transfusão de energias e o princípio da “tensão favorável” [[obras/nos-dominios-da-mediunidade|(André Luiz, Nos Domínios da Mediunidade, 1955, cap. 17)]]

NDM dedica capítulo inteiro ao serviço de passes, dirigido pelo Espírito Conrado e pelos passistas Clara e Henrique. A formulação operativa de Áulus reaparece na precisão técnica da era atômica:

“O passe é uma transfusão de energias, alterando o campo celular. Vocês sabem que na própria ciência humana de hoje o átomo não é mais o tijolo indivisível da matéria… Que, antes dele, encontram-se as linhas de força, aglutinando os princípios subatômicos, e que, antes desses princípios, surge a vida mental determinante… Tudo é espírito no santuário da Natureza.” (Áulus, NDM, cap. 17)

A condição decisiva da eficácia é a fé do receptor, formulada como “tensão favorável”:

“É imprescindível que o candidato apresente uma certa ‘tensão favorável’. Essa tensão decorre da fé. Certo, não nos reportamos ao fanatismo religioso ou à cegueira da ignorância, mas sim à atitude de segurança íntima, com reverência e submissão, diante das Leis Divinas. (…) Em fotografia precisamos da chapa impressionável para deter a imagem, tanto quanto em eletricidade carecemos do fio sensível para a transmissão da luz.” (cap. 17)

Pacientes “impermeáveis” — descrentes, escarnecedores, “duros de coração” — não recebem o efluxo magnético: “o escárnio e a dureza de coração podem ser comparados a espessas camadas de gelo sobre o templo da alma” (cap. 17).

Distinção radical entre passe espírita e magnetismo profissional. Áulus reconhece que hipnotizadores comuns têm energia excepcional e podem curar acidentalmente:

“Podem curar, mas acidentalmente, quando o enfermo é credor de assistência espiritual imediata, com a intervenção de amigos que o favorecem. Fora disso, os que abusam dessa fonte de energia, explorando-a ao seu bel-prazer, quase sempre resvalam para a desmoralização de si mesmos, porque interferindo num campo de forças que lhes é desconhecido, guiados tão somente pela vaidade ou pela ambição inferior, fatalmente encontram entidades que com eles se afinam, precipitando-se em difíceis situações.” (cap. 17)

Sem caráter elevado, o magnetizador acaba vampirizado por hipnotizadores espirituais mais fortes, “nas linhas atormentadas da ignorância e da crueldade, de onde se originam os mais aflitivos processos de obsessão”. A serpente é o emblema natural do poder hipnótico desprovido de moralidade. Para serviço sustentado, “não prescindimos do coração nobre e da mente pura, no exercício do amor, da humildade e da fé viva, para que os raios do poder divino encontrem acesso e passagem por nós, a benefício dos outros”.

Passe a distância é admitido — “desde que haja sintonia entre aquele que o administra e aquele que o recebe. Nesse caso, diversos companheiros espirituais se ajustam no trabalho do auxílio, favorecendo a realização, e a prece silenciosa será o melhor veículo da força curadora” (cap. 17).

Síntese: a passe é menos transferência da força do passista do que passagem da força divina pelo passista, condicionada à fé do paciente como “chapa impressionável”. A doutrina articula-se à dos fluidos (Gênese, cap. XIV) e à dos médiuns curadores (LM, cap. XIV).

Condições de eficácia

Sintetizando Kardec, Gênese e a fenomenologia descrita por André Luiz:

  • Saúde do passista — fluidos densos ou viciados (excesso, doença ativa, estado emocional turvo) contaminam a transmissão. Cap. 19 detalha para o sopro: estômago são, boca habituada ao bem, mente reta.
  • Boa intenção — sem desejo sincero de servir, o gesto é mecânico e a transmissão fica reduzida ao magnetismo animal puro. Não há “passe técnico” sem disposição moral.
  • Sintonia do paciente — a recepção depende da capacidade vibratória; o passe não força transformações que o paciente não comporte. Por isso, na narrativa do Posto, “muitos não podem receber, por enquanto”.
  • Prece como envoltório — a prece (do passista, dos auxiliares, do paciente) “constitui o mais poderoso influxo magnético que conhecemos” (Aniceto, cap. 25). O passe sem prece tende ao magnetismo; com prece, ao Espiritismo.
  • Ambiente fluídico do local — casa espírita ordenada, prece coletiva, ausência de murmuração. A reunião evangélica que precede o passe não é decoração — é parte da preparação fluídica do espaço.

Aplicação prática

  • Postura — dispor-se sem urgência, com intenção de servir, sem exibição. Não exibir gestos rebuscados.
  • Antes do passe — prece de abertura, leitura curta evangélica, breve silêncio para sintonia. A passes-aulas tradicionais nas casas espíritas estruturam isso.
  • Durante o passe — manter a mente em prece silenciosa; não conversar; gestos curtos e econômicos.
  • Depois — orientar o paciente a curto repouso (5-10 min) e, quando possível, água fluidificada. Não prometer cura específica — é violação da advertência de Aniceto.
  • Periodicidade — semanal ou conforme necessidade. Excesso vicia tanto o passista (sente-se obrigado a “produzir resultado”) quanto o paciente (vira dependência).
  • Não substitui o tratamento médico — articulação com saúde física é regra, não exceção. Articula-se com depressao e outros transtornos.

Páginas relacionadas

  • fluidos — fundamento físico do passe (Gênese, cap. XIV)
  • perispirito — alvo da reequilibração fluídica
  • mediunidade — modalidade curadora dentro do quadro geral
  • prece — envoltório operacional indispensável
  • principio-vital — substrato da eficácia magnética
  • os-mensageiros — caps. 19, 22, 25 (arquitetura tripla do Posto)
  • nos-dominios-da-mediunidade — cap. 17 (passe como transfusão de energias, “tensão favorável”, distinção do magnetismo profissional)

Fontes

  • Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XIV (Os médiuns curadores), itens 175-176; cap. XX (Influência moral do médium). Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Edição: livro-dos-mediuns.
  • Kardec, Allan. A Gênese, cap. XIV (Os fluidos), itens 13-50. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, caps. V, XXVII-XXVIII. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • XAVIER, Francisco Cândido (André Luiz). Os Mensageiros. Rio de Janeiro: FEB, 1944, caps. 19, 22, 25. Edição: os-mensageiros.
  • XAVIER, Francisco Cândido (André Luiz). Nos Domínios da Mediunidade. Rio de Janeiro: FEB, 1955, cap. 17. Edição: nos-dominios-da-mediunidade.
  • Bíblia ACF — Mc 6:5; Mt 8:3; Lc 4:40; At 9:17; At 28:8.