Organização de grupos espíritas

Definição

Conjunto de princípios e orientações práticas para a formação, condução e regulamentação de reuniões e sociedades espíritas, conforme ensino de Allan Kardec em O Livro dos Médiuns e na Viagem Espírita em 1862.

Ensino de Kardec

Em O Livro dos Médiuns

O LM dedica a 2ª parte, capítulos XXIX (“Das reuniões e das sociedades espíritas”) e XXX (“Regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas”) às instruções detalhadas sobre grupos. Pontos fundamentais:

Em “Organização do Espiritismo” (RE dez/1861)

O artigo programático “Organização do Espiritismo” publicado por Kardec em revista-espirita-1861 (dezembro de 1861, em 25 itens) é a matriz histórica que articula os capítulos do LM com a futura Constituição do Espiritismo (OPE, 1868). Foi escrito sob duplo impulso — a expansão verificada in loco na segunda viagem doutrinária (Lyon e Bordeaux, set–out/1861) e o pedido de várias sociedades estrangeiras para se “afiliar” à SPEE de Paris. Pontos doutrinários decisivos:

1. Recusa da centralização e princípio dos pequenos grupos.

“O aumento incessante dos adeptos demonstra a impossibilidade material de constituir numa cidade, sobretudo numa cidade populosa, uma sociedade única. […] As grandes reuniões são menos favoráveis às belas comunicações, e […] as melhores são obtidas nos pequenos grupos. […] Vinte grupos de quinze a vinte pessoas obterão mais e farão mais pela propaganda do que uma sociedade única de quatrocentos membros.” (RE, dez/1861, item 3)

A imagem orgânica é deliberadamente biológica:

“Não tenhais num campo somente uma grande árvore, pois um raio pode abatê-la. Tende cem, e o mesmo raio não atingiria todas. […] Que faça como as abelhas: que enxames saídos da colmeia materna fundem novas colmeias que por sua vez formarão outras.” (RE, dez/1861, item 6)

2. SPEE como Sociedade Iniciadora, não hierárquica. Recusa explícita da palavra afiliação:

“A Sociedade de Paris não poderia ter a pretensão de absorver as outras sociedades. […] Como Sociedade iniciadora e central, pode estabelecer com os outros grupos ou Sociedades relações puramente científicas, mas a isto se limita o seu papel. Ela não exerce qualquer controle sobre essas sociedades, que em nada dependem dela e ficam inteiramente livres para constituir-se como bem o entenderem.” (RE, dez/1861, item 22)

3. Grupo diretor como ponto de coordenação por delegados.

“Conforme a necessidade, e se fosse preciso evitar susceptibilidades, um grupo central, formado de delegados de todos os grupos, tomaria o nome de grupo diretor.” (RE, dez/1861, item 18)

4. Três tipos de espírita como filtro de admissão. Categoria estrutural que orienta a composição dos grupos:

TipoCaracterização
Espírita experimentadorAcredita pura e simplesmente nas manifestações; vê o Espiritismo como ciência de observação.
Espírita imperfeitoCompreende o alcance filosófico e admira a moral, mas não a pratica. “Em nada mudam seus hábitos e não se privam de nenhum prazer.”
Espírita cristão (verdadeiro espírita)Aceita a moral em todas as suas consequências e a pratica. “Tratam de aproveitar estes curtos instantes para avançar na via do progresso, esforçando-se por fazer o bem e reprimir suas más inclinações. […] Em tudo a caridade é sua regra de conduta.”

“Um grupo formado exclusivamente por elementos desta última classe estaria nas melhores condições, porque somente entre praticantes da lei de amor e de caridade é que se pode estabelecer uma séria ligação fraternal.” (RE, dez/1861, item 10)

5. Filtro de admissão. Estudo prévio + profissão de fé categórica + adesão formal à doutrina do LE. Para ouvintes ocasionais, “é necessário sobretudo, e sem exceção, afastar os curiosos e quem quer que seja atraído por motivo frívolo” (item 15).

6. Assembleia geral anual. “Uma assembleia geral anual poderia reunir os espíritas dos diversos grupos numa festa familiar, que seria, ao mesmo tempo, a festa do Espiritismo. Seriam pronunciados discursos e lidas as comunicações mais notáveis.” (item 18)

7. Independência da SPEE. Antecipando perseguições futuras (e ressonando o Auto-de-fé de Barcelona de out/1861), Kardec defende que a doutrina não pode depender de uma única instituição:

“A Sociedade de Paris não se gaba de estar, mais que as outras, ao abrigo das vicissitudes. Se […] cessasse de existir, a falta de um ponto de apoio resultaria em perturbação. Os grupos ou Sociedades devem buscar um ponto de apoio mais sólido que numa instituição humana, necessariamente frágil. Eles devem adquirir sua vitalidade nos princípios da doutrina, que são os mesmos para todas e que a todas sobrevivem.” (RE, dez/1861, item 22)

A passagem seria literalmente verificada após a morte de Kardec (1869): a SPEE entrou em declínio, mas a doutrina sobreviveu pela rede multiplicada que ele havia descrito sete anos antes.

Na Viagem Espírita em 1862

Kardec acrescenta observações práticas colhidas em campo e um modelo de regulamento em 18 artigos (Instrução X e apêndice). Destaques:

Formação do grupo

  • Começar com cinco ou seis membros sérios e esclarecidos, por mais restrito que seja. “Cinco ou seis membros esclarecidos, sinceros, penetrados das verdades da Doutrina e unidos pela mesma intenção, valem cem vezes mais do que a inclusão, nesse grupo, de curiosos e indiferentes.”

Admissão

  • Jamais abrir as portas ao primeiro que chegar; exigir provas de conhecimento e simpatia pela Doutrina.
  • Apresentação por membro responsável; desconhecidos que recusem identificar-se são impedidos de assistir.

Neutralidade litúrgica

  • Invocar os bons Espíritos por prece própria, mas sem fórmulas litúrgicas de nenhum culto particular — o Espiritismo se dirige a todas as crenças e não deve adotar sinais exteriores que provocariam cisão.
  • Cada um, em seu íntimo, faça a prece que julgar conveniente; nada de oficial.

Inclusão de mulheres

  • Excluir mulheres “seria injuriar sua capacidade de julgamento”. Sua presença exige maior urbanidade e “por sua própria posição, muitas vezes tem mais necessidade do que qualquer outra pessoa das sublimes consolações” do Espiritismo.
  • “O advento do Espiritismo marcará a era da emancipação legal da mulher.”

Inclusão de jovens

Grupos de ensino

  • Grupos especiais dedicados à leitura e explicação de O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns e da Revista Espírita, para instrução de novatos. “Aplaudimos de todo o coração essa iniciativa.”

Cuidados com publicações

  • Comunicações mediúnicas só devem ser publicadas com revisão severa, eliminando o que for inútil, absurdo ou comprometedor. Publicar tudo sem discernimento prejudica a Doutrina.

Desinteresse material

  • Cotização apenas entre membros; jamais cobrada de ouvintes ou visitantes.
  • “Fica expressamente estipulado que essa cotização será paga somente pelos membros propriamente ditos da Sociedade e que, em nenhum caso e sob qualquer pretexto, será exigida ou solicitada uma retribuição qualquer aos ouvintes.”

Modelo de regulamento (resumo)

ArtigoConteúdo
1Objetivo: estudo do Espiritismo, aplicação à moral; interdição de questões políticas e controvérsias religiosas
2Adesão aos princípios do LE e LM; divisa: “Fora da caridade não há salvação / Fora da caridade não há verdadeiros espíritas”
3Admissão: provas de conhecimento e simpatia; sem distinção de culto ou nacionalidade
6–7Sessões reservadas e sessões abertas; ouvintes apresentados por membro
8Interdição de fórmulas litúrgicas de qualquer culto
10Comunicações são propriedade da sociedade; coletânea das melhores comunicações
12Silêncio e recolhimento; proibição de questões fúteis e de curiosidade
16Médiuns não devem crer na infalibilidade dos Espíritos comunicantes
17Cotização apenas entre membros; nada cobrado de ouvintes

Aplicação prática

Estas instruções permanecem como referência fundamental para a organização das casas espíritas. Os princípios de seriedade na admissão, desinteresse material, neutralidade litúrgica e inclusão sem discriminação são pilares do movimento espírita até hoje. O modelo de regulamento pode ser adaptado às necessidades locais, mantendo seu espírito.

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Fontes

  • Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns. 2ª parte, caps. XXIX–XXX. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita, dezembro de 1861, “Organização do Espiritismo” (25 itens). Edição local: 1861.
  • Kardec, Allan. Viagem Espírita em 1862. Instruções X–XI; Projeto de regulamento.