Irmãos Ira & William Davenport
Identificação
Ira Erastus Davenport (n. 17/09/1839) e William Henry Davenport (n. 01/02/1841), médiuns americanos de efeitos físicos nascidos em Buffalo (Nova York). Notabilizaram-se mundialmente entre 1855 e 1877 pela exibição pública de fenômenos mediúnicos com o “spirit cabinet” (armário onde os médiuns eram amarrados com cordas, e do qual emergiam — durante sessões com luz reduzida — sons de violões, pandeiros, cordas, campainhas, e por vezes mãos luminosas). Após sessões públicas, os médiuns eram encontrados ainda amarrados, e por vezes com farinha intacta nas mãos, supostamente provando que não haviam manipulado os instrumentos pessoalmente.
Suas turnês europeias ocorreram entre 1864 e 1866: Inglaterra (set/1864 — Liverpool e Londres, recepção hostil), França (set/1865 — Paris, sessão na sala Hertz interrompida em tumulto), Bélgica (jul–set/1866 — Bruxelas, sessões pacíficas).
Papel — pivô da demarcação metodológica de Kardec
Os irmãos Davenport ocupam lugar editorial significativo em três volumes consecutivos da Revista Espírita — RE 1865 (set, out, nov), RE 1866 (jan menção, jul, set, com cobertura extensa em set), RE 1867 (referências residuais) — não pelo valor doutrinário das suas sessões, mas pela crise editorial e institucional que provocaram, e que serviu a Kardec como ocasião para fixar princípios metodológicos absolutos sobre mediunidade, charlatanismo, fenomenismo e exploração comercial dos dons.
Cronologia da crise editorial
Verão de 1865 — Paris. Irmãos Davenport hospedam-se no castelo de Gennevilliers e dão sessões privadas. Em 12/09/1865, sessão pública na sala Hertz termina em tumulto: espectador invade o estrado e quebra o armário, gritando “Eis o truque!“. A imprensa francesa equipara Espiritismo a charlatanismo. Kardec articula resposta editorial em três peças (out, nov + dois artigos) — análise completa em revista-espirita-1865.
Janeiro de 1866 — eco residual. Em RE jan/1866, na alocução nas exéquias do Sr. Didier (livreiro-editor das obras de Kardec), há referência irônica de outro adversário a “as charlatanices dos Irmãos Davenport” — sinal de que o caso ainda repercutia.
Julho–setembro de 1866 — Bruxelas. Irmãos Davenport passam pela Bélgica. Sem incidentes comparáveis aos de Paris. Sessões no Círculo Artístico e Literário de Bruxelas atraem público culto (incluindo o ministro Rogier dos Negócios Estrangeiros). O cronista Sr. Bertram (pseudônimo de Eugène Landois) publica análise extensa no Office de Publicité (8 e 22/07/1866), recebida favoravelmente. Kardec transcreve quase integralmente no número de RE set/1866 (“Os irmãos Davenport em Bruxelas” + “Crônica de Bruxelas”).
Princípios metodológicos absolutos fixados por Kardec
A partir do caso Davenport, Kardec cristaliza três princípios absolutos que estruturam definitivamente a doutrina espírita sobre mediunidade pública:
1. Princípio absoluto sobre a impossibilidade de garantia. “É princípio ABSOLUTO que um médium jamais está seguro de receber um efeito determinado qualquer, porque isso não depende dele. […] Para prometer a produção de um fenômeno com hora marcada, é preciso ter à disposição meios materiais que não vêm dos Espíritos.” (RE out/1865). É o critério que o caso Davenport fere frontalmente — sessões a hora marcada, em troca de bilhete pago.
2. O médium sério não compete com prestidigitadores. “Os Espíritos não são fazedores de peripécias e jamais um médium sério entrará em luta com alguém e, ainda menos, com um prestidigitador.” (RE out/1865).
3. O Espiritismo não está encarnado em ninguém. “O Espiritismo não está encarnado em ninguém; está na Natureza, e não cabe a ninguém deter-lhe a marcha […]. Seu fracasso não é um revés para o Espiritismo, mas para os exploradores do Espiritismo.” (RE out/1865). Aplicação direta: nem mesmo Kardec é o “papa” do movimento; com mais forte razão os Davenport não representam a doutrina.
Função paradoxal — antagonismo como propaganda
Kardec é explícito sobre o paradoxo do antagonismo: o tumulto contra os Davenport e o ataque generalizado da imprensa forçaram o público a discutir o Espiritismo, inclusive entre quem nele não acreditava. Em RE set/1866, comentando a crônica de Bertram: “Vedes que vós mesmo, inadvertidamente, fostes levado a semear a ideia entre vossos numerosos leitores, o que não teríeis feito sem esse famoso armário.”
Esta é a lei sociológica que Kardec extrai: o ataque institucional ao Espiritismo, no longo prazo, aumenta a sua difusão, porque obriga a mídia hostil a mencioná-lo. O caso Davenport é o primeiro teste em escala continental dessa dinâmica.
Função histórica como filtro
A crise opera como filtro doutrinário: separa espíritas sinceros dos “adeptos de nome”, força demarcação contra fenomenismo de palco, e prepara a política editorial pós-1865 que se cristalizará na Constituição do Espiritismo (1868). É também a primeira ocasião em que Kardec articula publicamente que o Espiritismo não é uma seita filiada a indivíduos, mas uma filosofia universal.
Avaliação espírita dos irmãos Davenport
Kardec não condena os Davenport pessoalmente, e tampouco confirma que sejam médiuns autênticos ou prestidigitadores. Adota posição agnóstica metodológica:
“Se são charlatães, devemos ser gratos a todos os que ajudam a desmascará-los. […] Se são médiuns reais, eles fazem mau uso de uma faculdade real, expondo-a à exploração comercial — atitude que o Espiritismo desaprova.” (síntese editorial de RE out/1865 e set/1866).
A questão real, para Kardec, não é a autenticidade individual dos Davenport, mas o dano editorial colateral de associar o Espiritismo a um espetáculo comercial pago. “Os Espíritos podem produzir efeitos físicos, isto está demonstrado. Mas não cabe ao Espiritismo cauçionar quem quer que faça desses efeitos um meio de subsistência.”
Carreira posterior
Após o ciclo europeu de 1864–1866, os Davenport continuaram turnês na Austrália e nos Estados Unidos até 1877, quando William morreu em Sydney (01/07/1877). Ira viveu até 1911 (08/07/1911), sobrevivendo cinco décadas após a morte do irmão e dando entrevistas tardias ao mágico Harry Houdini que pretendiam confirmar a natureza estritamente prestidigitadora dos seus números — testemunho que historiadores do Espiritismo questionam pela proximidade entre Houdini e o irmão sobrevivente.
Páginas relacionadas
- mediunidade — discussão geral, em particular mediunidade de efeitos físicos vs. mediunidade moralizadora/comunicação inteligente.
- discernimento-dos-espiritos — caso paradigmático para o critério do controle universal e da demarcação contra fenomenismo de palco.
- revista-espirita-1865 — cobertura primária da crise (out + nov 1865 + carta circular SPEE 27/10/1865).
- revista-espirita-1866 — cobertura da fase Bruxelas e refletida.
- allan-kardec — análise editorial.
Fontes
- KARDEC, Allan. “Os irmãos Davenport”. Revista Espírita, ano 1865, outubro. Disponível em 10-outubro.
- KARDEC, Allan. “A Sociedade Espírita de Paris aos espíritas da França e do Estrangeirismo” (carta circular aprovada em 27/10/1865). Revista Espírita, ano 1865, novembro. Disponível em 11-novembro.
- KARDEC, Allan. “Da crítica a propósito dos irmãos Davenport (2º artigo)“. Revista Espírita, ano 1865, novembro. Disponível em 11-novembro.
- KARDEC, Allan. “Os irmãos Davenport em Bruxelas” + “Crônica de Bruxelas” + “O Espiritismo apenas pede que seja conhecido”. Revista Espírita, ano 1866, setembro. Disponível em 09-setembro.
- BERTRAM (Eugène LANDOIS). “Crônica de Bruxelas”. Office de Publicité, Bruxelas, 8 e 22 de julho de 1866 (transcrita em RE set/1866).
- Hermès. Des forces naturelles inconnues. Paris: Didier, 1865 (defesa dos Davenport do ponto de vista científico, citada por H. Vanderyst em carta a Bertram).