Princípio vital

Agente intermediário entre espírito e matéria, responsável pelo fenômeno da vida nos seres orgânicos. Não se confunde com o princípio inteligente: “as plantas vivem e não pensam: só têm vida orgânica” (LE, q. 71).

Ensino de Kardec

Natureza

O princípio vital tem origem na matéria universal modificada (LE, q. 64). Não é um elemento primitivo distinto, mas uma propriedade especial da matéria em certas condições: “É, para vós, um elemento, como o oxigênio e o hidrogênio, que, entretanto, não são elementos primitivos, pois que tudo isso deriva de um só princípio” (LE, q. 64).

Reside no fluido universal, chamado também fluido magnético ou fluido elétrico animalizado: “É o intermediário, o elo entre o espírito e a matéria” (LE, q. 65).

Universalidade

É um só para todos os seres orgânicos, “modificado segundo as espécies. É ele que lhes dá movimento e atividade e os distingue da matéria inerte” (LE, q. 66).

Vida e morte

A vitalidade só se desenvolve com o corpo — “esse agente sem a matéria não é a vida” (LE, q. 67). Morto o ser orgânico, “a matéria inerte se decompõe e vai formar novos organismos. O princípio vital volta à massa donde saiu” (LE, q. 70).

A quantidade de fluido vital varia entre espécies e indivíduos: “Alguns há que se acham por assim dizer saturados desse fluido, enquanto outros o possuem em quantidade apenas suficiente” (LE, q. 70, comentário). O fluido pode transmitir-se de um indivíduo a outro, prolongando a vida (LE, q. 70, comentário).

Três elementos do universo

Os três elementos gerais são: Deus, espírito e matéria (LE, q. 27). O princípio vital é uma modificação da matéria, não um quarto elemento. Kardec classifica os seres em três categorias (LE, q. 71, comentário):

  1. Seres inanimados — matéria sem vitalidade nem inteligência (corpos brutos).
  2. Seres animados não pensantes — matéria + vitalidade, sem inteligência (plantas).
  3. Seres animados pensantes — matéria + vitalidade + princípio inteligente (animais, homens).

Inteligência e instinto

A inteligência não é atributo do princípio vital (LE, q. 71). O instinto é “uma espécie de inteligência. É uma inteligência sem raciocínio” (LE, q. 73), e coexiste com a inteligência no homem sem diminuir: “o instinto existe sempre, mas o homem o despreza” (LE, q. 75).

Aprofundamento em A Gênese

O cap. X de A Gênese retoma o princípio vital e o situa na hierarquia fluídica:

  • O princípio vital é “uma das modificações do fluido cósmico, pela qual este se torne princípio de vida, como se torna luz, fogo, calor, eletricidade” (Gênese, cap. X, item 17). Ou seja, não é substância à parte, mas estado funcional do fluido-cosmico-universal.
  • A analogia elétrica é aprofundada: “Os corpos orgânicos seriam, então, verdadeiras pilhas elétricas, que funcionam enquanto os elementos dessas pilhas se acham em condições de produzir eletricidade: é a vida; que deixam de funcionar, quando tais condições desaparecem: é a morte” (Gênese, cap. X, item 19).
  • A Gênese reafirma a distinção entre princípio vital e princípio espiritual: “o elemento material e o elemento espiritual são os dois princípios constitutivos do universo” (Gênese, cap. XI, item 6). O vital pertence ao lado material; o inteligente, ao espiritual.

Aplicação prática

O conceito de princípio vital fundamenta a compreensão espírita da saúde e da cura magnética: o magnetismo restitui ao corpo o fluido vital que lhe falta (LE, q. 424, comentário). Também explica por que a vida orgânica não depende da inteligência, distinguindo o reino vegetal do animal.

Páginas relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Parte 1, cap. IV — “Do princípio vital”, q. 60–75.
  • Kardec, Allan. A Gênese, cap. X, itens 16–19; cap. XI, item 6. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.