Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos
Periódico mensal fundado e dirigido por Allan Kardec entre janeiro de 1858 e abril de 1869, totalizando doze volumes anuais. Registro vivo do desenvolvimento da Doutrina Espírita: relatos de fenômenos, comunicações mediúnicas, correspondência com leitores, refutações a críticos, artigos doutrinários, ensaios, polêmicas e crônicas. É a fonte mais rica para acompanhar como Kardec pensava cada questão em tempo real, antes que ela fosse cristalizada nas obras sistematizadas do Pentateuco.
“Acolheremos todas as observações que nos forem dirigidas e, tanto quanto o permitir o estado dos conhecimentos adquiridos, procuraremos resolver as dúvidas e esclarecer os pontos ainda obscuros. Nossa Revista será, assim, uma tribuna, na qual, entretanto, a discussão jamais deverá afastar-se das normas das mais estritas conveniências. Numa palavra, discutiremos, mas não disputaremos.” — Kardec, RE, jan/1858, “Introdução”.
Dados bibliográficos
- Autor: allan-kardec (1804–1869)
- Título original: Revue Spirite — Journal d’Études Psychologiques
- Periodicidade: mensal
- Período de publicação: janeiro de 1858 — abril de 1869 (interrompida pela morte de Kardec em 31/03/1869; o número de abril/1869 saiu sob direção de seus colaboradores)
- Total de números: 12 volumes anuais (136 fascículos mensais — 11 anos completos × 12 meses + 4 meses de 1869)
- Total de artigos: ~1.315 (ver detalhamento abaixo; volumes 1858–1868 com contagem real, 1869 parcial pela morte de Kardec)
- Editora original: Bureaux de la Revue Spirite, Paris
- Tradução de referência (Brasil): Júlio Abreu Filho (Edicel) e edições FEB
- Texto integral (Kardecpédia): 1858 · 1859 · 1860 · 1861 · 1862 · 1863 · 1864 · 1865 · 1866 · 1867 · 1868 · 1869
- Fonte original online: Kardecpédia — Revista Espírita
- Nível na hierarquia de autoridade: 2 — Kardec complementar (autoridade alta, mas subordinada ao Pentateuco quando há tensão).
Posição na codificação
A Revista não é peça do Pentateuco, mas é contemporânea de toda a codificação. Foi nela que muitas das ideias depois sistematizadas em O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868) apareceram primeiro como artigos avulsos, comentários a casos concretos ou respostas a leitores. Conhecer a Revista é entender:
- A oficina doutrinária — como Kardec testava hipóteses, pesava comunicações, arbitrava controvérsias.
- A pedagogia da codificação — escolhas de tom e exemplo que depois entram nas obras maiores.
- O contexto histórico — reações da imprensa, da igreja, da ciência oficial, do magnetismo, do mesmerismo, dos detratores e dos primeiros grupos espíritas.
- A vida espírita do século XIX — sessões, sociedades, médiuns, comunicações específicas (incluindo as primeiras de espíritos depois célebres no movimento).
Por isso, mesmo sendo nível 2, é fonte indispensável para qualquer estudo sério da codificação. Quando há uma posição de Kardec sobre um tema que não aparece no Pentateuco, é geralmente na Revista que ela está.
Estrutura por ano
Cada volume cobre um ano civil, com fascículos mensais (janeiro a dezembro). Cada fascículo agrupa artigos de extensões variadas: editoriais doutrinários, narrativas de fenômenos, transcrições de comunicações mediúnicas, cartas, dissertações, anedotas, notícias bibliográficas, polêmicas com a imprensa.
| Ano | Artigos | Marcos do ano |
|---|---|---|
| 1858 | 144 | Fundação da revista; “Introdução”; primeiros artigos sobre escala-espirita, evocações, identidade dos Espíritos. Fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (1º de abril de 1858). Detalhe: revista-espirita-1858. |
| 1859 | 91 | Três conceitos doutrinários inéditos (ageneres, pneumatografia, mundos-intermediarios-ou-transitorios); polêmicas com Abade Chesnel em L’Univers (mai/jul) e Oscar Comettant em Le Siècle (dez); recusa programática da categoria “milagre”; primeiras evocações de plinio-o-moco, voltaire, frederico-ii-da-prussia, swedenborg, francois-paris (Saint-Médard), ida-pfeiffer. Anúncio da renúncia de Kardec à direção operacional da SPEE (jul/1859) — alusão aos “trabalhos de dez anos” (Pentateuco). Detalhe: revista-espirita-1859. |
| 1860 | 86 | Ano da 2ª edição definitiva de O Livro dos Espíritos. Estudos pioneiros do desprendimento em vida (Conde de R… C… em jan; Dr. Vignal em fev); “Os pré-adamitas” (mar) — matriz da raça adâmica; Teoria da Incrustação Planetária do Sr. Jobard (abr) rejeitada por Kardec — caso-modelo da prudência crítica com teorias científicas dos Espíritos; doutrina da alma dos animais (Charlet, jul–ago) + “Exame crítico”; polêmica com Louis Figuier (set + dez) — matriz de Gênese caps. XIII–XV (recusa do “milagre”); viagem a Lyon e Banquete de 19/09/1860 (“Paris é o cérebro, Lyon será o coração”; recomendação dos pequenos grupos); Maria d’Agreda e bicorporeidade; trapeiro da Rue des Noyers (“Jeannet”, ago); Désirée Godu e mediunidade-de-cura; Homero e a prova de identidade pelo apelido “Melesígeno” (nov). Detalhe: revista-espirita-1860. |
| 1861 | 172 | Ano de O Livro dos Médiuns (jan/1861). Segunda viagem doutrinária (set–out/1861, Sens/Mâcon/Lyon/Bordeaux/Metz) com banquetes em Lyon (19/09) e Bordeaux (14/10) e Epístola de Erasto aos Espíritas Lioneses. Auto-de-fé de Barcelona (09/10/1861) — queima pública pela Igreja de 300 volumes espíritas, entre eles os cinco do Pentateuco já publicados, O Que é o Espiritismo, fascículos da Revista e a História de Joana d’Arc de Ermance Dufaux; cinzas enviadas a Kardec. Morte do Sr. Jobard (27/10/1861), presidente honorário da SPEE. ⭐ “Organização do Espiritismo” (dez/1861) — artigo programático em 25 itens, matriz da Constituição do Espiritismo (1868): pequenos grupos vs. sociedade única; SPEE como Sociedade Iniciadora, não hierárquica; três tipos de espírita (experimentador, imperfeito, cristão). ⭐ “Ensaio sobre a teoria da alucinação” (jul/1861) — distinção rigorosa alucinação (impressão cerebral retrospectiva) vs. aparição real; matriz de Gênese cap. XIV. “Suicídio de um ateu” (fev/1861, “Por que o nada não existe?!”). Início das “Meditações filosóficas e religiosas” de Lamennais (dez/1861). Detalhe: revista-espirita-1861. |
| 1862 | 171 | Ano da maturação institucional da SPEE (5º ano, 1º/04/1862, sede própria custeada pela Caixa do Espiritismo) e da segunda grande viagem doutrinária (viagem-espirita-em-1862, 693 léguas, 20 cidades, 50 reuniões). ⭐ “Ensaio de interpretação da doutrina dos anjos decaídos” (jan/1862) — matriz de Gênese cap. XI. ⭐ “Controle do ensino espírita” (jan/1862) — manifesto programático do controle universal. Caso Sanson (mai–out/1862) — modelo de discurso fúnebre espírita; estreia substantiva do médium Leymarie. ⭐ Estudo biográfico de Apolônio de Tiana (out/1862) — recusa do milagre como prova de divindade. ⭐ “Estudo sobre os possessos de Morzine” (dez/1862) — caso paradigmático de obsessão coletiva (ver possessos-de-morzine). “Charles Fourier, Louis Jourdain e a reencarnação” (dez/1862). Detalhe: revista-espirita-1862. |
| 1863 | 143 | ⭐ Ciclo de cinco artigos sobre os possessos de Morzine (jan, fev, abr, mai/1863) — refutação dos Drs. Constant e Chiara, tese da “nuvem de Espíritos malfazejos”, metodologia de desobsessão coletiva. ⭐ “Período de luta” (dez/1863) — teoria das seis fases do Espiritismo: curiosidade → filosófico → luta (atual, aberto pelo Auto-de-fé de Barcelona 09/10/1861) → religioso → intermediário → renovação social (“era do século XX”). ⭐ Revisão pública da doutrina sobre possessão (caso Senhorita Júlia/Fredegunda + Sra. A…/Charles Z…, dez/1863): Kardec admite a categoria de “verdadeira possessão” — substituição parcial de Espírito encarnado por errante. ⭐ Ingresso de Flammarion como aliado científico (resenha de La pluralité des mondes habités, jan/1863; segundo artigo, abr/1863). ⭐ Necrologia de Jean Reynaud (m. 28/06/1863) e categorização como precursor do Espiritismo na linhagem Swedenborg → teósofos → Charles Fourier → Reynaud → Espiritismo (ago/1863). ⭐ Pastoral do Bispo de Argel (18/08/1863) — primeiro decreto episcopal francês contra a doutrina, eco institucional do Auto-de-fé de Barcelona. ⭐ Par doutrinário “Elias e João Batista — Refutação” + “São Paulo, precursor do Espiritismo” (dez/1863) sobre ressurreição vs. reencarnação — material para ESE. ⭐ “Da proibição de evocar os mortos” (out/1863) — regra hermenêutica lei mosaica permanente × civil. Cartas ao Padre Marouzeau (jul, set). Subscrição de Rouen (jan–abr); inauguração do retiro de Cempuis (out). Detalhe: revista-espirita-1863. |
| 1864 | 96 | Ano de O Evangelho Segundo o Espiritismo (abr/1864, sob título original L’Imitation de l’Évangile selon le Spiritisme). ⭐ “Autoridade da doutrina espírita; controle universal do ensino dos Espíritos” (abr/1864) — manifesto programático citado pelo próprio Kardec em Gênese cap. I, item 54 como matriz direta. ⭐ “Resumo da lei dos fenômenos espíritas” (abr/1864) — síntese em 23 itens depois publicada como opúsculo autônomo (ver resumo-da-lei-dos-fenomenos-espiritas). ⭐ Polêmica com Ernest Renan (mai + jun/1864) sobre La Vie de Jésus (1863). ⭐ “Suplemento ao capítulo das preces da Imitação do Evangelho” (ago/1864) — Pai Nosso desenvolvido em VII partes que entra nas edições subsequentes do ESE. ⭐ “Discurso de abertura do 7º ano social da SPEE” (1º/04/1864) — “o controle universal, como o sufrágio universal, resolverá no futuro todas as questões litigiosas”. ⭐ Sessão comemorativa do Dia dos Mortos (02/11/1864) — primeira sessão fúnebre coletiva institucional da SPEE, modelo permanente. Casuística de obsessão/cura: “Médiuns curadores” (jan, com Mesmer e Paulo); “Caso Júlia, 2º artigo” (jan); “Cura da jovem obsedada de Marmande” (jun, Sr. Dombre); “Novos detalhes sobre os possessos de Morzine” (ago). Frente anti-eclesiástica: “Algumas refutações” (jun) ao Bispo de Langres + catecismo diocesano. Primeira aparição de camille-flammarion (resenha de Pluralité des mondes habités, out/1864). Primeira menção substantiva ao Brasil (extrato do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, jul/1864). Detalhe: revista-espirita-1864. |
| 1865 | 90 | Ano de [[wiki/obras/ceu-e-inferno|O Céu e o Inferno]] (ago/1865). ⭐ “Da apreensão da morte” (fev) e ⭐ “Onde é o Céu?” (mar) — trechos antecipados de C&I com nota editorial explícita. ⭐⭐⭐ “O que ensina o Espiritismo” (ago) — síntese decenal/manifesto programático em 10 conquistas; matriz para Gênese cap. I. ⭐⭐⭐ Crise dos irmãos Davenport (set–dez) — episódio editorial mais extenso do volume; Kardec articula demarcação metodológica em “Os irmãos Davenport” (out), no manifesto “A Sociedade Espírita de Paris aos espíritas da França e do Estrangeirismo” (carta circular aprovada em 27/10/1865), e na continuação “Da crítica a propósito dos irmãos Davenport” (nov). ⭐⭐⭐ “Alocução na reabertura das sessões da Sociedade de Paris, 6 de outubro de 1865” — discurso testamentário-profético: “em breve o Espiritismo entrará numa nova fase”; “Os literatos serão os vossos mais poderosos auxiliares”; primeira evidência clara da urgência da tarefa restante. ⭐⭐ “Destruição recíproca dos seres vivos” (abr) — texto-matriz de Gênese cap. III. ⭐⭐ “Padre Dégenettes, médium” (ago) — argumento decisivo contra o “demônio único agente”. ⭐⭐ “Imigração de Espíritos superiores para a Terra” (mai, comunicação Mesmer 07/10/1864) — preparação direta de “Os tempos são chegados” (RE out/1866) e da doutrina da geração nova sistematizada em Gênese cap. XVIII. ⭐⭐ “Manifestação do Espírito dos animais” (mai, galga Mika; teoria mineral→vegetal→animal→humanimalidade — balizas, não doutrina fixa). ⭐⭐ “Palestras de além-túmulo - O Doutor Vignal” (mai) — continuação longitudinal única do estudo de RE fev/1860 (desencarnação 25/03/1865, evocação 31/03/1865). ⭐ “O Ramanenjana” (fev) — epidemia de obsessão coletiva em Madagascar (primeira menção da África austral). ⭐ “Sermão sobre o progresso” (abr) — pastor Rewile em Montauban, primeira defesa pública do Espiritismo do alto de um púlpito cristão. ⭐ “Ária e palavras de Henrique III” (jul) — caso Sr. N. G. Bach (bisneto de Sebastian Bach), espineta de 1564, escrita direta nocturna. ⭐ “Os romances espíritas” (dez) — Victor Hugo em fev (discurso ao pé do túmulo) e Théophile Gautier publica Spirite no Moniteur (primeira ficção literária francesa séria sobre Espiritismo) — cumprimento da profecia “literatos como auxiliares”. Segunda menção substantiva ao Brasil (nov). Detalhe: revista-espirita-1865. |
| 1866 | 83 | Primeiro ano após o Pentateuco fechado, primeiro ano de preparação direta de [[wiki/obras/genese|A Gênese]] (1868). Quatro artigos do volume são textos-matriz que entram integralmente em capítulos de Gênese: ⭐⭐⭐ “Da revelação” (abr) → cap. I; ⭐⭐⭐ “Introdução ao estudo dos fluidos espirituais” (mar) → cap. XIV; ⭐⭐⭐ “Deus está em toda parte” + “A vista de Deus” (mai) → cap. II; ⭐⭐⭐ “Os tempos são chegados” (out) + “Instruções dos Espíritos sobre a regeneração da humanidade” (out, médiuns Srs. M e T em sonambulismo extático) → cap. XVIII — lugar canônico da doutrina da geracao-nova. ⭐⭐ Estudo monográfico em dois artigos sobre Maomé e o Islamismo (ago + nov) — único caso na Revista de tratamento sistematizado de uma religião não-cristã. ⭐⭐ “As mulheres têm alma?” (jan) — manifesto programático sobre emancipação feminina pela reencarnação. ⭐⭐ “O trabalhador Thomas Martin e Luís XVIII” (dez) — caso paradigmático de mediunidade vidente histórica documentada em arquivos oficiais (1816, anjo Rafael, audiência com o rei). ⭐⭐ Refutação das duas seitas dissidentes: “Considerações sobre a prece” (jan, anti-prece) + “O Espiritismo sem os Espíritos” + “O Espiritismo independente” (abr). ⭐ Adesão pública do magistrado jaubert (jan + mar) — primeiro magistrado de alto escalão; “O Espiritismo e a magistratura” (mar). ⭐ “Do projeto de caixa geral de socorro” (jul) — manifesto institucional anti-centralização caritativa, com estatística sociológica única dos espíritas em quatro categorias. ⭐ “Tentativa de assassinato do Imperador da Rússia” (jun) — Czar Alexandre II + Joseph Kommissaroff, articulação livre-arbítrio/providência. ⭐ “Estatística da loucura” (jul) — refutação documental da acusação anti-espírita. ⭐ Recepção pacífica dos irmãos Davenport em Bruxelas (set, contraste com Paris 1865). Detalhe: revista-espirita-1866. |
| 1867 | 130 | Ano-redação de [[wiki/obras/genese|A Gênese]] (publicada em janeiro de 1868). ⭐⭐⭐ “Caracteres da revelação espírita” (set, 44 itens numerados) — transposição literal do cap. I de Gênese com pré-publicação para controle universal. ⭐⭐ “Do emprego da palavra ‘milagre’” (mai) — matriz para Gênese cap. XIII; resposta a Philaléthès do La Vérité de Lyon. ⭐⭐ “Atmosfera espiritual” (mai) — matriz para Gênese cap. XIV (fluidos perispiritais coletivos). ⭐⭐ “O homem antes da história” (Flammarion, dez) — matéria de Gênese caps. X–XI; nota editorial explícita de Kardec confirmando que Gênese já estava em redação avançada. ⭐⭐⭐ “Aos nossos correspondentes” (jan) — menção críptica ao sucessor (“aquele que nos deve um dia substituir […] cresce na sombra”). ⭐⭐ “Olhar retrospectivo” (jan) — taxonomia em 15 categorias das opiniões. ⭐⭐ Frente da mediunidade curadora pública: zuavo Jacob (jul + out + nov), Simonet de Bordéus (ago), pedreiro Grezelle de Illiers (jul), caïd Hassan tripolitano (out), cura Gassner historicamente revisitado (nov). ⭐⭐ “Sra. de Clérambert + Médicos-médiuns” (out) — distinção doutrinária médium-curador × médium-médico; modelo histórico em condessa-de-clerambert. ⭐⭐ “Lacordaire e as mesas girantes” (fev) — recuperação de carta de Henri-Dominique Lacordaire (1853) + comunicação pós-morte na SPEE em 18/01/1867. ⭐⭐ “Comunicação de Joseph de Maistre” (abr) — comunicação pós-morte do conde sardo identificando-se com o “espírito profético” de Soirées de Saint-Pétersbourg (1821). ⭐⭐ “Refutação da intervenção do demônio” (fev) — recuperação de Mons. Freyssinous, bispo de Hermópolis. ⭐ Casos americanos: “Lincoln e o seu matador” (mar); “Emancipação da mulher nos Estados Unidos” (jun). ⭐ “Jeanne D’Arc e seus comentadores” (dez) — Joana como modelo eminente de mediunidade auditiva e visual (análise de Wallon e Quicherat por N. de Wailly). Excursão a Bordeaux/Tours/Orléans (jul). Detalhe: revista-espirita-1867. |
| 1868 | 56 | Ano de [[wiki/obras/genese|A Gênese]] (jan/1868) — quinto livro do Pentateuco. ⭐⭐ “Apreciação da obra sobre a gênese” (fev, comunicação de São Luís pelo médium Desliens, 18/12/1867 — “Esta obra chega no momento certo […] Por esse livro, o Espiritismo entra numa nova fase”); ⭐⭐ “A geração espontânea e a gênese” (jul) — defesa científica do cap. X. ⭐⭐⭐ “CONSTITUIÇÃO TRANSITÓRIA DO ESPIRITISMO” (dez) — primeiro projeto institucional formal em 9 capítulos; recusa do chefe individual (“o pior de todos os chefes seria aquele que se desse por eleito de Deus”); proposta de Comitê Central de 12 membros; programa anexo (biblioteca, museu, dispensário, casa de retiro). Último texto programático publicado por Kardec em vida (4 meses antes de sua morte em 31/03/1869). ⭐⭐⭐ “Sessão anual comemorativa dos mortos” (1º/11/1868, publicada em dez) — discurso central que fixa: doutrina da comunhão de pensamentos como matriz fluídica das reuniões coletivas; formulação canônica do estatuto do Espiritismo: “no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto […] Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor as pessoas inevitavelmente ter-se-iam equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral”; enumeração programática do credo espírita em ~14 itens. ⭐⭐ “Comentários sobre os Messias do Espiritismo” (mar) — fixação doutrinária da figura do messias espírita, pluralidade dos messias, identificação inconsciente, século XX como século dos messias. ⭐⭐ “O fim do mundo em 1911” (abr) — refutação metodológica de profecia apocalíptica datada (brochura de Joseph Gustave Leserteur, baseada em Holzauzer 1613); resposta espírita pelo Espírito Jobard: “o fim do mundo está próximo… mas, o fim de que mundo?” — fim regenerativo, não cataclísmico. ⭐⭐ “A ciência da concordância dos números e a fatalidade” (jul) — defesa rigorosa do livre-arbítrio diante de leis estatísticas. ⭐⭐ “O partido espírita” (jul + ago) — manifesto contra a categorização político-partidária após denúncia do conselheiro Genteur ao Senado (jun/1868). ⭐⭐ “Doutrina de Lao-Tseu — Filosofia Chinesa” (out) — primeiro tratamento sistematizado de filosofia chinesa não-cristã (correspondente em Saigon, tradução Pauthier). ⭐⭐ Refutação do Abade Poussin (jan) — peça anti-eclesiástica longa contra a tese do “demônio único agente”. ⭐ “Correspondência inédita de Lavater com a Imperatriz Maria da Rússia” (mar–jun, ciclo em 4 cartas inéditas, 1798). ⭐ “Os Aïssaouá” (jan) — convulsionários árabes na Exposição Universal de 1867. ⭐ “Fotografia do Pensamento” (jun) — antecipação do ensaio de [[wiki/obras/obras-postumas|Obras Póstumas]]. ⭐ Exéquias da Sra. Victor Hugo (out). ⭐ “Profissão de fé materialista” + “Profissão de fé semi-espírita” (out) — demarcação tripartite. Detalhe: revista-espirita-1868. |
| 1869 | 53 (jan–abr) | Volume terminal de Kardec — quatro fascículos editados pelo próprio (jan-abr/1869); o número de abril é o último que ele preparou em vida (a Errata final é assinada “ALLAN KARDEC”). ⭐⭐⭐ “Estatística do Espiritismo” (jan + fev) — primeira estatística sociológica sistemática em 12 categorias (~6-7 milhões de espíritas no mundo). ⭐⭐⭐ “A carne é fraca” (mar) — última grande peça doutrinária pessoal de Kardec; tese da gênese espiritual: “a carne não é fraca senão porque o espírito é fraco”. ⭐⭐⭐ “Aviso muito importante” + “Livraria espírita” (abr) — última prosa institucional; mudança para Avenida e Villa Ségur, 39 (residência onde sofreria o aneurisma) e inauguração da Livraria Espírita (rua de Lille, 7), embrião institucional do programa anexo da Constituição Transitória. ⭐⭐⭐ “Profissão de fé espírita americana” (abr) — comparação programática em 19 pontos com a 5ª Convenção Nacional dos espíritas dos EUA: “a maior barreira que separa os espíritas dos dois continentes é o Oceano”. ⭐⭐ “O despertar do Sr. Louis Desnoyers” (abr, médium Leymarie) — caso paradigmático de estado confusional pós-morte; auxílio do Espírito Jobard. ⭐⭐ Comunicações pós-morte de Alphonse de Lamartine (14/03) e Charles Fourier (09/03) — fechamento da linhagem precursora Swedenborg → Fourier → Reynaud → Hugo → Lamartine. ⭐ “Apóstolos do Espiritismo na Espanha” (mar) — círculo de Andújar (Fénelon como guia espiritual), continuidade pós-Auto-de-fé de Barcelona. Após 31/03/1869: a Revue continua sob direção de Pierre-Gaëtan Leymarie (mai-dez/1869, não disponíveis em raw/); o discurso fúnebre de camille-flammarion no Père Lachaise (02/04/1869) só aparece em mai/1869 e nas [[wiki/obras/obras-postumas|Obras Póstumas]] (1890). Detalhe: revista-espirita-1869. |
Total: ~1.315 artigos (soma da coluna “Artigos” acima). Volumes com contagem real do raw — 1858: 144; 1859: 91; 1860: 86; 1861: 172; 1862: 171; 1863: 143; 1864: 96; 1865: 90; 1866: 83; 1867: 130; 1868: 56. Apenas 1869 é parcial (53 artigos em jan–abr, volume interrompido pela morte de Kardec em 31/03/1869).
Tipos de matéria
A Revista é heterogênea por princípio editorial — Kardec a concebeu como tribuna, não como tratado. Os principais tipos de matéria são:
- Editoriais doutrinários — artigos longos em que Kardec desenvolve um tema (ex.: “Profissão de fé espírita raciocinada”, “As cinco alternativas da Humanidade”, depois recolhidos em obras-postumas).
- Comunicações mediúnicas — transcritas com identificação do médium e da sessão, frequentemente com comentário do codificador. Espíritos recorrentes incluem São Luís, Espírito de Verdade, Erasto, Lacordaire, espíritos sofredores e suicidas, parentes de leitores etc.
- Estudos morais e psicológicos — análises de virtudes e vícios à luz da doutrina (egoísmo, orgulho, caridade, amor ao próximo).
- Casos de obsessão e desobsessão — relatos detalhados, com a metodologia kardequiana de tratamento.
- Necrologia espírita — comentários sobre mortes de espíritas notáveis e comunicações pós-morte.
- Polêmicas e refutações — respostas à imprensa católica, materialista, magnetista; defesa contra acusações de charlatanismo, satanismo, alucinação.
- Bibliografia — resenhas de livros espíritas e correlatos.
- Variedades — anedotas, cartas, notícias de sociedades espíritas no estrangeiro, traduções, curiosidades.
Como citar
Formato canônico na wiki:
(RE, mês/ano, p. NN) # Ex.: (RE, jan/1858, p. 12)
(RE, janeiro/1858, "título") # Para citação por título do artigo
O auto-link de scripts/link_citations.py resolve (RE, mês/ano…) para o primeiro artigo do mês na Kardecpédia (ou para o índice do ano, se o mês não casar). Não há âncora estável por página — a Kardecpédia indexa por artigo, não por paginação do periódico francês.
Temas centrais
- Metodologia espírita — observação, controle universal do ensino dos Espíritos, prudência diante de comunicações.
- Identidade dos Espíritos — critérios de discernimento, exemplos de identificação real e fraudulenta.
- Mediunidade — todas as variedades de médium, escolhos, qualidades morais, formação.
- Obsessão e desobsessão — casuística e tratamento.
- Reencarnação e expiação — exemplos concretos extraídos de comunicações.
- Moral evangélica aplicada — preparação do ESE.
- Polêmica com igrejas, ciência e magnetismo — defesa metodológica e doutrinária do Espiritismo.
- Vida das sociedades espíritas — Paris, Lyon, Bordeaux, Bélgica, Espanha, Brasil.
- Espiritismo e ciência — debates sobre fluidos, magnetismo animal, fotografia espiritual, pré-cognição.
- Vida futura — comunicações de espíritos felizes e sofredores, antecipando o material de C&I.
Conceitos tratados
A amplitude é máxima — praticamente todos os conceitos da wiki encontram material na Revista. Núcleos com tratamento especialmente extenso:
- mediunidade · identidade-dos-espiritos · manifestacoes-espiritas
- escala-espirita · perispirito · fluidos
- obsessao · evocacao
- reencarnacao · provas-e-expiacoes · lei-de-causa-e-efeito
- prece · caridade · egoismo · orgulho
- penas-e-gozos-futuros · vida-futura · perturbacao
- livre-arbitrio · progresso-espiritual
- Inéditos do volume de 1860: maravilhoso-e-sobrenatural · incrustacao-planetaria · alma-dos-animais · bicorporeidade · mediunidade-de-cura
Personalidades citadas
- allan-kardec — fundador, diretor e principal autor.
- jesus — referência moral constante, sobretudo a partir de 1864 (preparação do ESE).
- camille-flammarion — colaborador e autor do discurso fúnebre publicado no fascículo póstumo de abr/1869.
- ermance-dufaux — médium central de 1858 (Joana d’Arc, Luís XI, dissertações morais).
- daniel-dunglas-home — médium americano de efeitos físicos, série de três artigos em 1858.
- joana-darc · luis-xi — Espíritos autores de obras biográficas em 1858.
- mademoiselle-clairon — caso clássico de aparição reanalisado em fev/1858.
- plinio-o-moco — primeira evocação de figura clássica greco-romana (mar/1859).
- voltaire · frederico-ii-da-prussia — diálogo entre os dois antigos amigos arrependidos (ago/1859); confissão extensa de Voltaire em set/1859.
- swedenborg — primeira aparição doutrinária e evocação na qual o Espírito retrata os principais erros de seu sistema (nov/1859).
- francois-paris — diácono jansenista evocado a propósito dos convulsionários de Saint-Médard (out/1859).
- ida-pfeiffer — viajante austríaca evocada a propósito do caso de Java (dez/1859).
- charlet — Nicolas-Toussaint Charlet (1792–1845), caricaturista francês; Espírito autor das oito dissertações sobre os animais (RE jul–ago/1860).
- desiree-godu — médium curadora de Hennebon (Bretanha); três artigos em série na Revista (RE fev/mar/abr/1860).
- dr-morhery — médico que controlou clinicamente as curas de Désirée Godu (152 casos fichados, RE abr/1860).
- maria-dagreda — María de Jesús de Ágreda (1602–1665), freira espanhola; caso histórico paradigmático de bicorporeidade (RE nov/1860).
- homero — primeira evocação espontânea via dois médiuns de Sens; revelação do apelido “Melesígeno” (RE nov/1860).
- louis-figuier — cientista materialista francês, autor de Histoire du merveilleux (1860); refutado por Kardec em três artigos (RE set + dez/1860).
- conde-de-r-c — capitão da marinha imperial, primeiro voluntário para evocação programada de pessoa viva (RE jan/1860).
- jeannet-trapeiro — Espírito perturbador da Rue des Noyers, evocado pela SPEE em 29/06/1860 (RE ago/1860).
- ernest-renan — Joseph Ernest Renan (1823–1892), historiador francês das religiões, ex-seminarista, professor do Collège de France; autor de La Vie de Jésus (1863); adversário materialista refutado por Kardec em dois artigos extensos (RE mai + jun/1864).
- camille-flammarion — primeira aparição na Revista na resenha favorável de La pluralité des mondes habités (RE out/1864), com 22 anos; entrará na SPEE em 1865 e pronunciará o discurso fúnebre de Kardec em 31/03/1869.
Divergências
Nenhuma com o Pentateuco — a Revista é redigida pelo próprio Kardec e funciona como laboratório das obras sistematizadas. Quando uma posição da Revista parece divergir de uma obra do Pentateuco, em geral trata-se de:
- Anterior à fixação no Pentateuco (Kardec mudou de ideia ou refinou a formulação) — a versão tardia prevalece;
- Caso particular comentado, não regra geral — não invalida a regra do Pentateuco;
- Resposta a leitor com nuance contextual que se perde quando lida fora de contexto.
Em estudos de palestra, prefira citar o Pentateuco quando ele cobre o tema; recorra à Revista para casos concretos, exemplos, polêmicas e temas que o Pentateuco não desenvolveu.
Fontes
- KARDEC, Allan. Revue Spirite — Journal d’Études Psychologiques. Paris: Bureaux de la Revue Spirite, 1858–1869. 12 volumes.
- Edição brasileira de referência: KARDEC, Allan. Revista Espírita. Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: Edicel.
- Edição FEB: KARDEC, Allan. Revista Espírita. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
- Disponível online: Kardecpédia — Revista Espírita (12 volumes integrais).
- Edição local: 12 volumes integrais particionados em arquivos mensais sob
raw/kardec/revista-espirita/YYYY/MM-mes.md(136 fascículos no total — 1869 com 4 meses por interrupção da publicação). Pontos de entrada por ano em “Texto integral” acima.