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Jesus e Atualidade
Dados bibliográficos
- Autor espiritual: Joanna de Ângelis
- Médium: Divaldo Pereira Franco
- Tipo: Livro psicografado
- Local de psicografia: Salvador-BA
- Data: prefácio assinado em 20 de fevereiro de 1989
- Editora: LEAL — Livraria Espírita Alvorada Editora
- Estrutura: prefácio + 20 capítulos breves no padrão “Jesus e X”
- Nível: 3 — Complementar aprovado
- Texto integral: jesus-e-atualidade
Tese central
A atualidade da figura de Jesus reside em ele ter sido psicoterapeuta antes da psicologia. Joanna anuncia a tese no prefácio e nomeia explicitamente os autores da psicologia profunda do séc. XX cujas conclusões, segundo ela, Jesus já alcançava intuitivamente desde há dois mil anos:
“Por processos mais demorados, a psicologia profunda chega, no momento, às mesmas conclusões que Ele lograva com facilidade desde há dois mil anos. Roberto Assagioli, por exemplo, com sua psicossíntese, penetrou nas causas das enfermidades, apoiando-se na realidade ‘transpessoal’ do ser […]. Abraão Maslow descobriu a ‘psicologia do ser’ […]. Groff [Stanislav Grof], relacionando a mente com o cérebro, vai mais além e defronta o ser imortal como agente de inúmeras psicopatologias. Melanie Klein e Carl Johnson, de origem freudiana, propõem para os esquizofrênicos terapêuticas fundamentadas no amor, na caridade, no perdão cristão como as de maior eficácia, embora se reconheçam arreligiosos.”
A obra propõe vinte situações contemporâneas, cada uma confrontada com a “terapia de Jesus” — método cujos resultados, declara Joanna, “obviamente, são a saúde, a paz e a felicidade como experiências ainda não fruídas individual e coletivamente pelos homens”.
Cronologicamente, Jesus e Atualidade (1989) precede [[wiki/obras/momentos-de-felicidade|Momentos de Felicidade]] (1990) e antecipa em quatro anos o tratamento sistemático que Joanna daria à mesma tese em [[wiki/obras/o-ser-consciente|O Ser Consciente]] (1993). É, neste arco, o livro-manifesto do método: pastoralmente acessível, mas já com diálogo explícito com a psicologia transpessoal e a psicossíntese.
Estrutura
Prefácio + 20 capítulos breves (4-6 páginas cada). Cada capítulo segue um padrão tríplice:
- Diagnóstico psicossocial contemporâneo (consumismo, depressão, modismos, paranoia, insegurança).
- Episódio evangélico ou parábola correspondente — Jesus como referência.
- Exortação direta ao leitor, em segunda pessoa do singular (“tu/te/contigo”).
Resumo por eixos temáticos
Os 20 capítulos podem ser agrupados em seis eixos:
1. Atualidade da terapia de Jesus (prefácio + caps. 3, 4, 13)
- 3 — Jesus e Humanidade: “Jesus-Homem é a lição de vida que haurimos no Evangelho como convite ao homem que se deve deificar.” Não criou doutrina ou sistema; tornou a vida modelo. Releitura das parábolas (grão de mostarda, redes de pesca, semente em diferentes solos) como gnose sobre sentimentos humanos.
- 4 — Jesus e Amor: galeria do amor encarnado — samaritano, mulher equivocada, siro-fenícia, cobrador de impostos, adúltera, viúva, mãe enlutada. “Compadecia-se de todos; no entanto, mantinha a energia que educa, edifica, disciplina e salva.”
- 13 — Jesus e Revolução: Jesus como psicólogo profundo — “penetrava os arcanos mais profundos do indivíduo, desconhecidos para si mesmo”. Não recorria a sonhos, fórmulas, transferências de culpa para familiares; método baseado em amor, segurança e despertar de potencialidades latentes. “Revolucionário por excelência, estabelecia a luta de dentro para fora: a morte do homem velho e o nascimento do homem novo.”
2. Reencarnação como espinha dorsal terapêutica (caps. 2, 15)
- 2 — Jesus e Reencarnação: tese forte. “Não fosse Jesus reencarnacionista e toda a Sua mensagem seria fragmentária, sem suporte de segurança, por faltar-lhe a justiça na sua mais alta expressão […]. O amor por Ele ensinado, se não tivesse como apoio a bênção do renascimento corporal ensejando recomeço e reparação, teria um caráter de transitória preferência emocional, com a seleção dos eleitos e felizes em detrimento dos antipáticos e desditosos.” Ancoragens: Nicodemos (“nascer de novo”), Elias-João Batista, lei de causa e efeito.
- 15 — Jesus e Tormentos: lei de causa e efeito como pano de fundo psicoterapêutico. “Atormentaste com impiedade e agora sofres sem conforto. Afligiste sem misericórdia e ora padeces sem afeição.” Antídoto = “amor-ação” que substitui a “dor-renovação”. Episódio: a mulher que ungiu os pés de Jesus com lágrimas — “Ela muito amou, e, por isso, os seus pecados lhe serão perdoados.”
3. Querer e crer — dupla condição da cura (cap. 18)
- 18 — Jesus e Sofrimentos: leitura sistemática do episódio do paralítico descido pelo telhado (Mc 2,1-12). Jesus pergunta sempre aos enfermos: “querem ser curados?” e “creem que eu posso?“. Joanna extrai a doutrina: querer é decisão de abandonar a acomodação parasitária, o medo, a autoflagelação; crer é decisão de maturidade emocional, distinta da crença automática herdada. Quando os dois se associam, “a paisagem mental irisa-se de luz e os componentes da infelicidade se diluem sob os raios poderosos da vontade bem dirigida”.
4. Honra, decisão, responsabilidade (caps. 6, 8, 11, 12)
- 6 — Jesus e Honra: episódio de Mc 3,31-35 (“Quem é minha mãe e meus irmãos?”). “Honra é a coragem de eleger o melhor.” Diálogo direto com a vocação espírita — romper laços conformistas para servir.
- 8 — Jesus e Dever: parábola dos dois filhos (Mt 21,28). “A ação deve predominar porque é resultante do dever.” Anti-quietismo radical: “diante dEle, estagnação é morte e esta é crime cometido contra o ‘reino de Deus’ que está dentro do próprio homem”.
- 11 — Jesus e Decisão: o jovem que pediu para sepultar o pai antes de seguir Jesus (Lc 9,59-62). Joanna oferece três hipóteses interpretativas para a recusa: (a) interesse na herança disposta no testamento; (b) gozo da juventude que não queria renunciar; (c) medo do compromisso. Conclusão: “Ele foi sepultar o progenitor e não voltou. Perdeu a oportunidade. Muitos ainda agem assim.”
- 12 — Jesus e Responsabilidade: a fuga inconsciente da responsabilidade (transferência para o outro, complexo de culpa, depressão como evasão infantil). Pastoreio de almas pela responsabilização: à adúltera, aos hansenianos, aos obsediados — sempre a advertência “vai e não voltes a errar, para que não te aconteça nada pior”.
5. Inimigos internos e catarse (cap. 20, fechamento da obra)
- 20 — Jesus e Inimigos: inversão — os inimigos cruéis estão no íntimo (orgulho, egoísmo, acomodação social). Pedro chorando após a tríplice negação como “oportuna catarse liberativa do arrependimento que o poderia neurotizar, levá-lo, como aconteceu a Judas, ao suicídio infame”. Crítica direta ao consumismo e modismos como produtores de “complexos coletivos”.
6. Repouso interior vs. férias-modismo (cap. 16)
- 16 — Jesus e Repouso: capítulo notavelmente atual — diagnóstico cortante das viagens-de-status, dos hotéis abarrotados, da propaganda enganosa, do trabalho exaustivo para “pagar depois com juros escorchantes”. “Pouco repouso e muito incômodo.” Repouso real = “entrai no quarto, fechai a porta” (Mt 6,6) — meditação, oração, leitura, convivência com pessoas joviais, escuta de melodias de profundo conteúdo emocional. “O quarto é o mundo íntimo e a porta é o acesso ao exterior.”
Capítulos não enumerados nos eixos acima
- 1 — Jesus e Desafios: o progresso do Espírito como série de desafios à resistência; “lei de entropia” como paralelo cósmico do esforço moral.
- 5 — Jesus e Tolerância: psicologia do julgamento como projeção da própria sombra; “tem compaixão de quem cai. A consciência dele será o seu juiz.”
- 7 — Jesus e Justiça: tratamento equânime — Nicodemos, Zaqueu, Lázaro, ladrão na cruz, fariseus, saduceus, todos sob o mesmo regime; resposta a Pilatos sobre o “verdadeiro poder”.
- 9 — Jesus e Alegria: combate à tristeza como morbo; Getsêmani como única vez em que Jesus “deixou-se vestir de tristeza” — e por piedade dos discípulos invigilantes. Diagnóstico kardequiano: tristeza pode ter origem em (a) reminiscências espirituais ou (b) obsessão.
- 10 — Jesus e Coragem: contra o crime disfarçado de legalidade, a arrogância mascarada de humildade, a hipocrisia disfarçada de honestidade. “Coragem é conquista que difere muito da temeridade.”
- 14 — Jesus e Posses: o jovem rico (Mt 19,16-22) — “o moço era rico e gozador, mas não era feliz, pois que lhe faltava algo: a solidariedade”. Doutrina da mordomia: “sabe que é mordomo transitório e não dono permanente”.
- 17 — Jesus e Insegurança: o “sermão profético” (Mc 13). “Aquele que perseverar até o fim, será salvo” — salvação como estado de consciência tranquila pelo autodescobrimento. Não há receita salvacionista; há amadurecimento por esforço constante.
- 19 — Jesus e Ingratidão: episódio dos dez leprosos (Lc 17,11-19). Os nove ingratos “recuperados por fora, sem liberação da doença interna”. No Calvário, “não se encontrava presente nenhum dos que foram beneficiados pelas Suas mãos”. Conselho prático: “prossegue, ofertando luz, sem te inquietares com a teimosia da treva”.
Temas centrais
- Jesus como psicoterapeuta da humanidade — eixo unificador da obra; ver jesus-psicoterapeuta.
- Reencarnação como base ontológica de toda terapia moral — sem ela, o amor pregado por Jesus seria “transitória preferência emocional”.
- Querer + crer como dupla condição da cura — antídoto à fuga depressiva e à fé automática.
- Honra, decisão e responsabilidade — vocação que rompe laços conformistas.
- Inimigos internos — terapêutica do auto-reconhecimento, em oposição à projeção sobre o outro.
- Diálogo com a psicologia profunda — Maslow, Assagioli, Grof, Klein como confirmação tardia da intuição cristã.
Conceitos tratados
- jesus-psicoterapeuta — eixo absoluto da obra.
- reencarnacao — base terapêutica (caps. 2, 15).
- psicologia-transpessoal — diálogo explícito no prefácio.
- autoconhecimento — “entra em ti mesmo e ausculta a consciência” (cap. 6).
- depressao — anatomia da tristeza (cap. 9) e fuga depressiva (caps. 12, 18).
- obsessao — tristeza por obsessão (cap. 9); inimigos internos (cap. 20).
- dor — dor-renovação como pedagogia (cap. 15).
Personalidades citadas
- joanna-de-angelis — autora espiritual.
- divaldo-franco — médium psicógrafo.
- jesus — referência absoluta da obra inteira.
- pedro-apostolo — negação e catarse (cap. 20).
Personalidades históricas mencionadas (sem página própria na wiki)
- Psicólogos da profundidade: Roberto Assagioli (psicossíntese), Abraham Maslow (psicologia do ser), Stanislav Grof (mente-cérebro/psicologia transpessoal), Melanie Klein, Carl Johnson — todos no prefácio.
- Personagens evangélicos: Nicodemos (cap. 2), o samaritano (caps. 4, 10), Pilatos (cap. 7), o jovem rico (cap. 14), o paralítico do telhado (cap. 18), os dez leprosos (cap. 19), Judas (cap. 20).
Divergências
Nenhuma divergência estrutural identificada com o Pentateuco. A obra:
- Reafirma a reencarnação alinhada com ESE cap. IV (releitura kardequiana de Jo 3,3 — “Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo”).
- Atribui os tormentos à lei de causa-e-efeito, em harmonia com LE q. 132ss.
- Lê Mt 19,16-22 (jovem rico) em harmonia com ESE cap. XVI (Não se pode servir a Deus e a Mamon).
- Apresenta Jesus como pacificador, não como pacifista ingênuo (caps. 5, 7, 13) — bate com Kardec.
- Atribui a tristeza obsessiva a contato hipnótico com Espíritos malévolos por sintonia (cap. 9), em consonância com LM, 2ª parte, cap. XXIII (obsessão).
A obra opera inteiramente no nível 3 da hierarquia da wiki sem tensionar o nível 1.
Fontes
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Jesus e Atualidade. Salvador: LEAL — Livraria Espírita Alvorada Editora, 1989.
- Edição: jesus-e-atualidade.
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. IV (Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo), cap. XVI (Não se pode servir a Deus e a Mamon), cap. XIX (A fé transporta montanhas), cap. XXVIII (Coleção de preces espíritas). Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, q. 132ss (lei de causa e efeito), q. 919 (conhece-te a ti mesmo). Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXIII (obsessão). Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Bíblia. Mateus 6,6; 19,16-22; 21,28-32; 26,75. Marcos 2,1-12; 3,31-35; 13. Lucas 9,59-62; 17,11-19. João 3,3.