Pedro Richard

Identificação

Espírito-cooperador associado à Casa de Ismael (Federação Espírita Brasileira, sede do Rio de Janeiro, então na Avenida Passos). Aparece em cronicas-de-alem-tumulo (Humberto de Campos / Chico Xavier, FEB 1935) como figura singela e simpática de velhinho que recebe os necessitados às portas da instituição. A obra não fornece dados biográficos da existência encarnada; apresenta-o já como entidade-trabalhadora residente da Casa.

Papel

Em Crônicas cap. 18 (“A Casa de Ismael”), Pedro Richard aparece pela primeira vez como recepcionista espiritual dos infelizes que chegam à FEB. Abre seus braços paternais a um espírito perverso que se autodeclara “mau ladrão” e o consola com a fórmula evangélica: “Jesus salvou o bom ladrão e Maria salvou o outro…“. A cena fixa a doutrina espírita da misericórdia ilimitada alinhada com ESE cap. XI (Lc 23:43, palavra de Jesus ao bom ladrão).

Em Crônicas cap. 33 (“Uma venerável instituição”), reaparece como anfitrião espiritual de Humberto numa visita doutrinária detalhada às dependências da FEB. Conduz a narrativa expondo as três teses programáticas da Casa de Ismael:

  1. Primazia da reforma íntima sobre o fenomenalismo: “Sem o selo da renovação interior, qualquer tentativa de reforma constitui um caminho para novas desilusões.”
  2. Crítica à metapsíquica europeia: “Com algumas exceções, os sábios que ali se ocuparam do assunto, possuídos do mais avançado personalismo, definiram os fatos mediúnicos dentro de suas vaidades pessoais, complicando o estudo da Doutrina com o sabor científico de suas palavras, desconhecendo a profunda simplicidade dos ensinamentos revelados.”
  3. Equilíbrio entre estudo doutrinário e caridade: “Aproveitamos, nos estudos da Doutrina, aquela parte que representava a predileção de Maria, em contraposição com os trabalhos apressados e inquietos de Marta” (alusão a Lc 10:38-42), sem desprezar os “aspectos fenomênicos” — “essas expressões da ciência representam os meios e não o fim”.

A descrição do trabalho coletivo dos invisíveis na FEB inclui menção a “verdadeiras legiões de seres invisíveis […] revezando-se no sagrado mister da caridade” — Pedro Richard é apresentado como um entre muitos cooperadores espirituais que velam pela instituição. Tradição que se prolonga em outras obras da literatura espírita brasileira sobre a Casa de Ismael (não cobertas por esta wiki até a data desta página).

Obras associadas

Citações relevantes

Diálogo com um espírito sofredor à porta da FEB (cap. 18):

”— Irmão, não queres a bênção de Jesus? Entra comigo ao seu banquete!… — Por quê? […] eu sou ladrão e bandido, não pertenço à sociedade do teu Mestre. — Mas não sabes que Jesus salvou Dimas, apesar de suas atrocidades, levando em consideração o arrependimento de suas culpas?”

Diretriz programática à visita doutrinária de Humberto (cap. 33):

“Onde se terá visto uma colheita sem o trabalho da semeadura? A missão dos espíritas não representa, portanto, uma tarefa artificiosa e nem lhes compete disseminar os laboratórios de ilusões. Suas responsabilidades são muito grandes no campo da educação evangélica das massas e no plano da caridade pura, assistindo os sofredores e os desesperados.”

Páginas relacionadas

  • humberto-de-campos — autor espiritual da narrativa
  • ismael — zelador permanente da Terra do Cruzeiro; Pedro Richard é cooperador da sua obra
  • bezerra-de-menezes — articulador da unificação espírita brasileira; figura matriz da Casa de Ismael
  • patria-do-evangelho — quadro doutrinário do trabalho da Casa de Ismael
  • mediunidade — distinção entre fenomenismo e reforma íntima ressaltada por Pedro Richard

Fontes

  • XAVIER, Francisco Cândido (Humberto de Campos). Crônicas de Além-Túmulo, caps. 18 (“A Casa de Ismael”) e 33 (“Uma venerável instituição”). Rio de Janeiro: FEB, 1935. Edição: cronicas-de-alem-tumulo.