Sr. Jobard
Identificação
Jean-Baptiste-Ambroise-Marcellin Jobard (1792–1861), diretor do Museu da Indústria de Bruxelas. Nascido em Baissey (Haute-Marne, França). Morreu em Bruxelas de ataque de apoplexia fulminante em 27 de outubro de 1861, aos sessenta e nove anos. Era presidente honorário da Sociedade Espírita de Paris e, em vida, membro correspondente ativo da SPEE em Bruxelas. Inventor (litografia industrial, plantas de gás de iluminação) e publicista; um dos espíritas mais visíveis da Bélgica em meados do séc. XIX. Manifestou-se espontaneamente em 8 de novembro de 1861, antecipando a evocação que a Sociedade pretendia fazer.
Papel em vida — Teoria da Incrustação Planetária (RE abr/1860)
Em abril de 1860, ainda em vida, Jobard envia a Kardec uma carta longa propondo uma cosmologia espírita segundo a qual a Terra atual teria sido formada pela fusão de quatro corpos planetários menores (designados Ásia, África, Europa, América), cada um trazendo sua raça humana, fauna e flora pré-formadas — “só a Lua persistiu em sua autonomia, porque os globos também possuem o livre-arbítrio”. A carta é publicada em revista-espirita-1860 sob o título “Formação da Terra — Teoria da incrustação planetária”, com resposta-comentário longa de Kardec que rejeita a doutrina.
A resposta de Kardec usa a teoria de Jobard como caso-modelo do princípio metodológico mais explícito da codificação sobre os limites da autoridade dos Espíritos em matéria científica:
“Fora da moral, que não pode ter duas interpretações, não devem ser aceitas teorias científicas dos Espíritos, senão com muitas reservas, porque, uma vez mais, não estão encarregados de nos trazer a Ciência acabada.” (Kardec, RE abr/1860)
A relação entre Jobard e Kardec não foi prejudicada pelo episódio. Em out/1860 (RE) Jobard publica artigo “Sobre o valor das comunicações espíritas” sobre tema correlato; em 1861 é nomeado presidente honorário da SPEE. A divergência específica sobre a incrustação é tratada como debate intelectual interno, não como rompimento. Ver incrustacao-planetaria para tratamento doutrinário do conceito.
Situação no mundo espiritual (após 27/10/1861)
Feliz, embora reconheça não ser um “eleito” e precisar ainda aprender muito. Descreveu o momento da separação com vivacidade: toda a vida lhe veio à memória, sentiu o piedoso desejo de alcançar as regiões reveladas pela crença espírita, e experimentou a embriaguez de se ver livre do peso do corpo:
“Ah! meus caros amigos, que inebriante é tirar o peso do corpo! Que inebriante abarcar o espaço!” (C&I, 2ª parte, cap. II, “Sr. Jobard”)
Recordava-se de suas existências anteriores, inclusive de ter sido operário mecânico em sua penúltima encarnação, cujos sonhos realizou como Jobard. Após os primeiros tempos, obteve lugar reservado entre os Espíritos que trabalham ativamente na renovação social.
Lições principais
- Progresso gradual entre encarnações. Jobard ilustra como as aspirações de uma existência se realizam na seguinte — o pobre operário mecânico tornou-se o diretor de museu, cumprindo os sonhos anteriores (C&I, 2ª parte, cap. II, “Sr. Jobard”).
- Humildade diante do mundo espiritual. Mesmo feliz, reconheceu estar entre os que “devem ainda aprender muito”, demonstrando que a felicidade no além comporta graus e que o progresso é contínuo (C&I, 2ª parte, cap. II, “Sr. Jobard”).
- Identidade espiritual e usurpação de nome. Alertou sobre Espíritos que tomavam seu nome em evocações alheias, mostrando a importância do discernimento mediúnico (C&I, 2ª parte, cap. II, “Sr. Jobard”).
Necrologia em RE dez/1861
A necrologia escrita por Kardec em dezembro de 1861 registra explicitamente a abjuração de Jobard das suas próprias teorias errôneas (alma coletiva e incrustação planetária) ao serem-lhe demonstradas as falhas:
“Se me atrapalhei tanto no dédalo dos sistemas filosóficos, é que me faltava uma bússola. Eu só encontrava caminhos sem saída e que não me levavam a nada. Nenhum me dava uma solução concludente dos mais importantes problemas. […] Ora! Essa chave está na reencarnação, que tudo explica de maneira tão lógica, tão conforme à justiça de Deus, que a gente diz naturalmente: Sim, é preciso que seja assim.” (Jobard a Kardec, citado em RE dez/1861)
A necrologia destaca que Jobard “foi um dos primeiros a abandonar [a teoria da alma coletiva] quando apareceu o Livro dos Espíritos” — caso-modelo do princípio kardequiano de que a abjuração de erros próprios é prova de bom-senso, não de fraqueza. As conversas pós-morte com seu Espírito iniciam imediatamente após 27/10/1861 e são publicadas a partir de jan/1862, alimentando o material que entra em C&I, 2ª parte, cap. II.
Continuação em 1862
A [[wiki/obras/revista-espirita-1862|Revista Espírita de 1862]] continua a tratativa do caso:
- Janeiro de 1862 — comunicações pós-morte detalhadas; texto que entra integralmente em C&I, 2ª parte, cap. II.
- Março de 1862 — “Subscrição para um monumento ao Sr. Jobard” — testemunho do reconhecimento institucional na SPEE e na rede correspondente belga.
Continuação em 1864
A [[wiki/obras/revista-espirita-1864|Revista Espírita de 1864]] traz duas aparições significativas do Espírito de Jobard:
- Sessão comemorativa do Dia dos Mortos (02/11/1864) — Jobard é nominalmente invocado por Kardec na alocução aos antigos colegas falecidos da SPEE, ao lado de Sanson, Costeau, Hobach e Poudra. “A Sociedade se rejubila por vos saber felizes. Ela se sente honrada por vos haver contado entre os seus membros e de vos contar agora entre os seus conselheiros do mundo invisível.” (RE dez/1864).
- “Jobard e os médiuns mercenários — Notável exemplo de concordância” (RE dez/1864) — uma sonâmbula apresenta comunicação atribuída a Jobard aconselhando outro médium a “cobrar as consultas dos ricos e dá-las gratuitamente aos pobres e aos operários”; a SPEE submete a comunicação ao escrutínio coletivo (princípio do controle universal) e verifica unanimemente a inautenticidade — o Espírito autêntico de Jobard rejeita a teoria da mediunidade mercenária. Caso-modelo do controle universal aplicado à fraude mediúnica de boa-fé; ver discernimento-dos-espiritos.
Páginas relacionadas
- ceu-e-inferno
- revista-espirita-1860 — fascículo de abril (Teoria da Incrustação Planetária); também out/1860 (“Sobre o valor das comunicações espíritas”).
- revista-espirita-1861 — necrologia em dez/1861; primeiras comunicações pós-morte iniciadas em nov/1861.
- incrustacao-planetaria — teoria proposta por Jobard em vida e rejeitada por Kardec.
- progresso-espiritual
- reencarnacao
- morte
- discernimento-dos-espiritos — caso Jobard como exemplo da metodologia de Kardec frente a teorias científicas dos Espíritos.
Fontes
- Kardec, Allan. O Céu e o Inferno. 2ª parte, cap. II, “Sr. Jobard”. FEB.
- Kardec, Allan. Revista Espírita, abr/1860, “Formação da Terra — Teoria da incrustação planetária”; out/1860, “Sobre o valor das comunicações espíritas (pelo Sr. Jobard)“. Edição local: 1860.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita, dezembro de 1861, “Necrologia — Morte do Sr. Jobard”. Edição local: 1861.