Revista Espírita — Ano de 1859
Segundo volume da Revue Spirite, redigido por allan-kardec entre janeiro e dezembro de 1859. 91 artigos em doze fascículos mensais. Ano de transição entre o volume fundador (1858) e a fixação do Pentateuco: introduz três conceitos doutrinários inéditos (ageneres, pneumatografia, mundos-intermediarios-ou-transitorios); abre a fase de polêmicas com a imprensa católica e materialista (refutações ao Abade Chesnel em L’Univers e a Oscar Comettant em Le Siècle); fixa a posição negativa de Kardec sobre o conceito de “milagre”; e capitaliza a primeira aparição doutrinária de figuras maiores — Plínio, o moço, Voltaire, Frederico II, Swedenborg, o diácono Pâris (Saint-Médard), Ida Pfeiffer. Em jul/1859 Kardec anuncia que renuncia à direção operacional da Sociedade Parisiense, em razão de “trabalhos mais consideráveis que não absorverão menos de dez anos” — alusão clara à preparação do Pentateuco.
“Os Espíritos elevados só ensinam boas coisas. Sua moral é a do Evangelho. Só pregam a união e a caridade e jamais enganam. […] Toda expressão trivial ou inconveniente, todo pensamento que choca a razão e o bom-senso, que denota orgulho, acrimônia ou malevolência emana necessariamente de um Espírito inferior.” — Kardec, RE, jan/1859, “A S. A. O Príncipe G.”
Dados bibliográficos
- Autor: allan-kardec
- Período de publicação: janeiro a dezembro de 1859 (12 fascículos mensais)
- Total de artigos: 91
- Editora original: Bureaux de la Revue Spirite, Paris
- Página-mãe: revista-espirita — visão de conjunto dos 12 volumes (1858–1869)
- Volume anterior: revista-espirita-1858
- Volume seguinte: revista-espirita-1860
- Texto integral: 1859
- Fonte original online: Kardecpédia — Revista Espírita 1859
- Nível na hierarquia de autoridade: 2 — Kardec complementar.
Posição no projeto editorial
Em 1859 a 1ª edição de O Livro dos Espíritos (18/04/1857) já havia tido dois anos de circulação; a 2ª edição definitiva sairia no ano seguinte (1860); O Livro dos Médiuns viria em 1861. O volume documenta o momento em que Kardec (a) absorve as objeções científicas e teológicas que a 1ª edição havia atraído, (b) refina conceitos depois fixados em LM (mediunidade, escolhos dos médiuns, processos para afastar os maus Espíritos), e (c) começa a sistematizar o método polêmico que adotará durante toda a década seguinte: devolver a categoria “milagre” como vocabulário inadequado, recusar o rótulo “religião nova”, ancorar o Espiritismo na observação científica e na razão.
Em jul/1859 Kardec publica também O Que é o Espiritismo (livro autônomo, ver o-que-e-o-espiritismo) — opúsculo introdutório de 75 páginas em diálogos. A Revista de 1859 menciona o lançamento e responde às primeiras objeções recebidas (RE, jul/1859, “Que é o Espiritismo — Por Allan Kardec”).
Marcos cronológicos
| Mês | Marcos do fascículo |
|---|---|
| Janeiro | ”A S. A. O Príncipe G.” (carta-programa em ~14 proposições fundamentais, dirigida ao Príncipe G. — provavelmente um dos Galitzin); “Adrien, médium vidente — II” (continuação do caso); ⭐ “O duende de Bayonne” (caso longo de manifestação física e aparição corpórea intermitente em família perto de Bayonne — base empírica da teoria dos agêneres em fevereiro); “Os anjos da guarda” (comunicação espontânea de São Luís e Santo Agostinho); “Aforismos espíritas”. |
| Fevereiro | ”Escolhos dos médiuns” (riscos da mediunidade — orgulho, fascinação, mercenarismo); ⭐ “Os agêneres” (definição do neologismo cunhado pela SPEE; 16 perguntas a São Luís; caso da velhinha de Saint-Roch dirigida pelo Espírito do filho falecido); “Meu amigo Hermann” (refutação de história fantástica do Journal des Débats sobre dupla existência simultânea — uma alma não pode animar dois corpos); “Espíritos barulhentos — Como livrar-se deles”; “Dissertação de além-túmulo — A infância”. |
| Março | ”Estudo sobre os médiuns” (aprofundamento das variedades); “Médiuns interesseiros” (denúncia ao mercenarismo); “Fenômeno de transfiguração”; ⭐ “Plínio, o moço” (evocação do escritor romano e suas respostas sobre os três casos de aparição da Carta a Sura, Liv. VII — primeira evocação de figura clássica greco-romana como autor consciente). |
| Abril | ”Quadro da vida espírita” (panorama do destino post-mortem para materialistas e crentes); “Fraudes espíritas”; “Problema moral — Os canibais” (instrução moral de São Luís: o canibal é menos culpado que o homem civilizado que pratica o mal sabendo que faz mal); “A indústria”; “Pensamentos poéticos”; “Sonâmbulos assalariados”. |
| Maio | ”Cenas da vida particular espírita”; “Música de além-túmulo”; ⭐ “Mundos intermediários ou transitórios” (categoria cosmológica nova: mundos-pousio estéreis para Espíritos errantes; comunicação de Santo Agostinho); “Ligação entre Espírito e corpo” (teoria do “cordão umbilical fluídico” entre encarnados); ⭐ “Refutação de um artigo de L’Univers” (resposta longa ao Abade Chesnel — Espiritismo é ciência, não religião); “O Livro dos Espíritos entre os selvagens” (carta de Lima sobre tribos peruanas). |
| Junho | ”O músculo que range”; “Intervenção da ciência no Espiritismo”; “Variedades” (incluindo discussão sobre Sociedade Espírita no século XVIII e Conde de Saint-Germain). |
| Julho | ⭐ “Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas” (relatório anual de Kardec — anúncio da renúncia à direção operacional); “Resposta à réplica do Abade Chesnel em L’Univers”; “Que é o Espiritismo — Por Allan Kardec” (anúncio do opúsculo recém-publicado). |
| Agosto | ”Mobiliário de além-túmulo” (Espíritos criando ambientação para si pelo perispírito); ⭐ “Pneumatografia ou escrita direta” (artigo doutrinário longo — fenômeno em que o Espírito escreve sem intermediário humano; casos de Fénelon em Saint-Germain l’Auxerrois e no Louvre; Guldenstubbé na Alemanha); “Um espírito serviçal” + “O guia da senhora Mally” (caso longo de Bordéus); ⭐ “Palestras familiares de além-túmulo — Voltaire e Frederico” (diálogo entre os dois Espíritos arrependidos, via dois médiuns simultâneos — sessão de 18/03/1859). |
| Setembro | ⭐ “Processos para afastar os maus Espíritos” (artigo doutrinário longo, com 14 critérios para discernir Espíritos imperfeitos pela linguagem — material que entrará intacto em LM, 2ª parte, cap. XXIV); ⭐ “Confissão de Voltaire” (extraída de obra do juiz Edmonds nos EUA — diálogo Voltaire × Wolsey traduzido do inglês); “As tempestades — Papel dos Espíritos nos fenômenos naturais”; “O lar de uma família espírita”. |
| Outubro | ⭐ “Os milagres” (recusa programática da categoria “milagre” para fenômenos espíritas, a propósito do opúsculo do Sr. Mathieu); “O magnetismo reconhecido pelo poder judiciário” (julgamento do Tribunal Correcional de Douai, 27/08/1859); “Médiuns inertes” (refutação ao Sr. Brasseur); ⭐ “Sociedade Espírita no século XVIII” (sobre Swedenborg, martinistas, teósofos como precursores); “As mesas volantes”. |
| Novembro | ”Devemos publicar tudo quanto os Espíritos dizem?” (regra editorial: não); “Médiuns sem o saber”; ⭐ “Urânia” (longo poema didático medianímico em alexandrinos sobre Deus, ateísmo, panteísmo, mundos felizes e mundos de expiação e provas — recebido em 30/09/1859); ⭐ “Swedenborg” (notícia biográfica e crítica doutrinária); ⭐ “Comunicação de Swedenborg” (evocação — o próprio Swedenborg retrata seus erros: “as penas não são eternas, bem o vejo”); “A alma errante” (sobre conto de Maxime Ducamp); ⭐ “Os convulsionários de Saint-Médard” (caso histórico do diácono François Pâris, 1731-1732 — evocado, atribui os fenômenos a “intriga e magnetismo”); “Observações a propósito do vocábulo milagre” (resposta à reclamação do Sr. Mathieu). |
| Dezembro | ⭐ “Resposta ao Sr. Oscar Comettant” (refutação ao folhetim de Le Siècle de 27/10/1859 — Kardec contrasta o Espiritismo ao materialismo via diálogo socrático); “Efeitos da prece”; “Um Espírito que não se acredita morto”; ⭐ “Doutrina da reencarnação entre os Hindus” (distinção crítica entre metempsicose hindu — regresso punitivo a corpos animais — e reencarnação espírita — progressão sem regresso); “O menino e o regato” e “Os três cegos” (parábolas medianímicas atribuídas a Basílio e Lucas); “Um antigo carreteiro” (caso de obsessão); “Os convulsionários de Saint-Médard” (continuação do tema). |
Linhas-de-força do volume
1. Três conceitos doutrinários inéditos no Pentateuco
(a) Agêneres (fev/1859). Neologismo cunhado pela Sociedade Parisiense para designar seres aparentemente humanos cujo “corpo” é perispírito momentaneamente solidificado, sem vida carnal. O termo deriva do grego a- (privativo) + génos (geração) — “que não é resultado de uma geração”. Distinguir de bicorporeidade (em que há um corpo carnal vivo num lugar e o perispírito tangível noutro): no agênere, não há corpo carnal vivo em lugar algum. Caso paradigmático no volume: a velhinha de Saint-Roch, que recebe na rua Santo Honorato a indicação de trabalho de um senhor cuja descrição corresponde exatamente ao retrato do filho falecido três anos antes daquela mãe (RE, fev/1859, “Os agêneres”). Em 16 perguntas a São Luís, Kardec firma: agêneres podem pertencer à categoria dos Espíritos superiores ou inferiores; não procriam (“Deus não o permitiria”); não têm necessidade real de alimento; podem desaparecer subitamente; “são fatos raros, de que há exemplos na Bíblia”.
(b) Pneumatografia ou escrita direta (ago/1859). Escrita produzida diretamente pelo Espírito, sem intermediário humano, com material que ele próprio cria a partir do “elemento primitivo universal”. Distinguir de psicografia (que requer médium escrevente). Casos no artigo: o general russo Conde de B… obtendo estrofe alemã em caracteres tipográficos sob pedestal de relógio, via irmã do Barão de Guldenstubbé; o sócio Sr. Didier obtendo “Por Fénelon” e “Sede humildes. Fénelon” em Notre-Dame des Victoires e em Saint-Germain l’Auxerrois (caso este último em que as letras são vistas sucessivamente — “Amai a Deus” — sob o boné de uma criança apoiado no pedestal da estátua de Luís XIV no Louvre, depositadas progressivamente). Análise microscópica de Kardec: substância “deposta em superfície […] formando arborescências muito semelhantes às de certas cristalizações”. Material que prepara o cap. XII de LM (1861).
(c) Mundos intermediários ou transitórios (mai/1859). Categoria cosmológica nova — mundos-pousio estéreis para Espíritos errantes em trânsito, “como aves de arribação pousando sobre uma ilha a fim de refazerem as suas forças”. Não habitados simultaneamente por seres corpóreos. A Terra, segundo Santo Agostinho, “já esteve nesse número, durante sua formação”. Material que articula a doutrina de erraticidade aos planos cosmológicos depois desenvolvidos em genese (1868).
2. Polêmica com imprensa católica — Abade Chesnel (mai/jul)
A polêmica com o Abade François Chesnel, em duas rodadas no jornal L’Univers (artigo do abade em 13/04/1859, refutação de Kardec em mai/1859, réplica do abade e tréplica de Kardec em jul/1859), é a primeira grande controvérsia pública do Espiritismo. Chesnel acusa o Espiritismo de constituir uma “religião nova” hostil à Igreja, com seu “culto” de evocações, sua liturgia (presidência por São Luís canonizado), sua hermenêutica do Evangelho (“o Espiritismo dará ao Evangelho a sã interpretação que lhe falta”) e duas “barreiras” rejeitadas: a autoridade da Igreja Católica e o dogma das penas eternas.
A resposta de Kardec firma os termos com que ele defenderá o Espiritismo durante toda a década:
“O Espiritismo se fundamenta em princípios gerais independentes de toda questão dogmática. […] Seu verdadeiro caráter é, pois, o de uma ciência e não de uma religião e a prova é que conta como adeptos homens de todas as crenças, os quais, nem por isso, renunciaram às suas convicções: católicos fervorosos, que praticam todos os deveres de seu culto; protestantes de todas as seitas; israelitas, muçulmanos e até budistas e bramanistas. Há de tudo, menos materialistas e ateus, porque essas ideias são incompatíveis com os princípios espíritas.” (RE, mai/1859, “Refutação de um artigo de L’Univers”)
A Sociedade Parisiense, lembra Kardec, “está classificada na categoria das sociedades científicas” e “seus estatutos proíbem tratar de questões religiosas”.
3. Polêmica com imprensa materialista — Oscar Comettant (dez)
Em 27/10/1859, Oscar Comettant (crítico musical de Le Siècle) publica folhetim irônico zombando da “fragmento de sonata ditada pelo Espírito de Mozart” comprado por 2 francos no editor Ledoyen. Kardec responde em dez/1859 com diálogo socrático imaginado: paralelo entre crer em Espíritos e crer em micróbios antes do microscópio; entre Espiritismo e materialismo (este último é “o verdadeiro flagelo, caso se propague — sanção do egoísmo, fim do laço social”). Argumento conclusivo, por anedota: o senhor que “não acreditava em Deus nem no diabo” pega o criado roubando — o criado lhe responde “por que haveria eu de crer, se vós também não credes?“. A polêmica firma a função social que Kardec atribui à doutrina: antídoto ao materialismo como dissolvente da moral pública.
4. Doutrina negativa do milagre (out/nov)
Em “Os milagres” (out/1859), a propósito do opúsculo Um Milagre do Sr. Mathieu sobre fatos de escrita direta, Kardec recusa programaticamente a categoria:
“O milagre, já o dissemos, é uma derrogação das leis da Natureza. […] O fenômeno da escrita direta, por mais extraordinário que seja, não derrogando absolutamente essas leis, não tem nenhum caráter miraculoso. O milagre não se explica; a escrita direta, ao contrário, explica-se da maneira mais racional. […] Tem o milagre ainda outro caráter: o de ser insólito e isolado. Ora, desde que um fato se repete, por assim dizer, à vontade e por intermédio de diversas pessoas, não pode ser milagre.” (RE, out/1859, “Os milagres”)
Em “Observações a propósito do vocábulo milagre” (nov/1859), Mathieu se retrata e Kardec esclarece que a crítica visava o emprego do vocábulo, não a opinião do autor. A formulação prepara intacta o tratamento do tema em genese (1868), caps. XIII–XV (“Os milagres”).
5. Quatro grandes evocações históricas (mar, ago, set, nov)
O ano produz quatro evocações que entram no cânone espírita pela substância doutrinária:
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Plínio, o moço (mar/1859) — o escritor romano (séc. I-II d.C.) é evocado e responde sobre os três casos de aparição que ele mesmo registrou na Carta a Sura (Liv. VII). Diagnóstico do século XIX: “Sabeis muito bem que este é um século do egoísmo e do dinheiro. Atualmente os homens são feitos de lama e se revestem de metal. Outrora havia sentimento, o estofo dos Antigos; hoje existe apenas a condição social.”
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Voltaire + Frederico II (ago/1859 + set/1859) — duas comunicações sucessivas. Voltaire arrependido reconhece em ago/1859: “Eu tinha a missão de dar um impulso a um povo na infância. Minhas obras são a consequência disso. […] Eu era orgulhoso; negava a divindade por orgulho, com o que sofri e do que me arrependo.” A “Confissão de Voltaire” extraída de obra do juiz Edmonds nos EUA (set/1859) confirma e amplia: “Descrente e vacilante, entrei no mundo espírita. […] Houve sempre em minha alma uma débil voz que se fazia ouvir através dos grilhões materiais e que pedia luz.” Modelo paradigmático do arrependimento e revisão de obra após o desencarne.
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Swedenborg (nov/1859) — Kardec o reconhece como médium vidente e escritor intuitivo notável, mas critica (a) a “doutrina das correspondências” (Terra=homem, ouro=bem, prata=verdade…) e (b) a doutrina dos três céus / três infernos com penas eternas. Evocado, o próprio Swedenborg retrata seus erros: “A minha moral espírita e a minha doutrina não estão isentas de grandes erros, que hoje reconheço. Assim, as penas não são eternas, bem o vejo. Deus é muito justo e muito bom para punir eternamente a criatura que não tem força suficiente para resistir às paixões.” Quanto à “doutrina das correspondências”, à pergunta direta: “Não. É uma ficção.”
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Diácono François Pâris (out e nov/1859) — caso histórico dos Convulsionários de Saint-Médard (Paris, 1731-1732) reanalisado à luz do Espiritismo. Em torno do túmulo do diácono jansenista (m. 1727) ocorreram fenômenos célebres: insensibilidade física, transmissão simpática de dores, glossolalia, leitura do pensamento, “grande socorro” (vítimas crucificadas voluntariamente). Pâris evocado responde em quatro palavras: “Intriga e magnetismo.” Kardec acrescenta: os crisíacos estavam “em estado de sonambulismo acordado, provocado pela influência que exerciam uns sobre os outros, inadvertidamente”; “muitos Espíritos participaram, em geral de natureza pouco elevada”.
6. Refinamento da doutrina dos médiuns
Três artigos longos refinam a teoria mediúnica iniciada em 1858:
- “Escolhos dos médiuns” (fev/1859) — riscos sistemáticos da mediunidade: orgulho, fascinação, mercenarismo, recusa de controle.
- “Estudo sobre os médiuns” + “Médiuns interesseiros” (mar/1859) — distinção de variedades; condenação do mercenarismo (ver mercantilizacao-da-mediunidade).
- “Médiuns inertes” (out/1859) — refutação ao Sr. Brasseur, diretor do Centro Industrial, que sustentava no Moniteur de la Toilette que o “médium principal” é o instrumento (cesta, prancheta), e a pessoa, acessória. Kardec responde: “O instrumento não é mais do que um apêndice da mão, do qual nos podemos privar. Isto é tão verdadeiro que toda pessoa que escreve por meio da prancheta pode fazê-lo diretamente com a mão, sem prancheta, e mesmo sem lápis […], ao passo que a prancheta não escreve sem uma pessoa.” O artigo enumera as variedades de médium reconhecidas: mecânico, intuitivo, inspirado, vidente, auditivo, impressionável, falante, de dupla vista. Material que entrará intacto em LM, 2ª parte, cap. XIV–XVIII.
E, em set/1859, “Processos para afastar os maus Espíritos” — artigo capital com 14 critérios para discernir Espíritos imperfeitos pela linguagem. A formulação entrará intacta em LM, 2ª parte, cap. XXIV (“Da identidade dos Espíritos”), item 267.
7. Renúncia de Kardec à direção operacional da SPEE (jul)
O relatório anual lido em jul/1859 contém o anúncio:
“Devo comunicar-vos a resolução que tomei de renunciar, para o futuro, a qualquer função na Sociedade, mesmo a de diretor de estudos. […] O motivo de minha decisão está na multiplicidade de meus trabalhos, que aumentam dia a dia, pela extensão de minhas relações e porque, além daqueles que conheceis, preparo outros trabalhos mais consideráveis, que exigem longos e laboriosos estudos e que não absorverão menos de dez anos.” (RE, jul/1859, “Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas”)
A alusão é diretamente ao projeto do Pentateuco: 2ª edição definitiva do LE (1860), LM (1861), ESE (1864), C&I (1865), Gênese (1868) — exatamente os “dez anos” anunciados. Ver allan-kardec.
8. Reencarnação hindu × espírita (dez)
“Doutrina da reencarnação entre os Hindus” (dez/1859) é o primeiro tratamento sistemático da diferença entre metempsicose e reencarnação espírita. Kardec extrai de Zimmermann (Diário de Viagem) e da Sra. Ida Pfeiffer:
“Assim, conforme os Hindus, as almas tinham sido criadas felizes e perfeitas, e sua falência resultou de uma rebelião. […] Conforme a Doutrina Espírita, as almas foram e são ainda criadas simples e ignorantes, e é pelas reencarnações sucessivas que chegam, graças a seus esforços e à misericórdia divina, à perfeição. […] A alma, que deve progredir, pode ficar estacionária durante um período mais ou menos longo, mas não retrograda. […] Eis por que não pode voltar a animar os seres inferiores à Humanidade.” (RE, dez/1859)
Princípio assentado: a metempsicose é regressiva e punitiva, a reencarnação é progressiva. Material que entrará em genese, cap. XI (“Gênese espiritual”).
A Sociedade Parisiense em 1859 — operação consolidada
Em janeiro/1859 a Sociedade muda da rue Sainte-Anne, 59, para a rue Montpensier, 12, no Palais-Royal, com sessões nas sextas-feiras às 8h da noite (RE, jan/1859, “Aviso”). Em julho, balanço anual: número de membros titulares triplicou; correspondentes nos dois continentes; “as mais altas notabilidades sociais” entre os ouvintes; restrição de admissão a sessões alternadas para preservar o trabalho. Kardec define a identidade institucional: “Antes de tudo, uma Sociedade de estudo e de pesquisas e não um veículo de propaganda.” A estrita aplicação do regulamento é considerada “freio” à curiosidade vã. Ver allan-kardec.
Comunicantes recorrentes
- sao-luis — orientador habitual; coautor (com Santo Agostinho) de “Os anjos da guarda” (jan); responde às 16 perguntas sobre agêneres (fev); dá comunicação espontânea sobre “Processos para afastar os maus Espíritos” (set); avalia os fenômenos de Saint-Médard (out).
- Santo Agostinho — coautor de “Os anjos da guarda” (jan); responde sobre os mundos intermediários (mai).
- voltaire + frederico-ii-da-prussia — diálogo simultâneo via dois médiuns na sessão de 18/03/1859, publicado em ago/1859.
- plinio-o-moco — responde a 13 perguntas sobre os três casos da Carta a Sura (sessão de 28/01/1859).
- swedenborg — comunicação prometida em sessão de 16/09/1859 e cumprida no fascículo de novembro.
- francois-paris — evocado a propósito dos convulsionários (out/1859).
- ida-pfeiffer — evocada por causa do caso de Java relatado em sua Segunda Viagem ao Redor do Mundo (dez/1859).
- Espírito do Duende de Bayonne — interrogado em sessão da SPEE; “fisionomia de menino de 10 a 12 anos, lábios irônicos, caráter leviano mas bondoso” (jan/1859).
- Pauline Roland — assina a notícia biográfica do diácono Pâris (out/1859) — estranha atribuição que Kardec não comenta.
- Basílio e Lucas — assinam as parábolas “O menino e o regato” e “Os três cegos” (dez/1859).
- Carlos IX — comunicação espontânea em dez/1859, expiação por reencarnação como escravo nas Américas: “há três séculos expio cruelmente o meu crime” (referência à noite de São Bartolomeu, 1572).
- Rembrandt — comunicação coletiva sobre a missão dos Espíritos (dez/1859).
Conceitos tratados
- Inéditos no volume: ageneres · pneumatografia · mundos-intermediarios-ou-transitorios
- Aprofundados: manifestacoes-espiritas · mediunidade · identidade-dos-espiritos · perispirito · erraticidade
- Reencarnação e progressão: reencarnacao · pluralidade-dos-mundos-habitados · lei-do-progresso
- Moral aplicada: anjos (anjos da guarda) · prece · mercantilizacao-da-mediunidade (médiuns interesseiros) · arrependimento (Voltaire, Frederico, Carlos IX)
Personalidades citadas
- allan-kardec — diretor; renúncia anunciada em jul/1859.
- sao-luis — orientador habitual.
- Santo Agostinho — comunicante, coautor de “Os anjos da guarda” e respondente sobre mundos intermediários (sem página própria por ora).
- plinio-o-moco — primeira evocação.
- voltaire — primeira evocação.
- frederico-ii-da-prussia — primeira evocação.
- swedenborg — primeira aparição doutrinária e evocação.
- francois-paris — primeira evocação.
- ida-pfeiffer — primeira evocação.
- Abade François Chesnel (interlocutor da polêmica em L’Univers) e Oscar Comettant (interlocutor em Le Siècle) — adversários, sem página própria.
- Sr. Adrien, Sra. Mally, Sr. Didier, Sra. Schutz — médiuns e testemunhas mencionados em casos de aparição/agênere/pneumatografia, sem página própria.
- Barão de Guldenstubbé — casos de pneumatografia, sem página própria.
Divergências
Nenhuma com o Pentateuco. A Revista é redigida pelo próprio codificador (nível 2 da hierarquia de autoridade). Quando uma posição da Revista parece divergir do Pentateuco posterior (LM 1861, ESE 1864, C&I 1865, Gênese 1868), em geral é versão anterior à fixação definitiva — a versão tardia prevalece.
A divergência interna identificada em 1859 — entre a metempsicose hindu (regresso punitivo a corpos animais) e a reencarnação espírita (progressão sem regresso) — não constitui divergência kardec×complementar; é tratada na linha-de-força 8 acima.
Fontes
- KARDEC, Allan. Revue Spirite — Journal d’Études Psychologiques, ano 1859. Paris: Bureaux de la Revue Spirite, 1859.
- Edição brasileira: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1859. Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: Edicel.
- Edição FEB: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1859. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
- Disponível online: Kardecpédia — Revista Espírita 1859.
- Edição local: 1859 (91 artigos integrais baixados da Kardecpédia).