Jean Reynaud

Identificação

  • Nome: Jean Reynaud
  • Nascimento: fevereiro de 1808, Lyon, França
  • Desencarnação: 28 de junho de 1863, Paris, França (após curta moléstia, aos 55 anos)
  • Profissão: Filósofo, ex-engenheiro de minas (Politécnica), ex-Subsecretário de Estado da Instrução Pública (1848), ex-conselheiro de Estado; depois deputado da Assembleia Constituinte de 1848.

Filósofo democrata e espiritualista francês, autor da obra capital Terre et Ciel (Céu e Terra, 1854) — que sustentou a pluralidade das existências e a habitabilidade dos mundos por intuição filosófica rigorosa, sem qualquer apoio em manifestações espíritas. A obra foi condenada e posta no Index pela cúria de Roma, o que aumentou ainda o crédito de que já desfrutava. Pertenceu ao círculo dos sansimonianos na juventude — diz Henri Martin no Siècle de 16/07/1863: “egresso da primeira turma da Escola Politécnica, era engenheiro de minas na Córsega no momento da eclosão da revolução de julho. Voltou a Paris, onde o sansimonismo acabava de irromper, e foi envolvido nesse grande e singular movimento”. Compôs com Pierre Leroux a Encyclopédie Nouvelle. Sua intervenção pública em favor das ideias afins ao Espiritismo culminou em agosto de 1862 com a “Carta do Sr. Jean Reynaud ao Journal des Débats”, publicada em 1862. Após a morte, deu comunicações espontâneas na Sociedade Espírita de Paris, numa reunião de família em Paris e em Bordeaux, por intermédio de três médiuns diferentes e desconhecidos entre si.

Como precursor do Espiritismo

Em ago/1863, Kardec dedica artigo extenso à necrologia de Reynaud — “Jean Reynaud e os precursores do Espiritismo” — que classifica o filósofo na linhagem de germinação providencial da doutrina:

“Como todas as grandes ideias que revolucionaram o mundo, o Espiritismo não nasceu de súbito. Ele germinou em mais de um cérebro e mostrou-se, aqui e ali, pouco a pouco, como que para habituar os homens à ideia.” (RE, ago/1863)

Linhagem traçada por Kardec: Swedenborg (séc. XVIII) → doutrina dos teósofos (início do séc. XIX) → Charles Fourier (progresso da alma pela reencarnação) → Jean Reynaud (“mesmo princípio, sondando o infinito com a ciência às mãos”) → manifestações americanas (1848) → filosofia espírita (1857).

Sobre a antecipação espírita de Reynaud sem fenômenos:

“Jean Reynaud nada tinha visto. Tudo tirou de sua profunda intuição. O Espiritismo viu o que o filósofo apenas tinha pressentido, assim, acrescentou a sanção da experiência à teoria puramente especulativa.” (RE, ago/1863)

Comunicação conclusiva de Santo Agostinho:

“Mais uma circunstância que vai ser favorável ao Espiritismo. Jean Reynaud tinha feito o que devia fazer nesta última existência. Vão falar de sua morte, de sua vida e, mais do que nunca, de suas obras. Ora, falar de suas obras é pôr o pé no caminho do Espiritismo.” (Santo Agostinho, RE ago/1863)

Papel na codificação

Jean Reynaud é tratado por Kardec como antecedente filosófico explícito da reencarnação no séc. XIX. Sua Terre et Ciel (1854), publicada três anos antes do Livro dos Espíritos, é citada por Kardec entre os textos que professaram a doutrina das vidas sucessivas antes do Espiritismo:

“O princípio [da reencarnação] foi claramente exposto em várias outras obras anteriores […] entre outras em Céu e Terra de Jean Reynaud e no encantador livrinho do Sr. Louis Jourdan, intitulado Preces de Ludovico, publicado em 1849, sem contar que esse princípio era professado pelos Druidas, aos quais, certamente, nós não ensinamos. […] Assim, nós ACEITAMOS esse dogma e não o INVENTAMOS, o que é muito diferente.” (Kardec, RE dez/1862, “Charles Fourier, Louis Jourdain e a reencarnação”)

A carta ao Journal des Débats (RE ago/1862) é intervenção pública direta de Reynaud em favor das ideias espiritualistas em momento em que o materialismo médico-acadêmico avançava — marco da defesa pública por figura de prestígio universitário-político.

Posteriormente (após sua morte em 28/06/1863), Reynaud dá comunicações espontâneas em três contextos diferentes — Sociedade Espírita de Paris, reunião familiar em Paris, e Bordeaux — por intermédio de três médiuns diferentes e desconhecidos entre si, configurando caso de identidade cruzada por concordância (ver identidade-dos-espiritos). As comunicações entram em C&I, 2ª parte, cap. II (“Espíritos felizes”).

Situação no mundo espiritual (após 28/06/1863)

Feliz, com perturbação praticamente inexistente. Declarou-se “exilado voluntário” na Terra, onde lançara a primeira semente séria das grandes verdades espíritas. Sempre teve consciência da pátria espiritual e se reconheceu depressa entre os seus:

“Passei das sombras da matéria à aurora resplandecente que anuncia o Onipotente. Estou salvo, não pelo mérito de minhas obras, mas pelo conhecimento do princípio eterno.” (C&I, 2ª parte, cap. II, “Jean Reynaud”)

Descreveu o despertar como uma admiração imensa diante dos esplendores celestes, com a confirmação de tudo o que afirmara em vida sobre a pluralidade dos mundos e a marcha progressiva da alma.

Lições principais

  1. A prática vale mais que a profissão de fé. Reynaud distinguiu entre professar e praticar o Espiritismo: “Eu praticava e não professava. (…) Todo homem que crê em sua alma imortal, nas suas reexistências, na sua marcha progressiva incessante (…) pode ser espírita” (C&I, 2ª parte, cap. II).
  2. A morte a serviço da causa espírita. Sua morte prematura não foi inútil: reavivou a atenção dos letrados para sua obra capital, trazendo-os de volta à questão espírita que afetavam desconhecer.
  3. A erraticidade como estágio de purificação. Comparou o estado intermediário entre encarnações a um momento em que o Espírito culpado se despoja de roupas maculadas e o em progresso “tece com cuidado a veste que vai usar de novo”.

Obras associadas

  • Terre et Ciel (1854) — obra principal; defesa intuicionista da pluralidade das existências e dos mundos; antecedente direto da reencarnação espírita; condenada e posta no Index pela cúria de Roma.
  • Encyclopédie Nouvelle (com Pierre Leroux, 1836–1843) — obra colaborativa, ficou inacabada.
  • Essai sur la doctrine du progrès continu (publicado na Revue Encyclopédique, dirigida com Pierre Leroux e Hippolyte Carnot).
  • “Infinité des Cieux” — germe filosófico de Terre et Ciel.

Páginas relacionadas

Fontes

  • KARDEC, Allan. “Carta do Sr. Jean Reynaud ao Journal des Débats”. Revista Espírita, agosto de 1862.
  • KARDEC, Allan. “Charles Fourier, Louis Jourdain e a reencarnação”. Revista Espírita, dezembro de 1862.
  • KARDEC, Allan. “Jean Reynaud e os precursores do Espiritismo”. Revista Espírita, agosto de 1863.
  • Kardec, Allan. O Céu e o Inferno. 2ª parte, cap. II, “Jean Reynaud”. FEB.
  • REYNAUD, Jean. Terre et Ciel. Paris: Furne, 1854.
  • Edição local integral: 1862, 1863.