Bem-aventurança dos misericordiosos

Definição

Quinta bem-aventurança do Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que são misericordiosos, porque obterão misericórdia” (S. Mateus, 5:7). Kardec dedica-lhe o capítulo X do ESE. A misericórdia, para Kardec, é “o complemento da brandura” e “consiste no esquecimento e no perdão das ofensas” (ESE, cap. X, item 4). A lógica da bem-aventurança é exata: como a reciprocidade está inscrita na lei moral, só obtém misericórdia quem a pratica.

Ensino de Kardec

Misericórdia e perdão sem limite

“Se perdoardes aos homens as faltas que cometerem contra vós, também vosso Pai celestial vos perdoará os pecados; — mas, se não perdoardes aos homens quando vos tenham ofendido, vosso Pai celestial também não vos perdoará os pecados” (S. Mateus, 6:14–15; ESE, cap. X, item 2). E a Pedro, que pergunta se bastaria perdoar sete vezes: “Não vos digo que perdoeis até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes” (S. Mateus, 18:22; ESE, cap. X, item 3).

Kardec comenta: “Ai daquele que diz: nunca perdoarei. Esse, se não for condenado pelos homens, sê-lo-á por Deus. Com que direito reclamaria ele o perdão de suas próprias faltas, se não perdoa as dos outros?” (ESE, cap. X, item 4).

Duas maneiras de perdoar

Kardec distingue duas posturas (ESE, cap. X, item 4):

  • Perdão verdadeiro — “grande, nobre, verdadeiramente generoso, sem pensamento oculto, que evita, com delicadeza, ferir o amor-próprio e a suscetibilidade do adversário”.
  • Perdão falso — “em que o ofendido impõe ao outro condições humilhantes e lhe faz sentir o peso de um perdão que irrita”; é forma de orgulho travestido.

“Nessas circunstâncias, é impossível uma reconciliação sincera. Não, não há aí generosidade; há apenas uma forma de satisfazer ao orgulho” (ibid.).

O apóstolo Paulo, ditando da espiritualidade, complementa: “há o perdão dos lábios e o perdão do coração. Muitas pessoas dizem, com referência ao seu adversário: ‘Eu lhe perdoo’, mas, interiormente, alegram-se com o mal que lhe advém” (ESE, cap. X, item 15). Só o perdão do coração — que lança véu absoluto sobre o passado — é evangélico.

Reconciliação antes da morte

“Reconciliai-vos o mais depressa possível com o vosso adversário, enquanto estais com ele a caminho, para que ele não vos entregue ao juiz (…). Digo-vos, em verdade, que daí não saireis, enquanto não houverdes pago o último ceitil” (S. Mateus, 5:25–26; ESE, cap. X, item 5). Kardec explica o alcance extra-terreno do mandamento:

“A morte, como sabemos, não nos livra dos nossos inimigos; os Espíritos vingativos perseguem, muitas vezes, com seu ódio, no além-túmulo, aqueles contra os quais guardam rancor (…). Nesse fato reside a causa da maioria dos casos de obsessão, sobretudo dos que apresentam certa gravidade. (…) Quando Jesus recomenda que nos reconciliemos o mais cedo possível com o nosso adversário, não é somente objetivando apaziguar as discórdias no curso da nossa atual existência; é, principalmente, para que elas se não perpetuem nas existências futuras.” (ESE, cap. X, item 6)

O sacrifício mais agradável a Deus

“Deixai a vossa dádiva junto ao altar e ide, antes, reconciliar-vos com o vosso irmão” (S. Mateus, 5:23–24; ESE, cap. X, item 7). Kardec lê aí a essência do sacrifício cristão: não há prece aceita por Deus enquanto houver rancor guardado. “Ele oferece sua alma a Deus e essa alma tem de ser purificada” (ESE, cap. X, item 8).

”Atire a primeira pedra”

Kardec coroa o capítulo com a cena da mulher adúltera (S. João, 8:3–11). “Essa sentença faz da indulgência um dever para nós outros, porque ninguém há que não necessite, para si próprio, de indulgência. Ela nos ensina que não devemos julgar com mais severidade os outros, do que nos julgamos a nós mesmos” (ESE, cap. X, item 13). A misericórdia não suprime o discernimento — “a letra mata e o espírito vivifica” (ibid.) —, mas a autoridade para repreender depende da autoridade moral de quem repreende.

Indulgência como forma da misericórdia

“A indulgência não vê os defeitos de outrem, ou, se os vê, evita falar deles, divulgá-los. Ao contrário, oculta-os (…). Quando criticais, que consequência se há de tirar das vossas palavras? A de que não tereis feito o que reprovais” (José, Espírito protetor, ESE, cap. X, item 16). A bem-aventurança estende-se, pois, à crítica cotidiana: é misericordioso quem recusa o prazer de apontar o erro alheio.

Desdobramentos

Lei de causa e efeito aplicada ao perdão

“Obterão misericórdia” não é promessa arbitrária: é descrição da lei de ação e reação moral. Cada perdão dado é crédito lavrado para si mesmo; cada recusa é hipoteca. A bem-aventurança explicita a reciprocidade que a oração dominical já pedia: “perdoa as nossas dívidas, como perdoamos aos que nos devem” (S. Mateus, 6:12).

Misericórdia como profilaxia de obsessão

A doutrina espírita revela um motivo prático para perdoar: o rancor mantém o Espírito do ofensor — ou do ofendido — preso à órbita da vítima além da morte. Daí a frequência com que obsessões têm raiz em inimizades não saldadas. Perdoar em vida é cortar amarras espirituais antes que se tornem provas cruéis em encarnações futuras.

Complemento necessário da brandura

“A misericórdia é o complemento da brandura, porquanto aquele que não for misericordioso não poderá ser brando e pacífico” (ESE, cap. X, item 4). A brandura (ESE, cap. IX) contém a violência; a misericórdia vai além e apaga a memória da ofensa. Uma sem a outra é incompleta: há quem não bate mas guarda ódio; quem perdoa com a boca e mantém o ressentimento.

Aplicação prática

Aplicar a bem-aventurança é, diante da ofensa, recusar tanto a reação imediata quanto o silêncio rancoroso. Antes de orar, examinar se há alguém com quem precise reconciliar-se. Antes de apontar o erro do irmão, examinar se o mesmo defeito não mora em si. Nas comunidades espíritas, a bem-aventurança aconselha a regra prática de José: “Sede, pois, severos para convosco, indulgentes para com os outros” (ESE, cap. X, item 16). E fechar o dia com a resolução de Simeão: “Nada tenho contra o meu próximo” (ESE, cap. X, item 14).

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Fontes

  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Cap. X (“Bem-aventurados os que são misericordiosos”), itens 1–21.
  • Novo Testamento. S. Mateus 5:7, 23–26; 6:12–15; 7:1–5; 18:15, 21–35; S. João 8:3–11.