Penas eternas
Doutrina segundo a qual a alma condenada sofreria castigos sem fim após a morte. Kardec dedica o mais extenso capítulo da primeira parte de O Céu e o Inferno a demonstrar que essa crença é incompatível com os atributos de Deus e com a lei do progresso.
Ensino de Kardec
Origem
A crença na eternidade das penas teve sua razão de ser enquanto o temor podia servir de freio a homens pouco avançados intelectual e moralmente. Povos primitivos, identificando Deus à sua própria natureza, concebiam-no como um soberano déspota, armado de raio, vingativo e implacável. Para tais homens, penas eternas nada tinham de chocante (C&I, 1a parte, cap. VI, itens 1-3).
Jesus, ao vir, trouxe a ideia de um Deus clemente. Quando ameaçou os culpados com o “fogo eterno”, usou figuras enérgicas para impressionar as massas, do mesmo modo que ameaçou jogá-los na Geena --- um vale nos arredores de Jerusalém onde se lançavam as imundícies da cidade. Tomar essas expressões ao pé da letra seria colocá-lo em contradição consigo mesmo, pois todo o seu ensinamento proclama a brandura do Criador (C&I, 1a parte, cap. VI, itens 5-7).
“Na oração dominical, ele nos ensina a dizer: ‘Senhor, perdoai as nossas ofensas, como nós perdoamos aqueles que nos ofenderam.’ Se o culpado não tivesse nenhum perdão a esperar, seria inútil pedi-lo.” (C&I, 1a parte, cap. VI, item 6)
Refutacao pelos atributos de Deus
O argumento central de Kardec parte dos atributos divinos: Deus e unico, eterno, imutavel, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeicoes. O infinito de uma qualidade exclui a existencia de qualidade contraria que a diminuiria (C&I, 1a parte, cap. VI, item 10).
A partir dessas premissas, Kardec desenvolve uma refutacao ponto a ponto:
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So um ser infinito pode fazer algo infinito. O homem, limitado em tudo, so pode produzir coisas limitadas. Se pudesse ser infinito no mal, se-lo-ia tambem no bem, e seria igual a Deus. Logo, a ofensa a Deus nao pode ser infinita, e o castigo tambem nao (C&I, 1a parte, cap. VI, item 11).
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Incompatibilidade com a misericordia. Se Deus e inexoravel para com o culpado arrependido, nao e misericordioso; se nao e misericordioso, nao e infinitamente bom. Se fez ao homem uma lei do perdao, por que ele mesmo nao perdoaria? O homem que perdoa seus inimigos seria entao melhor que Deus (C&I, 1a parte, cap. VI, item 11).
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Por que so antes da morte? Se o pecador arrependido antes de morrer encontra misericordia, por que nao a encontraria depois da morte? Se a bondade de Deus e circunscrita a um determinado tempo, nao e infinita (C&I, 1a parte, cap. VI, item 12).
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Desproporcao entre falta e castigo. A soberana justica e aquela que tem em conta rigorosamente o bem e o mal, punindo na proporcao mais equitativa. Uma falta temporal punida eternamente, sem esperanca de atenuacao, nao guarda nenhuma proporcao: portanto, nao ha justica (C&I, 1a parte, cap. VI, item 13).
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Presciencia divina. Se Deus sabe, ao criar uma alma, que ela falhara gravemente e sera condenada eternamente, cria voluntariamente um ser destinado a torturas sem fim --- e nao e bom. Se nao sabe, nao e onisciente --- e nao e Deus (C&I, 1a parte, cap. VI, item 14).
Kardec sintetiza com rigor logico:
“Se Deus e perfeito, a condenacao eterna nao existe; se ela existe, Deus nao e perfeito.” (C&I, 1a parte, cap. VI, item 15)
Incompatibilidade com o progresso
O dogma da eternidade absoluta das penas e inconciliavel com o progresso da alma, pois lhe opoe um obstaculo invencivel. Esses dois principios se anulam forcosamente: se um existe, o outro nao pode existir (C&I, 1a parte, cap. VI, item 21).
A lei do progresso e patente --- nao e uma teoria, mas um fato constatado pela experiencia. Se o dogma das penas eternas fosse verdade, Santo Agostinho e Sao Paulo jamais teriam visto o ceu, caso tivessem morrido antes da conversao que os fez progredir (C&I, 1a parte, cap. VI, item 21).
“Se o dogma da eternidade das penas fosse uma verdade, Santo Agostinho, Sao Paulo e muitos outros jamais teriam visto o ceu se tivessem morrido antes do progresso que os levou a conversao.” (C&I, 1a parte, cap. VI, item 21)
Kardec apresenta o caso hipotetico de um jovem de vinte anos, vicioso e negando Deus, que pouco a pouco se corrige e morre santamente em idade avancada. Se um acidente o tivesse feito morrer quarenta anos antes, estaria condenado para sempre. Sua alma pode progredir num tempo dado durante a vida; por que nao poderia progredir depois da morte? (C&I, 1a parte, cap. VI, item 20)
Impossibilidade material
O destino da alma, segundo o dogma, e fixado irremediavelmente apos a morte --- um ponto de parada definitivo oposto ao progresso. Ora, a alma progride ou nao? Se progride, a eternidade das penas e impossivel (C&I, 1a parte, cap. VI, item 18).
Se se admite que Deus cria almas em todos os graus de avanco segundo os tempos e os lugares, ele favorece umas e destina outras a inferioridade perpetua, o que e incompativel com a justica (C&I, 1a parte, cap. VI, item 18).
A doutrina esta ultrapassada
A crenca nas penas eternas permaneceu salutar ate que os homens estivessem aptos a compreender o poder moral. Tal como criancas contidas pela ameaca de seres quimericos, chega um momento em que a razao mostra a verdade (C&I, 1a parte, cap. VI, item 22).
“O dogma da eternidade das penas fez mais materialistas e ateus do que todos os filosofos.” (C&I, 1a parte, cap. VI, item 23)
A nova revelacao, dando ideias mais sas da vida futura e provando que se pode obter a salvacao por suas proprias obras, vem substituir o medo pela compreensao racional da justica divina (C&I, 1a parte, cap. VI, item 24).
Ezequiel contra as penas eternas
Kardec encerra o capitulo com a longa citacao de Ezequiel (cap. XVIII), que constitui a negacao mais explicita nao so das penas irremissiveis, como da responsabilidade hereditaria pelo pecado original:
“A alma que pecou morrera ela mesma: o filho nao carregara a iniquidade do pai, e o pai nao carregara a iniquidade do filho.” (Ezequiel, XVIII, citado em C&I, 1a parte, cap. VI, item 25)
“Se o impio fizer penitencia de todos os pecados que cometera; se mantiver todos os meus preceitos, e se agir segundo a equidade e a justica, ele vivera certamente e nao morrera. Nao me lembrarei mais de todas as iniquidades que ele cometera.” (Ezequiel, XVIII, citado em C&I, 1a parte, cap. VI, item 25)
“Quero eu a morte do impio? disse o Senhor Deus; e nao quero antes que ele se converta, e que se retire de seu mau caminho, e que viva?” (Ezequiel, XVIII, citado em C&I, 1a parte, cap. VI, item 25)
Aplicacao pratica
O estudo deste capitulo e fundamental para quem prepara palestras sobre justica divina, pois oferece uma estrutura argumentativa completa e logicamente encadeada para demonstrar que o Deus de amor ensinado por Jesus e incompativel com o castigo eterno. Os argumentos partem dos proprios atributos divinos aceitos pela teologia crista, o que torna a refutacao particularmente eficaz em dialogos com pessoas de formacao religiosa tradicional.
Para o estudante kardecista, este tema reafirma que o Espiritismo nao suprime o castigo --- as penas existem e sao proporcionais --- mas rejeita sua eternidade, pois a lei do progresso garante que todo Espirito pode e deve se aperfeicoar. A passagem de Ezequiel serve como ponte ecumenica, demonstrando que a propria Biblia sustenta a posicao espirita.
Paginas relacionadas
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Fontes
- Kardec, Allan. O Ceu e o Inferno. 1a parte, cap. VI. FEB.
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. V. FEB.
- Ezequiel, caps. XVIII e XXXIII.