Ernest Renan
Identificação
- Nome civil: Joseph Ernest Renan
- Nascimento: 28 de fevereiro de 1823, Tréguier (Bretanha), França
- Desencarnação: 2 de outubro de 1892, Paris, França
- Formação: Ex-seminarista de Saint-Sulpice (rompeu com o catolicismo em 1845); doutor em filosofia (1852); professor de hebraico, caldaico e siríaco no Collège de France (cátedra de 1862, suspensa em 1864 por escândalo causado pela Vie de Jésus, restituída em 1870).
Papel (no Espiritismo)
Adversário materialista de quem allan-kardec extrai a polêmica anti-materialista mais sustentada de 1864. Renan publica La Vie de Jésus em junho de 1863 — primeiro volume da projetada Histoire des origines du christianisme (oito volumes, 1863–1883). O livro é sucesso editorial fulminante (60.000 exemplares no primeiro semestre, traduzido em 11 línguas em dois anos) e escândalo eclesiástico imediato — Renan apresenta Jesus como homem extraordinário, sem natureza divina, fundador moral mas não miraculoso, “o gênio religioso supremo”.
Para Kardec, o problema central de Renan não é o anti-dogmatismo (Kardec também recusa a divindade ontológica de Jesus, mantendo a ordem moral de Jesus como Espírito superior puro encarnado — ver tres-revelacoes) — é o materialismo confessado que torna impossível qualquer leitura adequada da obra espiritual de Jesus. Kardec dedica dois artigos extensos na Revista Espírita à refutação:
- “A vida de Jesus, de Renan” — RE mai/1864, primeiro artigo (ver revista-espirita-1864).
- “A vida de Jesus, pelo Sr. Renan (2º artigo)” — RE jun/1864.
A polêmica acontece simultaneamente à publicação de O Evangelho Segundo o Espiritismo (abr/1864) e funciona como defesa preventiva do espaço espiritualista ameaçado pela redução materialista que estava capturando a opinião erudita francesa.
Apreciação favorável da dedicatória à irmã Henriette
Renan abre a Vie de Jésus com dedicatória “À alma pura de minha irmã Henriette, falecida em Biblos a 24 de setembro de 1861”. Henriette, sua mais íntima colaboradora, morrera de febre na Síria durante a viagem que levou à concepção do livro:
“Lembras-te, do seio de Deus onde repousas, daqueles longos dias e Ghazir, onde, só contigo, eu escrevia estas páginas inspiradas pelos lugares que acabáramos de percorrer? Silenciosa ao meu lado, relias cada página e a recopiavas assim que escrita, enquanto o mar, as aldeias, as ravinas, as montanhas se desenrolavam aos nossos pés. […] A morte nos feriu a ambos com sua asa. O sono da febre nos tomou à mesma hora. Despertei só!… Agora dormes na terra de Adonis, junto da santa Biblos e das águas sagradas onde as mulheres dos mistérios antigos vinham misturar suas lágrimas. Revela-me, ó bom gênio, a mim que tu amavas, essas verdades que dominam a morte, impedem o medo e quase a fazem amar.” (Renan, dedicatória de La Vie de Jésus, 1863)
Kardec lê isso como profissão de fé espiritualista implícita — “verdadeira evocação”:
“A menos que se suponha que o Sr. Renan tenha representado uma comédia indigna, é impossível que tais palavras brotem da pena de um homem que crê no nada. […] Tomando as formas dessa dedicação como expressão conscienciosa do pensamento do autor, aí se encontra mais que um vago pensamento espiritualista. […] É o quadro da alma individual, com a lembrança de suas afeições e ocupações terrenas, voltando aos lugares que habitou, junto às pessoas amadas. O Sr. Renan não falaria assim a um mito, a um ser abismado no nada. Para ele, a alma de sua irmã está ao seu lado. […] Sem disso se dar conta, ele faz, como tantos outros, uma verdadeira evocação.” (Kardec, RE mai/1864)
A dedicatória contradiz, na prática, a tese metodológica do livro — observação que Kardec mobiliza para mostrar que o materialismo de Renan não é coerente consigo mesmo.
Demolição da tese central
A passagem da Vie de Jésus mais atacada por Kardec é esta:
“Jesus não é um espiritualista, porque tudo para ele conduz a uma realização palpável. Ele não tem a menor noção de uma alma separada do corpo, mas é um idealista completo, pois para ele a matéria não passa de manifestação da ideia e o real não passa de expressão viva do que não se vê.” (Renan, Vie de Jésus, cap. VII, p. 128)
Resposta de Kardec:
“Concebe-se o Cristo, fundador da doutrina espiritualista por excelência, não acreditando na individualidade da alma, da qual não tem a menor noção e, por consequência, não crendo na vida futura? Se ele não é espiritualista, é materialista e, consequentemente, o Sr. Renan é mais espiritualista do que ele. Tais palavras não se discutem. Elas bastam para indicar o alcance do livro, porque provam que o autor leu os Evangelhos com muita leviandade ou com o espírito tão prevenido que não viu o que salta aos olhos de todo mundo. Pode admitir-se a sua boa-fé, mas não se admitirá, por certo, a justeza de sua visão.” (Kardec, RE jun/1864)
Tese metodológica de Kardec contra Renan
A crítica fundamental é epistemológica: o materialismo confessado de Renan o torna incompetente para julgar uma obra espiritual.
“A obra do Cristo era toda espiritual. Ora, desde que o Sr. Renan não crê na espiritualização do ser, nem num mundo espiritual, naturalmente deveria tomar o avesso de suas palavras e julgá-lo do ponto de vista exclusivamente material. Julgando uma obra espiritual, um materialista ou um panteísta é como um surdo julgando uma peça de música.” (Kardec, RE jun/1864)
A passagens em que Renan apresenta Jesus como “ambicioso vulgar” cercado de “garotos alegres” e “filhas do prazer” (Maria Madalena descrita como “criatura muito exaltada […] possessa de sete demônios, isto é, […] afetada de doenças nervosas” aplacada pela “beleza pura e suave” de Jesus, p. 151) — são todas reduções materialistas das passagens evangélicas, segundo Kardec.
Posição doutrinária de Kardec
A polêmica é dupla: contra o materialismo de Renan e contra a defesa católica do dogma. Kardec não adere ao Pe. Gratry (refutador católico de Renan citado favoravelmente em RE jun/1864) — sua crítica é de terceiro lado: a leitura espírita reconhece em Jesus o Espírito superior puro encarnado, fundador moral autêntico, autor de uma obra espiritual (não material), cuja leitura adequada exige a chave do mundo invisível e da vida futura. Renan vê só a casca material; o católico vê só o dogma; o espírita lê o sentido moral profundo.
“O Espiritismo, a seu turno, vem dar a sua teoria. Ele se apoia na psicologia experimental; ele estuda a alma, não só durante a vida, mas após a morte; ele a observa em estado de isolamento; ele a vê agir em liberdade, ao passo que a filosofia ordinária só a vê em união com o corpo, submetida aos entraves da matéria, razão pela qual muitas vezes confunde causa e efeito.” (Kardec, RE mai/1864)
Páginas relacionadas
- jesus — figura central da polêmica.
- allan-kardec — autor das duas refutações.
- revista-espirita-1864 — volume onde se desenvolve a polêmica (mai + jun/1864).
- materialismo — posição de Renan.
- evangelho-segundo-o-espiritismo — publicado simultaneamente (abr/1864), constitui a contraposição doutrinária positiva.
- maravilhoso-e-sobrenatural — recusa da divindade taumatúrgica como argumento, em comum com Renan; mas Kardec a substitui pela leitura fluídica das curas e aparições, não pela negação materialista.
Fontes
- KARDEC, Allan. “A vida de Jesus, de Renan”. Revista Espírita, maio de 1864.
- KARDEC, Allan. “A vida de Jesus, pelo Sr. Renan (2º artigo)“. Revista Espírita, junho de 1864.
- RENAN, Ernest. La Vie de Jésus. Paris: Calmann-Lévy, 1863. (Primeiro volume de Histoire des origines du christianisme.)
- Edição local da Revista: 1864.