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No Mundo Maior
Dados bibliográficos
- Autor espiritual: André Luiz
- Médium: Francisco Cândido Xavier (Chico Xavier)
- Primeira edição: 1947
- Editora: FEB
- Gênero: romance-relatório do plano espiritual (5º livro da série André Luiz)
- Texto integral: no-mundo-maior
Contexto na série
Quinto volume da série, situado entre obreiros-da-vida-eterna (1946) e Libertação (1949). Diferentemente dos volumes anteriores — que percorrem topografia (Nosso Lar), serviço de socorro (Os Mensageiros, Obreiros) ou fenomenologia mediúnica (Missionários da Luz) —, No Mundo Maior é monograficamente dedicado à psiquiatria espírita: uma semana de aprendizado de André Luiz como aluno do Assistente Calderaro, especialista no que ele próprio chama “psiquiatria iluminada”. A obra introduz três figuras orientadoras novas — Calderaro, Eusébio e Cipriana — e formaliza, no diálogo entre o narrador e seu mentor, o modelo doutrinário do cérebro em três andares (subconsciente, consciente, superconsciente) que articula a antropologia perispiritual de André Luiz aos quadros clínicos da loucura, do alcoolismo, da epilepsia, da obsessão e do desequilíbrio sexual.
Estrutura
Vinte capítulos numerados, mais dois capítulos de abertura sem número (“Apelo cristão” e “Na jornada evolutiva” — este último com transcrição parcialmente corrompida em raw/). A numeração salta do 14 para o 16 (cap. 15 ausente).
| Bloco | Caps. | Arco narrativo |
|---|---|---|
| Abertura | s/n | ”Apelo cristão” — preleção do Instrutor Eusébio a cristãos católicos e protestantes sobre o sectarismo como traição à essência do Evangelho · “Na jornada evolutiva” (corrompido) |
| I — Encontro e fundamentos | 1–4 | André pede a Calderaro uma semana de adestramento em “psiquiatria iluminada” (cap. 1) · 2ª preleção de Eusébio (cap. 2) · introdução à casa mental: cérebro em três andares (cap. 3) · estudo do cérebro intoxicado em duplo encarnado/desencarnado (cap. 4) |
| II — Casos clínicos progressivos | 5–10 | ”O poder do amor”: Cipriana redime Pedro (uxoricida) e Camilo (vítima obsessora) (cap. 5) · Cândida desencarnando deixa filha (cap. 6) · processo redentor (cap. 7) · Marcelo: epilepsia como reflexo condicionado perispiritual (cap. 8) · mediunidade contra o “Cérbero animista” (cap. 9) · dolorosa perda (cap. 10) |
| III — Sexo e psicoses | 11–14 | Preleção sobre sexo: Freud, Adler, Jung à luz do reencarnacionismo (cap. 11) · estranha enfermidade (cap. 12) · psicose afetiva (cap. 13) · caso Antídio: alcoolismo, vampirismo dipsomaníaco e nevrose cardíaca induzida (cap. 14) |
| IV — Alienação e cavernas | 16–20 | Visita ao hospício terrestre: marquesa fantasma, esquizofrênico hipnotizado por antigas vítimas (cap. 16) · expedição com Cipriana ao Baixo Umbral: uxoricidas, avarentos abraçados a punhados de lama (cap. 17) · reencontro com o avô Cláudio (cap. 18) · visita à reencarnada Ismênia em Bangu (cap. 19) · “Lar de Cipriana”, instituto regenerativo nas zonas inferiores (cap. 20) |
Personagens centrais
- André Luiz — narrador, em semana de adestramento. Pede a Calderaro uma turma “de improviso” para aprender psiquiatria espírita; sai do volume sem teoria pronta mas com a constatação de que “para conseguir a sabedoria com proveito, era indispensável adquirir amor” (cap. 20).
- Calderaro — Assistente, orientador-chefe. “Especializara-se na ciência do socorro espiritual, naquela que, entre os estudiosos do mundo, poderíamos chamar ‘psiquiatria iluminada’” (cap. 1). Atua diretamente na Crosta. Página própria: calderaro.
- Eusébio — Instrutor superior, dirige organização socorrista intermediária para “almas situadas entre as Esferas inferiores e as superiores” (cap. 1). Aparece nos capítulos iniciais com a preleção sobre o sectarismo cristão. Página própria: eusebio.
- Cipriana — diretora dos serviços de socorro às cavernas; idealizadora do “Lar de Cipriana” (cap. 20), instituto regenerativo nas zonas inferiores. Conduz pessoalmente os capítulos 5, 17–20. Página própria: cipriana.
Personagens secundários sem página própria (mencionados em prosa na obra):
- Pedro (cap. 5) — homem de meia-idade, uxoricida há vinte anos; doença cardíaca como retificação. Esposa, filhos pequenos (Guilherme, Neneco, Celita, Marquinhos).
- Camilo (cap. 5) — vítima de Pedro, transformada em verdugo persistente por vingança; redimido por Cipriana.
- Cândida (cap. 6) — mulher prematuramente envelhecida, prestes a desencarnar; deixará filha pequena na Crosta.
- Marcelo (cap. 8) — jovem encarnado de família espírita; “epileptóide” cuja crise é reflexo condicionado perispiritual da convivência prévia com inimigos no Umbral, agora reencarnado para resgate.
- Eulália (cap. 9) — médium em formação; auxiliada por médico desencarnado anônimo cuja comunicação é taxada de “mistificação inconsciente” pelos companheiros animistas.
- Antídio (cap. 14) — pai de família alcoolizado, vampirizado por quatro entidades dipsomaníacas; recebe nevrose cardíaca induzida por Calderaro como medida salvadora.
- Cláudio (caps. 18, 20) — avô paterno de André Luiz, usurário em vida; preso na ilusão dos punhados de lama-ouro nas cavernas; resgatado pela intervenção do neto e da irmã reencarnada Ismênia.
- Ismênia (cap. 19) — outrora irmã de Cláudio, expulsa de casa pelo irmão avarento; agora reencarnada em humilde lar de Bangu, noiva do pedreiro Nicanor; promete acolher Cláudio reencarnado como filho.
- Cecília (cap. 10) — caso de “dolorosa perda” mencionado.
- Mensageiro anônimo (cap. 11) — preletor convidado sobre sexologia.
Eixos doutrinários
O trio diagnóstico de Calderaro (cap. 3)
A primeira lição metodológica de Calderaro reformula a moral espírita em chave clínica:
“Para transformar-nos em legítimos elementos de auxílio aos Espíritos sofredores, desencarnados ou não, é-nos imprescindível compreender a perversidade como loucura, a revolta como ignorância e o desespero como enfermidade.” (Calderaro, cap. 3)
E acrescenta a fonte: “Estas definições, em verdade, não são minhas. Aprendemo-las do Cristo, em seu trato divino com a nossa posição de inferioridade.” A formulação articula três categorias morais (perversidade, revolta, desespero) a três categorias terapêuticas (loucura, ignorância, enfermidade), invertendo o regime de juízo: o desviado não é réu, é paciente. Princípio operativo para toda a desobsessão e para toda assistência fraterna.
A casa mental: o cérebro em três andares (caps. 3–4)
Núcleo doutrinário do volume e contribuição mais original de André Luiz à psicologia espírita pré-1958. O cérebro humano divide-se em três regiões funcionais:
- Subconsciente — gânglios basais e medula espinhal: “porão da individualidade, onde arquivamos todas as experiências e registamos os menores fatos da vida”; sede dos impulsos automáticos e da animalidade pretérita conquistada na evolução planetária.
- Consciente — córtex motor: “domicílio das conquistas atuais”, sede do esforço, da vontade e das energias motoras de manifestação no momento evolutivo presente.
- Superconsciente — lobos frontais: “casa das noções superiores”, “materiais de ordem sublime, que conquistaremos gradualmente, no esforço de ascensão, representando a parte mais nobre de nosso organismo divino em evolução”.
“Não podemos dizer que possuímos três cérebros simultaneamente. Temos apenas um que, porém, se divide em três regiões distintas. Tomemo-lo como se fora um castelo de três andares.” (Calderaro, cap. 3)
A loucura, neste modelo, é “rolar do terceiro andar para o primeiro”: “Espiritualmente, rolaram do terceiro andar, onde situamos as concepções superiores, e, entregando-se ao relaxamento da vontade, deixaram de acolher-se no segundo andar, sede do esforço próprio, perdendo valiosa oportunidade de reerguer-se; caíram, destarte, na esfera dos impulsos instintivos” (cap. 3). Conceito desenvolvido em página própria: casa-mental.
Cipriana e o poder do amor (cap. 5)
Pico narrativo do volume. Pedro, encarnado, sofre cardiopatia; vinte anos antes assassinou Camilo, hoje obsessor implacável. Calderaro reconhece os limites do conhecimento e convoca Cipriana, “missionária do bem” cuja oração faz “descer suave luz do alto sobre a fronte”. Os dois adversários a tomam por “Mãe Santíssima” — mas ela esclarece: “Sou simplesmente tua irmã na eternidade; todavia, também fui mãe na Terra”.
A redenção opera em dois movimentos: (i) a Pedro, Cipriana mostra que “a Lei cobra dobrados tributos àquele que se antepõe aos seus ditames”; (ii) a Camilo, ela desmonta o mito vitimário — “as vítimas inacessíveis ao perdão e ao entendimento soem ultrapassar a dureza e a maldade dos precitos”. Compartilha então sua própria biografia (“perdi meus sonhos, meu lar, meu esposo, meus filhos… a lepra acometeu minha carne…”) como prova de que o sofrimento é caminho, não argumento contra Deus. Calderaro arremata:
“O coração que ama está cheio de poder renovador. Certa feita, disse Jesus que existem demônios somente suscetíveis de regeneração ‘pelo jejum e pela prece’. Às vezes, André, como neste caso, o conhecimento não basta: há que ser o homem animado da força divina.” (Calderaro, cap. 5; cf. Mt 17:21)
Epilepsia como reflexo condicionado perispiritual: o caso Marcelo (cap. 8)
Marcelo é jovem encarnado de família espírita, com crises epilépticas desencadeadas pela mera reaproximação de antigos perseguidores. Calderaro aplica os reflexos condicionados de Pavlov ao quadro: as zonas motoras do cérebro são “região perispiritual em convalescença”; o contato com inimigos antigos despara emissões mentais de baixa frequência que invadem o córtex e desorganizam os centros corticais.
Princípio terapêutico: a cura não está nos hipnóticos (que “deslocam os males sem combater nas origens”) mas no refúgio na “residência dos princípios nobres” — a região mais alta da personalidade, pelo hábito da oração, do entendimento fraterno e da prática do bem. Marcelo é “médico de si mesmo, única fórmula em que o enfermo encontrará a própria cura” (cap. 8).
Mediunidade contra o “Cérbero animista” (cap. 9)
Calderaro recusa o uso inquisitorial da hipótese animista — “milhares de companheiros fogem ao trabalho, amedrontados, recuam ante os percalços da iniciação mediúnica, porque o animismo se converteu em Cérbero”. Reposicionamento em três pontos:
- Mediunidade tem evolução, campo, rota. “Nenhuma árvore nasce produzindo, e qualquer faculdade nobre requer burilamento” — exigir comunicações precisas de aprendizes é ignorar lições elementares da natureza.
- Contraste Moisés × Jesus. Moisés “compelido pelas expressões fenomênicas… defronta-se com figuras e vozes materializadas… sua doutrina, venerável embora, baseia-se no exclusivismo e no temor”; Jesus “mantém-se em permanente contato com o Pai, através da própria consciência, do próprio coração… a Boa-Nova é mensagem de confiança e de amor universal”. A mediunidade desejável é a de intuição pura.
- Aplicação dos reflexos condicionados. A mistificação inconsciente é fenômeno real — a mente do médium, sob certas evocações, pode interferir automaticamente; mas a tese animista deve ser elemento educativo, não Cérbero.
Caso Eulália ilustra o ponto: oito dos onze presentes recebem corretamente a emissão mental do médico desencarnado, cada qual em livre associação (uma rememora hospital, outro Vicente de Paulo, outro paisagem de enfermaria); três permanecem impermeáveis (duas se contristam por perder cinema, uma na lembrança das ocupações domésticas).
Sexo: diálogo com a psicanálise reencarnacionista (cap. 11)
Preleção do mensageiro autorizado num “centro de estudos” para colaboradores socorristas. Tese central: “no exame das causas da loucura, entre individualidades, sejam encarnadas, sejam ausentes da carne, a ignorância quanto à conduta sexual é dos fatores mais decisivos.”
A preleção articula:
- A sede do sexo não é o corpo, é a alma. “Feminilidade e masculinidade constituem característicos das almas acentuadamente passivas ou francamente ativas” — desdobramento de LE q. 200–201.
- Continuum animal-humano-anjo do impulso criador. Vegetal heliotrópico, pirilampo, batráquio, fera materna — “todos os seres que conhecemos, do verme ao anjo, são herdeiros da Divindade que nos confere a existência, e todos somos depositários de faculdades criadoras.”
- Tipologia tripartite mapeada sobre a casa mental: maioria fixada nos impulsos sexuais (1º andar = freudianos); grande parte na cobiça de poder (2º andar vaidoso = adlerianos); pequeno grupo na superconsciência candidato à angelitude (3º andar = junguianos).
- Diálogo com Freud, Adler e Jung. Única passagem chicoxaveriana que nomeia explicitamente as três escolas e as crítica simultaneamente: “Representam belas e preciosas casas dos princípios científicos, sem, contudo, o telhado da lógica” — falta-lhes “a chave da reencarnação” para solucionar integralmente as questões da alma.
- Antecipação 1947 sobre identidade sexual × biotecnologia: “A genética poderá interferir nas câmaras secretas da vida humana, perturbando a harmonia dos cromossomos, no sentido de impor o sexo ao embrião; todavia, não atingirá a zona mais alta da mente feminina ou masculina, que manterá característicos próprios, independentemente da forma exterior ou das convenções estatuídas.”
- Sexo e Jesus. “Jesus não partilhou o matrimônio normal na Terra, e, no entanto, a família de seu coração cresce com os dias; suas energias fecundantes renovaram a civilização” — antecipação em 23 anos do tratamento de Emmanuel em vida-e-sexo.
Material articulado em energia-sexual e sexualidade-em-andre-luiz.
Vampirismo do vício: o caso Antídio (cap. 14)
Antídio é pai de família alcoolizado, vampirizado por quatro entidades dipsomaníacas que se revezam absorvendo emanações alcoólicas pela “estrada gástrica” — “apossavam-se particularmente da ‘estrada gástrica’, inalando a bebida a volatilizar-se da cárdia ao piloro”. A cena simbólica:
“A cena infundia angústia e assombro. Estaríamos diante de um homem embriagado ou de uma taça viva, cujo conteúdo sorviam gênios satânicos do vício?” (cap. 14)
Diante da reincidência após melhoras, Calderaro propõe medida drástica: aplica passes que provocam parada cardíaca controlada e nevrose cardíaca persistente. A medida tira Antídio do bar e o prende ao leito por meses, evitando o hospício. Princípio doutrinário:
“As mesmas Forças Divinas que concedem ao homem a brisa cariciosa, infligem-lhe a tempestade devastadora… Uma e outra, porém, são elementos indispensáveis à glória da vida.” (Calderaro, cap. 14)
Material para vampirismo-espiritual e obsessao.
Alienação mental: a “descida da alma” (cap. 16)
Visita ao manicômio terrestre como prelúdio à excursão às cavernas. Calderaro define a loucura:
“Excetuados os casos puramente orgânicos, o louco é alguém que procurou forçar a libertação do aprendizado terrestre, por indisciplina ou ignorância. Temos neste domínio um gênero de suicídio habilmente dissimulado, a autoeliminação da harmonia mental, pela inconformação da alma nos quadros de luta que a existência humana apresenta.” (Calderaro, cap. 16)
E quantifica: “Quase podemos afirmar que noventa em cem dos casos de loucura, excetuados aqueles que se originam da incursão microbiana sobre a matéria cinzenta, começam nas consequências das faltas graves que praticamos, com a impaciência ou com a tristeza.” Casos visitados: a marquesa fantasma agarrada à existência anterior; o esquizofrênico autômato sob “guante” de mulheres outrora seduzidas que agora exercem hipnotismo vingativo; os velhinhos atoleimados em senilidade-criança.
Articulação com suicidio: a alienação mental como suicídio dissimulado.
Cavernas de sofrimento: o Baixo Umbral (caps. 17–19)
Expedição liderada por Cipriana. André Luiz e Calderaro permanecem no “limiar” — Cipriana barra a descida total (“Nosso estimado André não tem o curso de assistência aos sofredores nas sombras espessas”). Fauna purgatorial mapeada:
- Loucos coletivos atraídos por afinidade quase perfeita, contidos por leis vibratórias.
- Uxoricidas ainda planejando vingança póstuma contra as vítimas.
- Avarentos abraçados a punhados de lama acreditando ser ouro: “Antigos negociantes terrenos, cujo exclusivo anseio foi amontoar dinheiro… fundindo com o ouro a mente vigorosa e o tacanho coração… voam pesadamente aqui e acolá, dementados e confundidos, procurando monopólios e lucros que não mais encontrarão” (cap. 17).
No grupo dos avarentos, Cláudio — avô paterno de André Luiz — é reconhecido. A redenção opera por (i) magnetização dos olhos para que enxergue a luz, (ii) confronto com a verdade (“a morte vos arrebatou a alma do domicílio carnal, vai para mais de quarenta anos”), (iii) convocação da irmã Ismênia (hoje reencarnada como noiva pobre em Bangu) que aceita ser sua mãe na próxima reencarnação.
O Lar de Cipriana: instituição regenerativa autogerida (cap. 20)
Cipriana fundou nas próprias zonas inferiores uma “verdadeira oficina de restauração do espírito”. Característica singular:
- Auto-gestão pelos beneficiários: “A organização funciona, sob a vigilância dos próprios companheiros que vão melhorando.”
- Trânsito, não residência: “Educandário de trânsito… antigos expoentes do orgulho que entre os homens se engrimponavam na vaidade e no crime… são recolhidos a esta casa, onde reorganizam sentimentos e cabedais, a caminho do porvir.”
- Saída dos sofredores em reencarnação retificadora: “Daqui, como de outras instituições do mesmo gênero, localizadas em plenas regiões expiatórias, saem inúmeras reencarnações retificadoras.”
Modelo institucional que dialoga com a Casa Transitória de Fabiano em obreiros-da-vida-eterna (cap. 4): ambas são instituições intermediárias entre colônia estável e abismo, mas com regimes distintos — a Casa Transitória é móvel, missionária em expedição; o Lar de Cipriana é fixo, com diretora-mãe e autogestão.
Conceitos tratados
- casa-mental — cérebro em três andares (caps. 3–4) — conceito introduzido pelo livro
- obsessao — caso Antídio (vampirismo dipsomaníaco, cap. 14); obsessores hipnotistas no esquizofrênico (cap. 16); Camilo perseguindo Pedro (cap. 5)
- vampirismo-espiritual — quatro entidades absorvendo emanações alcoólicas pela estrada gástrica (cap. 14); vampirismo emocional na sala de baile (cap. 14)
- suicidio — alienação mental como “suicídio habilmente dissimulado” (cap. 16); Cândida deixando filha (cap. 6)
- mediunidade — Cérbero animista, contraste Moisés × Jesus, intuição pura (cap. 9)
- energia-sexual — preleção sobre sexo, diálogo com Freud/Adler/Jung (cap. 11)
- perispirito — cérebro perispiritual e cérebro físico justapostos (caps. 3–4); reflexos condicionados perispirituais (cap. 8)
- umbral — caverna purgatorial, baixo Umbral (caps. 17–19)
- colonia-espiritual — Lar de Cipriana como instituição regenerativa nas zonas inferiores (cap. 20)
- reencarnacao — Cláudio rumo à reencarnação retificadora pelo concurso de Ismênia (caps. 19–20); Marcelo reencarnado para resgate (cap. 8)
- prece — oração de Cipriana como canal de poder transformador (cap. 5)
Personalidades citadas
- andre-luiz — narrador
- chico-xavier — médium psicógrafo
- calderaro — Assistente, orientador-chefe (todos os capítulos)
- eusebio — Instrutor superior (caps. de abertura, 1, 2)
- cipriana — diretora das expedições às cavernas e do Lar de Cipriana (caps. 5, 17–20)
Personagens narrativos sem página própria (mencionados em prosa): Pedro (uxoricida, cap. 5), Camilo (vítima obsessora, cap. 5), Cândida (cap. 6), Marcelo (epileptóide, cap. 8), Eulália (médium em formação, cap. 9), Antídio (alcoólatra, cap. 14), Cláudio (avô avarento, caps. 18, 20), Ismênia (irmã reencarnada de Cláudio, cap. 19), Nicanor (noivo pedreiro de Ismênia, cap. 19), Cecília (cap. 10).
Personalidades históricas citadas: Ivan Pavlov (reflexos condicionados, caps. 8, 9), Sigmund Freud, Alfred Adler, Carl Gustav Jung (cap. 11 — “três escolas” da psicologia analítica avaliadas como portadoras “de certa dose de razão” mas sem “a chave da reencarnação”), Paul Broca, Wagner-Jauregg (cap. 3), Franz Mesmer, Jean-Martin Charcot, Philippe Pinel (cap. 8), Dante Alighieri (“selva escura”, cap. 17), Bartolomé Esteban Murillo (“madona de Murilo”, cap. 5).
Citações de Pentateuco e Evangelho mobilizadas
- Mt 5:44 / Lc 6:35 (Apelo cristão) — “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (Eusébio, paráfrase do amor universal contra o sectarismo).
- Mt 12:31 — alusão ao “espírito sectário” como pecado contra a unidade do Reino (Eusébio).
- Lc 23:34 (Apelo cristão) — silêncio de Jesus diante do populacho exaltado em Jerusalém (Eusébio).
- Gn 4:9 (cap. 5) — “Caim, que fizeste de teu irmão?” (Cipriana a Pedro).
- Mt 7:1 (cap. 5) — “quem se sentirá suficientemente puro… para atirar a primeira pedra” (Cipriana, paráfrase de Jo 8:7).
- Jó 1:21 (cap. 5) — “O Senhor mos deu, o Senhor mos retomou” (Cipriana sobre a perda dos filhos).
- Mt 17:21 (cap. 5) — “esta casta não se expulsa senão pelo jejum e pela prece” (Calderaro a André).
- Jo 5:14 / Jo 8:11 (cap. 8) — “para que te não suceda coisa pior” (Calderaro a Marcelo).
Divergências com Kardec
Nenhuma identificada. As elaborações originais — casa mental tripartite, reflexos condicionados aplicados ao perispírito, doutrina da loucura como suicídio dissimulado, tipologia sexual freudo-adlero-jungiana — são desdobramentos coerentes com:
- LE q. 459–471 (obsessão, subjugação, fascinação) — caso Antídio e o quadro de perseguição em Marcelo aplicam a doutrina kardequiana da subjugação fluídica.
- LE q. 200–201 (sexo como atributo da forma, não do Espírito) — base direta da tipologia “ativo/passivo” da preleção sobre sexo (cap. 11).
- LE q. 943–957 (suicídio) — a alienação mental como “suicídio habilmente dissimulado” (cap. 16) aplica a doutrina espírita do suicídio inconsciente, já presente em nosso-lar.
- ESE cap. V (sofrimentos voluntários e impostos) — quadro narrativo de Pedro e Camilo (cap. 5).
- ESE cap. XXII (não separar o que Deus ajuntou) — base do conservadorismo matrimonial implícito na preleção sobre sexo.
- C&I 2ª parte cap. V (penas e gozos futuros) — descrição das cavernas como estado interno objetivado.
A “casa mental” não tem antecedente direto em Kardec mas não conflita com a topologia perispiritual do Pentateuco; é desenvolvimento original dentro do espaço deixado em LM, 2ª parte, cap. VIII (perispírito como instrumento da alma).
Páginas relacionadas
- nosso-lar — 1º livro da série; suicídio inconsciente como ponto de origem da topografia espiritual
- missionarios-da-luz — 3º livro; mediunidade fenomenológica que aqui ganha contraponto teórico (cap. 9)
- obreiros-da-vida-eterna — 4º livro; Casa Transitória de Fabiano como contraponto institucional ao Lar de Cipriana
- evolucao-em-dois-mundos — tratado de 1958 que sistematiza centros vitais e fluídica já operantes aqui
- vida-e-sexo — Emmanuel/Chico (1970) que retoma e aprofunda o cap. 11 desta obra
- andre-luiz · chico-xavier
- calderaro · eusebio · cipriana
- casa-mental · obsessao · vampirismo-espiritual · mediunidade · energia-sexual
Fontes
- XAVIER, Francisco Cândido (André Luiz). No Mundo Maior. Rio de Janeiro: FEB, 1947. 20 capítulos numerados (faltando o 15) e dois capítulos de abertura sem numeração. Edição: no-mundo-maior.
- Disponível em: https://bibliadocaminho.com/ocaminho/TX/Nmm/Nmm15.htm