Nicolas-Toussaint Charlet
Identificação
- Nome: Nicolas-Toussaint Charlet (1792–1845)
- Origem: Paris, França. Filho de um soldado napoleônico que morreu na Rússia em 1812
- Vida: Pintor, desenhista, gravador e litógrafo. Aluno de Antoine-Jean Gros. Famoso pela representação heroica e popular da epopeia napoleônica nas suas litografias militares (“croquis lithographiques”)
- Obra: mais de 1.100 litografias e centenas de desenhos. Tema dominante: o soldado raso da Grande Armée, o povo francês comum, e a figura do animal na vida cotidiana e militar. Eleito professor da École polytechnique de desenho em 1838
- Morte: 30/12/1845, Paris
Papel
Espírito autor de oito dissertações longas sobre os animais, recebidas em sessões da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas entre maio e julho de 1860 e publicadas em revista-espirita-1860 (jul/1860, “Dos animais”). É a primeira tentativa sistemática, na codificação, de tratar a alma dos animais — sua inteligência, seu senso moral em germe, seu progresso dentro do reino animal, sua relação com o homem.
Charlet aborda o tema em registro literário-narrativo (não acadêmico), coerente com sua identidade terrena: linguagem plástica, exemplos populares, uso recorrente do animal próximo (cão, cavalo, jumento). A escolha do tema também é coerente — Charlet, em vida, havia notabilizado-se pelo retrato sensível dos animais na arte militar e popular francesa.
A função doutrinária é dupla:
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Material-fonte para a doutrina espírita da alma dos animais. Tese central de Charlet: “Tudo o que vive, pensa, logo, não se pode viver sem pensar” (referindo-se à vida animal, não à vegetal); o animal tem instintos morais em germe; sente gratidão e arrependimento; progride dentro de seu reino; em mundos superiores como Júpiter, os animais são “de tal modo superiores que a mais rigorosa ordem lhes é dada pela palavra”.
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Caso-modelo do controle universal aplicado em tempo real. Kardec acompanha as dissertações com o “Exame crítico das dissertações de Charlet sobre animais” (RE, jul/1860) — submetendo o teor das comunicações ao crivo da razão e dos fatos, mesmo quando o teor é elogiável. O princípio doutrinário decisivo é fixado por Kardec, não por Charlet: entre animal e homem há “solução de continuidade”; nenhum homem é encarnação de animal; o animal não passa diretamente para o homem por reencarnação. Ver alma-dos-animais.
Citações relevantes
Sobre o paralelo entre o homem e o animal:
“Houve um tempo em que a metade do gênero humano era considerada no nível do bruto, em que o animal não figurava; um tempo, que é agora o vosso, em que a metade do gênero humano é encarada como inferior e o animal como bruto. […] Do ponto de vista espiritual a coisa é diferente. O que os Espíritos superiores diriam do homem terreno, os homens dizem dos animais.” (RE, jul/1860, “Dos animais”, I)
Sobre a consciência moral do animal:
“Como o homem, o animal tem aquilo a que chamais consciência, e que não é outra coisa senão a sensação da alma quando fez o bem ou o mal? […] Credes que o cão não saiba quando fez o bem ou o mal? Se não o sentisse, não viveria.” (RE, jul/1860, “Dos animais”, IV)
Sobre o progresso e a reabilitação do animal:
“Antes de tudo, Deus é justo e todas as suas criaturas estão sob suas leis, e estas dizem: ‘Todo ser fraco que tiver sofrido será recompensado.’ Sempre comparativamente ao homem, entendo, e ouso acrescentar, para concluir, que por vezes o animal tem mais alma, mais coração que o homem, em muitas circunstâncias.” (RE, jul/1860, “Dos animais”, III)
Sobre o orgulho como traço da queda moral:
“Como se eleva o Espírito? Pela submissão, pela humildade. O que perde o homem é a razão orgulhosa, que o impele a desprezar todo subalterno e invejar todo superior. […] Olhai o mestre de todos vós, o Cristo, […] em vez de vir com audácia e insolência para derrubar o mundo antigo, vem à Terra encarnar-se numa família pobre e nasce entre os animais.” (RE, jul/1860, “Dos animais”, VI)
Sobre a queda moral do animal seguindo a do homem (Caim e Abel):
“Por que o animal se tornou feroz? Magnetismo todo poderoso, invencível, que então tomou todas as criaturas, a sede de sangue, o desejo de carnificina brilhavam em seus olhos, outrora tão suaves, e o animal tornou-se feroz como o homem. Pois o homem, que tinha sido o rei da Terra, não havia dado o exemplo? O animal seguiu o seu exemplo e desde então a morte planou sobre a Terra.” (RE, jul/1860, “Dos animais”, IX)
Limites do ensino — pontos retificados por Kardec
No “Exame crítico” (RE, jul/1860) Kardec retifica três pontos onde a dissertação de Charlet, lida ao pé da letra, sugeriria conclusões que vão além do que a doutrina admite:
- “Tudo o que vive, pensa, logo, não se pode viver sem pensar” — Kardec restringe ao reino animal: a planta vive e não pensa.
- Inversão proposicional — Kardec propõe a forma mais correta: “Vereis que o animal pensa, realmente, desde que vive.”
- Continuidade animal-homem — Kardec firma o princípio fundamental que Charlet não chegou a explicitar: “entre o animal e o homem há uma solução de continuidade. […] Nenhum homem é a encarnação do espírito de um animal” (princípio que entrará em LE q. 597 e Gênese cap. III).
A retificação não desmerece o Espírito comunicante; ao contrário, é exemplo da prática kardequiana de submeter mesmo as comunicações elogiáveis ao controle da razão. Charlet é nível doutrinário 2 enquanto Espírito comunicante na Revista; Kardec em comentário direto é nível 1 (Pentateuco) na 2ª edição definitiva de LE (1860) que assenta o princípio.
Obras associadas
- revista-espirita-1860 — fascículo de julho (“Dos animais”, oito dissertações + “Exame crítico”).
A obra terrena de Charlet (litografias militares e populares) não foi tratada doutrinariamente na codificação. A figura do Espírito permanece ligada às dissertações de 1860.
Páginas relacionadas
- alma-dos-animais — doutrina sistematizada a partir das dissertações de Charlet.
- discernimento-dos-espiritos — modelo do controle universal aplicado a Charlet em tempo real.
- escala-espirita — Charlet pertence aos Espíritos benévolos não-superiores; instruído mas com linguagem ainda popular e por vezes imprecisa.
- reencarnacao — princípio da não-reencarnação animal-homem, fixado por Kardec na correção a Charlet.
- pluralidade-dos-mundos-habitados — referência a Júpiter como mundo onde os animais são superiores.
Fontes
- KARDEC, Allan. Revista Espírita, jul/1860, “Dos animais” (oito dissertações de Charlet) e “Exame crítico (Das dissertações de Charlet sobre animais)“. Edição local: 1860.