O que devemos pedir na prece?
Pergunta
Quando oramos diante de uma decisão difícil ou de uma prova pesada, o que podemos pedir a Deus com a confiança de que seremos atendidos? É legítimo pedir o desfecho material que queremos — o emprego, a cura, o casamento, a aprovação? Ou há um pedido específico que a Doutrina indica como o pedido bem feito?
Citação literal
A resposta canônica está no item 22 do cap. XXVII do Evangelho Segundo o Espiritismo, instrução transmitida pelo Espírito V. Monod em Bordéus, 1862:
“A vossa prece deve conter o pedido das graças de que necessitais, mas de que necessitais em realidade. Inútil, portanto, pedir ao Senhor que vos abrevie as provas, que vos dê alegrias e riquezas. Rogai-lhe que vos conceda os bens mais preciosos da paciência, da resignação e da fé. Não digais, como o fazem muitos: ‘Não vale a pena orar, porquanto Deus não me atende.’ Que é o que, na maioria dos casos, pedis a Deus? Já vos tendes lembrado de pedir-lhe a vossa melhoria moral? Oh! não; bem poucas vezes o tendes feito. O que preferentemente vos lembrais de pedir é o bom êxito para os vossos empreendimentos terrenos e haveis com frequência exclamado: ‘Deus não se ocupa conosco; se se ocupasse, não se verificariam tantas injustiças.’ Insensatos! Ingratos! Se descêsseis ao fundo da vossa consciência, quase sempre depararíeis, em vós mesmos, com o ponto de partida dos males de que vos queixais. Pedi, pois, antes de tudo, que vos possais melhorar e vereis que torrente de graças e de consolações se derramará sobre vós.” (V. Monod, Bordéus, 1862 — ESE, cap. XXVII, item 22)
Comentário de Kardec
V. Monod assina esta instrução, mas Kardec a reproduz na seção “Instruções dos Espíritos” do cap. XXVII, sob a rubrica “Maneira de orar” — sinal de que a passa pelo crivo do controle universal e a integra como ensino canônico. A instrução converge com o que o próprio Kardec já fixara nos itens 6-11 do mesmo capítulo: a prece não muda os decretos de Deus (item 6); o que se obtém são “a coragem, a paciência e a resignação” e “os meios de se tirar por si mesmo das dificuldades, mediante ideias que fará lhe sugiram os bons Espíritos” (item 7); e a alegoria do viajante perdido no deserto (item 8) ilustra a economia espiritual do socorro: ele vem como inspiração, não como milagre, deixando ao homem o mérito da ação.
V. Monod acrescenta a parte propriamente pastoral: o diagnóstico do pedido mal formulado. A maior parte das pessoas, diz ele, pede “o bom êxito para os seus empreendimentos terrenos” — e depois acusa a Providência de não atender. Mas o pedido era inadequado desde o início. O pedido bem feito tem dois andares: (1) paciência, resignação, fé — para sustentar a prova enquanto ela durar; (2) melhoria moral própria — porque é da melhoria interior que decorrem, “por acréscimo”, as consolações e graças que mudam a experiência da vida.
Análise
A formulação espelha com precisão o ensino de Tiago no Novo Testamento:
“Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites.” (Tg 4:3)
E também:
“E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada.” (Tg 1:5)
Tiago e V. Monod descrevem o mesmo fato em vocabulários diferentes. Há um pedido que se obtém com confiança — o pedido por sabedoria, discernimento, melhoria moral. E há um pedido que sistematicamente não se obtém — o pedido pelo desfecho material que satisfaça o desejo egoísta. Não porque Deus seja avaro, mas porque Deus não administra a vida humana como concessão de privilégios; administra-a como escola de progresso. Conceder a riqueza ou abreviar a prova quando o caráter ainda precisa formar-se seria roubar do educando o exercício que o educa.
A formulação cristã matriz está em Mt 6:33: “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será acrescentado.” A prece bem feita organiza essa prioridade: pede primeiro o reino (a melhoria moral, a paz interior, a sabedoria); o “tudo o mais” — quando vier — vem por acréscimo, e quando não vier, é porque a falta dele faz parte da formação.
Três precisões pastorais:
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Não é proibido pedir o desfecho material — é só inútil. A prece honesta pode (e talvez deva) verbalizar o desejo concreto, porque entregá-lo a Deus já é parte do trabalho interior. O que V. Monod ensina é que o pedido principal não pode ser esse; precisa ser o pedido pela melhoria moral. O resto entra como contexto, não como petição central.
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“Resignação” aqui não é passividade. É o que resignação sempre foi na Doutrina: aceitação ativa do que não está ao alcance da vontade própria, combinada com esforço pleno no que está. O homem que pede paciência e resignação não está pedindo licença para cruzar os braços — está pedindo a têmpera para agir e seguir agindo enquanto a prova durar.
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A “torrente de graças e consolações” é experiencial, não promessa de prosperidade. V. Monod descreve o que de fato acontece com quem se entrega à melhoria moral: a paz interior se assenta, as inspirações elevadas chegam mais límpidas, o sentido das provas se revela aos poucos, a relação com os outros melhora, e o sofrimento — embora não desapareça — perde a parte que vinha da resistência egoísta a ele. É a “paz que excede todo o entendimento” de Filipenses 4:7. Quem orou bem ao longo de uma prova pesada reconhece a descrição.
Conceitos relacionados
- prece — natureza, qualidades e eficácia da prece (capítulo XXVII inteiro).
- lei-de-adoracao — moldura kardequiana da prece (LE q. 658-673).
- lei-de-liberdade — livre-arbítrio “em toda a sua plenitude”: Deus não decide pelo homem.
- resignacao — aceitação ativa, não passividade.
- decisoes-de-vida-e-providencia — aplicação do método a decisões reais.
Fontes
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Cap. XXVII (“Pedi e obtereis”), itens 1-22, com ênfase no item 22 (“Maneira de orar”, instrução de V. Monod, Bordéus, 1862).
- Bíblia Sagrada (Almeida Corrigida e Fiel). Tiago 1:5; 4:3. S. Mateus 6:33. Filipenses 4:7.