Jeannet — o trapeiro da Rue des Noyers
Identificação
- Nome: Jeannet (revelado na própria evocação)
- Origem: Paris, bairro do Quartier Latin
- Profissão em vida: trapeiro (catador de molambos pelo bairro)
- Caráter: beberrão, “gostava muito do licor vermelho do bom Noé”; espírito alegre, brincalhão, “não tinha nenhum propósito hostil” mas se “divertia” às custas dos vivos
- Datação: morreu há cerca de 50 anos em relação a 1860, ou seja, por volta de 1810 — situando-o como contemporâneo do Primeiro Império francês
Papel
Espírito perturbador identificado como autor das manifestações físicas espontâneas ocorridas em casa do Sr. Lesage (ecônomo do Palácio da Justiça) na Rua des Noyers, Paris, em meados de 1860. Caso de notoriedade pública, relatado pelos jornais Le Droit (26/06/1860), Opinion Nationale e La Patrie.
Os fenômenos consistiram em projéteis (carvões, pedaços de tições meio carbonizados, pedaços de carvão de Paris) lançados do exterior para dentro da casa, atingindo a criada e os agentes de polícia postos em vigia. As vidraças foram quebradas. Tornaram a permanência insustentável; o Sr. Lesage rescindiu o contrato de aluguel e mudou-se. Caso-paradigma do que a tradição popular chama “casa assombrada” e a ciência espírita classifica como manifestação física espontânea com médium auxiliar inconsciente.
A SPEE evocou-o em 29/06/1860. A evocação é publicada em revista-espirita-1860 (ago/1860, “O trapeiro da Rue des Noyers”).
A função doutrinária é tripla:
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Caso-modelo da fenomenologia das manifestações físicas espontâneas. Espírito perturbador + médium auxiliar inconsciente + transporte/criação de matéria pelo perispírito. Material direto para livro-dos-mediuns cap. V.
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Identificação do médium auxiliar como pessoa da casa. Na evocação, Jeannet revela que sua “instrumento” foi “uma criada, coitada! Ela era a mais apavorada”. Princípio doutrinário fixado: as manifestações físicas espontâneas requerem médium fisicamente presente, mesmo inconsciente — a “natureza elétrica” da pessoa, “adicionada à minha [do Espírito], menos material”, permite o transporte de matéria.
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Caso de redenção pela prece evocatória. Após a sessão, Kardec encerra a evocação com o procedimento padrão: “Pois bem! Nós oraremos por ti.” Jeannet — antes apresentado pelas notícias como Espírito malévolo — confessa estar “errante e sem ajuda” e agradece: “Antes prazer, porque sois boa gente, alegres, embora um pouco austeros. […] Vós me ouvistes e estou contente”. Modelo da abordagem doutrinária aos Espíritos perturbadores: identificação, instrução, prece, não-exorcismo.
Citações relevantes
Abertura provocativa da evocação:
“Por que me chamais? Quereis pedradas, hein? Então seria um salve-se quem puder, malgrado o vosso ar de bravura.” (RE, ago/1860, “O trapeiro da Rue des Noyers”, sessão de 29/06/1860)
Sobre o médium auxiliar:
”— Quem te servia de instrumento?
— Uma criada.
— Ela te servia inconscientemente?
— Oh! Sim. Coitada! Ela era a mais apavorada.” (RE, ago/1860)
Sobre o mecanismo do transporte:
”— Agora, dize-nos, como os arremessaste?
— Ah! Isto é mais difícil de dizer. Eu me servi da natureza elétrica daquela moça, adicionada à minha, menos material. Assim pudemos juntos transportar aqueles diversos materiais.” (RE, ago/1860)
Sobre a fabricação ou recolha dos projéteis:
”— Onde apanhaste os objetos que atiravas?
— São muito comuns. Encontrei-os no pátio e nos jardins vizinhos.
— Encontraste todos ou fabricaste alguns?
— Nada criei, nada compus.
— Se não os tivesses encontrado poderias fabricá-los?
— Teria sido mais difícil, mas, a rigor, a gente mistura matéria e isto faz um todo qualquer.” (RE, ago/1860)
Sobre a vida em vida:
”— Que eras em vida?
— Não era grande coisa. Catava molambos pelo bairro, e diziam-me tolices, porque gostava muito do licor vermelho do bom Noé. Assim, eu queria enxotá-los a todos.” (RE, ago/1860)
Sobre o estado atual:
”— Que fazes agora? Ocupas-te com o teu futuro?
— Ainda não; ando errante. Pensam tão pouco em mim aí na Terra, que ninguém ora por mim. Assim, não sou ajudado e não trabalho.” (RE, ago/1860)
Despedida:
”— Pois bem! Nós oraremos por ti. Dize-nos se nossa evocação te deu prazer ou te contrariou?
— Antes prazer, porque sois boa gente, alegres, embora um pouco austeros. Tudo bem. Vós me ouvistes e estou contente.
JEANNET” (RE, ago/1860)
Observação metodológica
Kardec nota que algumas respostas de Jeannet ultrapassam o alcance de um Espírito de classe popular. Interrogado, Jeannet confessa: “Eu tinha um orientador. — Quem é este orientador? — O vosso bom rei Luís” — referência a São Luís. A particularidade observada é que a influência do orientador se faz sentir até na escrita: as respostas onde São Luís intervém têm letra “mais regular e corrente”; as do próprio Jeannet são “angulosas, grossas, irregulares, por vezes pouco legíveis”. Caso de dois Espíritos cooperando num único médium — Jeannet expressa-se em si mesmo, São Luís complementa quando o teor doutrinário ultrapassa o alcance do comunicante principal.
Obras associadas
- revista-espirita-1860 — fascículo de agosto (“O trapeiro da Rue des Noyers”), com a evocação completa de 29/06/1860.
Páginas relacionadas
- manifestacoes-espiritas — caso-paradigma da subseção “manifestações espontâneas” em LM cap. V.
- perispirito — agente do transporte de matéria.
- escala-espirita — Espírito leviano com tendências materiais ainda fortes (3ª ordem, classes inferiores).
- sao-luis — orientador presente na sessão.
- prece — prática de prece pelo Espírito perturbador como caminho de pacificação.
- espirito-de-castelnaudary — caso paralelo, fev/1860 (Espírito violento progressivamente convertido pela prece).
Fontes
- KARDEC, Allan. Revista Espírita, ago/1860, “O trapeiro da Rue des Noyers” (sessão de 29/06/1860). Edição local: 1860.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. V (Manifestações físicas espontâneas — ruídos, perturbações, transporte de objetos). FEB.