Sonhos

Imagens e sensações que o Espírito retém ao despertar a partir da atividade que exerceu durante o sono, quando se acha parcialmente desprendido do corpo. São o caso mais comum da emancipação da alma — o sinal pelo qual o encarnado julga, todos os dias, da liberdade relativa do seu Espírito.

Ensino de Kardec

O Espírito não dorme

A premissa básica está em LE q. 401: “Não, o Espírito jamais está inativo. Durante o sono, afrouxam-se os laços que o prendem ao corpo e, não precisando este então da sua presença, ele se lança pelo espaço e entra em relação mais direta com os outros Espíritos.”

A liberdade do Espírito no sono se julga “pelos sonhos. Quando o corpo repousa […], tem o Espírito mais faculdades do que no estado de vigília. Lembra-se do passado e algumas vezes prevê o futuro. Adquire maior potência e pode pôr-se em comunicação com outros Espíritos, quer neste mundo, quer noutro” (LE, q. 402).

O sono é “irmão da morte”

Kardec usa a analogia explicitamente: “O sono liberta a alma parcialmente do corpo. Quando dorme, o homem se acha por algum tempo no estado em que fica permanentemente depois que morre” (LE, q. 402). Quem é elevado vai “para junto dos seres que lhes são superiores” e “trabalha mesmo em obras que se lhes deparam concluídas, quando volvem, morrendo na Terra, ao mundo espiritual” (LE, q. 402). Quem é inferior vai “a mundos inferiores à Terra, onde os chamam velhas afeições, ou em busca de gozos quiçá mais baixos do que os em que aqui tanto se deleitam” (LE, q. 402).

Daí o sono ser, mais do que repouso fisiológico, o “recreio depois do trabalho”, a “porta que Deus lhes abriu, para que possam ir ter com seus amigos do céu” (LE, q. 402) — para que o Espírito superior, encarnado em meio ao vício, possa “retemperar-se na fonte do bem”.

Definição do sonho

“O sonho é a lembrança do que o Espírito viu durante o sono” (LE, q. 402). Mas a lembrança é parcial: “nem sempre sonhais, porque nem sempre vos lembrais do que vistes, ou de tudo o que haveis visto, enquanto dormíeis”. Os sonhos absurdos refletem (a) a perturbação da partida ou do regresso ao corpo, (b) a contaminação por preocupações da vigília e, eventualmente, (c) a ação de “maus Espíritos [que] se aproveitam dos sonhos para atormentar as almas fracas e pusilânimes” (LE, q. 402).

Kardec resume na nota comentário: “As singulares imagens do que se passa ou se passou em mundos desconhecidos, entremeados de coisas do mundo atual, é que formam esses conjuntos estranhos e confusos, que nenhum sentido ou ligação parecem ter” (LE, q. 402, comentário). E mais: “A incoerência dos sonhos ainda se explica pelas lacunas que apresenta a recordação incompleta […]. É como se a uma narração se truncassem frases ou trechos ao acaso” (LE, q. 402, comentário).

Por que esquecemos

A explicação fisiológica: “como é pesada e grosseira a matéria que o compõe, o corpo tem dificuldade em conservar as impressões que o Espírito recebeu, porque a este não chegaram por intermédio dos órgãos corporais” (LE, q. 403). O cérebro só registra o que passa por sua via sensorial — a percepção espiritual contorna esse circuito.

Significações dos sonhos

Contra a leitura supersticiosa: “Os sonhos não são verdadeiros como o entendem os ledores de sorte, pois é absurdo crer-se que sonhar com tal coisa anuncia tal outra” (LE, q. 404). Mas são verdadeiros num outro sentido — “apresentam imagens que para o Espírito têm realidade”. Podem ser recordação de existência presente ou passada; podem ser pressentimento “se Deus o permitir”; podem ser **visão do que no momento ocorre em outro lugar a que a alma se transporta” (LE, q. 404).

Quanto aos pressentimentos que não se confirmam, Kardec explica que “o Espírito vê aquilo que deseja porque vai ao seu encontro” — e que “durante o sono, a alma sempre está mais ou menos sob a influência da matéria” (LE, q. 405). É o ponto onde realmente “cabe chamar-se efeito da imaginação”.

Visitas espíritas entre vivos

Pessoas que se conhecem encontram-se de fato durante o sono: “É tão habitual o fato de irdes encontrar-vos, durante o sono, com amigos e parentes […] que quase todas as noites fazeis essas visitas” (LE, q. 414). A utilidade não está na lembrança consciente — “ao despertardes, guardais a intuição desse fato, do qual frequentemente se originam certas ideias que vos vêm espontaneamente” (LE, q. 415).

Não basta querer encontrar alguém: o Espírito desprendido “muitas vezes, nada disposto se mostra a fazer o que o homem resolvera, porque a vida deste pouco interessa ao seu Espírito, uma vez desprendido da matéria” (LE, q. 416). A vontade da vigília não governa o Espírito emancipado — limite importante para qualquer técnica de “viagem astral” dirigida.

Transmissão oculta do pensamento

Ideias que surgem simultaneamente em vários pontos do mundo se explicam pelas confabulações noturnas: “quando se dá o despertar, o Espírito se lembra do que aprendeu e o homem julga ser isso um invento de sua autoria. […] Quando dizeis que uma ideia paira no ar, usais de uma figura mais exata do que supondes” (LE, q. 419).

”Sonhos de Joana, de Jacó, dos profetas”

Há uma segunda espécie de sonhos — “recordações guardadas por almas que se desprendem inteiramente do corpo, recordações dessa segunda vida” (LE, q. 402). Distinta dos sonhos comuns, ainda raríssima na humanidade terrena: “Tratai de distinguir essas duas espécies de sonhos, entre os de que vos lembrais, do contrário cairíeis em contradições e em erros funestos à vossa fé” (LE, q. 402).

Desenvolvimentos na Revista Espírita

Ao longo de doze anos de Revista Espírita (1858-1869), Kardec retoma e amplia a doutrina dos sonhos do LE em diversos artigos — ora pelo método experimental (evocação de um encarnado adormecido), ora pelo registro de casos clínicos, ora pela explicação fluídica das visões fantásticas. Esse arco é a oficina viva de onde sai a categorização tripartite de 1865 e que adiciona dimensões fenomenológicas ausentes do livro fundador.

Bicorporeidade em sonho — o desdobramento como caso-limite (RE, dez/1858)

No artigo “Fenômeno de bicorporeidade” de dezembro de 1858, Kardec relata o caso de um médium adolescente que, durante o sono induzido magneticamente por seu pai, visita amigos em Londres — e que, dias depois, recebe carta confirmando minutiosamente a “visita”. Santo Afonso de Liguori, evocado, dá a mecânica:

“Sentindo vir o sono, o Espírito encarnado pode pedir a Deus para se transportar a um lugar qualquer. Seu Espírito ou sua alma, como queirais chamar, então abandona o seu corpo, seguido de uma parte de seu perispírito e deixa a matéria imunda num estado vizinho ao da morte. Digo vizinho ao da morte porque fica no corpo um laço que liga o perispírito e a alma à matéria, e esse laço não pode ser definido.” (RE, dez/1858)

A pergunta “O sono do corpo é indispensável para que o Espírito apareça noutros lugares?” recebe resposta cautelosa — a alma pode dividir-se também em vigília, em casos excepcionais — mas o sono é a porta canônica, e o caso-limite (bicorporeidade) ilumina o caso comum (sonho ordinário): em ambos opera o mesmo desprendimento parcial; muda apenas a profundidade e a permissão divina.

Verificação experimental — evocação de um vivo adormecido (RE, jan/1860)

Em janeiro de 1860 a Sociedade evoca o conde R… C…, membro presente acamado por indisposição. A evocação é o experimento que testa LE q. 401: o Espírito do encarnado responde através de um médium enquanto o corpo dorme. Em primeira pessoa o conde descreve o estado:

“Estou no mais feliz e satisfatório estado que se possa experimentar. Algum dia tivestes um sonho em que o calor do leito leva a crer que somos levemente embalados no ar, ou na crista de ondas tépidas, sem preocupação com os movimentos; sem consciência dos membros pesados e incômodos […] sem qualquer necessidade a satisfazer, não sentindo o aguilhão da fome ou da sede? Estou neste estado junto a vós.” (RE, jan/1860)

A nota de Kardec é metodologicamente decisiva: “O sono, que não era completo no começo da evocação, estabeleceu-se pouco a pouco, por força do desprendimento do Espírito, que deixa o corpo em profundo repouso.” A própria evocação aprofunda o desprendimento — o sono comum e o desdobramento mediúnico estão num continuum, não em natureza distinta. Quando perguntado se seu corpo sonha, o conde responde “Não. É justamente por isso que não se fatiga” — confirmando o ponto de q. 403: quem sonha é o Espírito, não o corpo; o corpo apenas registra (mal) o que pode da atividade espiritual.

No dia seguinte, desperto, o conde contou ter “sonhado” estar entre os membros da Sociedade. Kardec comenta: “É provável, e mais provável, que sendo o sonho uma lembrança da atividade do Espírito, na verdade não é o corpo que sonha, pois o corpo não pensa” (RE, jan/1860).

Sonhos como sintoma — o lado clínico (RE, jun/1866)

Em “Um sonho instrutivo” (junho de 1866), Kardec relata em primeira pessoa uma série de sonhos numerosos e incoerentes durante uma doença em abril daquele ano. O Dr. Demeure, evocado, oferece uma chave clínica:

“Os numerosos sonhos que vos assediaram nestes últimos dias são o resultado do próprio sofrimento que experimentais. Todas as vezes que há enfraquecimento do corpo, há tendência para o desprendimento do Espírito; mas quando o corpo sofre, o desprendimento não se opera de maneira regular e normal; o Espírito é incessantemente chamado ao seu posto; daí uma espécie de luta, de conflito entre as necessidades materiais e as tendências espirituais; daí, também, interrupções e misturas que confundem as imagens e as transformam em conjuntos bizarros e desprovidos de sentido.” (RE, jun/1866)

O programa de pesquisa proposto é explícito: “Mais do que se pensa, o caráter dos sonhos se liga à natureza da doença. É um estudo a fazer, e os médicos aí encontrarão muitas vezes diagnósticos preciosos, quando reconhecerem a ação independente do Espírito e o papel importante que ele representa na economia” (RE, jun/1866). É a antecipação direta da medicina psicossomática espírita: o tipo de sonho diagnostica o estado conjunto corpo-Espírito.

Conciliábulos noturnos de inventores (RE, jun/1866)

No mesmo artigo, a outra visão de Kardec — uma inscrição luminosa sobre uma invenção em borracha — recebe a explicação canônica para a transmissão oculta de ideias (já enunciada em LE q. 419):

“Os que vistes são encarnados que se ocupam separadamente, e na maioria sem se conhecerem, com invenções tendentes a aperfeiçoar os meios de locomoção […]. Ficai persuadido que isso ocorre muitas vezes, e que quando vários homens descobrem ao mesmo tempo uma nova lei ou um novo corpo, em diversos pontos do globo, seus Espíritos estudaram a questão em conjunto, durante o sono, e, ao despertar, cada um trabalhou por seu lado, colocando em prática o fruto de suas observações.” (RE, jun/1866)

O Dr. Demeure relê a história das descobertas científicas em chave espírita: as ideias “no ar” (ver abaixo) são frutos de seminários noturnos involuntários. A genialidade não é solitária — é mediúnica.

”Está no ar” — psicologia das massas pelo sono (RE, jun/1866)

A expressão popular sobre pressentimentos coletivos recebe, ainda em junho de 1866, duas causas concorrentes — uma desencarnada, outra encarnada:

“A primeira [causa] vem das massas inumeráveis de Espíritos que incessantemente percorrem o espaço e que têm conhecimento das coisas que se preparam […]. A segunda causa desse fenômeno está no desprendimento do Espírito encarnado, durante o repouso do corpo. Nesses momentos de liberdade, ele se reúne com Espíritos semelhantes, aqueles com os quais ele tem mais afinidade; penetra-se de seus pensamentos, vê o que não pode ver com os olhos do corpo, relata a sua intuição ao despertar, como uma ideia que lhe fosse totalmente pessoal.” (RE, jun/1866)

A doutrina ganha aqui um capítulo de sociologia: revoluções, guerras e grandes acontecimentos suscitam picos de mediunidade espontânea exatamente porque a tensão coletiva intensifica o desprendimento noturno e o trânsito de ideias entre encarnados e desencarnados.

Sono dos Espíritos (RE, jun/1866)

Outro artigo do mesmo número — “Visão retrospectiva das várias encarnações de um Espírito” — registra fenômeno simétrico do nosso: o desencarnado também passa por estados análogos ao sono. O Dr. Cailleux, desencarnado, descreve um “torpor” durante o qual viu o panorama de suas próprias encarnações médicas:

“Eu estava, pois, adormecido num sono magnético-espiritual; vi o passado formar-se num presente fictício; reconheci individualidades desaparecidas na esteira do tempo, ou melhor, que tinham sido um mesmo indivíduo.” (RE, jun/1866)

O comentário editorial generaliza:

“Há, pois, para os Espíritos, uma espécie de sono, o que é um ponto de contato a mais entre o estado corporal e o estado espiritual. […] No sono humano, só o corpo repousa, mas o Espírito não dorme. Deve dar-se o mesmo no estado espiritual; o sono magnético, ou outro, só deve afetar o corpo espiritual ou perispírito, e o espírito deve achar-se num estado relativamente análogo ao do Espírito encarnado durante o sono do corpo.” (RE, jun/1866)

Eco antecipado do que André Luiz descreverá em No Mundo Maior — a continuidade da estrutura sono/vigília como propriedade da consciência, não apenas do corpo carnal.

Sonhos com seres queridos — lembrança interdita (RE, ago/1866)

Em “Comunicação com os seres que nos são caros” (agosto de 1866), Kardec responde a uma dúvida dolorosa — por que mães em luto não conseguem rever em sonho os filhos perdidos? — refinando LE q. 414-415:

“As mesmas razões ocorrem no que concerne aos sonhos. Os sonhos são a lembrança do que a alma viu em estado de desprendimento durante o sono. Ora, essa lembrança pode ser interdita. Mas aquilo de que a gente não se lembra não está, por isto, perdido para a alma. As sensações experimentadas durante as excursões que ela faz no mundo invisível, deixam, ao despertar, impressões vagas, e a gente se lembra de pensamentos e ideias cuja origem muitas vezes não suspeita. Portanto, podemos ter visto, durante o sono, os seres aos quais temos afeição, termo-nos entretido com eles, mas não guardamos a lembrança. Então dizemos que não sonhamos.” (RE, ago/1866)

A interdição da lembrança é providencial — proteção para “naturezas muito impressionáveis” que padeceriam se a comunicação fosse contínua. A consolação real não está no sonho lembrado: está na certeza fenomenológica de que o ser amado “está junto aos que o atraem por seu pensamento simpático” e que dele “muitas vezes adivinha a sua presença por uma espécie de intuição, uma sensação íntima” (RE, ago/1866).

Criações fluídicas pelo pensamento — explicação dos pesadelos (RE, ago/1866)

Num dos artigos teoricamente mais densos da Revista, Kardec enfrenta o problema das visões fantásticas — visões de inferno, de demônios, de cenas religiosas inverossímeis — propondo a lei das criações fluídicas pelo pensamento:

“Em nosso mundo tudo é matéria tangível; no mundo invisível tudo é, se assim nos podemos exprimir, matéria intangível […]. Tudo é fluídico nesse mundo, homens e coisas […]. O segundo princípio está nas modificações que o pensamento imprime ao elemento fluídico. Pode-se dizer que ele o modela à vontade, como modelamos um pouco de terra para dela fazer uma estátua.” (RE, ago/1866)

A aplicação ao sonho é decisiva — a alma encarnada, em emancipação parcial, plasma fluidicamente o conteúdo do próprio pensamento:

“Nos seus momentos de emancipação, gozando a alma encarnada parcialmente das faculdades de Espírito livre, pode produzir efeitos análogos. Aí pode estar a causa das visões ditas fantásticas. Quando o Espírito está fortemente imbuído de uma ideia, seu pensamento pode criar uma imagem fluídica correspondente, que para ele tem todas as aparências da realidade […]. Preocupada com as descrições que tinha ouvido fazer do inferno, dos demônios e de suas tentações […], seu pensamento criou um quadro fluídico que só tinha realidade para ela.” (RE, ago/1866)

Esta lei resolve em chave espírita o que a psicologia profunda chamaria, sessenta anos depois, de “projeção do inconsciente” — e antecipa o diagnóstico de André Luiz em Evolução em Dois Mundos sobre a mente que, no sono, “sacando da memória a essência de seus próprios desejos”, plasma painéis no diencéfalo. O pesadelo religioso, o sonho erótico, a perseguição onírica recorrente — todos podem ser, antes de qualquer obsessão externa, criações fluídicas do próprio sonhador.

A consequência prática é dura e libertadora: o sonhador é, em parte, autor do seu sonho fluídico. O que medita no dia, plasma na noite. O eixo moral do “antes de dormir” (já presente em LE q. 402 e desenvolvido por Joanna em Autodescobrimento) ganha aqui o seu fundamento fluídico exato.

Categorização tripartite (RE, jul/1865)

Em julho de 1865, Kardec publicou comunicação de um médium sonâmbulo organizando os sonhos em três categorias “caracterizadas pelo grau da lembrança que fica no estado de desprendimento no qual se acha o Espírito” (RE, jul/1865):

  1. Sonhos materiais — “provocados pela ação da matéria e dos sentidos sobre o Espírito, isto é, aqueles em que o organismo representa um papel preponderante pela mais íntima união entre o corpo e o Espírito. A gente se lembra claramente e, por pouco desenvolvida que seja a memória, dele conserva uma impressão durável” (RE, jul/1865).
  2. Sonhos mistos — “Deles participam, ao mesmo tempo, a matéria e o Espírito. O desprendimento é mais completo. A gente se recorda, ao despertar, para esquecê-lo quase instantaneamente, a menos que uma particularidade venha despertar a lembrança” (RE, jul/1865).
  3. Sonhos etéreos ou puramente espirituais — “São produtos só do Espírito, que está desprendido da matéria, tanto quanto o pode estar na vida do corpo. A gente não se recorda, ou se resta uma vaga lembrança de que se sonhou, nenhuma circunstância poderia trazer à memória os incidentes do sono” (RE, jul/1865).

O paradoxo prático: quanto mais espiritual o sonho, menos lembrança fica. Mas “esses sonhos inconscientes […] proporcionam estas sensações indefiníveis de contentamento e de felicidade de que a gente não se dá conta, e que são um antegozo daquilo de que desfrutam os Espíritos felizes” (RE, jul/1865). A sensação difusa de bem-estar matinal pode ser eco de um encontro fraternal que a memória cerebral não conseguiu registrar.

Léon Denis — psicologia profunda do sono

Léon Denis amplia o quadro de Kardec em O Problema do Ser, do Destino e da Dor (Parte I), articulando-o com a psicologia experimental de seu tempo (Myers, Cambridge):

“Aprisionada à carne durante o estado de vigília, a alma recupera, no sono, sua liberdade relativa, temporária e, simultaneamente, a utilização de seus poderes ocultos. A morte será sua libertação completa, definitiva.” (Léon Denis, O Problema do Ser, Parte I).

Léon Denis explica que a incoerência dos sonhos comuns decorre da automatismo cerebral: “as percepções registradas pelo cérebro desenrolam-se automaticamente, numa aparente desordem, quando a atenção da alma está desviada do corpo e não regula mais as vibrações cerebrais”. À medida que a alma se desprende, “os sonhos ganham uma lucidez, uma nitidez, notáveis” (O Problema do Ser, Parte I).

Sobre os sonhos de voo e atravessar paredes, ele propõe leitura espírita: “Sonhar que subimos sem fadiga, com facilidade surpreendente, através do espaço, sem encontrar obstáculo algum […] atravessar muralhas e outros obstáculos materiais, sem nos admirar de executar atos irrealizáveis durante a vigília, não é prova de que nos tornamos fluídicos com o desdobramento?” (O Problema do Ser, Parte I) — são as sensações do corpo fluídico, “exercitando-se para a vida superior”.

A nota mais útil para a vida prática diz respeito à memória profunda: ao lado da memória normal, “que só abarca o círculo estreito da vida presente”, existe uma memória que “abrange toda a história do ser, desde sua origem, suas etapas sucessivas, seus modos de existência, planetários ou celestes. Lembranças e sensações, todo um passado esquecido, ignorado no estado de vigília, está gravado em nós; este passado só desperta na exteriorização, durante o sono comum ou provocado” (O Problema do Ser, Parte I).

André Luiz — fenomenologia do sono

A série psicografada por Chico Xavier sob a autoria espiritual de André Luiz retoma a doutrina de Kardec, mas a descreve do ponto de vista do plano espiritual — testemunhando reuniões noturnas de encarnados, mecânica fisiológica do desprendimento e tipologia das influências que cercam quem adormece.

Atividade real durante o sono

O capítulo 8 de Missionários da Luz leva o título “No Plano dos sonhos” e é dedicado inteiramente ao tema. Alexandre conduz André Luiz a uma aula noturna no salão onde se congregam espíritos desencarnados e encarnados em desdobramento:

“Era considerável o número de amigos encarnados, provisoriamente libertos do corpo físico através do sono, que se congregavam no vasto salão.” (Missionários da Luz, cap. 8)

A advertência sobre o aproveitamento dessa franquia é direta:

“Quando encarnados, na Crosta, não temos bastante consciência dos serviços realizados durante o sono físico; contudo, esses trabalhos são inexprimíveis e imensos. Se todos os homens prezassem seriamente o valor da preparação espiritual, diante de semelhante gênero de tarefa, certo efetuariam as conquistas mais brilhantes, nos domínios psíquicos, ainda mesmo quando ligados aos envoltórios inferiores.” (Missionários da Luz, cap. 8)

E o avesso — o uso degradado do desprendimento noturno:

“Infelizmente, porém, a maioria vale-se, inconscientemente, do repouso noturno para sair à caça de emoções frívolas ou menos dignas. Relaxam-se as defesas próprias, e certos impulsos, longamente sopitados durante a vigília, extravasam em todas as direções, por falta de educação espiritual, verdadeiramente sentida e vivida.” (Missionários da Luz, cap. 8)

Mecânica do desprendimento — a mente justaposta

Em Mecanismos da Mediunidade, o foco fisiológico se aprofunda. A maioria das criaturas, ainda apegadas à animalidade, não viaja muito ao adormecer — fica justaposta ao corpo, ruminando a si mesma:

“Atreita ao narcisismo, tão logo demande o sono, quase sempre se detém justaposta ao veículo físico, como acontece ao condutor que repousa ao pé do carro que dirige, entregando-se à volúpia mental com que alimenta os próprios impulsos afetivos, enquanto a máquina se refaz.” (Mecanismos da Mediunidade)

Quando há desprendimento mais amplo, a lei de afinidade dirige o Espírito para onde o coração esteja:

“O homem do campo, no repouso físico, supera os fenômenos hipnagógicos e volta à gleba que semeou contemplando aí, em Espírito, a plantação que lhe recolhe o carinho; o artista regressa à obra a que se consagra, mentalizando-lhe o aprimoramento; o espírito maternal se aconchega ao pé dos filhinhos que a vida lhe confia, e o delinquente retorna ao lugar onde se encarcera a dor do seu arrependimento.” (Mecanismos da Mediunidade)

Em Evolução em Dois Mundos, a localização anatômica é mais explícita — os sonhos não-libertadores mobilizam o núcleo da visão superior, no diencéfalo, plasmando imagens a partir da própria memória afetiva:

“É dessa forma, aliviando o controle sobre as células que a servem no corpo carnal, que a mente se volta, no sono, para o refúgio de si mesma, plasmando na onda constante de suas próprias ideias as imagens com que se compraz nos sonhos agradáveis em que saca da memória a essência de seus próprios desejos, retemperando-se na antecipada contemplação dos painéis ou situações que almeja concretizar. Para isso, mobiliza os recursos do núcleo da visão superior, no diencéfalo…” (Evolução em Dois Mundos)

Assistência espiritual via desprendimento

A “libertação pelo sono” é o canal habitual de socorro aos encarnados:

“A libertação pelo sono é o recurso imediato de nossas manifestações de amparo fraterno. A princípio, recebem-nos a influência inconscientemente; em seguida, porém, fortalecem a mente, devagarinho, gravando-nos o concurso na memória, apresentando ideias, alvitres, sugestões, pareceres e inspirações beneficentes e salvadoras, através de recordações imprecisas.” (No Mundo Maior)

André Luiz faz convergir a tradição magnética terrena (Puységur, hipnotismo de Braid) com a vivência cotidiana do plano espiritual:

“De Puysegur foi dos primeiros magnetistas que encontraram o sono revelador […]. Entretanto, para nós, ‘neste lado’ da vida, o fenômeno é corriqueiro: diariamente milhões de pessoas adormecem sob a influência magnética de amigos espirituais, a fim de serem auxiliadas nas resoluções inadiáveis.” (No Mundo Maior, cap. 4)

Vampirismo e obsessão noturna

A mesma porta que serve ao socorro serve ao parasitismo. Em Os Mensageiros, a advertência é taxativa:

“Através das correntes magnéticas suscetíveis de movimentação, quando se efetua o sono dos encarnados, são mantidas obsessões inferiores, perseguições permanentes, explorações psíquicas de baixa classe, vampirismo destruidor, tentações diversas. Ainda são poucos, relativamente, os irmãos encarnados que sabem dormir para o bem…” (Os Mensageiros, cap. 39)

Em Evolução em Dois Mundos, o caráter bifrontal da exposição noturna fica explícito — o mesmo sono que atrai amparo atrai também vampirismo espiritual:

“Numa e noutra condição, todavia, é a mente suscetível à influenciação dos desencarnados que, evoluídos ou não, lhe visitam o ser, atraídos pelos quadros que se lhe filtram da aura, ofertando-lhe auxílio eficiente quando se mostre inclinada à ascensão de ordem moral, ou sugando-lhe as energias e assoprando-lhe sugestões infelizes quando, pela própria ociosidade ou intenção maligna, adere ao consórcio psíquico de espécie aviltante…” (Evolução em Dois Mundos)

Amnésia relativa, benefício real

A explicação fisiológica de Kardec (“o cérebro só registra o que passa por sua via sensorial”, LE q. 403) ressurge aqui sob outro ângulo: o fruto espiritual permanece mesmo quando o cérebro físico não recupera o conteúdo da aula noturna:

“O homem eterno guarda a lembrança completa e conservará consigo todos os ensinamentos, intensificando-os e valorizando-os, de acordo com o estado evolutivo que lhe é próprio. O homem físico, entretanto, escravo de limitações necessárias, não pode ir tão longe […]. As aulas, no teor da que será por você assistida nesta noite, são mensageiras de inexprimíveis utilidades práticas. Em despertando, na Crosta, depois delas, os aprendizes experimentam alívio, repouso e esperança…” (Missionários da Luz, cap. 8)

Eco direto do que Kardec antecipara nos “sonhos etéreos” da Revista Espírita de 1865 — o esquecimento não anula o ganho.

Sono e reencarnação

A doutrina se aplica ainda ao processo gestacional. Em No Mundo Maior, a criança em reencarnação encontra-se em estado de “sono brando”, sob influência psíquica direta dos pais que a recebem:

“A mente do filhinho, em processo de reencarnação, como se fora violentada num sono brando, suplicava, chorosa: — Poupa-me! Poupa-me! Quero acordar no trabalho! Quero viver e reajustar o destino…” (No Mundo Maior)

Joanna de Ângelis — sonhos na psicologia profunda

Na Série Psicológica (1989-2011), Joanna de Ângelis relê os sonhos a partir da ponte tripartite Kardec ↔ Jung ↔ Quarta Força. A leitura preserva integralmente a doutrina kardecista do desprendimento parcial no sono — “sem dúvida, em muitos casos, o Eu superior, o Espírito, em se deslocando do corpo, realiza viagens e mantém contatos com outros, cujas impressões são registradas pelo cérebro e se reapresentam benéficas, gratificantes, no campo onírico” (Autodescobrimento) — mas amplia o quadro com o vocabulário da psicologia profunda, articulando subconsciente individual (Freud), inconsciente coletivo e arquétipos (Jung) e técnicas operacionais (Quarta Força).

Subconsciente e sonhos — arquivos do encarnado (Autodescobrimento, 1995)

Em Autodescobrimento (cap. “Subconsciente e Sonhos”), Joanna sistematiza os sonhos como exteriorização do subconsciente — arquivo próximo das experiências, “automático, destituído de raciocínio, estático”, herdeiro tanto das memórias afetivas da existência atual quanto dos conflitos não digeridos da personalidade:

“Anseios e medos não digeridos, ocorrências incompreendidas e palavras como gestos agressivos, educação castradora, interrogações sem respostas, que se transformaram em conflitos da personalidade, prosseguem aguardando esclarecimentos, liberação, que se reapresentam na área dos sonhos.” (Autodescobrimento)

As fontes do sonho são plurais e listadas explicitamente: subconsciente arquivado, libido (desejos, frustrações, impulsos sexuais contidos), estados afetivos atuais (exaltação, estresse, depressão, fobias) — e, simultaneamente, a atividade do Espírito emancipado. Joanna não substitui Kardec por Freud; sobrepõe os dois planos. O Eu superior segue se desprendendo no sono — só que a memória cerebral mistura esse aporte com o material do arquivo psíquico.

A contribuição prática mais distintiva é o “programa de sonhos bons” — operacionalização espírita das técnicas de autossugestão noturna:

“Antes de dormir, cumpre sejam fixadas as ideias agradáveis e positivas, visualizando aquilo com que se deseja sonhar, certamente para tirar proveito útil no processo de crescimento interior. […] Ao planejamento da experiência onírica, sucederá uma forma de autossugestão, de enriquecimento, com uma breve leitura salutar, o exame de consciência para liberar-se dos tóxicos dissolventes da ira, da amargura, do ressentimento, asserenando-se e, mediante a oração, entregando-se à Divina Essência Criadora.” (Autodescobrimento)

Eco direto da advertência de Kardec em LE q. 402 sobre o estado moral com que se adormece (que determina os encontros noturnos) — agora articulado num protocolo prático passo a passo. Joanna sintetiza o eixo terapêutico no aforismo:

“Dize-me o que sonhas e eu te direi quem és e qual futuro terás.” (Autodescobrimento)

Sonhos como linguagem dos arquétipos (Triunfo Pessoal, 2002)

Em Triunfo Pessoal (cap. 1, “Os Arquétipos Junguianos”), Joanna traduz o sonho para o vocabulário junguiano — e reescreve a ontologia dos arquétipos em chave reencarnacionista. Os três grandes arquétipos junguianos identificam-se pelo sexo da personificação no sonho:

“A sombra, que pode ser uma personificação não identificada ou teimosamente negada, que se apresenta nos sonhos com as mesmas características e idêntico sexo do paciente; a anima e o animus, que são conexões inconscientes vinculadas ao coletivo não identificado, expressando-se em sexo oposto ao do sonhador; e, por fim, o Self que pode ser entendido como a totalidade, a magnitude do Velho Sábio/Velha Sábia, alterando sua expressão conforme as circunstâncias e apresentando-se em extensa gama de formas humanas, animais e abstratas.” (Triunfo Pessoal)

O passo doutrinário decisivo é a leitura espírita do material arquetípico — arquétipos não são apenas heranças filogenéticas, são também depósitos das próprias reencarnações:

“[são] heranças das experiências vivenciadas em reencarnações transatas, quando o Espírito transferiu, mesmo sem dar-se conta, as lembranças para o inconsciente, nele arquivando todas as realizações, anseios, frustrações, conquistas e prejuízos, facultando o surgimento das futuras imagens primordiais.” (Triunfo Pessoal)

A sombra deixa de ser pura categoria psicológica para se tornar “herança dos atos ignóbeis ou infelizes que o Espírito gostaria de esquecer ou negar, mas que prosseguem em mecanismo de punição” — leitura da lei de causa e efeito aplicada ao material onírico. Anima e animus se explicam pela polaridade sexual alternada em encarnações sucessivas (o Espírito é assexuado, vivencia ora um, ora outro polo). O Self, “Velho Sábio/Velha Sábia”, é o próprio Espírito imortal, herdeiro de si mesmo.

Conclusão da releitura — ao se apresentarem em sonho, os arquétipos são “exteriorizações dos arquivos pessoais e das experiências coletivas — reminiscências liberadas do períspirito, igualmente registradas no inconsciente universal” (Triunfo Pessoal). O perispírito kardecista converge funcionalmente com o inconsciente individual junguiano sem identidade ontológica entre os dois.

Sonhos repetitivos e a imaginação ativa (Em Busca da Verdade, 2009)

Em Busca da Verdade, volume mais sistematicamente junguiano da Série, aprofunda o tratamento do sonho repetitivo simbólico como expressão do inconsciente coletivo:

“Abarcando o conhecimento geral dos acontecimentos do passado, [o inconsciente coletivo] responde por inúmeros conflitos que assaltam a criatura humana, revelando-se, especialmente, nos sonhos repetitivos, simbólicos e representativos de figuras ou fatos mitológicos, cuja interpretação, além de complexa, constitui um grande desafio.” (Em Busca da Verdade)

A técnica clínica recomendada é a imaginação ativa junguiana — diálogo consciente com o material onírico — agora pensada como ferramenta de integração reencarnatória:

“Nos sonhos, e através da imaginação ativa, consegue-se encontrar os símbolos representativos que, em se tornando conscientes, liberam o indivíduo da sua incidência e da ação morbosa da representação onírica portadora de conflitos.” (Em Busca da Verdade)

Os sonhos proféticos — que Kardec já admitira em LE q. 404 (“se Deus o permitir”) — são listados ao lado de simpatia/antipatia, sincronicidade e premonição como evidências da continuidade do Self transtemporal, não meras “coincidências” psicológicas. Joanna cita nominalmente o sonho-visão de Jung antecipando a Grande Guerra como caso paradigmático (Em Busca da Verdade).

A consequência terapêutica fecha o circuito: os sonhos não são apenas resíduo psicofisiológico (Freud) nem mensagem do inconsciente coletivo (Jung) — são, simultaneamente, espelho dos arquivos perispiríticos do Espírito e canal pelo qual o autoconhecimento (autoconhecimento, LE q. 919) opera como dispositivo de individuação.

Sono sem sonhos como estado pré-individuativo

Joanna acrescenta ainda uma chave hermenêutica para o sono profundo sem registro onírico — distinta dos “sonhos etéreos” de Kardec (em que o esquecimento é fruto do excesso de espiritualidade). Há um sono sem sonhos inferior, sintoma do Espírito ainda mergulhado na consciência coletiva amorfa:

“Enquanto esse fenômeno [do desenvolvimento espiritual] não ocorrer, o indivíduo permanecerá mergulhado em um estado de consciência coletiva amorfa, perdido no emaranhado dos instintos primitivos, das paixões primárias, em nível de sono sem sonhos, sem autoidentificação, sem conhecimento da sua realidade espiritual.” (Autodescobrimento)

A distinção é doutrinariamente importante: o silêncio onírico inferior (Espírito ainda não individuado, justaposto ao corpo como descrito por André Luiz em Mecanismos da Mediunidade) e o silêncio onírico superior (sonho etéreo, Kardec, RE jul/1865) são polos opostos da mesma ausência de lembrança — só que um é estagnação animalizada e o outro é elevação que transborda o cérebro físico.

Aplicação prática

  • Preparação moral para o repouso. Se o sono é a porta para a vida espiritual, a disposição com que adormecemos importa: pensamentos elevados, prece e reconciliação com o dia atraem encontros benéficos; agitação, mágoa e indulgência atraem o oposto (LE, q. 402 — “antipatias invencíveis” e simpatias intuitivas têm origem nesses encontros noturnos).
  • Discernimento dos sonhos. Não atribuir significações deterministas (LE, q. 404); não pretender previsões automáticas; reconhecer que os sonhos podem ser eco da vida material, mistura imaginativa, recordação real, pressentimento autorizado por Deus, visita a distância ou comunicação com Espíritos. Categorias diferentes pedem leituras diferentes.
  • Não confundir vontade com domínio. A vontade da vigília não controla o Espírito desprendido (LE, q. 416). Técnicas que prometem “controle do sonho lúcido” para forçar encontros ou descobertas devem ser lidas com reserva — o Espírito vai onde sua condição moral o leva.
  • Confiar nas intuições matinais. “Ideias que vos vêm espontaneamente, sem que possais explicar como vos acudiram” (LE, q. 415) merecem atenção: podem ser aprendizado real trazido do desprendimento.
  • Pressentimentos da própria morte. A intuição pode ser autêntica (LE, q. 411), mas é prudência não tomar todo presságio como certeza — o filtro do desejo e do temor opera (LE, q. 405).
  • Programa de sonhos bons (Joanna). Antes de dormir, fixar imagens positivas, fazer breve leitura salutar, exame de consciência e prece — protocolo de autossugestão noturna que articula a recomendação moral de Kardec com a higiene psíquica da Quarta Força (Autodescobrimento).
  • Imaginação ativa para sonhos repetitivos. Sonhos simbólicos que retornam pedem decodificação — pelo registro do material onírico ao despertar, pelo diálogo consciente com as imagens, pelo cotejo com a hipótese reencarnatória (Em Busca da Verdade). Não substituir psicoterapia indicada; complementar.
  • Diagnóstico clínico pelos sonhos (RE jun/1866). Sonhos abundantes e confusos em paciente enfermo sinalizam desprendimento irregular pela dor — não devem ser tomados como mensagem nem como obsessão; primeiro tratar o corpo. Inversamente, o caráter dos sonhos pode ser índice do estado moral.
  • Pesadelo recorrente como criação fluídica própria (RE ago/1866). Antes de atribuir a obsessor externo, examinar se o conteúdo do pesadelo é eco de imagens fortemente mentalizadas em vigília (medo doutrinário, fantasia erótica reprimida, ressentimento). Mudar o regime de pensamento diurno muda o material plasmado à noite.

Sonhos como mediunidade

O LM trata o sonho como forma elementar de manifestação aparente: “As manifestações aparentes mais ordinárias dão-se no sono, pelos sonhos: são as visões” (Kardec, Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas). É a porta de entrada da mediunidade — todo médium vidente passa por algum grau de educação onírica antes de exteriorizar o fenômeno na vigília. Casos extremos: os sonhos proféticos das tradições religiosas (LE, q. 402 — “sonhos de Joana, ao de Jacó, aos dos profetas judeus”).

Páginas relacionadas

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  • mecanismos-da-mediunidade — mente justaposta ao corpo e lei de afinidade noturna
  • autodescobrimento — subconsciente e sonhos; “programa de sonhos bons”; Eu superior em desprendimento (Joanna, vol. 6)
  • triunfo-pessoal — arquétipos junguianos (sombra, anima/animus, Self) relidos em chave reencarnacionista (Joanna, vol. 12)
  • em-busca-da-verdade — sonhos repetitivos simbólicos, imaginação ativa, sonhos proféticos como evidência do Self transtemporal (Joanna, vol. 15)
  • serie-psicologica-joanna-de-angelis — síntese do arco 1989-2011 em que a leitura espírita dos sonhos se inscreve

Fontes

  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Parte 2, cap. VIII — “Da emancipação da alma”, q. 400–419. Edição: livro-dos-espiritos.
  • Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Manifestações aparentes; cap. XIV; cap. XVI.
  • Kardec, Allan. Revista Espírita, dez/1858 — “Fenômeno de bicorporeidade”; Santo Afonso de Liguori sobre o sono como porta da aparição em dois lugares. Edição: 12-dezembro.
  • Kardec, Allan. Revista Espírita, jan/1860 — evocação do conde R… C… vivo durante o sono; descrição em primeira pessoa do estado de desprendimento parcial. Edição: 01-janeiro.
  • Kardec, Allan. Revista Espírita, jul/1865 — “Teoria dos sonhos” (categorização tripartite: sonhos materiais, mistos e etéreos). Edição: 07-julho.
  • Kardec, Allan. Revista Espírita, jun/1866 — “Um sonho instrutivo” (sonhos como diagnóstico clínico; conciliábulos noturnos de inventores); “Visão retrospectiva das várias encarnações” (sono dos Espíritos); “Está no ar” (transmissão coletiva pelo desprendimento noturno). Edição: 06-junho.
  • Kardec, Allan. Revista Espírita, ago/1866 — “Comunicação com os seres que nos são caros” (lembrança interdita); “Criações fluídicas pelo pensamento” (visões fantásticas e pesadelos como autoprodução do sonhador). Edição: 08-agosto.
  • Kardec, Allan. Obras Póstumas, “Manifestações dos Espíritos”, §IV (emancipação da alma).
  • Denis, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Parte I — “O sono e o sonho”; “A memória profunda”. Edição: o-problema-do-ser-do-destino-e-da-dor.
  • Xavier, Francisco Cândido (André Luiz). Missionários da Luz. Rio de Janeiro: FEB, 1945. Cap. 8 — “No Plano dos sonhos”. Edição: missionarios-da-luz.
  • Xavier, Francisco Cândido (André Luiz). Os Mensageiros. Rio de Janeiro: FEB, 1944. Cap. 39 — vampirismo e obsessão durante o sono. Edição: os-mensageiros.
  • Xavier, Francisco Cândido (André Luiz). No Mundo Maior. Rio de Janeiro: FEB, 1947. A libertação pelo sono como canal de socorro espiritual. Edição: no-mundo-maior.
  • Xavier, Francisco Cândido; Vieira, Waldo (André Luiz). Evolução em Dois Mundos. Rio de Janeiro: FEB, 1958. Diencéfalo como núcleo da visão superior nos sonhos; influenciação noturna. Edição: evolucao-em-dois-mundos.
  • Xavier, Francisco Cândido; Vieira, Waldo (André Luiz). Mecanismos da Mediunidade. Rio de Janeiro: FEB, 1959. Mente justaposta ao corpo no sono; lei de afinidade noturna. Edição: mecanismos-da-mediunidade.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Autodescobrimento — Uma Busca Interior. Salvador: LEAL, 1995. Série Psicológica vol. 6. Capítulo “Subconsciente e Sonhos” — subconsciente, libido, Eu superior em desprendimento, “programa de sonhos bons”. Edição: joanna-de-angelis-autodescobrimento-uma-busca-interior.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Triunfo Pessoal. Salvador: LEAL, 2002. Série Psicológica vol. 12. Capítulo “Os Arquétipos Junguianos” — sombra, anima/animus, Self lidos em chave reencarnacionista; sonhos como exteriorização do perispírito. Edição: dpf-ja-13-triunfo-pessoal.
  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Em Busca da Verdade. Salvador: LEAL, 2009. Série Psicológica vol. 15. Sonhos repetitivos simbólicos, imaginação ativa, sonhos proféticos como evidência da continuidade do Self. Edição: joanna-de-angelis-em-busca-da-verdade.