Suicídio
Ato de abreviar voluntariamente a própria vida. Na doutrina espírita, é sempre uma falta — infração da lei de conservação — e nunca atinge o objetivo desejado, pois o Espírito não escapa ao sofrimento pela destruição do corpo.
Ensino de Kardec
Princípio geral
“A religião, a moral, todas as filosofias condenam o suicídio como contrário às leis da natureza” (LE, q. 957, comentário). A contribuição específica do Espiritismo é demonstrar, “pelo exemplo dos que sucumbiram, que o suicídio não somente é uma falta, por constituir infração de uma lei moral, mas também um ato estúpido, pois que nada ganha quem o pratica, antes o contrário é o que se dá” (LE, q. 957, comentário).
Consequências espirituais
As consequências são variáveis, mas uma é inevitável: “o desapontamento” (LE, q. 957). Depende das circunstâncias: “Não há penas determinadas e, em todos os casos, correspondem sempre às causas que o produziram” (LE, q. 957).
Efeitos comuns à morte violenta (LE, q. 957, comentário):
- Persistência do laço Espírito-corpo — mais tenaz, porque rompido na plenitude da força, prolongando a perturbação pós-morte.
- Repercussão do estado do corpo — “uma espécie de repercussão do estado do corpo no Espírito”, com sensação de angústia que pode perdurar pelo tempo que devia durar a vida interrompida.
- Ligação à matéria — dificuldade de se libertar para mundos melhores.
- Pesar da inutilidade — “a maior parte deles sofre o pesar de haver feito uma coisa inútil, pois que só decepções encontram.”
Material casuístico em RE 1862
O volume da Revista Espírita de 1862 traz três artigos articulados sobre suicídio, em julho:
- “Estatística de suicídios” — argumento sociológico: o suicídio cresce no séc. XIX em paralelo com o avanço do materialismo, prova de que a recusa da vida futura desespera o homem.
- “Hereditariedade moral” — refutação da tese materialista de hereditariedade do vício; tese alternativa: “Espíritos semelhantes se atraem” (comunicações de Erasto e São Luís); a aparência de hereditariedade moral é simpatia entre Espíritos afins, não transmissão biológica.
- “Duplo suicídio por amor e dever — Estudo moral” — caso casuístico de duplo suicídio passional, análise sob a luz da lei-de-causa-e-efeito.
Reunir-se aos entes queridos
Quem se mata na esperança de juntar-se a pessoa falecida “muito diferente do que espera é o resultado que colhe. Em vez de se reunirem ao que era objeto de suas afeições, dele se afastam por mais longo tempo” (LE, q. 956).
Casos atenuados
Não há culpabilidade “quando não há intenção ou consciência clara da prática do mal” (LE, q. 954). Mulheres que se imolam sobre o corpo dos maridos por preconceito cultural “encontram desculpa na nulidade moral que as caracteriza, na sua maioria, e na ignorância em que se acham” (LE, q. 955).
Sacrifício da vida
Há distinção entre suicídio e sacrifício: “quem arrisca a vida para salvar a de outro, ou por uma causa nobre, não comete suicídio” (LE, q. 953, paráfrase). A intenção é o critério decisivo.
Suicídio moral — abreviar a vida pelos excessos
Categoria distinta do suicídio voluntário direto. Quem perece vítima de paixões “que sabia lhe haviam de apressar o fim, porém a que já não podia resistir, por havê-las o hábito mudado em verdadeiras necessidades físicas” comete suicídio moral (LE, q. 952). Resposta dos Espíritos:
“É um suicídio moral. Não percebeis que, nesse caso, o homem é duplamente culpado? Há nele então falta de coragem e bestialidade, acrescidas do esquecimento de Deus.” (LE, q. 952)
Mais grave que o suicídio por desespero, segundo a sequência da própria questão (LE, q. 952, item a):
“É mais culpado, porque tem tempo de refletir sobre o seu suicídio. Naquele que o faz instantaneamente, há, muitas vezes, uma espécie de desvairamento, que alguma coisa tem da loucura. O outro será muito mais punido, visto que as penas são sempre proporcionais à consciência que o culpado tem das faltas que comete.”
É a base doutrinária para o que a literatura mediúnica posterior chama de “suicídio indireto” ou “suicídio inconsciente” (ver Desdobramentos abaixo). Não confundir com:
- Imprudência sem necessidade (LE, q. 954) — “não há culpabilidade quando não há intenção ou consciência clara da prática do mal”.
- Suicídio cultural por preconceito (LE, q. 955) — atenuado pela ignorância e pela “nulidade moral” das vítimas, na avaliação de Kardec.
No ESE
O cap. V do ESE retoma o tema do suicídio nos itens 14–16, abordando especificamente o suicídio e a loucura. Kardec reforça que o suicídio consiste em fugir das provas em vez de aceitá-las — e que essa fuga é ilusória, pois o Espírito reencontrará as mesmas dificuldades que procurou evitar. A resignação diante das provas é apresentada como o verdadeiro caminho: aceitar com coragem as tribulações é o meio de progredir, ao passo que abreviar a vida é retroceder na jornada (ESE, cap. V, itens 14–16).
Ver evangelho-segundo-o-espiritismo.
No C&I
A 2ª parte, cap. V de O Céu e o Inferno apresenta nove relatos de Espíritos suicidas evocados após a morte — a demonstração empírica mais extensa do Pentateuco sobre o tema. Os casos ilustram:
- Persistência do laço corpo-perispírito — o suicida da Samaritaine sente-se ainda preso ao corpo, experimentando as sensações da morte violenta (C&I, 2ª parte, cap. V).
- Agravamento pela responsabilidade sobre outros — uma mãe que se suicidou levando o filho consigo carrega culpa redobrada (C&I, 2ª parte, cap. V, “Uma mãe e seu filho”).
- Incredulidade agravante — um ateu que negava a vida futura encontra perturbação mais intensa por não compreender seu novo estado (C&I, 2ª parte, cap. V, “Um ateu”).
- Nenhuma circunstância justifica — miséria, tédio, paixão amorosa: em todos os casos o suicídio agrava a situação do Espírito.
Todos os relatos confirmam o princípio do LE: o suicídio não liberta, aprisiona. Ver as entidades individuais em ceu-e-inferno.
Suicídio moral em C&I. Os 9 casos do cap. V são todos suicídios voluntários diretos; nenhum é tipificado como suicídio moral da q. 952. A dinâmica de vida materializada que esse conceito pressupõe aparece, contudo, em dois Espíritos sofredores do cap. IV — embora Kardec não os classifique tecnicamente como suicidas:
- auguste-michel — “moço rico, estroina, gozando à larga e exclusivamente da vida material” (C&I, 2ª parte, cap. IV, “Auguste Michel”). A morte foi por acidente (queda de carro), não consequência médica direta dos excessos; o paralelo com o suicídio moral está na materialidade da existência e na perturbação prolongada que daí decorre.
- arrependimento-de-um-dissoluto — vida sacrificada “aos instintos brutais e aos gozos materiais” (C&I, 2ª parte, cap. IV). Causa da morte não especificada; o relato ilustra o que LE q. 952 chama de “bestialidade acrescida do esquecimento de Deus”.
Desdobramentos
O “suicida inconsciente” em Nosso Lar (André Luiz / Chico Xavier, 1944)
A primeira ilustração extensa de LE q. 952 na literatura mediúnica é o próprio narrador de Nosso Lar. Médico carioca recém-desencarnado, é classificado pelos benfeitores da colônia como suicida inconsciente — terminologia da casa para o suicídio moral kardeciano. Henrique de Luna, médico-chefe do parque hospitalar, ausculta-lhe o perispírito e reconstitui, a partir das marcas, a história moral do paciente: oclusão intestinal por sífilis, fígado e rins destruídos pelo descuido moral, anos de excessos. Veredicto:
“O organismo espiritual apresenta em si mesmo a história completa das ações praticadas no mundo.” (Nosso Lar, cap. 4)
“O suicídio é incontestável.” (Nosso Lar, cap. 4)
Não é suicídio voluntário — André Luiz não pretendera tirar a própria vida. Mas é “incontestável” enquanto categoria, porque encurtara a existência por excessos que sabia lesivos. A passagem articula três pontos doutrinários:
- O perispírito como registro físico do desgoverno moral. As marcas vibratórias justificam o diagnóstico — não basta a confissão; o corpo sutil testemunha objetivamente.
- Anos de sofrimento nas zonas inferiores antes do socorro. O protagonista só é resgatado por Clarêncio quando, em prece final, abandona a recusa da súplica (caps. 1–2). O “desapontamento” inevitável da q. 957 toma a forma concreta de errância no Umbral.
- Tratamento prolongado na colônia. Internação no parque hospitalar, oração coletiva da Governadoria, reeducação alimentar e moral (caps. 3–11). A reparação é processo, não anistia.
Não há divergência com Kardec: o suicida inconsciente de André Luiz é o suicida moral de LE q. 952, ilustrado num caso clínico extenso e articulado com a fenomenologia perispiritual. O que Nosso Lar acrescenta é o detalhamento clínico-narrativo do quadro — não doutrina nova.
Ver nosso-lar e perispirito.
A alienação mental como suicídio dissimulado [[obras/no-mundo-maior|(André Luiz / Chico Xavier, No Mundo Maior, 1947, cap. 16)]]
Três anos depois de Nosso Lar, André Luiz, na voz de Calderaro, estende a categoria do suicídio moral a um quadro que a psiquiatria do século XX classificava exclusivamente como patologia orgânica — a alienação mental:
“Excetuados os casos puramente orgânicos, o louco é alguém que procurou forçar a libertação do aprendizado terrestre, por indisciplina ou ignorância. Temos neste domínio um gênero de suicídio habilmente dissimulado, a autoeliminação da harmonia mental, pela inconformação da alma nos quadros de luta que a existência humana apresenta.” [[obras/no-mundo-maior|(Calderaro, No Mundo Maior, cap. 16)]]
A formulação articula três pontos:
- Quase metade da loucura é etiologicamente moral. “Quase podemos afirmar que noventa em cem dos casos de loucura, excetuados aqueles que se originam da incursão microbiana sobre a matéria cinzenta, começam nas consequências das faltas graves que praticamos, com a impaciência ou com a tristeza, isto é, por intermédio de atitudes mentais que imprimem deploráveis deflexões ao caminho daqueles que as acolhem e alimentam.” A “loucura química” (sífilis cerebral, infecções, lesão) é minoria; a maioria é fuga moral da prova retificadora.
- Cumulação inter-existencial. “Esta por vezes perdura, não só numa existência, mas em várias delas, até que o interessado se disponha, com fidelidade, a valer-se das bênçãos divinas.” A alienação herdada do berço é, em geral, sequela de descida mental cultivada em encarnações anteriores — coerente com a casuística de C&I cap. V (suicidas que reencarnam imperfeitos).
- Mapa anatômico — descida na “casa mental”. Cf. casa-mental: o suicídio dissimulado pela loucura é “rolar do terceiro andar” (superconsciente, lobos frontais) “para o primeiro” (subconsciente, gânglios basais), abandonando o esforço da vida atual. O quadro estende a doutrina de LE q. 952 (“falta de coragem e bestialidade, acrescidas do esquecimento de Deus”) ao território da psiquiatria.
Os casos visitados no manicômio terrestre exemplificam: a velha “marquesa” travada em fantasias de existência anterior, o esquizofrênico autômato sob hipnose vingativa de antigas vítimas, os velhinhos atoleimados que regrediram à infância pelo abandono do esforço espiritual. Em todos, “a alienação mental começa a ‘descida da alma às zonas inferiores da morte’” (cap. 16) — fórmula que articula loucura, suicídio moral e morte-espiritual.
Não há divergência com Kardec: o cap. 16 estende a casuística empírica de LE q. 952 e ESE cap. V para um quadro que Kardec não tratou clinicamente, mas para o qual a doutrina já estava preparada (LE q. 472 sobre alienação por causa moral). Ver no-mundo-maior.
À Luz do Consolador — não há “motivos nobres” para o suicídio (Yvonne Pereira)
Em O estranho mundo dos suicidas ([[wiki/obras/a-luz-do-consolador|À Luz do Consolador]]), Yvonne Pereira responde, a partir de cinco décadas de atendimento mediúnico a suicidas, à pergunta de um missivista: “um suicida por motivos nobres sofre os mesmos tormentos? Não haverá para ele uma misericórdia especial?“. Três pontos consolidam o ensino de Kardec sem dele divergir:
- Não há motivo nobre que justifique — diferente do sacrifício da vida por outrem (LE, q. 953), o que o suicida supõe “honroso ou nobre” pode ser “falso conceito, sofisma”; pode haver atenuantes pela sinceridade, “mas não justificativa ou isenção de responsabilidade”.
- Consequência é efeito natural, não castigo — os males “não decorrerão como castigo enviado por Deus ao infrator, mas como efeito natural de uma causa desarmonizada com as leis da vida e da morte”. Articula-se com LE q. 957 (penas sempre proporcionais às causas) e com a fenomenologia perispiritual (traumatismo da morte violenta).
- Misericórdia não é “especial” — estende-se sobre todos os suicidas sem predileção, no concurso dos bons Espíritos e na possibilidade de reabilitação por reencarnações futuras. O conselho dos próprios suicidas que se comunicam: suportar todos os males terrenos, porque “ainda será preferível ao que de melhor se possa atingir pelos desvios do suicídio”.
Aplicação prática
O tema é central em palestras espíritas sobre prevenção e acolhimento. A abordagem doutrinária combina firmeza (é uma falta) com compaixão (as consequências variam, Deus considera as circunstâncias). A certeza da vida futura e a possibilidade de comunicação com os desencarnados são apresentadas como consolação àqueles que sofrem perdas, desestimulando a ideia de “encurtar o caminho.”
Páginas relacionadas
- lei-de-conservacao — lei moral que o suicídio transgride
- morte — o processo natural de desencarnação
- penas-e-gozos-futuros — consequências morais pós-morte
- livre-arbitrio — responsabilidade pelas escolhas
- progresso-espiritual — a vida como oportunidade de avanço
- perispirito — registro físico do desgoverno moral, base do diagnóstico de suicídio inconsciente
- livro-dos-espiritos — Parte 4, cap. I (q. 952 = suicídio moral)
- ceu-e-inferno — 2ª parte, cap. V (9 relatos de suicidas) e cap. IV (paralelos materializados)
- nosso-lar — caso paradigmático do suicídio moral / suicida inconsciente (caps. 1–4)
- no-mundo-maior — alienação mental como suicídio dissimulado (cap. 16)
- casa-mental — modelo anatômico da descida moral
- morte-espiritual — paralelo doutrinário
Fontes
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Parte 4, cap. I — “Das penas e gozos terrestres”, q. 943–957 (q. 952 = suicídio moral); também Parte 3, cap. V — “Lei de conservação”, q. 702–727.
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. V, itens 14–16 — “Suicídio e loucura”. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Kardec, Allan. O Céu e o Inferno. 2ª parte, cap. V — “Suicidas”; cap. IV — “Auguste Michel” e “Arrependimento de um dissoluto”. FEB.
- Xavier, Francisco Cândido (André Luiz). Nosso Lar. Rio de Janeiro: FEB, 1944. Caps. 1–4 (suicida inconsciente; diagnóstico perispiritual). Edição: nosso-lar.
- Xavier, Francisco Cândido (André Luiz). No Mundo Maior. Rio de Janeiro: FEB, 1947. Cap. 16 (alienação mental como suicídio dissimulado). Edição: no-mundo-maior.
- PEREIRA, Yvonne do Amaral (Frederico Francisco). À Luz do Consolador. Rio de Janeiro: FEB, 1997 (O estranho mundo dos suicidas; Tormentos voluntários). Ver a-luz-do-consolador.